Notas iniciais
Atenção: Cenas podem conter insinuações de violência, mortes e nudez.

O cheiro de terra molhada o invadiu. Ao longe sua alcateia uivava para a lua. Preparavam-se para a caçada. Suas garras apertaram a terra, seu corpo sacudiu emocionado. Ele ergueu o longo focinho para a lua e uivou. Uivou pela alcateia, uivou pela família que estava se dividindo, uivava pela caça.

Como alfa ele devia liderar e começar a se mover pela floresta, mas algo em seu coração fazia com que ele permanecesse.

Seu beta e melhor amigo cutucou seu flanco. Ele olhou bem para o lobo cinzento ao seu lado. E o lobo curvou as orelhas para trás. Um gesto de preocupação que ele adorava. Sob a pele do lobo, eles não podiam usar palavras, mas seu gestual era o suficiente. Aaron começou a trotar para a floresta e parou novamente. Seu pelo eriçado. O som de casco de cavalos não estava longe. Ele não pensou duas vezes, virou-se e correu para longe dos cavalos. Sua alcateia o seguiu, agora em silêncio.

Eles corriam rapidamente, contornando ao longe a extensão dos lares humanos. O vento contra o pelo, a terra estremecendo com a presença da alcateia. Um uivo de aviso do beta e Aaron estancou novamente no chão. Algo estava errado.

Olhou para todos os seus lobos. Alguns curvaram-se à sua vistoria. Outros recuaram. Mas estavam todos ali. Bernard uivou de novo, focinho no alto, cheirando.



O fogo estalava e dissolvia tudo que tocava. Ronan sentia suas mãos atadas enquanto via imponente sua casa queimar com sua esposa e filha dentro. Um som incomodava seus ouvidos, e no futuro ele diria que foram os lobos uivando ao longe, mas não. Era apenas ele gritando, com lágrimas que ninguém secaria. Ele não viu ou sentiu o golpe chegar. O ferro quente marcava sua pele, mas Ronan só tinha olhos para o que era sua casa.

O soldado puxou-o para longe, em direção a carroça. Iriam levá-lo por um crime que não era dele, uma pena injusta e duas vidas inocentes perdidas aquela noite. Quantas mais estariam acontecendo nesse exato momento? Empurraram-no contra uma jaula. Uma jaula de animal para um homem. Por que?

- Não sou bruxo! Elas não eram bruxas!

Outro golpe, dessa vez de chicote. Ronan enrolou-se quando o sangue escorreu. Sua cabeça girou e ele sentiu a consciência dizer adeus. Envolvia-se na nevoa dos sonhos, ouvindo gritos de dor. Eram dele? Ele nunca saberia.

A lua clamava por ele, seu lobo rosnava dentro dele. Sua mente colorindo imagens de caçadas, um cervo caindo. Seus lobos comendo. Ele queria apertar as mãos e gritar de raiva. Não podia, sua carga acordaria. Aaron caminhava vacilante pela floresta. O corpo tremia com cada passada, mas ele devia ser forte. Ele era o alfa, e como tal, o mais forte. Seus lobos cercavam-no, dando forças, olhando admirados seu poder. Era necessário.

Lágrimas escorriam por seu rosto. Lágrimas de dor e raiva. Ele parou e ergueu o rosto, seu cabelo longo caindo contra suas costas. O vento açoitava-o e então ele gritou, lamento em seu tom de voz. E seus lobos seguiram sua voz. Cantavam pela morte, mas não pela carne fresca. Aaron queria dizer para que eles fossem caçar, mas isso apenas incitaria seu lobo a fazer o mesmo. Ordenava a mente a parar com imagens de desejos que não seriam realizados. Não enquanto não carregasse seu fardo para seu destino. O homem em seus braços remexeu-se, abrindo lentamente os olhos. Ele o acordará?

- Volte a dormir.

- Minha... família…

Engasgou novamente. Balançou a cabeça lentamente. Apertou um pouco mais as mãos contra a pele do homem. Ele cairia na inconsciência em breve. Não era necessário pedir para que descansasse. Aaron andou pelo que pareceu anos. A escalada em forma humana era cansativa e perigosa. A noite toda foi velado pelos lobos, que não afastavam-se dos dois. Ronan despertava de vez em quando, por segundos, apenas para voltar a apagar. O corpo cheio de feridas de chicote, braseiros e muito mais que não seriam vistas a olho nu. As piores, feitas em seu coração e mente. Quando Ronan despertou de vez, deixou-se cair ao chão e bateu com as mãos no peito. Ele queria arrancar o coração e dar ao seu salvador, mas tudo que pode fazer foi chorar. Os lobos não acompanharam seus lamentos, mas sentaram e esperaram, solidários em sua dor.

Quando Ronan olhou para o homem nu, que o carregou pelo caminho tortuoso do vale, perguntou-lhe por que não o deixou morrer às mãos da inquisição.

- Você é minha família Caeth. Não tem meu pêlo, nem meu sangue, nem parte do meu povo é. Mas você é família. Eu… — Aaron estendeu a mão ao peito — … sinto não ter chegado antes.

Ronan deu apenas uma olhada aos lobos ao redor dele. Lobos selvagens, esperando ao lado de dois humanos. Um estalo em sua mente já castigada. Aaron tremia e parecia lutar contra algo dentro de si. Os olhos brilhavam, e quando abria a boca para falar, ele podia entrever os caninos longos. O mundo era cheio de criaturas que a humanidade desconhecia, e que deveria temer. Mas Ronan não temeria o homem que o salvou. Ronan não precisava erguer o olhar aos céus para saber que era lua cheia. Sua mulher havia dito há alguns dias. Eles estavam contando as luas para o nascimento de seu próximo filho. Ou filha. Ele não saberia mais.

- Transforme-se.

- Não

- Faça… É doloroso?

- Eu devo levá-lo para longe daqui.

- Para onde?

- Casa.

Ronan balançou a cabeça desacreditado. Sua casa queimou e não sobrou nada para contar história. A casa que seu pai havia dado suor e sangue para construir. O lar envolvido de calor e amor entre ele e sua esposa. Destruído. A sepultura de sua família. Aaron empurrou-o pelos ombros para continuar a andar. Os lobos o seguiram e, tudo que pode fazer foi acompanhar. Eles andaram por todo o vale, e quando paravam para dormir ou comer, os lobos enrolavam-se ao redor do dois. E mesmo com o corpo aquecido deles, Aaron continuava a tremer. Ele não dormiu, não comeu. E quando os lobos traziam carne aos dois, ele apenas entregava sua parte a Ronan.

Depois de atravessar o vale, subiram a encosta. Quando finalmente chegaram ao topo, uma fileira de pedras erguia-se imponente aos céus. As árvores pareciam ter se afastado e dado espaço para a vasta campina com flores e alguns troncos caídos. Uma região intocada pelo homem. Aaron caiu de joelhos na grama e gritou. Desde a vez que ele falou que iria levar Ronan para casa, ele não falou uma única palavra mais. Certificou-se que o homem comia e mantinha-se vivo, mas o lobo cobrava por atenção. Sua mente sempre recebendo imagens de caçadas e liberdade. Aaron enviou uma imagem a seu lobo, uma única que foi o bastante para calar a fera: seus lobos queimando vivo diante dele. Sim, isso foi o bastante. As bruxas foram tolas, incapazes de se manter ocultas, cegadas pela vaidade. E agora inocentes pagavam por seus atos. Se o homem não poderia lidar com as bruxas, que só mostraram uma pequena parte de seu poder, o que diriam do seu povo? O que diriam dos homens que tinham lobos presos em sua alma e que podiam mudar?

Não! Não era seguro viver perto do homem. Ele parou de gritar e olhou para Ronan. Não podia aguentar muito mais. Sentiu seu corpo mudar, os olhos triturarem e o pelo crescer. Ouviu o homem inalar fortemente, antes de virar o corpo e uivar de alegria. Liberdade. Seu povo o rodeou e ele correu pela campina antes de perder-se na floresta. Deixou o lobo assumir controle e vagou pela noite afora.

Ronan sentou-se na grama e esperou. Não tinha o que fazer ou para onde ir. Sentou-se sobre uma das muitas pedras e olhou para o mar. Sua filha gostaria dessa terra. Era bonita e ela poderia usar as flores da campina para fazer coroas. Sua mulher colheria o mel de alguma colmeia por perto. E ele caçaria para elas. Sim, aqui seria um bom lar. Ele aguardou Aaron voltar. Aguardou por dois dias e duas noites. No final do terceiro dia, oito homens caminharam em sua direção. Não os havia visto antes, mas entre eles reconheceu dois: Aaron e Bernard. Nenhum deles tremia ou tinha os olhos brilhantes. Andavam com tanta altivez, como se a terra ao redor lhes pertencesse. Alguns mantinham a cabeça baixa, alguns mais afastados. Mas os dois homens vinham em sua direção.

- Quero um lugar pacifico para meu povo.

Aaron disse sem preâmbulos. Já tinha pensado sobre isso e estava apenas contando um fato. Mas ele precisava da opinião do homem. Ele tinha um futuro pela frente e seu povo precisava dele. E ajuda seria necessária.

- Eu também quero um lugar seguro para os meus amigos. Amigos que não tem pelo como eu.

Ronan olhou para a campina uma vez mais. Ele não tinha saído daquela posição desde que Aaron partirá. Ele perdeu tudo e não tinha um motivo para viver, estava se perguntando o que aquele homem lobo queria com ele. Não sabia que ele era um homem lobo, mas sim que era um comerciante de peles, que frequentava a mesma taverna que ele.

- Lobos quando crescem demais e ficam velhos demais perdem a razão de viver.

- Por que?

- Por que vivem por tanto tempo e acumulam tanta experiência que eles precisam de algo para firmar sua existência. Eles precisam de uma sensação de proteção.

- Eu os entendo — Ronan afirmou. Ele perdeu a família, e estava enlouquecendo — Alguns escolhem morrer?

Bernard abaixou a cabeça em sinal de respeito. Não era preciso palavras. Era nítido que a dor da loucura era demais para alguns.

- Eu quero construir um lar para voltar Ronan. Quero um lar longe dos humanos que matam apenas porque alguém é diferente.

- Sou um humano.

- Você é diferente. Ronan Caeth, fique aqui conosco. Os lobos ouvem minha voz por que eu sou seu alfa. Seja o alfa do seu bando e juntos vamos criar um lugar ideal para os inocentes. Aqui ninguém sofrerá o que sofreu.

- A inquisição virá por nós

- Não se nós lutarmos. Não aqui. Não deixarei que ninguém interfira em nossa lei. Nosso povo. Jamais, sangue inocente será vertido nessa terra.

Ronan olhou para aquela terra e depois para os lobos. Eles pareciam resolutos. Aaron aguardava a resposta como o rei que ele era. Não pressionaria. Ronan suspeitou que era apenas porque ele tinha tempo. Tempo! O que ele faria com tanto tempo? Olhou para o mar ao longe. Ele era um homem simples, um fazendeiro que vivia para o sustento de sua família. Virou e olhou cada homem lobo nos olhos. Parou finalmente em Aaron e Bernard. Eles estenderam a mão para ele quando precisou, maldição, eles mataram por ele. Quantos dos outros lobos não tinham humanos que como ele, precisavam de ajuda. Ronan respirou fundo, ergueu a cabeça ao alto e uivou. Risadas dispararam, antes que pudesse ouvir outros sons acompanhando-o em sua cantoria desengonçava. Aquilo era um bendito sim. Os olhos de Aaron brilhavam quando eles se olharam. Até que ele se virou para seu povo, ergueu a mão de Ronan e gritou para a floresta e para todos que nela viviam.

- Vida longa aos Caeth.