Ele correu tão rapidamente de mim, tão envergonhado, tão confuso, que quase julguei sua velocidade não-humana...

Fui até a porta com passos que, para mim, eram lentos, mas deu tempo de vê-lo descer correndo as escadas, um de seus dedos nos lábios, engolindo em seco nervosamente. Nate era... Uma graça.

Ri com ironia. Fiquei parado na porta por um longo tempo. Quantos mortais já haviam implorado por um beijo meu? Eu dera a ele de graça, ele devia, pelo menos, estar um pouco agradecido.

Dei meia volta, fechando a porta enquanto olhava para baixo. Assim que levantei os olhos vi uma figura conhecida no meu sofá, deitado com tal superioridade que era de se invejar.

Estava com o livro que eu estava lendo antes de Nate chegar e o abria sem cuidado algum, arremessando-o em cima da mesa e soltando um longo suspiro. Seus cabelos ruivos e um tanto compridos, bagunçados como os de uma adolescente na melhor fase de sua vida, caíam por cima da almofada. Sua boca vermelha parecia formar um beicinho, embora eu soubesse que era apenas por ser pequena e carnuda, graciosa. Olhos um tanto acinzentados, como se não possuíssem cor, nariz delicado. A imortalidade o fizera parecer mais novo conforme os anos, embora eu realmente não soubesse explicar por quê. Desde que virara vampiro não mudara quase nada, a não ser meu ar de sabedoria, que agora parecia infinito.

— Joseph – sussurrei seu nome. Ele continuou olhando para cima, esboçando um sorriso travesso.

— Ah, meu Nicolas... – sorriu, finalmente olhando-me. Permaneceu deitado, apoiado agora em sua mão. Um ar tão imensamente superior, embora parecesse tão mais jovem – Só você para agüentar um trabalho... Chato como esse – apontou o livro na mesa.

Anteontem, quando eu acabara de me mudar, o mesmo que estava agora parado, tão calmo e com o humor tão sarcástico, me visitara, despejando sem cuidado algum tantos livros sobre vampiros... Ah, esses jovens mortais, que sonham que um dia poderão nos alcançar com páginas, com palavras sobre o que pensam que nós somos...

Bem, ele me designara a ler tudo aquilo. Estava arquitetando um plano, eu sabia, mesmo que não tivesse me contado ainda. Quando eu perguntava o que estava tramando, ele soltava um sorriso irônico, olhando-me e falando como eu era curioso e sem paciência.

Como não obedecer a seus planos? Ele era meu mentor, meu professor, meu... Pai. Embora parecesse apenas com meu irmão mais novo.

Ah, vocês sabem do que estou falando, não sabem? Meu pai, tecnicamente, tinha morrido há um bom tempo. Joseph era meu pai “nesse” mundo. Nesse maravilhoso mundo vampiresco.

Ele estava mascando um chiclete, podia ouvir o barulho, embora não pudesse detectar um sabor, já que ele já o mascava por um longo tempo.

Ficou em pé de supetão, mesmo assim, sem perder toda a classe que possuía. Aproximou-se com graciosidade, como se seus pés não tocassem realmente o chão. Um ar maligno em volta dele, o mesmo sorriso de escárnio...

Passou dois de seus dedos pelo contorno de meu rosto, me olhava com um fascínio que eu sabia que era falso. Desceu seus dedos até meu pescoço, passando por minha artéria, apertando-os ali, sorrindo. Ouvia meu coração bater rápido.

— Nicolas – murmurou meu nome. Aproximou seus lábios de minha pele. Podia sentir seu hálito sobre a mesma – Deixe-me saber o que aconteceu nesses dias – e afundou suas presas em minha pele, acariciando meus cabelos, que, apesar de ruivos, eram um tanto mais escuros que os dele.

Não queria pensar em Nate, não queria que ele soubesse de Nate, não queria que ele ameaçasse Nate. Definitivamente não queria. Joseph era manipulador demais, tinha poderes que eu jamais ousara conhecer. Eu temia por Nate.

Afastou-se brutalmente, olhos arregalados. Ele descobrira o que eu não queria que ele soubesse. Tentei aproximar-me dele, mas logo a imagem que eu vira há dois segundos à minha frente já não estava lá.

— Patético – ouvi aquela voz cheia de escárnio falar do sofá.

Tentei novamente andar até ele.

— Não se aproxime de mim! – ele berrou, não me olhava, sua voz realmente exalava poder. Agora até aquele chiclete parecia mais interessante do que eu para ele, embora até fosse. O gosto de meu sangue impregnara naquilo.

Ignorei seu aviso, ajoelhando-me perto dele, encostando meus lábios nos dele, invadindo sua boca, brincando ritmicamente com sua língua, num beijo que nem ele poderia resistir. Mesmo assim, ele não parecia disposto a esquecer aquele chiclete. Como poderia ele me comparar com um chiclete? Sério, a maioria das pessoas que me olhavam abria tanto a boca que um mero chiclete caía dela com a maior facilidade.

Mesmo assim, ele continuou brincando comigo, pude ouvir até um risinho enquanto me beijava. Afastei-me por um momento, logo voltando a beijá-lo. Mordi de leve sua língua com um de meus caninos, sentindo o gosto de seu sangue incrementar nosso beijo. Pude sentir o que ele realmente sentia quando um pouco de seu sangue tocou minha língua. Ele não gostava de ser beijado pela mesma boca que tinha beijado um “pirralho patético”, na opinião dele. Mas já estava se arrependendo de ter pensando nisso. Fazia tempo que eu não o beijava com tanto ardor.

Para os vampiros, é uma coisa normal sentir um amor por seu pai. Não um amor, mas um fascínio. Conheço alguns que tem pais desagradáveis e, por mais que queiram se manter afastados, não conseguem. Já comigo era o contrário. Eu tinha um pai tão fascinante que queria me manter longe. Ele era tão fascinante que chegava a ser perigoso. E, cada vez que nos encontrávamos, era um momento especial. Isso bastava.

E, ele sempre me elogiara por ser inteligente. Para ele, ver que seu filho tinha se apaixonado por um mortal como o Nate, era realmente... Patético.

Eu tinha um irmão, por assim dizer. Vincent. Um tanto mais quieto que eu, mas, por estar sempre perto de Joseph e tentar ajudá-lo quando ele ficava “impulsivo” demais em seus planos mirabolantes, Joseph o amava muito mais, sentia necessidade de tê-lo por perto.

E também tinha seu criador, que, talvez por pura coincidência (ou não), também se chamava Vincent. Ele o amava. Era um amor terno que eu jamais poderia imaginar que Joseph poderia sentir se não tivesse um dia tomado o sangue dele. Ora, Joseph, aquele vampiro tão ousado, sexy, perigoso... Tendo um amor tão... Terno? Chegava a ser um paradoxo.

Fiquei olhando-o por um longo momento, antes de me afastar dele. Ele arqueou as sobrancelhas, colocando um dos dedos na língua, bem no lugar onde eu mordera para brincar com seu sangue enquanto nos beijávamos com tanto ardor.

— Vai demorar a sarar – reclamou ele, revirando os olhos – Não me alimento há dois dias.

— Muito ansioso com o plano que não quer me contar? – ele sorriu irônico. Até quando eu bebera seu sangue, praticamente juntando nossos pensamentos, ele escondera aquilo.

— Ora, Nicolas, meu lindo Nicolas, não precisa ficar bravo com isso – dizia como se tudo se tratasse de uma brincadeira e soltava uma risada gostosa.

— Afinal, por que preciso ler todos aqueles livros? – perguntei, apontando levemente

para a prateleira lotada. Tivera tão pouco tempo naquelas duas noites, mas já lera metade deles. É incrível, até para mim, do que os vampiros são capazes.

— É uma parte essencial do plano, Nicolas – falava com sabedoria, mas logo desatava a rir quando via minha cara demonstrando que eu não estava com um pingo de paciência para agüentar aqueles diálogos – Me conte como está a evolução do processo – e riu de novo.

Cocei a cabeça, sentando-me no sofá.

— Como eles são? – aproximou-se com o sorriso de uma criança que pedia mais histórias a um contador.

— Eles quem? – perguntei, visivelmente confuso.

— Os vampiros! Como são os vampiros nesses livros? – estressou-se por um momento, mas logo voltou a toda aquela curiosidade de antes, olhando-me como uma criança. Ele tinha as feições de uma, o temperamento de uma... Era apenas uma criança. Mas uma criança que eu admirava mais que tudo no mundo.

— Por que não bebe um pouco de meu sangue e descobre por si mesmo? – bem, vou explicar todo esse papo de sangue, pensamento, explicação. Bem, é o seguinte: Vários vampiros podem ler o pensamento das pessoas. Não fui herdado com esse dom, mas geralmente posso deduzir o que pensam pela expressão das mesmas. Joseph pode ler o pensamento da maioria dos mortais. Mas um vampiro não pode ler os pensamentos de outro vampiro. Aí que entra o sangue. Por isso, quando um vampiro quer fazer uma pergunta a outro, ele focaliza nela e morde o pescoço do mesmo. Os fragmentos de memória vivem no sangue, embora isso possa parecer apenas um mito para um mortal. Um cientista que colocar sangue no microscópio não vai exclamar que achou “fragmentos de memória”, pois seria tachado de idiota a vida inteira. Isso é algo significativo. Quando um mortal sofre muito, o sangue se torna mais quente, amargo, embora seja mais delicioso do que o de uma pessoa feliz, que teve poucas decepções em vida.

— Ah, Nicolas, conte-me com sua voz... Não me transmita a partir de seu sangue. Eu provavelmente acabaria pensando naquele mortal nojento e não gostaria de ver você trocando saliva com ele... – parou de falar quando viu o olhar de reprovação com que eu o olhava – Comece – disse, apenas.

— As mulheres desiludidas de hoje em dia nos retratam como pessoas boazinhas demais, nojentas demais, que se vestem conforme a moda e se apaixonam por mortais idiotas...

— Pelo jeito isso não é tão impossível, não é? – pude notar a indireta e semicerrei os olhos. Soltei um longo suspiro. Joseph realmente era incorrigível...

— Continuando – tentei manter o foco. Joseph soltou um riso baixo que eu tentei ignorar – Os de antigamente nos retratam de uma maneira mais... Fiel, colocamos assim – ele mexeu sua cabeça afirmativamente – Drácula chega a ser nojento, assustador demais... Mas é bom. Também gosto da imagem que as pessoas têm quando nos colocam capas no dia de hoje...

Joseph olhou para as próprias roupas, revirando os olhos.

— Eu gosto de capas, mas prefiro sobretudos... – levantou seus olhos por um momento, um brilho se acendeu neles, como se tivesse acabado de ter uma idéia. Foi até a janela, girando seu casaco, sorrindo como um moleque – É isso que eu quero! Quero sobretudos, capas! Quero isso, Nicolas! Obrigado!

— Quer isso para quê?! – mas logo que perguntei isso ele saiu pela janela, provavelmente indo embora para encontrar-se com Vincent e conversar sobre o plano que ele insistia em não me contar.

Iria receber uma visita dele muito em breve, disso tinha certeza.

Mas não era hora de pensar nisso...

Pude ouvir os barulhos que vinham do quarto do síndico novamente, mas que eram reprimidos por aquele ronco tão agradável que vinha do andar de baixo. Deu vontade de me apoiar na janela e ficar ouvindo aquilo até amanhecer...

Mas logo Nate parou e os barulhos no quarto do síndico vieram mais alto.

Argh... Repugnante.

Não era hora para isso. Fechei a janela com força, talvez bravo por não poder ouvir mais o ronco de meu protegido.

Aproximei-me do sofá e agarrei um dos livros, suspirando alto.

— Apenas os livros para me consolar nessas horas – murmurei, voltando à página onde eu tinha parado.

Notas finais
N/As: Vamos a algumas explicações: O Vincent (irmão do Nicolas) e o Joseph fazem parte da fic "O Vampiro Vincent", que é mais focada no próprio Vincent e no Joseph. Chegam a citar o Nicolas, e ele também chega a aparecer mais pra frente (em capítulos não escritos ainda), mas, como já dito, Vincent é o personagem principal.

Já o Vincent (criador do Joseph), pertence a fic "Hunter - The Escape", onde aparece claramente, já que nessa fic, por enquanto, ele só está sendo citado.

Eu e a HannahHell fizemos de "Quarto Andar" um tipo de CrossOver entre nossas histórias, mas todas podem ser lidas sem a necessidade da outra.

Bem, obrigada por lerem! E deixem reviews