Quando passei por aquela porta

6 Capítulo seis - Austrália? Cancelada


Depois do que aconteceu, decidi cancelar minha viagem para Austrália. Apesar de querer ir muito e de que estávamos agindo naturalmente, como se nada entre nós tivesse acontecido, o que não era como eu pensava, gostaria muito de voltar ao meu lar, onde posso ter minha segunda chance.

E mais uma vez lá estava, dentro de um avião, pensando nele. Como eu era uma adolescente rebelde naquela época. E é aí que eu começo a lembrar da minha irmã. Não a culpo, mas depois que ela se foi, fiquei sem ninguém, não tinha amigas, era a mais quieta da sala, não abria a boca para nada. Eu era inteligente, de fato, mas não era isso que todos os garotos daquele tempo se importavam. Todos, menos um. Eu não fazia nada daquilo para impressionar ou chamar atenção, eu só queria ter meu próprio espaço, pensar sozinha, comer sozinha, estudar sozinha, todas as ações que você possa imaginar, sozinha. Foi justamente naquela época que Richard se aproximou de mim. Tudo bem pensei, ele já era amigo da minha irmã, mas nunca chegaram a ter um caso como todos pensavam, era apenas amizade. Ele visitava nossa casa as vezes, e eu até gostava disso, adorava quando trocava algumas mínimas palavras com ele. Ele tinha minha idade. Mas voltando a sua aproximação. Nunca entendi bem o por quê, mas ainda me lembro perfeitamente das palavras que ele me disse alguns meses após o falecimento de minha irmã.

— Sinto muito pela sua irmã. Ela era importante para mim também. Mas a pessoa que eu mais me importo agora, nesse momento, é você. Você era o real motivo por ter me aproximado de sua irmã, não que eu não gostasse da amizade dela, ela era uma pessoa incrível, mas sempre achei você divertida e interessante.

Se o que sinto por ele hoje, já fico louca, imagina quando eu tinha os meus quinze, dezesseis anos? Por sorte, ele disse isso quando estávamos fora do colégio e em frente a minha casa. Eu não sabia como reagir, mas decidi contar tudo o que estava preso dentro de mim, e não tive vergonha.

Algumas semanas depois já estávamos muito mais próximos, não passa um dia sequer sem nos falarmos, e eu adorava ter a companhia dele, nem que fosse através do FaceTime, era ele, e apenas ele me entendia. Começamos a namorar quando completei dezessete. Neste mesmo dia eu e ele concordamos em falar tudo para meus pais, não que eles não soubessem que rolava algo mais do que amizade, mas queríamos deixar isso claro, não queríamos esconder nada. E foi um dos melhores anos da minha vida até um pouco antes de iniciar minha faculdade, que foi quando terminamos, ou melhor, eu terminei com ele, e não sei exatamente o que eu tinha na cabeça para fazer isso, estávamos bem, íamos nos ver sempre, eu realmente não sei. Fiquei mal por semanas, fui extremamente mal nas primeiras provas, mas aos poucos consegui me recuperar. Já havia tentado entrar em contato com ele, mas não consegui. Com os pais dele então? Muito menos.

Eu tinha certeza que ele seria a pessoa certa em minha vida, mas se não fosse por mim, a famosa por estragar tudo, nada disso teria acontecido. Talvez dê para tirar uma lição disso tudo, mas ainda não consegui achá-la. Quando o passado volta a ser seu presente, tudo pode mudar, essa frase fica se repetindo em minha mente, acho que a li em algum livro, não me lembro ao certo, mas nunca teria ideia de que isso um dia poderia acontecer comigo. Não tinha mais nem esperanças de que um dia pudesse revê-lo, ainda mais acontecer tudo o que está acontecendo agora.

***

Acordei com um impacto, assustada, estávamos aterrissando no Aeroporto de Milão, e eu agradeci eternamente por estar pisando em terra italiana, minha querida Itália. Adoro o frio daqui, odeio extremamente o calor.

Comprei um chocolate quente em um desses restaurantes que tem nos aeroportos e esperei minha mala, Nykolas foi ao banheiro, aproveitei para enviar uma mensagem ao Richard.

“Oii, estou em Milão, sabendo que você está em Trento não consegui ficar nem mais um minuto do outro lado do mundo sem você :3 Bjs”

Às vezes me acho uma boba escrevendo certas coisas, mas com ele posso ser aquela adolescente de dezesseis anos, com todas aquelas piadas sem graça, com toda a minha teimosia, que ele vai me amar e ainda por cima rir muito de mim. Somos diferentes em alguns aspectos. Ele é alto, loiro de olhos azuis, veste roupas geek, e é uma das coisas em que mais amo nele e que possuímos em comum, e o sorriso dele é o que mais me encanta, me faz perder a cabeça. A profissão dele? Bom, quando ele foi ao meu apartamento e pediu que eu contasse tudo o que havia acontecido, ele também falou um pouco sobre sua vida, – Sou um Youtuber, faço gameplays, acho que você lembra – disse. Quando ainda estávamos juntos, eu sempre ia a casa dele assistir gravando, mas achei que fosse mais por diversão, para passar o tempo, e não é que ele levou isso a sério? Ele me contou ainda que graças aos jogos ele viajou para vários lugares em que precisasse falar inglês, no qual, aprendeu a falar graças também aos jogos. E isso é incrível.

Depois que eu meio que o expulsei do meu apartamento, vi um bilhete na bancada da cozinha e lá estava o nome do canal dele, resolvi pesquisar e deixei nos meus favoritos para que qualquer dia eu pudesse ver.

Terminei meu chocolate quente e recebi uma mensagem dele. Não vi e nem respondi, resolvi pegar minha mala e procurar um táxi com Nykolas. Não demorou até que chegasse ao meu apartamento. O que me pegou de surpresa era quem estava me esperando no hall, Richard. Chamei para que ele me ajudasse, mas antes de tudo ele me abraçou forte, me levantando do chão, parecia que não me via há muitos anos, foi bom, por um momento não me preocupei com os problemas estava passando. Nykolas viu tudo, ficou com cara de quem ficou chateado, apenas me deu tchau e partiu.

— E então, o que você veio fazer aqui? – perguntei.

— Eu vi a mensagem que me enviou e eu queria te perguntar uma coisa.

— Estou ouvindo.

— Não sei se apenas eu que percebi, mas parece que aquilo que sentíamos um pelo outro quando éramos adolescentes ainda está aqui. Admito que fiquei um pouco nervoso quando te vi no café – admitiu ele. – Lauren, quer namorar comigo mais uma vez, continuar nossa história?

— Oi? Você acha que é assim? Vem até o meu apartamento, me espera chegar e faz um pedido? – brinquei. – É claro que eu aceito – falei por fim.

Ele me ajudou a subir com as malas e organizar o meu apartamento, o que eu não fazia há alguns meses. Eu estava faminta, apesar de que comi durante o vôo. Aliás, estou sempre com fome, pareço ainda quando adolescente, que não parava de comer, porém, agora o problema é que posso engordar uma das partes mais tristes. Pedi uma pizza de margherita, pois lembro que era a preferida dele. Quando desligo o telefone ele se aproxima de mim, achei que ele iria me beijar, – Feche os olhos – ele disse, e eu fechei. Não sabia o que estava acontecendo, mas senti algo gelado em meu dedo, de imediato abri os olhos, e era uma aliança de compromisso, – Vamos começar certo dessa vez – e me beijou.