Quase Perfeito
1 A Pâtissière e o Sádico
Notas iniciais
C A P Í T U L O I
A Pâtissière e o Sádico
O cheiro de açúcar caramelizado se misturava ao ar fresco da manhã em Kabukichou, enquanto uma brisa leve brincava com as bandeirinhas de tecido penduradas na entrada da confeitaria. A placa de madeira entalhada, com letras douradas que diziam “Yato Pâtisserie”, balançava suavemente. Era uma loja charmosa com decoração industrial, de fachada creme com detalhes em azul claro, janelas amplas adornadas com cortinas de renda e vasos de tulipas floridas. O aroma doce de tortas assando, chocolate derretido e especiarias quentes parecia pairar sobre a calçada, convidando qualquer um a entrar.
Lá dentro, o ambiente era acolhedor e iluminado, com móveis de madeira clara, mesinhas circulares e cadeiras estofadas com tecido florido. As vitrines de vidro exibiam fileiras impecáveis de doces: macarons em tons pastéis, tortas com frutas frescas reluzindo sob geleia, éclairs com recheio de baunilha brilhando sob uma cobertura espelhada de chocolate amargo. Uma torta de morango com creme diplomata exalava perfume suave, contrastando com a presença mais marcante da torta de maçã com canela, cuja massa dourada escondia um recheio aveludado e especiado.
Kagura estava atrás do balcão, vestindo seu avental branco com detalhes vermelhos sobre um vestido vintage azul-marinho de mangas curtas. Seu cabelo ruivo estava preso em um coque desleixado, e algumas mechas escapavam teimosamente para perto de seus olhos. Os brincos de esfera dourada que usava tilintavam levemente enquanto ela se movia com precisão entre forninhos, batedeiras e vasilhas.
Ela não era apenas boa no que fazia; era uma artista. A combinação de sabores, a leveza da massa, a estrutura das camadas – tudo refletia um cuidado quase obsessivo. Era como construir sentimentos em forma de açúcar e manteiga. Cada doce carregava algo dela: orgulho, paciência e memória.
E mesmo assim, todo dia às oito em ponto, uma crítica a fazia cerrar os punhos com força.
— O chantilly estava três segundos mais batido que o ideal ontem. Tá tentando me matar com gordura endurecida China Girl?
A voz arrastada e sardônica vinha da mesa do fundo, ao lado da janela com o vaso de rosas vermelhas. Era sempre ele. Okita Sougo, Capitão da segunda divisão do Shinsengumi. Seu uniforme esta alinhado e bem passado, a mochila preta encostada casualmente na parede, cabelo castanho levemente desalinhado, olhos semicerrados como se estivesse entediado – mas nunca perdia uma visita.
Ele pedia um cappuccino e uma sobremesa diferente todos os dias. Nunca elogiava. Sempre criticava algo. A pâtisserie sentia o sangue ferver. Um calor esquisito subia do estômago até o rosto, como leite borbulhando no vaporizador – e ela sempre dizia que era raiva. Só raiva.
Mas, por algum motivo que não gostava de admitir nem pra si mesma, esperava ansiosamente pelas oito da manhã.
O barulho da porta abrindo era um ritual. Shinpachi aparecia cedo com Gin, comentando sobre alguma trapalhada do dia anterior. Hijikata, às vezes, vinha mais tarde, pedindo um parfait de conserva de picles com chantilly – que Kagura se recusava a fazer. Eles eram barulhentos, parte da rotina, mas só um preenchia aquele espaço no fundo da loja.
E ela odiava admitir, mas o dia só começava de verdade quando ele atravessava a porta.
Eles se conheciam desde o ensino médio. Rivais desde o primeiro dia, quando disputaram o lugar mais alto em um torneio escolar. Kagura ainda lembrava da madeira polida do ginásio, do cheiro do piso suado, da luz atravessando as janelas altas e caindo sobre o rosto dele quando ela o derrubou com um golpe certeiro. Estavam sozinhos, ofegantes, ambos de uniforme esportivo, e ele riu.
— Você é boa. Vai ser divertido acabar com você.
Mas ele não acabou. Não ali. E nem depois.
Desde então, a cada vitória, a cada derrota, ela olhava para ele como quem observa um espelho desafiante. E, no fundo, bem no fundo, sabia que ele a fazia se sentir mais viva. Uma colher de rivalidade com uma pitada perigosa de admiração. Um gosto que nunca esqueceu.
Naquela manhã, porém, algo estava errado. A chuva tamborilava nas janelas. As ruas estavam cinzentas, cobertas de nuvens espessas e umidade no ar. O sino da porta não tocou às oito.
O vaso de rosas parecia mais triste.
Ela fingiu não se importar. Preparou bandejas. Decorou cupcakes com glacê lilás. Limpou vitrines. Mas o incômodo no peito crescia a cada minuto. Era como massa mal assada: estufada por fora, crua por dentro.
Foi só no fim da tarde que Hijikata Toshiro entrou, ensopado e emburrado.
— Veio dizer que o sádico não vai aparecer hoje? – ela disparou, fingindo desinteresse.
O Vice Comandante do Shinsengumi coçou a nuca, meio sem jeito.
— Foi transferido de repente. Missão urgente numa base fora da cidade. Só consegui ver ele rapidamente antes de partir. Nem sei se ele teve tempo de avisar.
O coração de Kagura pulou uma batida. Sentiu o estômago revirar, como se tivesse mordido um doce mal temperado. Mas ela apenas resmungou, empurrou a última torta para o fundo da vitrine e se trancou na cozinha.
Naquela noite, debaixo da chuva que se tornara nevoeiro, ela caminhou com uma caixa de torta de maçã com canela e um mochaccino especial. Estava molhada, irritada, e com o nariz vermelho do frio. O guarda-chuva violeta pendia inutilmente em sua mão.
Do lado de dentro, o apartamento de Okita era pequeno e novo, quadrado, poucos móveis e sem alma. As paredes nuas cheiravam a tinta fresca, e o cappuccino em sua xícara estava insuportavelmente ruim. O homem encarava a janela coberta pela neblina, com o vaso de rosas que levara da confeitaria descansando no peitoril.
Ele estava inquieto. A ausência da crítica matinal dela deixava um vazio estranhamente físico. Era como se o dia tivesse passado sem sal. Sem crocância. Sem cor.
Lembrou-se da primeira vez em que viu Kagura no ginásio, no ensino médio. Ela tinha o cabelo preso alto, e os olhos atentos e pronta para caçar. Quando ela o derrotou, ele sentiu algo mais forte que frustração. Sentiu-se eletrificado.
E desde então, não conseguiu mais parar de provocá-la.
Não era só a comida que o atraía. Era ela. A forma como ela brilhava ao se superar. Como explodia quando contrariada. Como ria, mesmo tentando esconder.
A campainha soou. Ele abriu a porta e viu a mulher que atentava seus pensamentos, encharcada, empurrando uma caixa contra o peito dele.
— Eu só vim porque odeio deixar trabalhos pela metade. E... e tem coisa que eu ainda não te fiz engolir.
Ele abriu a caixa e cheirou a torta com olhos fechados.
— Hm... a canela não está queimando o paladar. E o café... é amargo na medida certa. Isso está...
Silêncio. Ele a olhou.
— ...Perfeito.
Ela piscou. Ele sorriu de lado.
— Sabia que você ia melhorar se eu cutucasse o suficiente. Como nos velhos tempos. Você sempre foi a mais brilhante da turma, China. Sempre me deu nos nervos... mas nunca consegui parar de olhar pra você.
Ela engoliu seco. O rosto quente.
— Você é um idiota.
— Sim. Mas você gosta das minhas idiotices, não é?
Ela se virou, com a cara emburrada.
— Volta logo. Eu vou guardar sua mesa. E trocar aquelas rosas murchas. E você ainda tem que provar meu novo bolo de matcha com lichia.
Ele sorriu, fechando a porta com calma.
— Prometo voltar antes do cappuccino esfriar.
A chuva parava. E no coração da Yato, algo doce começava a derreter, como cobertura de ganache sob o calor do sol.
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