Quarto Escuro

1 Capítulo único


Em uma certa meia noite sombria, acordei de um sonho assustador onde um personagem em live-action de um desenho animado do qual gostava muito na infância, aparecia em frente a minha cama e arregalava os grandes dentes brancos e olhos para mim, o que me fez borrar de medo. Quando acordei, no breu só, senti uma raiva e medo genuíno percorrerem meu corpo com voracidade. Sentei-me em meio ao escuro do quarto e deixei a raiva perpetrar dentro de mim.

A droga de um pesadelo naquele dia era o que eu menos precisava. Naquele dia. Me lembrei daquele dia e ri com o pesadelo. O dia tinha sido tão ruim e desesperador que fez com que eu risse daquele pesadelo como se fosse uma topada na rua de uma pessoa que tinha acabado de perder um braço. Ria com loucura e despreocupação; um desesperado. “Desgraça pouca é bobagem”, pensei e tentei voltar a dormir.

Acordei de um breve cochilo com uma tremedeira que percorria meu corpo e fazia minha mente farfalhar. Sem poder controlá-la, entrei em desespero e me senti como numa daquelas maquinas de torturas onde você pode apenas esperar por sua morte em meio ao sofrimento e não pode fazer nada. Durante a tremedeira, eu só conseguia pensar na não-compensação do cheque naquele dia. Eu indo e voltando, de banco em banco, como se isso resolvesse algo, mas não resolveu. Sempre que chegava no banco, corria para chegar ao caixa e descobrir se o cheque tinha sido compensado, mas nunca estava. Aquilo doía. A fútil esperança era um prego grande e afiado que era fincado em meu peito. Aquele cheque seria até usado para beneficiar minha namorada, do qual nem a procurei por estar com vergonha.

Comecei a babar enquanto me debatia e usando toda a minha força de vontade, eu consegui ficar de lado e aos poucos, fui parando de tremer. Quando parei de tremer, tive um outro ataque de risos por ter sentido a morte de perto ao começar a me engasgar enquanto estava me debatendo de cabeça para o teto, como se os deuses tivessem me dado uma dura lição de querer permanecer vivo em volta daquele caos que estava minha mente.

Rindo como só, peguei o facão que guardo debaixo da cama e levei ele até a cozinha enquanto assobiava qualquer coisa e dançava no percurso. Vi um rato indo se esconder atrás da porta do banheiro e enquanto eu abria passagem para pega-lo, o rato saiu rapidamente e foi se esconder atrás do armário da cozinha. Eu peguei o facão e pus-me a bater na lateral do armário enquanto assobiava. Vi o maldito cheque em cima da mesa e acertei o facão no cheque três vezes em seguida e rápidas.

Arrependi-me do feito e fui procurar dormir. Pensava que era só esperar amanhã que o cheque seria descontado e que eu poderia retomar a vida tranqüila e sem pressão; mas veio a imagem de eu recebendo a noticia de que o cheque não tinha sido compensado e que provavelmente eu teria recebido um cheque sem fundo. Droga! Será mesmo que aquele pesadelo não teria fim? Teria eu, sido destinado a sofrer o maximo possível? Como se minha vida tivesse sido apostada por deuses de como um deles poderia extrapolar as desgraças sem que eu suicide. Era um tormento aquilo tudo. Só queria chorar e rir. Não era justo que uma das únicas coisas que me mantenha lúcido nesse momento da vida como o dinheiro e a namorada tenham que ser prejudicados.

Naquele momento de fúria bestial, eu só queria ferir alguém. Foi então que senti o maldito rato em minha cama e abocanhei ele depois de um apertão. Naquela escuridão, eu apenas senti o rato escapar e o gosto de sangue e pêlos do rato que estava em minha boca. Tateie a cama em busca do sangue do rato, mas não senti.

Ainda sentado na cama naquele quarto escuro, o sangue do rato na boca, o desespero e o rato ferido ali, eu comecei a rezar. Lembro-me de ter perdido a minha religiosidade enquanto crescia e tinha me tornado um homem não tão religioso, mas rezava como um mantra naquele local. Não sou adepto da piada de que em um avião caindo, ninguém é ateu, mas eu começava a rezar e aquilo me acalmava. Agora sem cheque, eu não sabia que procedimento tomar e pedia para que o amanhã se tornasse um bom dia. Um bom dia em que as coisas se resolveriam e eu pudesse usar aquele agora quarto escuro para realmente descansar sem preocupações.

Quando me viro de bruços, ouço pequenas batidas na porta e como moro sozinho, não sabia que batidas poderiam ser aquelas e me levantei sorrateiramente e acendi a luz, vendo o rato batendo na porta do quarto como se estivesse dando cabeçadas na porta para derrubá-la. Nós éramos os únicos seres vivos naquele quarto e só podia acreditar era que o rato estava com medo de mim por ter arrancado um naco de carne dele com uma dentada, mas quando decidi observar o estrago que tinha feito nele, eu não consegui ver nenhum arranhão no rato e percebi que provavelmente eu tinha mordido uma parte do rato que só deveria ter feito um calombo com os dentes e que por isso não havia marca de sangue na cama, mas o estranho era o gosto de sangue e pêlos; além do fato do rato estar dando cabeçadas na porta.

A imagem do rato fazendo sempre o mesmo movimento, o gosto de sangue na boca que pode ser uma ilusão e a iminente chegada do amanhã me deu uma idéia: pegar o rato e realmente arrancar um pedaço dele com os dentes. Antes que pudesse pensa duas vezes no assunto, peguei o rato ligeiramente e dei-lhe uma mordida que arrancou a pata do rato e soltei-o no chão em seguida. Com um movimento rápido, abri a porta do quarto antes que o rato pudesse recomeçar a tacar-lhe sobre a porta e só depois disso que senti o gosto de sangue e pêlos do rato; mas desta vez mais forte e mais real. Não queria saber o que aquilo faria comigo – tanto físico quanto mental -, só queria... Não sei, mas eu queria fazer e fiz.

Aquela noite deveria ser livre de culpas e remorsos, foi o que pensei antes de voltar a desligar a luz e voltar para a cama. Olhei a hora no celular e descobri que ainda era 00h30, um absurdo. O que eu faria? Estava com vontade de morrer naquele local escuro e solitário; como se tivesse caído em escombros e que aquele seria meu inevitável caixão, que minha única esperança era procurar morrer de uma forma rápida e indolor; ou seguir vivendo e morrer sufocado. Assim como seria nos escombros, torci para que algo caísse em cima de mim e terminasse de me soterrar. Droga! Esses pensamentos não me farão bem. Mas logo tive outros pensamentos tão desesperadores quanto o anterior: o pensamento de que naquela noite, eu tinha mudado completamente. A vontade de matar, de me matar, o que eu fiz com o rato, o desespero a ponto de rir como um louco, os pensamentos insanos. Será que um dia eu conseguiria esquecer? Poderia voltar a ser o que era ou tinha entrado num caminho sem volta?

Tanta sensação ruim naquela noite só podia ter sido orquestrada pelo diabo; mas o que o diabo iria querer comigo? Eu poderia matar o diabo com minhas próprias mãos e isso me dava uma alegria inebriante! Imagine só eu pegando o diabo com minhas próprias mãos e arrancando o braço como arranquei a pata do rato. Ah, alegria! Tu voltaste para mim! Que bom que ela era; matar o diabo era tudo que queria, era tudo que precisava.

Comecei a ouvir passos no lado de fora do meu quarto (será que era ele?); vinha vindo sorrateiramente e foi girando lentamente a maçaneta do meu quarto; levantei-me e esperei com um facão na mão, com uma alegria assustadora. Ainda no escuro, diabo abriu a porta e desci o facão nele com toda a minha força e quando puxei o facão de volta, o sangue dele espirrou em mim e ele gritou debilmente: “socorro”. Agora pede socorro, diabo? Depois de tudo que você me fez? Não sabe a tortura que senti e agora nada mais justo que você pague por isso. Enterrei uma segunda vez o facão no diabo e ele não mais se mexeu. Ri com uma voracidade de uma besta enlouquecida para marcar um triunfo de tê-lo vencido; mas surgindo como uma ave agourenta naquele quarto escuro, eu vejo o diabo pintando de vermelho aquele quarto onde eu já havia matado um. Observando seus furiosos olhos vermelhos como brasas, eu não conseguia parar de pensar a quem eu tinha matado.

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