Quase Sem Querer

8 Capítulo 8 - A primeira vez ninguém esquece


-Ainda tá aqui? – o garoto surgiu na cozinha, com uma garotinha nos braços, chacoalhando-a compulsivamente.

Como assim ele estava me vendo? E aquela capa de invisibilidade que eu comprei no mercado livre igualzinha ao do Harry Potter não serve para nada então?

-Estou acumulando coragem pra deixar o Dougie lá fora – passei as mãos pela cabeça do cachorro. – Ninguém merece ficar lá fora, no frio e sozinho.

Diego soltou uma risada fraca. Estava vasculhando todos os armários da cozinha, procurando alguma coisa.

-O que você quer?

-Estou procurando o liquidificador. – Eu ri alto e ele me encarou confuso.

-O que você quiser fazer, com certeza, terá que fazer sem ele.

-Droga – xingou baixinho. Ele acabava de derrubar o leite que pegava com uma única mão na geladeira, em metade de seu corpo. E que corpo. Fechei a boca rapidamente quando seus olhos voltaram-se para mim, sorri envergonhada – Minha mãe disse que só precisaria colocar tudo no liquidificador, mas parece muito mais complicado.

Lavei as mãos e então procurei uma daqueles potes que mostram figuras de crianças felizes.

-Sabe onde tá a mamadeira dela? – ele apontou para uma mesa de granito.

-Não sabia que você entendia dessas coisas. – Eu dei de ombros, entregando a mamadeira recém-pronta para garotinha.

-Você aprende quando tem que cuidar de seus primos. – estendi as duas mãos em direção deles. – E me da um pouco a Laura, vai tomar um banho e se trocar.

Ele olhou de mim para a garotinha, quase que se perguntando se era a coisa certa a se fazer. Eu parecia tão maníaca assim para ele não poder deixar uma criança sobre meus cuidados?

-Tudo bem – ele suspirou, cansado. – Volto daqui a pouco.

A garota me fitou com seus olhos curiosos e eu sorri. Diego já subia as escadas quando eu fui pra sala, acompanhada por Dougie em meus calcanhares. Dane-se, ninguém iria ver que o cachorro estava deitado no tapete.

-Olha quem temos aqui – falei, com o tom de voz animado. Sentando no sofá e pegando um sapo de pelúcia que nele estava jogado. – Você gosta dele?

A garotinha me estendeu um sorriso contido e eu a ajeitei em meu colo.

-Olá, menininha – imitei uma voz de desenho animado para o sapo. Não me chamem de idiota, se vocês estivessem na mesma situação que eu... Ok, eu sou idiota.

Laura ergueu uma das mãozinhas, abrindo e fechando a palma da mão, sorrindo abertamente. Eu sorri. Nós atraímos a atenção do cachorro, que em um segundo já estava com as patas apoiadas no sofá, nos encarando curiosamente.

-Olá, cachorro – Dougie espichou o focinho na direção do bicho de pelúcia. E com as duas patas do sapo, eu segurei seu focinho, fazendo com que ele soltasse um latido de susto, caindo pra trás.

Laura gargalhou e eu sorri instantaneamente. O cachorro pareceu mais “empolgado” em descobrir que ser das trevas era aquilo verde, então ele aproximou o focinho mais uma vez do sofá, fitando de nós duas para o bicho de pelúcia.

-Um abraço? – abri os braços do sapo e o cachorro saiu correndo até a cozinha. Num pique só. Se alguma vez na vida você já compartilhou um cachorro em seus momentos “fumei uma maconha e agora estou correndo como um louco” você sabe do que estou falando.

-Dougie! – o chamei, rindo. – Vem cá, garoto.

Mas ele parecia mais decidido a correr até a cozinha, pra debaixo do armário.

-Dougiii!

Então eu parei, encarei a garotinha em meu colo como se ela fosse um ET enquanto ela batia palminhas, animada.

-Dougii Dougiiii!

-Ai... meu... Deus – sussurrei.

-Dougiiii – a garotinha chamava-o, tagarelando a única palavra com uma felicidade tremenda.

-Die... – engoli em seco. Pulei do sofá, segurei Laura em meu colo e corri até as escadas. – Diego! DIEGO!

Abri a porta do seu quarto com violência, assustando metade da população mundial, viva e não vida. O garoto estava com uma bermuda folgada que não cobria a visão total para sua cueca e sem camisa. Por um momento eu me senti totalmente constrangida, envergonhada e quase corri pro quintal a procura de uma pá e um lugar apropriado pra escrever “aqui jaz uma garota vermelha”.

-O que aconteceu? – Diego gritou em resposta, apavorado pela minha figura esbaforida.

-A Lau...

Pegou a garotinha do meu colo com rapidez. Tamanha foi à voracidade do seu ato que ela começou a chorar enquanto ele a sacudia. – Eu a deixei com você por 5 minutos e você deixa ela assim?

-Mas...

-Droga Marina, porque se ofereceu se não tem capacidade nem de cuidar de uma planta?

-O quê? – arqueei uma sobrancelha, confusa. Eu não tinha problema com plantas, ok? Só uma vez que eu quase matei o porquinho da índia do meu irmão caçula.

-Está tudo bem agora. – Ele tentava acalmar a garotinha enquanto me fuzilava com os olhos. – Porque ela está assim?

Laura já passava a fungar baixinho quando sons semelhantes a trotes romperam pela casa. Logo depois um retriever surgia na porta do quarto, farejando o chão até erguer a cabeça em nossa direção.

-Dougiiii! – ela voltou a chamar.

E foi aí que Diego abriu a boca, esbugalhou os olhos e me fitou. Cruzei os braços e sorri friamente.

-Era só isso.

Notas finais
Adoro títulos com ambiguidade.
Não posso falar muito :/
Aqui tá o capítulo como prometido, talvez eu poste o próximo sexta. Simulados me deixando louca desde...
Vocês são as melhores leitoras que uma autora poderia ter, só isso a declarar.