Quando voltarmos para casa
1 Reencontros
Notas iniciais
Syndra
Zed foi obrigado a se enfiar num dos apartamentos do pequeno prédio.
Ele estava fugindo, mas seus ferimentos o obrigaram a se esconder. Não conseguiria mais correr se continuasse daquela forma.
Não era comum, para um ninja como ele, fugir assim. Especialmente de Shen. Era engraçado: os dois nunca terminavam suas lutas, e nunca resolviam o problema. Zed estava decidido a acabar com tudo de uma vez naquela noite, mas foi surpreendido pela presença de Akali.
Uma luta injusta, mas o ego do ninja fez com que ele não hesitasse. Pois bem, ali estava ele, com vários machucados e um corte profundo no abdômen, deitado no chão de um apartamento qualquer.
Viu, através da janela por onde tinha entrado, os dois ninjas passarem direto, correndo por cima do prédio vizinho. Ainda nevava, típico de um fim de ano em Nova York, e Zed esperou um pouco para se levantar, finalmente observando o local em volta.
Apesar do escuro, conseguiu identificar uma sala comum. Colocou a mão esquerda sob o corte, que doía mais do que qualquer outro machucado. Com a mão livre, ele retirou sua máscara e abaixou o capuz rasgado. Quanto terminou, foi jogado na parede, por uma força estranha.
A força o pressionava, seus pés não tocavam o chão. Ele mal conseguia respirar, mas pôde identificar uma mulher, flutuando no outro canto da sala. Os cabelos curtos e prateados dela também flutuavam, seus olhos brilhavam num tom roxo e algumas esferas da mesma cor pairavam em sua volta.
— O que está fazendo aqui? Quem é você? – a voz da mulher era forte e duplicada. Ela aparentava estar com raiva, mas medo ao mesmo tempo.
Zed não respondeu. Ele tentava desesperadamente sair dali e não conseguia falar. A mulher viu o estado do ninja: roupas rasgadas, um corte enorme e profundo e vários arranhões. Ao lado dele, uma máscara caída, reconhecível de longe. Ela arregalou os olhos surpresa, então o soltou, fazendo-o cair desmaiado no chão. Desceu suavemente até o piso de madeira, suas esferas sumiram e seus olhos pararam de brilhar. Fazia muito tempo desde o último encontro dos dois.
Zed abriu os olhos e não reconheceu onde estava. Ainda meio zonzo e sonolento, permaneceu deitado observando o ambiente: um quarto pequeno, ele estava deitado na cama de casal. Uma janela permitia a entrada do sol, mas não chegava a iluminar o rosto do ninja. Ele estava sozinho no cômodo, percebeu que estava sem sua máscara e apenas com sua calça, com um curativo no corte. Foi se lembrando aos poucos do que havia ocorrido na noite anterior.
Então, ouviu passos e uma voz vindo em direção ao quarto:
— Eu não posso ir trabalhar hoje, aconteceu um imprevisto. Me desculpe, é que...
A mulher de cabelos prateados estava falando no telefone e parou quando abriu a porta do quarto e viu Zed sentado na sombra, encarando-a.
— Eu explico mais tarde. – ela desligou o telefone e o colocou em cima da cômoda. Em sua mão esquerda, trazia uma xícara de chá.
Ela ficou observando-o e, mesmo que uma sombra estivesse sob o seu rosto, era possível notar os olhos escarlates e brilhantes do ninja a encarando também.
A primeira impressão que Zed teve sobre ela, era que ela era linda. Realmente linda e não parecia ser uma ameaça. Apesar da curiosidade a respeito da mulher, ele não tirou o rosto da sombra formada naquele canto do quarto.
— Não se preocupe, vi seu rosto praticamente a madrugada toda – ela se aproximou e entregou-lhe a xícara quente, porém ele não bebeu o chá e continuou quieto. – Meu nome é Syndra.
Ela resolveu apresentar-se novamente. Os dois tinham muita história, mas o problema principal era que Zed não se lembrava dela. Então fingir que nada havia acontecido antes era mais fácil, e traria menos sofrimento.
Vendo que ele não iria dizer nada, ela suspirou e continuou:
— Pode me explicar por que diabos você entrou pela janela do meu apartamento de madrugada? – a voz dela estava séria.
Ele arqueou uma sobrancelha, num olhar sarcástico, vendo a mulher tentar parecer autoritária. Então levantou-se, com um pouco de dificuldade por causa do corte, e ficou parado a um metro da mulher, respondendo friamente:
— Eu precisava de um abrigo.
— De quem você estava fugindo?
Ele ameaçou rir e cruzou os braços, pensando o quão tonta ela era por achar que ele, o mestre do clã das sombras, fugiria de alguém.
— Por que acha que eu estava fugindo? – a voz dele soou mais séria e alta, assustando um pouco a mulher. Mas ele ainda sorria de canto e a encarava.
— Porque você está machucado. E tinha veneno no seu corte. Ainda tem, na verdade. Preciso refazer os curativos e limpar três vezes por dia. Além disso, quem é você? – ela fingiu não saber.
— Zed. Meu nome é Zed.
O modo como ele falava era extremamente nostálgico. Ao dizer seu nome, Syndra perdeu por alguns instantes a sua postura autoritária, quase deixando escapar uma lágrima. Ela olhou para todos os cantos do quarto rapidamente, evitando encara-lo. O ninja virou levemente a cabeça, estreitando os olhos, tentando entender o motivo do desconforto dela.
— Você sabe quem eu sou. – ele afirmou.
— Quê? Não... eu... eu... eu me lembro deste nome, apenas. Você veio de lá, da Runeterra. – ela tentou se explicar, mas além deste motivo, a verdade era que ela amara Zed por três longos anos. Quando finalmente saiu da dimensão da Runeterra, fugindo das guerras, ela achou que conseguiria superar. Sentira muita falta dele, pensando que ele não havia conseguido escapar como ela. Mas, bem, ali estava ele.
Zed teve um leve desconforto ao ouvir o nome da antiga casa, olhou para o chão e ficou alguns segundos em silêncio.
— Você também. – ele concluiu – Acho que isso explica o seu modo demônio ontem à noite.
Ela ignorou o comentário idiota e olhou para outro canto. Os dois ficaram quietos por cerca de dez segundos, até que ela resolveu quebrar o silencio:
— Preciso trocar seu curativo. Já está quase na hora do almoço.
De repente, ele se recompôs e o olhar sarcástico voltou ao seu rosto.
— O que te faz pensar que eu deixaria? — Zed retrucou.
— O fato de que trabalho num hospital e com certeza sou a única pessoa disposta a ajudar um estranho em Nova York. A menos que você queira sair por aí com veneno de cobra no corpo e se esbarre com o quê ou quem está tentando te matar, sugiro que deite na merda dessa cama e me deixe fazer. – Syndra perdeu a paciência.
Zed revirou os olhos, mas obedeceu. O corte doía, então ele resolveu deixar. Descruzou os braços e sentou-se na cama, encostando na parede, quase deitado e encarando Syndra, com cara de tédio. Ela o ignorou e pegou uma caixa em cima da cômoda, caminhando até a cama, sentando-se na ponta, ao lado dele.
Enquanto ela retirava alguns produtos e faixas da caixa, Zed não conseguia parar de olhar para ela. Alguma coisa em sua mente dizia que ele a conhecia.
Ela percebeu o olhar dele e logo pensou em quais eram as chances de ele se lembrar dela. Era triste, a Sombra dentro do corpo dele não permitia que ele se lembrasse de qualquer coisa relacionada a sentimentos. Todas as vezes que ele a conhecia, se apaixonava por ela, passava dias junto dela, mas, pouco tempo depois, esquecia-se completamente. Foram inúmeras promessas de lembrar e ele já havia passado noites meditando, tentando controlar a Sombra. Se ele amasse Syndra, se desviaria do seu dever como mestre do Clã das Sombras e colocaria a mulher em primeiro lugar. Por isso ele não podia tê-la. Ele levava uma vida solitária, sua única relação era entre mestre e alunos na antiga Runeterra.
Syndra suspirou e começou a retirar o curativo do corte, tentando evitar pensar naquilo tudo. O ferimento estava feio, saía sangue sem parar. O veneno de cobra não permitia a cicatrização, muito menos a coagulação sanguínea. Zed percebeu na hora que aquilo era um presentinho das lâminas de Akali.
Quando ela finalmente terminou, retirou as luvas e guardou o kit de primeiros socorros de volta na caixa.
— Vou jogar isso fora e pegar uma camiseta para você – ela disse, se levantando.
Assim que saiu do quarto, chegou até o banheiro e suspirou, encostando na parede. Ela não sabia quanto tempo aguentaria ficar sem contar a verdade a ele.
Quando voltou, surpreendeu-se ao ver Zed olhando o porta-retrato em sua mesa.
Era uma foto dela, arrumada, pronta para sair. Se parecia como uma humana normal, estava utilizando lentes para esconder os olhos roxos. Aquele era o motivo dela guardar e gostar tanto desta foto: ela sentia que podia se encaixar naquele mundo e, toda vez que olhava para o porta retrato, se sentia feliz e a saudade de casa passava.
— Seus olhos – ele disse de costas, pois tinha ouvido ela chegar.
— Lentes de contato. Evitam perguntas e atenção desnecessária. – ela respondeu, se aproximando.
Zed franziu o cenho. Mesmo após cinco anos naquele mundo, ele realmente não conhecia de tudo.
— Você coloca nos olhos para mudar a cor ou corrigir a visão. Ou os dois. Tenho um par sobrando, posso te emprestar se quiser. – ela entendeu a expressão de dúvida de Zed. – E eu trouxe roupas para você.
Ele virou-se e pegou a sacola que ela trazia.
— Suas roupas de ninja do mal estão lavando, estavam cheias de sangue. — Syndra explicou, deixando o quarto de hóspedes.
Quando os dois estavam almoçando, Syndra estava curiosa para saber como ele estava se virando naquele mundo, então resolveu perguntar.
Zed explicou que tentara se adaptar nos primeiros meses, mas trabalhar para ganhar dinheiro não era interessante para ele. Ele preferia matar a troco de dinheiro, e disse isso com um sorriso, como se soasse ameaçador.
Ele estava morando num depósito abandonado, e roubava a maioria das coisas que precisava para sobreviver. O básico era mais do que suficiente para alguém como ele. Contou que “um velho amigo” havia o encontrado e queria algumas explicações. Disse que aquele era o motivo de ele ter chegado ali.
— Por que está cuidando de mim se sabe que eu posso te matar a qualquer minuto? – ele tentou provocá-la, mas ela nem esboçou reação.
— Você não vai me matar. Estou cuidando de você porque algo me diz que não sabe cuidar nem de um arranhão sozinho – isto ela tinha certeza.
— Escondeu minhas lâminas por quê? – ele ainda tentava fazer graça.
— Não as escondi. Estão no quarto de hóspedes, no chão. Depois você limpa aquelas coisas.
Zed fez uma careta e perguntou sobre a vida dela.
Desde que ela havia chegado ali, tentara se adaptar: estava trabalhando como enfermeira, fazendo um curso e tentava se controlar ao máximo para que seus poderes não aparecessem. A Soberana ainda vivia dentro dela e era o que lhe permitia invocar as esferas e outros feitiços. Começou a contar sobre a vida pessoal, sobre amigos e um namorado. Sim, ela estava namorando. Fora um pouco difícil no começo, mas o relacionamento parecia finalmente estar estável.
Cerca de uma hora depois do almoço, Syndra terminou de arrumar a casa e voltou para a sala.
— Jake vai vir jantar aqui hoje – ela avisou Zed, referindo-se ao tal namorado.
Sentado no sofá, ele virou-se para ela com cara de tédio.
— E?
— E eu quero que você fique no quarto de hóspedes, sem sair de lá, e utilize suas táticas milenares ninjas para não fazer barulho. Ele não sabe que você está aqui.
Zed riu.
— O que aconteceria se ele soubesse? Ele não confia na namoradinha?
— Eu também não confiaria nele caso ele dissesse que abrigou uma mulher no apartamento dele. – ela bufou, mas no fundo, não queria ter o trabalho de inventar uma explicação comovente para abrigar um homem em seu apartamento.
Após ficar quieta por alguns segundos, ela perguntou:
— Você sempre teve o cabelo preto? – ela sabia a resposta, mas precisava saber se Shen o reconheceria sem máscara na rua.
Zed franziu o cenho e pensou um pouco: aquela era uma pergunta muito direta. Como ela o conhecia antes? Como ela perguntou justamente sobre o cabelo? Talvez fosse apenas coincidência, ou ela já tivesse ouvido falar dos cabelos brancos dele. Mas, se aquilo fosse coincidência, e o almoço que ela havia preparado mais cedo? Era o prato que Zed mais gostava, e ela havia o preparado da mesma forma que ele costumava fazer. Aquilo era estranho, mas ele pretendia saber onde ela queria chegar. Talvez ela fosse uma ameaça. Mesmo com essa possibilidade, ele ainda tinha suspeitas de que os dois se conheciam antes.
Sem uma resposta, Syndra foi mais específica:
— Se você saísse comigo, aquele cara que está atrás de você iria te reconhecer?
— Vamos ter um encontro? – um sorriso provocativo apareceu no rosto de Zed e Syndra revirou os olhos.
— Preciso ir ao mercado, comprar coisas para a janta de hoje. O mercado mais próximo fica num shopping e você vai comigo. Não vou te deixar sozinho na minha casa nem morta. – no fundo, ela temia que ele fosse embora.
— Meus olhos. – ele explicou – Ele me reconheceria pela cor dos olhos. Ele me viu poucas vezes sem máscara, e pensa que eu ainda tenho cabelos brancos.
— E se eu colocasse uma lente em você?
— Não, obrigado. – ele respondeu.
Syndra bufou e o arrastou para o banheiro pelo braço. Após enfiar as lentes nos olhos dele, o arrastou novamente, mas desta vez para fora do apartamento.
Então os dois foram andando para o shopping, passando pelas ruas cobertas de neve de Nova York.
Annie
— Ei, hoje você trabalhou bastante, está dispensada. – Caroline estava saindo da cozinha de funcionários do cinema, com um sorriso simpático no rosto e uma xícara de chocolate quente nas mãos.
— Obrigada, Carol. Tem certeza de que não vai precisar mais de mim aqui?
— Não, eu organizo o caixa hoje. – ela se aproximou da garota — Você tem me ajudado bastante, merece um descanso e algumas trufas de cereja. Aqui, pode pegar.
Annie sorriu e pegou as trufas, colocando em sua mochila preta, que estava embaixo do caixa. Dirigiu-se rumo a porta, deixando o pequeno cinema do shopping.
— Tenha um bom final de semana – Annie olhou para Carol.
— Você também.
O Central Park estava movimentado. O inverno estava começando, fazia frio e uma camada de neve cobria Nova York. Por isso, turistas do mundo inteiro estavam lá. Annie começou a atravessar o parque, tendo que ajeitar seu moletom por conta do frio. Aquela era, de longe, sua parte favorita do ano.
Ela entrou em um caminho praticamente vazio. Era relaxante passar por lá, ela sentia-se mais leve. Continuou andando, até que ouviu um barulho, vindo do meio das árvores. “Esquilos”, pensou. Mas então, ela ouviu um choro de uma criança, e duas vozes cochichando:
— Ele não vai parar de chorar. Ele está com fome e está ficando mais frio, precisamos de um abrigo logo! – era uma voz feminina, que foi respondida por uma masculina logo em seguida.
— Eu sei, Tris. Nós podemos voltar naquele mercado para pegar mais coisas. Sobre o abrigo, prometo que darei um jeito.
— Não, não podemos. Eles já te viram roubando uma vez.
— Posso ser mais cuidadoso.
— Não, Teemo, não adianta. É muito arriscado e...
Teemo? Annie congelou ao ouvir este nome. Então resolveu aproximar-se para ver quem realmente era. Pulou a pequena cerca da estradinha de neve e passou por um arbusto congelado, sendo cuidadosa para não ser notada. No meio das árvores, encontrou três pessoas: uma menina e um menino, mais ou menos da mesma idade que ela, e uma criança ruiva, com os olhos inchados de tanto chorar. Os dois mais velhos carregavam mochilas cheias, que pareciam estar pesadas. Continuaram discutindo sobre o que fazer, quando o suposto Teemo, de costas para Annie, parou de falar de repente, e Tris não entendeu o motivo.
Annie estreitou os olhos para tentar entender também, até que seu celular apitou. Assustada, ela afastou-se do arbusto onde estava e, num segundo, desligou o celular. Quando voltou os olhos para o trio, eles não estavam mais lá. Ela olhou de um lado para o outro, tentando encontra-los, mas foi surpreendida por uma voz séria, atrás dela.
— Perdeu alguma coisa aqui?
Virou-se, assustada, e deu de cara com o garoto. Alguns metros atrás, estava a garota com a criança no colo. Ao ver o rosto de Annie, Teemo ameaçou descruzar os braços e arregalou os olhos. Ela tinha um rosto bem familiar para ele.
Annie, assustada, não o reconheceu. Nem seria possível, pois, cinco anos atrás, Teemo não era humano. Agora, ele tinha olhos azuis, cabelos pretos e bochechas rosadas. Ela estava com o cabelo longo, levemente enrolado, lentes de contato azuis, e estava com 17 anos. Mesmo assim, Teemo a reconheceu. Ela ainda tinha o mesmo cheiro e o mesmo olhar.
Os dois continuaram se encarando. Ambos não sabiam o que fazer. Até que, por medo e instinto, Annie saiu correndo e Teemo olhou para Tris, como se perguntasse o que fazer.
— Não fique aí olhando! Vá atrás dela, ela pode ter ouvido alguma coisa e nos denunciar! – a garota gritou.
Teemo revirou os olhos, mas obedeceu e começou a seguir a garota pelo parque. Eles passaram por alguns turistas distraídos, até que ele decidiu pegar um atalho, pois conhecia o parque todo como a palma de sua mão.
Annie estava correndo rápido, tentando ignorar o vento frio que parecia estar cortando a pele de seu rosto. Olhou para trás mais uma vez, mas surpreendeu-se quando não avistou o garoto. Diminuiu sua velocidade, até encontrar-se andando depressa. Olhou para trás de novo e, quando se virou, chocou-se com Teemo e caiu sentada no chão.
— Nossa, desculpa! – ele disse, estendendo a mão para a garota se levantar.
Ela arqueou uma sobrancelha, pensando no que faria o garoto pedir desculpas.
— Você não quer ajuda para se levantar? – ele perguntou, após alguns segundos, quebrando o silêncio.
— Por que está me seguindo? – ela finalmente disse alguma coisa, levantando-se sozinha.
— O quê? Como assim? Na verdade, a pergunta certa é: o que você estava fazendo ouvindo minha conversa com a Tristana?
— Tristana? — ela arregalou os olhos, assustada. Se os dois fossem realmente quem ela estava pensando, eles seriam as primeiras pessoas da Runeterra que ela encontrara em 5 anos.
— O que tem ela? – Teemo inclinou a cabeça, tentando entender qual o problema.
— Vocês...Quem é você? Vocês passaram pelo portal?
Todos os que tinham conseguido passar pelo portal, mantinham segredo. Primeiramente, ninguém acreditava quando eles diziam que vieram da Runeterra/de outra dimensão. Além disso, eles ainda tinham algumas habilidades especiais.
A maioria deles tinha “poderes”, algo comum na dimensão da Runeterra. Outros, como Teemo, nem tinham uma forma humana. Quando eles vieram para a dimensão da Terra, em apenas uma semana, foram se tornando humanos e seus poderes foram reduzidos. Alguns chegaram a ser capturados pelas Forças Especiais Americanas, porém todos conseguiram fugir com sucesso e se esconderam tempo suficiente para adquirir a aparência humana. De qualquer forma, ainda haviam mandatos de busca por qualquer um que tivesse saído daquele portal em 2012.
Teemo não soube o que responder. Ela não o reconhecia. Os dois ficaram se encarando até que Tristana chegou com o menininho ruivo no colo. Finalmente, ela pode observar o rosto de Annie com mais clareza.
— A... ANNIE?
— Eu... nós nos conhecemos? – Annie conhecia apenas o nome, mas não seria capaz de reconhecer nenhum dos três.
— Teemo, vamos embora. Agora. – a voz de Tristana era séria.
— Como assim? O que deu em você? – Teemo respondeu, confuso.
— Não devemos manter contato assim, principalmente com quem veio da Runeterra. Você sabe. Ou quer atrair mais policiais para mais perguntas desnecessárias?
— Mas ela pode nos ajudar. Eu sei que você não gosta de ajuda, mas você poderia, pelo menos uma vez, me ouvir?
Tristana bufou, estressada. Ela odiava precisar de ajuda. Virou-se de costas e foi andando em direção a um lago congelado, na tentativa de distrair a criança que estava em seu colo para que ela não chorasse novamente.
— Você tem dois minutos. – ela disse, enquanto se afastava dos dois.
Teemo suspirou, tentando entender de onde vinha tanta teimosia. Virou-se para Annie e então começou:
— Annie, eu tenho certeza que você não nos reconheceu, mas eu sou Teemo, aquela é a Tristana e o bebê é o Gnar. Éramos yordles na Runeterra. Nós três passamos juntos no portal e nos escondemos até virarmos humanos. Fomos encontrados e levados para um orfanato. Só que, depois de um tempo, uma família quis adotar o Gnar e a Tris não queria deixar. Nós fugimos de lá, passamos a viver escondidos em casas ou locais que não estavam sendo ocupados por ninguém.
Annie ouviu tudo com atenção e não pôde deixar de sentir dó. Ela também passou bom tempo em um orfanato, porém sempre recebeu atenção e carinho de uma funcionária, May. Com idade suficiente para se virar sozinha, ela arrumou um emprego e alugou uma casinha bem pequena com a ajuda de May. Apesar de tudo, ela vivia feliz. Aparentemente, Teemo, Tristana e Gnar não tiveram a mesma sorte.
— Vocês.. Por que você não procurou um emprego?
— De verdade, eu tentei. Só que, no nosso orfanato, não tivemos nenhum tipo de aulas. Eu precisava saber ler e escrever para conseguir qualquer emprego. Sabe, este mundo é estranho, eles falam a língua comum mas escrevem de forma diferente. – ele suspirou.
— Nossa. Onde vocês estão morando agora?
— Na verdade, acabamos de ser expulsos de um barracão. O dono voltou e, bem, nos encontrou lá.
— Não acredito. Vocês estão na rua? – Annie arregalou os olhos, preocupada.
— Mais ou menos isso. – Teemo respondeu, coçando a nuca.
— Eu... Eu não posso deixar vocês assim. Principalmente nesse frio. – Annie parou e umedeceu os lábios, pensando se não se arrependeria do que estava prestes a fazer. – Minha casa não é tão grande, mas cabe vocês lá. Posso te arrumar um emprego e talvez assim você consiga até alugar uma.
Teemo nunca ficou tão feliz em toda a sua vida. Ele seguiu Annie com um sorriso no rosto e com Gnar no colo, por todo o caminho. Os dois conversavam e riam, colocando os assuntos em dia. Tristana estava enfezada, afirmando que aquilo não era uma boa ideia. No fundo, ela sabia que aquilo eram apenas ciúmes, mas não queria admitir para si mesma.
Quando chegaram, Teemo e Gnar se mostraram impressionados. Era um mezanino metálico pequeno, espremido entre os prédios de New York. Era simples, porém fora muito bem decorado por Annie, mesmo que de forma simples. Embaixo, ficava a cozinha e um banheiro pequeno, ao lado de uma lavanderia embutida na parede. Em cima, um quarto com um sofá e uma TV, pequena também. Era tudo simples, porém os vasinhos de flores e as paredes pintadas pela própria Annie deixavam o ambiente agradável.
— Então, aqui é pequeno, mas não se preocupem. Acho que tem espaço suficiente para nós – Annie explicou, enquanto colocava as chaves e a mochila em uma mesinha perto da porta.
— Não vamos ficar muito tempo. – Tristana disse, com ar de estresse.
Annie não entendia qual o motivo que deixava Tristana tão estressada. Ela não costumava ser assim antes, na Runeterra. Talvez os cinco anos nesta dimensão haviam deixado-a mais fria, porém Annie decidiu não perguntar. Estava presa nestes pensamentos quando percebeu que precisaria de mais um colchão. Sua cama era de casal, ela poderia dormir com Tristana, caso ela aceitasse. Gnar ficaria no sofá, porém não havia lugar para Teemo.
— Eu preciso ir correndo comprar um colchão, antes que as lojas fechem! – ela assustou-se ao ver o horário – Vou comprar janta para nós, volto daqui a pouco!
Annie começou a sair apressada, então se preocupou ao perceber que estava deixando aquelas “visitas” em sua casa. Sentiu uma pontada de medo, talvez eles não fossem os mesmos. Estava tendo estas paranoias, quando ouviu uma voz:
— Eu te ajudo, você não vai conseguir trazer as coisas sozinha! – Teemo postou-se ao lado dela, com um sorriso simpático no rosto.
Ela sorriu de volta, pensando o quão injusta seria se tivesse medo de deixar seus velhos amigos em sua casa. Ela os conhecia, afinal.
Então, ela e Teemo foram andando rapidamente, deixando uma Tristana nada satisfeita para trás.
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