Quarentena
2 Sobreviventes
Notas iniciais
Acordar agora é uma obrigação, abrir meus olhos um sacrifício e levantar da minha cama um desafio. Desde que o mundo se tornou dos mortos eu perdi a vontade de viver, mas continuo lutando todos os dias por causa de uma maldita promessa.
E seu eu dissesse a você que ainda tenho esperanças seria uma grande e deslavada mentira.
Como eu era antes de tudo isso? Bem... Eu poderia dizer que era uma garota ingênua e fraca e que aprendeu da pior forma a manusear uma arma, uma garota insegura que virou uma maquina de matar, fria e cruel. Minhas lembranças desse dia não passam apenas de um borrão, mas a dor ainda esta lá me torturando, deixando o vazio dentro de mim cada vez maior e me lembrando de que aquilo é mais do que um pesadelo, me lembrando de que aquilo é real. Eu acreditava em Deus, eu acreditava que todos tinham seu destino escrito pelas estrelas e que um dia viveríamos em um mundo melhor. Eu tinha esperanças.
Encarava o teto branco de uma casa qualquer, onde pessoas das quais perderam famílias, amigos, filhos. Pessoas que perderam suas vida e tudo aquilo que trazia a felicidade moravam.
Sentei-me na cama passei minhas mãos em meu cabelo fazendo um coque no alto da cabeça e levantei-me indo até um pequeno banheiro, liguei o chuveiro, a água caia fria e causou um desconforto passageiro ao tocar a pele quente de minha mão, despi-me e depois de me acostumar com a temperatura da água tomei um banho relaxante. Apesar da água fria caindo sobre meu corpo agradeci pelo chuveiro estar funcionando e poder tomar um banho descente.
Logo me perdi em meus pensamentos enquanto lavava meu cabelo castanho e que batia no meio de minhas costas e comecei a fazer as contas de quanto tempo aquilo estava durando. Cinco meses, dez dias e algumas horas. Era esse o tempo do qual levei para ter todos arrancados de mim. Era esse o tempo que levei para ficar sozinha e travar uma jornada solitária em busca de algo perdido.
Sai de dentro do Box e me enrolei na toalha preta que havia encontrado em algum canto daquela casa “luxuosa”. Olhei-me no espelho e apesar de ter a minha aparecia à pessoa que se encontrava ali era totalmente desconhecida. Seu cabelo loiro, seus olhos cor de mel (que antes eram claros) se tornaram tempestuosos, seu rosto pálido, sua boca avermelhada, seus traços delicados tão familiares e tão desconhecidos. O meu próprio reflexo era desconhecido por mim, mal me lembrava da ultima vez que tinha sorrido de verdade ou me sentido bem.
Peguei a ponta de meus cabelos ainda molhados e penteei-os para frente em um rabo de cavalo ao contrario, busquei a adaga que estava em seu coldre no cós de minha calça e passei a lamina afiada na altura do meu queixo cortando os fios sedosos e brilhantes de meu cabelo. Uma lagrima solitária escorreu por meu rosto, era uma coisa idiota da minha parte, mas necessária. Soltei meu cabelo e gostei do resultado, não encurtou muito apesar da quantidade enorme de cabelo espalhado no chão e as camadas deram leveza a minha cabeça e mais movimento.
Coloquei minha calça preta de couro, uma regata cinza, bota preta, meu colar com o contorno de uma lua e uma esmeralda no meio, meu coldre de perna, o coldre de axila, duas pistolas G25 e uma G28, a adaga dentro da bota e por ultimo coloquei minha jaqueta de couro. Peguei a mochila ao lado da cama e desci para comer alguma coisa, nunca passava mais de dois dias no mesmo lugar e sempre ia atrás de sobreviventes, durante esses cinco meses encontrei três grupos, mas sempre tive problemas com ambos e dava um jeito de sair de fininho e deixa-los para trás. Coloquei um pouco de cereal que achei dentro do armário e comi. Joguei algumas coisas comestíveis para a viagem dentro da bolsa e sai em silencio pela porta da frente. A rua estava vazia, entrei no carro da antiga família e comecei a entrar e sair de ruas e becos escuros da cidade, rodei por horas e fui obrigada a parar em um posto de gasolina, comi alguma coisa e logo dei partida.
A cada zumbi que passava eu pensava: Eles já foram como eu, já tiveram família e uma vida para chamar de sua.
Tentei afastar as lembranças alegres da minha antiga vida e voltei a prestar atenção na estrada, e foi ai que algo me chamou a atenção. Alguns jovens tentavam fugir de uma manada pequena de zumbis. Tinham no Maximo uns quinze, mas não estavam armados o suficiente e as duas meninas não sabiam se gritavam ou corriam dificultando o trabalhos dos cinco meninos, acelerei o carro e parei ao lado das meninas e reparei que ao lado de cada uma duas malas enormes, balancei a cabeça negativamente, puxei a chave da ignição e coloquei rapidamente no bolso da calça, nem ferrando iriam me deixar sem carro no meio do nada. Pulei do carro e gritei para as duas:
–Entrem e não saiam daí de dentro até eu falar. –elas assentiram e corri até um dos meninos ele tinha cabelo loiro e olhos azuis, tentava se livrar de três, puxei a adaga da bota e acertei em cheio a cabeça do que um dia foi uma bela mulher e pelas suas vestes uma secretaria ou executiva, logo que ela caiu no chão mais dois vieram para cima de mim, fiz o mesmo ato e olhei para o loirinho.
–Acerte a cabeça. –peguei a pistola da minha coxa e comecei a disparar, logo não sobrara nenhum, corpos caídos no chão, minha roupa cheia de sangue fétido e meu cabelo grudava na testa suada. Olhei em volta e vi que estavam todos bem fora os arranhões e a roupa suja. Apoiei-me nos joelhos e respirei fundo.
–Não sei quem é você mais obrigado. –uma dos garotos falou e caminhou em minha direção.
–Não fiz nada além do meu trabalho. –minha promessa.
–Trabalho? –perguntou o loirinho.
–Nada de mais. –dei de ombros e caminhei até o carro-. Já podem sair.
As meninas saíram do carro e olhei para seus pés, ambas com salto alto e roupas de marca. Contive-me para não soltar uma risada alta e fazer com que achassem que eu era louca.
–Meu boo você ta bem? –perguntou a morena a um menino de cabelo liso. Enquanto a loira depositava beijinhos no moreno bonitão.
–Quem é você? –perguntou o de cachos.
–Vocês estão bem? –mudei de assunto.
–Graças a você. –o loirinho veio e me deu um beijo na bochecha, o que eu achei fofo e dei um sorriso de canto. O primeiro em muito tempo.
–Acho que já vou indo e vocês deveriam tomar mais cuidado, acertem na cabeça dessas coisas e fiquem longe das estradas principais e grandes cidade e ficaram bem. –disse indo para o lado do motorista.
–Eu quero ir com você, sei que não sabe nada sobre nós mais não podemos continuar sozinhos perdemos muitas pessoas e... –ele não terminou de falar, seus olhos estavam tristes e era recente.
–Sinto muito pela perda de cada um, mas se quiseram realmente vir comigo teriam que esquecer suas vidas anteriores, deixar as lembranças guardas e contidas. –meu olhar se perdeu em meio às casas abandonadas-. Tudo que um dia vocês já foram vai ser deixado aqui, preciso de gente competente disposta a lutar contra os mortos e contra os vivos. Estão dispostos a abandonar tudo que já foram para se tornarem frios e cruéis por causa da sobrevivência? Por que eu me tornei nisso, há meses não dou um sorriso, perdi pessoas, amigos e família assim como vocês, mas tem certeza que vão aguentar firme? Tem um propósito a seguir ou cumprir? Pois se ainda não tem eu vou dar um: Atravessando o país tem uma cidade encapsulada, tenho que chegar lá viva. Podem vir comigo se quiserem realmente enfrentar os perigos que se encontram por ai. Não digam que talvez todos sobrevivam, pois não posso prometer isso, mas posso tentar dar um lar para vocês caso chegue lá.
–Nós vamos. –disse o de cachos-. Eu sou o Harry, Liam, Niall, Zayn, Louis, Perrie e Elleonor.
–Sou Luna. –olhei sugestivamente para as meninas-. Precisamos de mais um carro e de mais suprimentos. E acho bom as meninas se livrarem dessas malas e ficarem só com o básico.
Apontei para Harry, Liam e Zayn e disse:
–Vocês vem comigo, vamos encontrar outro carro e fazer uma varredura nos mercados e delegacias que eu ainda não fui. O resto esvaziem aquela casa branca e fiquem lá até voltarmos.
–Mas e se tiver uma dessas coisas lá? –perguntou a loira oxigenada Perrie. Fui até Niall que tinha uma faca na cintura e a peguei, todos me olhavam curiosos, me virei para Perrie que ainda estava abraçada com Zayn peguei sua mão e coloquei a faca na mesma.
–Acerte na cabeça e sobreviva. Seu namorado nem sempre vai estar do seu lado.
–Eu não sei usa-la. –disse com raiva e jogou a faca no chão, eu perdi a paciência.
–Aprende, e acredite é melhor aprender agora ou quando sua vida depender disso. Agora vamos. -uma pausa e eu abri a porta do motorista-. Voltamos logo e fiquem vivos.
Os meninos entraram logo em seguida e eu dei partida.
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