Quarto de Dormir - Ernesto e Ema
1 Sozinhos... "no seu quarto de dormir"
Era um dia como outro qualquer, ela sabia disso. Não tinha um motivo válido, por assim dizer, para aquela nostalgia. Acordara inquieta, outra coisa que não havia motivo; creditou a algum sonho que talvez tenha tido durante a madrugada, mas de forma alguma recordava sobre o teor deste, tão pouco sequer recordava ter sonhado aquela noite, porém passara a manhã inquieta. Perdera a paciência uma ou duas vezes com Elisabeta enquanto discutiam sobre os preparativos do casamento da amiga, quando não chegaram a um consenso sobre o tamanho do bolo da mesa de doces, Ema preferiu voltar para casa; em sua sempre sensibilidade com os sentimentos alheios, não queria que de alguma forma fosse ela ou sua inquietude motivo para o estresse de Elisabeta num momento tão importante quanto a organização de seu próprio casamento.
Ela havia avisado a Tenória que não almoçaria em casa, porém eram onze e trinta e cinco da manhã quando adentrou a sala, um tanto exasperada. A então tia, que por nada deixaria o trabalho na casa do sempre bondoso patrão, batia as almofadas do sofá e assustou-se um pouco com sua entrada abrupta.
— Disse que não voltaria até o jantar. — indagou logo vindo ao seu encontro. — Está tudo bem?
— Sim, — forçou-se a responder, embora um tanto sem fôlego. — Não se preocupe com o almoço, eu... não tenho fome!
Ema seguiu para o quarto sem sequer parar para olhar para Tenória, mas esta seguia em seu encalço.
— Tem certeza que está tudo bem? Está um tanto corada...
— Foi o sol, Tenória! Apenas o sol! — ela praticamente corria para o quarto; aquele corredor nunca lhe parecera tão longo.
— Ema? Tem...?
Ema havia alcançado a porta de seu quarto, adentrou, mas virou-se na porta, deixando Tenória do lado de fora com um olhar exacerbado de curiosidade e preocupação. Pela fresta da porta entre aberta ela deixou visível seu rosto.
— Não se preocupe. Estou bem, só preciso de um pouco de descanso, então por favor, — sentiu a necessidade de suplicar. — por favor, não me incomode por absolutamente nada, certo?!
— Ema, por favor, está me pondo um tanto preocupada!
— Não fique, eu estou bem. – a voz embargada entregava sua mentira.
— E o que eu digo a seu Jorge quando ele chegar?
— Quando ele chegar estarei plenamente descansada. Até mais tarde, Tenória. — ela disse fechando a porta, não dando oportunidade para a tia questionar qualquer outra coisa.
O sol entrava forte através da janela, e ela olhou o quarto ao redor. Por longos seis anos, seu quarto. Respirou fundo, a inquietude a assaltando mais forte. O quarto com o papel de parede listrado na vertical em tons monocromático de cinza, os móveis de madeira maciça, as cortinas de um bege claro, quase brancas por causa da luz que transpassava por ela, nunca fora acolhedor, nunca fora dela. Doeu ouvir aquilo em sua mente. Às lágrimas já caiam. Jogou-se em seu lado da cama e agarrou o travesseiro, um travesseiro que trazia um cheiro de loção masculina, tal cheiro que ela não queria tomar ciência que existia no momento, jogou-o do outro lado do quarto. Deito-se na cama agarrando firme os lençóis, o choro copioso lhe lavando a face. Lembrou-se...
Fora o cheiro, o cheiro tinha desencadeado tudo... atravessava a rua para casa quando alguém passou por ela, e lhe trouxe o cheio de almíscar amadeirado. Ela virou-se, o sentido do olfato sendo mais insistente do quê o da visão que lhe insistia que não era ele, não era ele. E nessa confusão de sentidos, esqueceu-se que estava em meio à rua de tráfegos dos inúmeros automóveis que agora São Paulo abrigava. Só voltou um pouco a situar-se quando um deles lambeu a saia de seu vestido e ouviu o sonoro grito:
— Saia do meio da rua, sua maluca!
Maluca... era como ele a chamara. Correu para casa, sem nem ao menos saber em que direção ficava. O calor tomou conta dela, e um tanto desnorteada da realidade entendera o motivo de sua inquietude aquele dia, lembrou-se que sonhara com ele. O sonho não tivera história, era só imagens, era o seu sorriso, era seus cabelos negros voando ao vento do Vale do Café, era seu corpo esculpido molhado com as águas da cachoeira... As pernas dela bambearam e ela realmente não soube como encontrara a porta de casa.
E agora, como a comporta aberta de uma represa, os pensamentos que há seis anos ela enjaulara derramava-se em sua mente sem descanso. Saudade, dor e arrependimento lhe abateram com força. Um arrependimento que ela não deu oportunidade de apresentar-se sequer uma vez que fosse, ela não permitia. Agora era tão amargo quanto fel ou jiló em sua garganta. Cada cena e cada frase. Eram tantas lembranças e tantos momentos que ela não se dava conta que o tempo passava, que o dia passava, que a tarde caía, que o mundo girava.
Sua paixão. Ele era e sempre seria.
Sua mais arrebatadora paixão. Arrebatador. Era a palavra perfeita para descrevê-lo, e ela o odiava por isso. Ele a havia tomado e a feito sua nas vésperas de seu casamento com Jorge. Não o culpou, culpara ela mesmo por não ter resistido e se entregado. No entanto, quando uma hora antes de subir ao altar recebeu a noticia de que ele partira, o culpou e o odiou. A partir de então reprimira com força e fervor qualquer pensamento nele... em vão, ela percebeu!
Aquela noite, a noite que fora dele, veio implacável em sua mente... e Deus a perdoasse pelo adultério! Conseguia sentir naquele instante o exato queimor na pele, e as batidas descompassadas de seu coração. A sua pequena mão tornou-se áspera e febril apertava com força a pele de seu ombro e pescoço, depois o colo; desceu-a para a pele tenra de sua coxa como ele havia feito naquele dia. A mão era sua, mas os movimentos era todos sincronizado pelos dele vividos em sua mente, embrenhou-a lentamente entre as suas coxas sentido como era quente ali, estremeceu, o ventre dava cambalhotas assombrosas enquanto os espasmos do choro fazia seu tórax convulsionar. A sua intimidade nunca fora tão ansiosa como fora naquela noite com ele, e agora refletia a mesma inquietude... Deus, o que estava fazendo?! O que ele estava fazendo com ela? Tocou-se e ao sentir sua extrema e quente umidade gritou. O grito rouco e forte a assustou, e ela transpirava. O quarto, porém estava frio, o sol ja tinha se posto e o vento gélido da noite já açoitava as cortinas da janela; e escuro, a única iluminação era a luz da lua. Com a respiração entrecortada ela tremia, matando a saudade daquele intenso sentimento que ela só experimentara uma vez na vida.
As batidas na porta vieram com força.
— Ema?! Ema?!
— Ernesto?! — ela sussurrou, confusa! O coração voltando a se aquecer.
— Ema?! Abra a porta!!
"Baronesinha, abra a porta, por gentileza..."
— Ernesto?! — ela levantou-se um tanto entorpecida.
O coração deu um salto de repente e ela correu para a porta, a abriu com todo ímpeto que pôde, mas o choro a assaltou novamente ao dar de cara com o marido. Nunca sentiu a decepção tão implacável na vida, e por isso odiou-se ainda mais, se possível, jogando-se nos braços de Jorge em busca de um consolo que ele nunca poderia lhe dar...
E o dono de sua angustia, nem ao menos saberia, do amargor da saudade e do arrependimento que ela sentiu naquele quarto aquele dia.
~
Há um oceano de mágoa de distância, ele estava deitado em sua cama de frente para janela, depois de mais um dia de trabalho. Deveria ter ido beber com os amigos, porém uma carta entregue por uma funcionária da casa o transformara imediatamente numa péssima companhia, e também, desculpou-se ele, a chuva já iria cair. Lançou o filme em sua mente...
O olhar juvenil e faceiro o encantou no primeiro momento, mas a sagacidade e a petulância o fizera odiá-lo. E ele lutou para continuar odiando, mas era impossível, era impossível quando ela sorria, ou quando ela o provocava, ou quando ela lhe lançava aquele mesmo olhar petulante, ou quando lhe lançara um simples e grato: "Boa noite". Fora o suficiente para ele lhe pegar nos braços e arrancar-lhe o primeiro beijo. Doce, suculento, e arrebatador... Gestos, palavras e uma sedução implacável.
"A companhia do senhor esses dias tem me fortalecido e deu um novo sentido a minha vida quando o mundo inteiro parecia ter virado as costas para mim." — ele teria feito aquilo para sempre, lembrava de como o coração tinha saltado diante daquela frase, a esperança que surgiu em seu corpo com aquela declaração, para no instante seguinte ela desmanchar tudo com dúvidas e incertezas e um papo frouxo sobre destino.
"Eu só não voltei para o Vale do Café porque Ernesto me convenceu a ficar!" — autoestima era um traço forte em sua personalidade, mas a maneira com que ela o envaidecia, principalmente quando o assunto era ela própria, o fizera ter certeza que ficaria o resto da vida ao lado dela só para ter aquela sensação novamente, mesmo que fosse uma vez ou outra em um milhão.
"E eu acabo de ver um senhor ali que estava guardando lugar para sua esposa. E se você estivesse segurando o lugar para sua também?" — ele jamais esqueceria a quentura naquele olhar desafiador e no alçar petulante de suas sobrancelhas, vagou naquele mínimo segundo por uma vida ao lado dela, casados, teimosos e apaixonados. Ele tinha certeza que seria o refugio que ela tanto precisava, que a guardaria de todo mal da vida e do mundo e que os sufocaria de amor e de paixão pelo resto de seus dias.
Ela não tinha aquele direito! Esmurrou com força o colchão. Não tinha o direito de fazê-lo sonhar daquela forma. Ela usou o melhor que ele tinha, a coragem que ele tão sem cerimônia e tão sem reserva podia ofertar-lhe. Ele teria lhe dado de bom grado se ela tivesse usado de verdade, mas ela só usou por um tempo e pior, usou para machucá-lo. Impiedosa era ela... Naquele momento queria maldizê-la com toda força de seu ódio. Mas, mais miserável era ele, que por mais que seu ódio por ela aumentasse a cada lembrança, não conseguia amá-la menos pelo mesmo motivo.
Vai passar, Ernesto! O mundo dá voltas e tudo passa. As memórias vão desaparecer, ao poucos se vão sumir. — Ele repetia aquilo há exatos seis anos. Porém o vento, ainda prenunciando a chuva, entrou trazendo o doce cheiro do bosque frutífero, parecia o cheiro dela, o cheiro dos cabelos dela, o cheiro do sorriso dela, e o sorriso dela era lindo e energizante, tanto que sempre o fazia rir com ela, como fazia exatamente agora, com o coração quente.
Deus! Como a amava! As lágrimas viera a seus olhos, ele as prendeu com força, engolindo em seco. Olhou novamente pela janela, o céu estava ainda mais nublado, e nada da chuva. Levantou-se, passou pela mesa onde largara a carta que recebera mais cedo, o bonito envelope do casamento de Elisabeta e Darcy brilhou sob seus olhos, mas ele passou adiante em direção a janela, debruçou-se e esperou... E quando o primeiro pingo da chuva molhou a terra, a primeira lágrima molhou sua face.
Ernesto suspirou, nada estava cicatrizado, nada estava apagado, o mundo talvez não tenha dado uma volta sequer nesses seis anos. Voltar seria uma atitude de autoflagelo, e ele não era dado a masoquismo. Elisabeta que o desculpasse...
Mas ele preferia ficar sem nada saber sobre a dona de sua dor e da sua saudade.
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