“As vezes acho estranho me acostumar, e tive anos para fazer isso. Ela teve dias… Dias turbulentos. As vezes ela me lembra minha mãe. E as vezes quando tudo em seu gestual diz algo, eu fico esperando que ela faça alguma loucura. Estou esperando o dia em que tudo entre em que o apocalipse aconteça, apenas por que a ancora da nossa vida não está mais aqui. Como humana tenho anos limitados, então minha dor partirá com minha morte? Não imagino o que aconteça com aqueles que vivem por mais…”

Tete-a-Tete com S&S



Saber o que é um pesadelo e vivê-lo são duas coisas completamente diferentes. Nesse exato momento ele andava de um lado a outro dentro da sua cabana. Era antiga, preservada, ainda tinha o cheiro de lar. Mas não havia mais o calor da vida dentro dela. Seu melhor amigo e braço direito olhava-o caminhar. No chão da cabana de dois cômodos, estavam vários jornais espalhados. Eles detestavam as tecnologias, mas não a ignoravam. Elas faziam parte de seu mundo e através dela puderam conservar-se. Ele parou diante da janela e observou o exterior. Não ficou muito tempo e voltou a movimentar-se.

– Você não vai me dizer o que te aflige? – A voz naturalmente rouca de Bernard encheu o cômodo – Não deveria ficar preocupado com isso, sabe, para o mundo, estamos mortos.

Aaron parou de andar e ergueu o olhar para Bernard. Seu amigo não tão falador estava ditando discursos. Passou a mão pela barba que insistia em crescer e pinicar, mas ele a mantinha apenas por que ela tinha dito que não gostava de homens de rosto liso. O rosto quadrado, duro, moldado como um homem que exalava másculo. Seus olhos contraditórios, olhos cinzas e delicados. Olhos de um amante, não de um lutador. Cabelo bagunçado de tanto ele passar suas mãos por cima. Aaron era facilmente confundido entre os seus como sendo um homem lobo comum. Com o passar do tempo, aprendeu a esconder seu poder. Mas agora pouco importava quem ele era ou o que ele era. Ele respirou fundo e fechou os olhos concentrando-se. No chão notícias de mortes, na mente o sumiço de sua amada.

– Eles a levaram Berny. Tanto para protegê-la. Eles são meus. Todos eles, mas ela era mais do que minha...

– Nós vamos encontrá-la.

Esse era seu beta. Resoluto. Mas eles, como bem tinha falado, estavam mortos para o mundo. Sua alcateia era de lobos que queriam sumir de alguma forma. Aaron mantinha sua alcateia e tomava conta da vila que ele ajudou a erguer. Eles eram seu passatempo, aquilo que mantinha seu lobo sadio. Estranhou a ausência de raiva do lobo para com o sumiço de Emer. Quando questionava seu lobo, ele enviava uma imagem de Emehir, então sua visão mudava para pássaros voando e ao longe uma alcateia correndo, liderados por um lobo marrom claro com manchas brancas pelo corpo. Aaron gostava de seu lobo, mas quando suas imagens não faziam sentido, ele só queria mandar seu lobo pastar. Apenas não o fazia porque eles eram um.

– Só espero que a encontremos viva — Aaron desceu seu olhar para as noticias — Eu não queria isso. Veja. Mortes e mais mortes. A humanidade não estava pronta para nós, nunca estará.

Bernard balançou a cabeça negando. Eles já haviam discutido aquilo várias vezes. O som de passos do lado de fora da cabana o incomodou. Bernard era leal ao seu alfa e por saber que ele amava sua alcateia, mantinha suas opiniões para si, mas as vezes ele preferia que sua alcateia fosse apenas os dois. Seria tão mais fácil. A porta abriu abruptamente e dois armários entraram. Homens lobos nascidos geralmente nasciam de ninhadas, as vezes podia nascer apenas um bebê, as vezes nasciam seis a sete crianças. Alguns muito idênticos, outros apenas com traços similares. Aqueles dois não eram gêmeos autênticos, mas suas caracteristicas eram assombrosamente parecidas. Duncan e Dunat Maedov. Os anciões e lobos gama, eles tinham a cabeça raspada, rosto oval, faces intimidadoras. As diferenças eram minimas, Dunat tinha um nariz mais arredondado, Duncan um rosto mais alongado. Mas eles se moviam como gêmeos, mesmas passadas, mesmo respirar. Muitas vezes até o mesmo cheiro.

– Precisamos que alguém se torne o Brenin, precisamos do nosso rei — Dunat expôs seus pensamentos mais uma vez ao alfa.

Bernard rosnou para os gêmeos. Outros lobos teriam recuado. Não estes. Estavam de pé de igual para igual. Dunat continuou ignorando o aviso do beta. Ele não tinha muito a perder. Não seria a primeira vez que se mostravam os dentes ou afincavam um na pele do outro. Apesar que sabia que Bernard era um verdadeiro lorde. Apelaria para a violência apenas em ultimo caso.

– Com o Brenin, teríamos o poder para ir aonde quiséssemos. Ele nos autorizaria procurar sua amada. Não teríamos porque temer a ação de outras alcateias. Poderíamos ser livres para correr como lobos uma vez mais.

Mais do mesmo… Eu me lembro de quando ele assumiu como Brenin. O peso, a carga em seus ombros. Ah o Brenin, o rei dos alfas. Aquele que deveria gerir e manter não somente a sua alcateia, mas como todas as alcateias de um vasto territorio de terra. Ouvir as necessidades de todos… A morte de todos… A alegria de todos. O lobo de Aaron uivou em acordo. Ele também não parecia gostar dessa posição. Ele já tinha muito em mãos. A vida de seu povoado, todos humanos. Humanos frágeis demais para cuidar de si mesmos. Nós já somos Brenin não é mesmo ? Nós já somos Brenin de nosso povo. E até agora, um Brenin no mundo já é o suficiente. A humanidade não nos entenderia, acha que há apenas um líder por grupo sobrenatural, que assim seja.

– Não. Mesmo se houvesse um Brenin aqui, e se houvesse Dunat, você sabe muito bem que não iria expor nossa presença a ele. O alfa das terras escocesas morreu em uma disputa apenas pela coroa lupina. Mas um Brenin assumir agora poderia ser o primeiro passo para uma guerra mundial. Como estava dizendo antes, a humanidade não está preparada para nós. Por Deus, eles não estão preparados para si mesmos. Eles se matam apenas por conta da diferença da cor de pele. Nós lobos não temos problemas com isso.

Aaron terminou de falar e encarou os gêmeos esperando alguma contradição ao que ele falava. Eles poderiam enfrentar o beta, mas não seriam tolos o bastante para ir contra seu alfa.

– Claro que não temos problemas com cores. Somos daltônicos por natureza

Duncan zombou, arrancando risadas de seu alfa. Ele era o gêmeo brincalhão e Aaron o amava por isso. Bernard franzia o cenho, ainda pensando no que Duncan tinha falado.

– Mas eu não sou daltônico.

– Você sempre estraga uma boa piada. — Duncan bufou, mas mantinha um sorriso divertido nos lábios, dando-lhe um ar aterrorizante — Os anos podem ter te dado sabedoria Bernard, mas também tirou toda sua veia cômica.

– Ela alguma vez existiu? — Dunat olhou intrigado ao seu gêmeo.

– Façam um favor ao mundo. Apenas engasguem com sua própria saliva. — Bernard rosnou, mas ao ver que Aaron agora estava mais relaxado, curvou o rosto num agradecimento — Vamos sair para a lua. E então, iremos dar um jeito de encontrar Emehir.

Aaron concordou com seu beta. Ele deu uma ultima olhada nos jornais enquanto tirava sua roupa. Não gostava da situação, com as mortes humanas com ataques caracteristicos dos sobrenaturais, ou que pareciam ter sido feito por estes. E agora a morte dos seus. Os que não viviam em bandos como os lobos eram os mais atingidos. Ele rezou, como não fazia há anos. Rezou para que sua amada estivesse sã e salva, e que seja quem for que estivesse matando todas essas pessoas, que não mexesse com a pessoa errada. O mundo era um grande celeiro de feno, só esperando por uma faisca para levar tudo abaixo. Aaron também esperava que ele agisse antes disso.



Isis terminava de retocar sua maquiagem. Ela colocou seu cabelo loiro escuro para o topo da cabeça em forma de um coque, igual ao que viu a realeza britânica usar, e para segurar o cabelo cheio, usou sua presilha em forma de coroa. Os brilhantes delicados eram seu charme. Olhou no espelho e viu o reflexo dos olhos com o khol, realçando seu olhar bem aberto e castanho. Ela sempre admirou sua própria beleza, e acreditava ser muito parecida com a bonequinha de luxo, como uma verdadeira sósia, sua doppelganger. Obviamente dizia que era mais bonita que a atriz. Ela colocou suas joias favoritas, mesmo sabendo que poderia irritar Kallai. Ele havia proibido as pedrarias. Mas Isis precisava de algo seu. Algo para lhe pertencer.

Ela tinha seus próprios segredos e quanto mais o tempo passava, mais seu coração apertava de ressentimento. Isis era uma joia perfeita, que muitos brigariam para ter, mas Kallai, seu esposo e companheiro não parecia se ater a isso. Durante uma briga há alguns anos, ele mesmo afirmou estar com ela apenas por que jamais poderia amá-la. Não haveria amor para ela. Jamais. Por muitos anos, Isis lutou contra isso. Lutou para receber o mesmo carinho, mesmo que algo próximo ao que os filhos tinham. Mas, não bastava não ser uma realmente uma loba, o que tinha do alfa do bando era apenas respeito. Achou que viveria bem com isso, afinal que lobo aceitaria uma coiote em seu bando?

Isis viveu muito bem com isso. Mostrou que não importava como a tratavam ou a falta de carinho. Alisou suas joias, que fariam a realeza de qualquer lugar do mundo se curvar. Eram o seu amparo. A posição, o status quo, o poder de ser a mulher do alfa. Tudo estava até que bem. Todos seus fieis súditos lhe respeitavam, afinal quem é que iria ofender a mulher do alfa? Não apenas um alfa, mas o Brenin da América. Até que… Oh! Sempre tinha o “até que”. Emehir apareceu. Quando teve oportunidade Isis ficou comparando seu corpo delicado com o daquela mulher cheia de pele e gordurinhas indevidas e rosto tingido pela idade. Emehir não a enganava. Ela era pior do que Isis. Era humana. Uma ninguém, não… Ela era um demônio vestindo a pele de uma ovelha em meio aos lobos. Todos caíram de amores pela humana, apiedados pela situação em que teve que passar e admirando sua força para se erguer altiva, como se nada tivesse acontecido. Isis se coçava para não dizer que a admirava por isso, mas ela o fazia.

O problema maior era que sentia o lobo de Kallai, seu companheiro, roer o vinculo. Alguns diziam que o vinculo era uma magia poderosa, algo transcendental e unico. Nunca na vida longa e dos homens lobos ouviram falar de alguem quebrando o vinculo sem que envolvesse a morte do companheiro. Uma morte geralmente “natural”. Isis se quebrava por antecipação. Ela conhecia Kallai como ninguém, até mesmo mais que ele mesmo. O olhar dele era de amor e confusão. O amor… O amor que ela tanto desejou. O amor pelo qual tanto brigou. Ela o cheirava em seu lobo. Cheirava-o e não era para ela.

Sons de passos suaves pela casa. Ela não precisou cheirar o mel para saber quem era. Isis se enfureceu, afinal aquela era sua casa, seu recanto, seu palácio, enquanto Kallai não dissesse o contrário. Como foi a outra quem invadiu seu território, não se incomodou em retirar as joias. Tocou o colar de ônix que envolvia seu pescoço. Lembrou-se das presilhas da mesma pedra que estiveram no cabelo dela quando a viu pela primeira vez. Aquilo com certeza a atingiria. Os passos pararam diante de sua porta e o som de alguem batendo na porta fez-se presente. Isis pensou em fingir que não estava, mas uma rápida olhada ao espelho a disse que ela poderia gostar da reação da humana para com ela. Queria mostrar que era superior a ela.

Abriu a porta e se deparou com uma tremula humana. Emehir já tinha a pele pálida, mas nesse exato momento parecia que todo o sangue tinha sido drenado de seu corpo. Isis sentiu um aperto no coração. Ela teve o impulso de abraçar Emer e dizer que tudo ficaria bem, além de desejar ter tirado as joias antes de abrir a porta. E um ultimo pensamento se perguntando de onde tinha vindo tudo aquilo. Isis odiava esse seu lado de coração mole. Ela deveria ser forte. Afinal, era a mulher do alfa mais poderoso da America. Por enquanto...

Emer ergueu o olhar para Isis e olhou-a sem ver. Os lábios tremeram e esforçou-se para falar. Isis franzia o cenho, tentando entender o que estava acontecendo. Quando Emer finalmente ia falar algo, a coiote a antecedeu, cortando qualquer coisa que fosse dizer.

– Se veio procurar Kallai ele não está aqui. Passe cachorrinho.

Emehir engoliu em seco e o silêncio reinou entre ambas. Isis não iria dar as costas a ela. Esperava que a humana saisse de sua casa, assim poderia voltar às suas atividades de sempre.

– Vim por você.

Isis empinou-se toda para cima de Emehir. Ela era mais baixa do que a humana, e gostaria de mostrar sua superioridade. Emer olhou para suas joias e inalou bruscamente. Mas tão logo essa emoção tomou conta dela, parecia novamente envolta em uma nuvem de superioridade. Um olhar e o tremer parou. Enquanto Isis tinha que se esforçar para demonstrar algo assim, para Emer parecia apenas natural. Isis exalou percebendo que se alguém a visse portando joias, mesmo sendo a esposa do alfa, receberia um castigo. Fez um gesto para que a humana entrasse em seu quarto, e quando o fez trancou a porta. Não seguraria um homem lobo, mas daria tempo para se preparar.

– E o que iria querer comigo? Não quero nada de uma falsa como você.

Emer olhou para a esposa de Kallai e manteve essa pose de quem esta em um nivel acima dela. Isis ergueu as sobrancelhas exaltada, pois enquanto para todos Emer tinha sorrisos e palavras doces, para a coiote ela apenas mostrava esse ar de superioridade, e também, pena. A coiote sentia a mente em nevoas, apesar de detestar essa atitude que a humana tinha para com ela, em seu intimo, havia algo que implorava pelos toques de Emehir. Algo há muito esquecido por ela, algo que não podia definir.

– Veio aqui apenas para me admirar?

O cheiro de pena a sufocou. Isis se ergueu num salto contra Emer. Ela estendeu o dedo no rosto da humana e rosnou alto. Os olhos mudaram de cor, trazendo sua coiote a superfície.

– Não me venha com esse olhar de pena. Você não me engana Emehir Caeth. É uma falsa, com toda essa pose de Lady, de mulher delicada e bonequinha do passado. Mas eu sei a verdade. Sabe qual a diferença entre nós? Eu não tenho vergonha de admitir que gosto de ser admirada, não finjo que não gosto da influencia que tenho sobre todos ou que amo o poder.

– O problema é que ninguém te admira.

Emer falou com a voz calma. Não havia tom de insulto em suas palavras. Emehir não se mexeu para se defender contra o ataque físico e verbal de Isis. Mas suas palavras foram mais afiadas que qualquer lâmina. Isis não iria demonstrar que foi atingida na sua ferida aberta. A dor se fez presente, mas como humana, Emehir não deveria sentir isso. Apesar que o olhar condolente dela só fez insistir que Isis não foi boa o suficiente mascarando suas emoções.

– E é exatamente por isso que te admiro.

– Falsa — Isis bufou irritada — Mas o que quer comigo?

Era melhor mudar de assunto. Não queria mostrar mais fraquezas a inimiga. Quando recuou para olhar Emer como um todo, se assustou. A mulher tinha as mãos contra o ventre, num gesto protetor. Então o ataque de Isis teve efeito e, aquilo foi...defesa? Isis franziu o cenho e então uma luz em sua mente. Fixou o olhar no ventre de Emer. Uma pontada de inveja. Ela queria aquilo, mas Kallai se recusava a se deitar em sua cama. Se fosse pelo fator de que estaria preocupado com sua segurança teria se sentido melhor. Mas não, ele só não queria se ligar mais a ela. Não queria filhos com caracteristicas dela. Isis inalou forte procurando o odor de gravidez, mas não existia. Independente da especie, toda mulher grávida tinha um cheiro delicioso. Era um presente, uma dádiva. Cheiravam a céu e liberdade. Os homens amavam, e aos lobos, deixava-os doidos. O instinto protetor era forte demais para ignorar.

– Não está gravida.

– Estou sim!

– Não cheira a uma…

Emehir balançou a cabeça se recusando a ouvir a verdade. Talvez fosse alguma gravidez psicológica. Era problema da humana, não seu. Talvez Lothar a ouviria, mesmo que fosse um medico de corpo e não de mente. Emehir colocou a mão para dentro do sobretudo que usava, e Isis quase saltou preocupada que ela tirasse alguma arma. Uma rainha assassinada em seu quarto pessoal — a noticia passava por sua mente com letras em dourado. Porém, Emer tirou de dentro do sobretudo uma pequena caixa de veludo, parecendo uma caixinha de música. Ela estendeu a caixinha para Isis não como se fosse um presente, mas como quem não aguenta mais segurar o objeto.

– Aquele...aquele… Como ele ousou? Ele… Me enviou isso — A mão de Emer tremia enquanto estendia a caixa — Sei que gosta de joias. Tome, de presente.

Isis olhou para a caixa como se cobras fossem sair de dentro dela. Com receio aparou a caixa e a abriu devagar. Quando deparou com o conteúdo, sua boca se escancarou. Soube do que se tratava e agora entendia o porque da humana estar tremendo antes de entrar em sua casa.

– Ele está vivo — Isis falou mais para si mesma do que para a humana, mas a viu confirmar com a cabeça — Kallai sabe?

Emer balançou a cabeça negativamente.

– Não. E prefiro que não saiba. Eu vi o lobo dele quando me protegeu. Se souber que não o feriu o bastante para matar, vai se quebrar.

Isis mordeu o lábio, tentada a dizer que o monstro poderia vir para a cidade e machucar o povo, tentada a contar para Kallai tudo, mas doía saber que Emer tinha razão. Doía saber que tinham algo em comum. Ambas amavam Kallai a ponto de querer proteger sua alma e coração do que defender o povo.

– Se ele vir à mim, não deixarei que faça mal a ninguém que conheci. Eu me entregarei. Só, não deixe Kallai saber.

Sua coiote uivou de desgosto. Pela mesquinhez de ambas, e porque ela queria ser a pessoa a fazer isso. A querer se sacrificar pelo seu povo. Abaixou o olhar. Jamais se compararia a Emer. Era por isso que jamais seria amada?

– Eu o protegerei. É o meu homem. Se receber outro presente desses me avise. E vou levá-la as tundras eu mesma.



Shannon passeava pela loja dos artigos esportivos. Ela adorava aquele lugar, não que fosse comprar algum artigo esportivo especifico. Mas sim pela bela visão dos donos da loja. Os trigêmeos lupinos podiam ser um cartão postal da cidade. Adami, Baas e Chipo Collins. Os três não eram idênticos, mas nasceram de um mesmo parto e os únicos sobreviventes entre uma ninhada de cinco. Adami era o mais velho e tinha compleições e um rosto mais maduro. Rosto quadrado, bem definido, careca, olhos negros e dono de lábios em um perpetuo sorriso malicioso. Adami levava um cavanhaque bem cuidado, que servia apenas para realçar sua expressão maliciosa. O próximo mais velho — alguns minutos, como os próprios irmãos gostavam de ressaltar — estava Chipo. Dos irmãos, ele era quem tinha o olhar mais puxado. Olhos negros e mantinha sempre o cabelo curto à maquina 0. Ele tinha um ar mais sério, e um olhar que prometia a qualquer mulher, um homem que iria cuidar e protegê-las para o resto de suas vidas. Por fim e não menos importante estava o caçula, Baas. Era o lobo com aspecto mais jovem também, talvez o fosse pelo seu rosto ser um pouco mais curto que o dos irmãos, e também mais oval. Lábios mais cheios e olhos que pareciam brilhar. Seus olhos negros eram bem abertos, e tinha aquele ar de curioso. Dos três irmãos era quem tinha mais cabelo e vivia brincando com Shannon sobre o fato que ele era o único a gastar com shampoo. Só mantinha o cavanhaque no rosto, como se o pelo ainda estivesse para nascer no rosto. Mas ela bem o sabia, que toda essa aparência, era apenas uma fachada. Shannon desconhecia a real hierarquia e como eram as posições dos meninos, mas Baas passava tempo demais ao lado de Fergus. E quando o fazia, aquele ar jovial perdia-se para um rosto compenetrado, cansado e bem mais velho do que os outros irmãos.

Shannon estava parada diante das luvas de ski, admirando por cima da prateleira, os irmãos conversando animadamente, quando uma voz a sobressaltou.

– Você sempre pode ir até lá e cumprimentá-los.

Emehir sorria sem olhá-la, na verdade toda sua atenção estava para um cachecol cinza masculino. Era apenas um artificio. Emer não precisava comprar nada daquela sessão, ela simplesmente costuraria um para ela. Shannon voltou a olhar para os homens lobos e sorriu para Baas, que agora olhava diretamente para as mulheres. Eles tinham ouvidos ótimos. Teria que voltar a repetir isso para sua mais nova amiga.

– Bobagem tolinha eu ia cumprimentá-los tão logo decidisse qual luva levar.

Emer ergueu uma sobrancelha e finalmente olhou para Shannon. Ela deu de ombros para o comentário da escritora e começou a caminhar em direção à um senhor sentado no canto da loja. Ele movia suas mãos com destreza, esculpindo um pedaço de madeira. Era o senhor Punnu, o avô dos meninos lobos. Ninguém sabia qual era a idade real dele, mas por ter a fisionomia de alguém bem mais velho, todos acreditavam que ele foi um transformado e não um nascido. Tinha os cabelos cinzas, um rosto parecido com o de Adami, mas onde o rosto de Adami era liso, o de Punnu era trabalhado com as rugas do tempo. E pelo rosto, várias manchas como sardas cobriam as bochechas,, alguns pontos do nariz e a lateral dos olhos. Ele devia ter a idade de Dougal, ou seja, alguém tão velho quanto o tempo e que raramente falava sobre o passado com Shannon. Ela sabia que ele não queria suas histórias no blog. Ela pegou a primeira luva que estava a sua frente, apenas se certificando que era do tamanho correto e foi para o caixa, onde Adami agora operava, e ele sorria para ela como se o mundo finalmente fizesse sentido.

– Oi delicia, vou levar somente esse par hoje.

– Delicia? — uma voz raivosa interrompeu qualquer coisa que Adami fosse falar — Isso são modos de tratar alguém?

Shannon revirou os olhos e se virou para o interlocutor. Lothar era um médico respeitável, todos o admiravam, ele era a imagem do verdadeiro cavalheiro, todo pomposo, gentil e amigável com todos. Lothar era a figura do bom samaritano e filho prodigo que todos admiravam. Apenas Shannon e Emer, sabiam de sua pequena rebeldia com o corpo. Ela apostaria tudo o que ganhava que ele deveria ter alguma tatuagem macabra e outros artifícios espalhados pelo corpo. Shannon tinha evitado a clinica dele, apenas porque sabia o que o seu próprio corpo escondia. Quem era ela para julgá-lo? Ela tinha marcas que ninguém mais sabia. Marcas que jamais ousou mostrar à alguém. E agora diante do mais educado lobo, tudo o que podia pensar era em como faria para dobrá-lo, para vê-lo reagir como ele realmente era. Shannon tão acostumada a entrevistar e escrever a vida dos outros, podia não contar com um faro apurado ou um ouvido super especial, mas ela sabia, que Lothar escondia quem ele realmente era, e estava curiosa para conhecê-lo.

– Você se incomoda De.Li.Ci.A? — Shannon perguntou para Adami, ignorando Lothar.

Adami começou a rir e acostumado com as brincadeiras de Shannon balançou a cabeça, e mesmo que sua resposta era para a mulher, ele se virou para olhar a reação de Lothar.

– Nem um pouco boneca. Mas fico feliz que gostou do meu sabor…

Um rosnado alto se fez presente e todos na loja olharam para Lothar, que se virou e partiu da loja como um foguete. Shannon estava de boca aberta, mas recuperada da reação exasperada do médico, colocou as mãos na cintura, resmungou para Adami.

– Quando foi que eu te provei?

– Nos meus sonhos — Adami piscou para Shannon antes de começar a rir.

Um pigarrear desgostoso de Punnu. Emer acompanhava-o balançando seu rosto negativamente. Apesar de que uma leve pronuncia de um sorriso formava-se nos lábios dela.

– Crianças… — Punnu franzia o cenho, olhava de seus netos para a humana — Nunca tomam jeito…

– Não! Nunca — concordou Emer, agora com um sorriso delineado nos lábios.



Já fazia um bom tempo que Emehir estava entre os seus. Ela ajudava Sophie com suas funções graças a barriga realmente grande da loba, mesmo que ela tinha apenas 3 meses. O bando a amava como se ela fosse uma loba. A aceitação dela era intensa, e muitas vezes o alfa se via perguntando o porque. Ela parecia atrair a todos por onde quer que andasse, seja um homem lobo, seja humano, seja fae ou vampiro. Seja um maldito reptil gigante… Não vá por ai. O lobo rosnou com o pensamento. Kallai estava com seu conselho de anciões mais uma vez, e mais uma vez sua cabeça estava em outro lugar. O conselho estava responsável por administrar a visibilidade dos lobos aos humanos. Novas brigas, confusões vinham a ele de tempos em tempos. Foi Kallai quem quis mostrar-se aos humanos, pois quanto mais se escondiam e o tempo passava, mais os humanos desconfiavam. Os humanos não eram burros e iriam acabar dando por caça aos sobrenaturais hora ou outra. Isso já havia acontecido algumas vezes, e o resultado não tinha sido bom. Mas tudo o que podia pensar não era em marketing para mostrar o lado bom dos lobos e dos seres que antes eram apenas vistos como monstros… Ele estava pensando no que Emehir seria se fosse uma sobrenatural.

Psi. Kallai saltou a voz de seu lobo. Ele tinha que se acostumar ao fato de depois de milhares de anos, seu lobo finalmente decidiu falar. E ele falava eloquentemente sempre que o assunto fosse Emehir. Senão usava o artificio de imagens como todo e qualquer outro bom lobo. Kallai se concentrou no que o lobo tinha dito. Psi? Seria ela como Sophie? Sim, provavelmente seria. Um pigarrear o tirou de seus pensamentos, e ele olhou para Dougal. O velho lobo estava agitado. Provavelmente pensando em Emer também. Os olhos prateados estavam no lugar do negro de seus olhos humanos.

– Como eu estava dizendo… Shannon, a humana que mora na vila, ela tem feito uma boa campanha ao nosso favor sem que tivessemos que pedir. Porém fica dificil para que ela fale sobre nós, se a maioria dos que vivem no nosso povo não se abrir.

– Está enxergando pequeno Dougal, o que um blog fará de bem para nós? — outro ancião retrucou — O que nossas vidas particulares expostas ao mundo iriam fazer para com os crimes que estão acontecendo?

Dougal bufou e flexionou o corpo para frente. Kallai percebeu a dureza dos ombros do lobo ao fazer isso. Conheciam-se há anos e sabia que aquilo só podia significar que Dougal estava raivoso e frustrado. Ele era o tipo de pessoa que quando se afeiçoava à alguém, cuidava dela com garras e dentes. Por algum motivo que passou batido para o alfa, ele tinha se afeiçoado a humana. Será que por conta de Emer?

– É ai que se engana. A internet é um canal muito mais forte do que pensa. Essa semana eu deixei escapar para ela sobre como um dos nossos homens lobos da América do Sul entrou para a policia e os crimes diminuiram drasticamente na região em que ele atua. E como o trafico de drogas também foi suprimido em questão de tempos. Obviamente por ser o único homem lobo na polícia ele tinha que agir devagar, e também que morreu durante uma busca por um serial killer… Bem encurtando a história, ela publicou sobre isso e adivinha só o que aconteceu? As pessoas ficaram completamente chocadas porque desconheciam sobre o lobo e suas ações. Os comentários da publicação foram todos positivos. Alguns dias depois vi na mídia que houveram muitas passeatas pelo homem lobo morto.

Outro ancião coçou a testa. Estava intrigado.

– Ainda não vejo um ponto. O que isso fara para diminuir as mortes?

– Nada! — Dougal deu de ombros.

– Não nos faça perder tempo Dougal — o ancião rosnou para ele.

Kallai respirou fundo e interrompeu os lobos que haviam começado a discutir.

– Mas isto mudaria a atenção da mídia para coisas mais amenas, enquanto tentamos suprimir quem quer que seja que está atacando os sobrenaturais para coloca-los como monstros que devem ser extinguidos. Espalhem essa noticia aos lideres dos outros povos. Diga especialmente aos faes procurarem pelos escritores de sites reconhecidos e deixem histórias interessantes que estes pequenos curiosos estão ávidos a ouvir. E que fiquem atentos às suas comunidades.

Um som de batida de porta e todos os lobos viraram-se para olhar quem entrava. Alguns jovens lobos variando entre posições como gama, alguns delta, e uns dois ou três dzeta. Kallai resmungou. Mais problemas para resolver. Estranhou os lobos dzetas, eram jovens e ainda estavam definindo seu poder dentro da alcateia, ou seja, não tinham poder ou influencia alguma. Os deltas eram como os lobos que estavam em extremos de poder, eram dominantes, mas não o suficiente quanto os lobos gamas. A maioria dos homens do conselho eram lobos gamas, os que não eram tão velhos e mantinham essa posição acabavam por entrar. Dentro daquela sala deviam ter ao todo uns 40 lobos, apenas machos. Dougal ergueu-se do acento agitado. Nada de bom aconteceria ali.

– O que fazem aqui? — Dougal rosnou e o silêncio se fez presente.

Kallai levantou-se e ficou ao lado de Dougal, passou seu olhar por todos os lobos reconhecendo-os. Todos eles se curvaram, mas o cheiro deles estava distinto. Era um jeito de fúria e também de desejo de luta. Aparentemente todos eles queriam algo, e provável que era por um único objetivo. O que tinha acontecido na alcateia? Como que para responder sua indagação a porta abriu-se novamente. Isis entrou com um olhar irritado, atrás dela Emehir a seguia. Cabeça baixa e o cheiro de frustração e medo a acompanhava. Kallai e Dougal avançaram para as duas. Kallai para Isis, enquanto seu lobo debatia contra suas paredes mentais. Kallai parou a meio caminho quando compreendeu o que se passava. O cheio de Emer estava distinto, era um cheiro fresco e doce. Era o cheiro da gravidez.

Isis olhou de Kallai para Dougal e por fim parou seu olhar sobre os conselheiros. Ela parecia tentada a dizer alguma coisa, mas calou-se. Um dos anciões respirou fundo e soltou um uivo enfurecido. O lobo ameaçando tomar controle do corpo humano, mas ele precisava colocar em palavras, coisas que o animal faria em ações.

– Um feto de monstro. Ele deve ser destruído.

Os lobos que entraram na sala começaram a rosnar e falar um sobre o outro. Estavam em duvida, alguns concordavam com ele, mas não podiam ir contra uma gravida. Emer se encolheu e levou as mãos para proteger seu ventre. Isis instintivamente se colocou diante dela e Kallai olhou-as assombrado. Nunca imaginou que Isis agiria assim. O ancião que falou não perdeu tempo e se transformou diante de todos.

– Não! — Emer gritou e todos se calaram. Kallai estava para interferir quando ela ergueu o queixo e olhou para todos os lobos, alguns os quais concordavam com ela — É minha criança. O que aquele monstro fez para mim não é culpa da vida que cresce. Ela é inocente. Eu cuidarei da criança

O lobo rosnou e saltou em sua direção. Kallai moveu-se para agir, porém Dougal foi mais rápido. Dougal pulou contra o lobo enlaçando seus braços ao redor do pescoço do lobo. Ele apertou-o numa chave de braço e o empurrou contra o chão. Ele rosnou para Emer virar o rosto e então olhou para os homens lobos que haviam recuado potencialmente dos dois. O olhar de Dougal totalmente prateado. Kallai sabia o que viria, e por isso virou o rosto para Emehir para saber se ela não via a cena, mas deu por conta que Isis não estava em lugar algum.

– Ela é minha para proteger. Ela e a criança — e dito isso girou o punho quebrando o pescoço do lobo que ganiu seu ultimo suspiro.



Kallai havia se afastado de tudo e todos. Seu lobo queria rasgar à Dougal em pedaços só por ter passado por cima dele. Kallai só queria afirmar para o seu animal que ele tinha alguém com quem se preocupar. O cheiro de dor de Isis era um rastro que ele não queria ter que seguir, mas lá estava ele rumando para sua casa. Parou diante da porta do quarto de sua esposa. Eles tinham quartos separados, por ter dias em que se ele dormisse ao lado dela, sabia que acordaria ensopado de seu sangue. Ele respirou algumas vezes antes de bater na porta de Isis. A voz dela era forte, dando-lhe permissão para entrar. Quando ele abriu a porta deu-se em uma penumbra, mesmo que o dia estivesse com o sol a pico do outro lado. A cortina barrava qualquer luz, o quarto com a luz apagada, mas isso não impedia de Kallai ver o que o esperava. Isis, nua, estendida na cama, esperando por ele. O lobo rosnou e novamente se agitou em sua mente. Kallai fechou os olhos tentando se acalmar.

– Eu o quero. Sei que não me quer — a voz de Isis quebrou em frangalhos. Ela respirou fundo antes de continuar — Mas me dê alguém a quem amar e alguém que possa retornar esse amor. Kallai, me de um filho, ou vários… Por favor….

Kallai abriu os olhos e olhou-a. Isis nunca rogou nada a ele. Ela era como uma bonequinha, uma bela peça a ser exposta em uma prateleira para todos verem, mas ainda assim ela sempre foi forte. Imponente. Agora naquela cama, tentando seduzi-lo, ela se quebrava, apenas para que ele percebesse o quanto a machucou durante os anos que se passaram. Kallai suspirou.

– Não está ovulando.

Ela mordeu os lábios e balançou a cabeça. Não. Não estava ovulando.

– Mas você pode tentar até que eu fique grávida. Não é o tão poderoso Brenin da America?

Isis o insultou e o desafiou. Kallai sorriu. Ai estava, sua Isis. O lobo rosnou enquanto ele desfazia-se da calça. Ele andou na direção da cama. O lobo enviou imagens de Isis correndo de medo, enquanto um lobo a caçava. Kallai rosnou para o lobo enquanto terminava de tirar o resto da roupa. Você pode querer Emer, mas ela tem Dougal. E eu? Tenho uma esposa. Minha esposa. Isis engoliu em seco, quando Kallai deitou-se sobre ela. Ele a teria várias vezes, depois de deixá-la descansar um pouco, voltaria a tomá-la. Não por ela, mas para mostrar ao seu lobo que ele também mandava no próprio corpo.



O som do telefone o despertou. O relógio indicava quatro da manhã. Quem liga à uma hora dessas? Ele perguntou, mas seu lobo estava em silêncio. Sentiu-se vazio por instantes. Seu lobo nunca se calava, sempre impunha sua vontade. Mas ele provocou isso. Tomou Isis até a noite, ela adorou. De madrugada pegou algo para que os dois comessem e quando terminaram voltou a tomá-la. Kallai repetiu essa procissão, parando apenas para as necessidades básicas do corpo, e isto durou três longos dias. Três longos dias preso em casa, com sua esposa. Obrigou-se a dizer para um lobo que não respondia. O que aconteceu? O som do telefone morreu. Uma mão pequena enlaçou sua cintura e Isis ajeitou-se mais para perto do corpo de Kallai.

O telefone tocou de novo e Kallai suspirou vencido. Não ia conseguir voltar a dormir. Estendeu a mão à cabeceira e pegou o telefone.

– Espero que seja importante…

– Kallai!

O alfa se ergueu num pulo da cama. Isis acordou com o movimentar brusco dele. De todas as vozes que esperava ouvir. Fantasmas não existem, isto só pode ser um sonho… Ele respirou fundo e exalou. Inspirou e expirou. Fez isso mais umas três vezes antes que a voz voltasse a atormentá-lo.

– Preciso de ajuda. Teremos tempo para falar do tempo perdido depois. Kallai, me responda.

Isis franzia o cenho para Kallai. Ela não reconhecia a voz que vinha do telefone. Mas com certeza estava perturbando o alfa. O único som que ele pronunciou, foi quase um suspiro. Um nome e tomou forças para continuar a falar.

– Aaron… Pensei que estava morto, pensei que…

– Kallai — a dor naquela voz o calou — Minha mulher partiu em uma viagem e demora a retornar. Eu quero sua ajuda e influência para encontrá-la.

Kallai respirou fundo. Seu maldito primo sumiu por anos, o deixou acreditar que estava morto. E só voltava a falar com ele porque sua mulher não tinha voltado? Ele deveria agradecer à ela antes de devolvê-la em segurança à Aaron. Por que sim, devolveria. Pessoalmente.

– Qual é o nome dela?

– Emehir...Emehir Caeth.

Notas finais
Doppelganger: Um fantasma de uma pessoa viva. Uma cópia exata física de alguém.