“Falam que as mulheres são fofoqueiras, faça-me o favor, quem diz isso, vá morar numa cidade onde metade, se não a maioria, dos moradores são sobrenaturais. Sou super a favor dessas criaturas fascinantes, mas… Aqui há dois tricotadores que são piores que aquelas senhoras que ficam no quintal só observando o que acontece na vizinhança. Pior foi esses dias que certo vampiro me entrega uma caixa de chocolate, para em seguida sair correndo rindo, obviamente apenas depois de dizer que eu estava com um cheiro delicioso. Eca! Esses dias uma das bruxas perguntou se eu queria uma poção do amor. É MENTIRA! NÃO ACREDITEM!! E as faes? Oh, elas são as piores, as poucas que conheci, mantem todo aquele ar misterioso. Aposto que dão gargalhadas quando não estamos vendo.

Sabe, dizem que a privacidade caiu com todo o avanço da tecnologia e blá-blá-blá! TUDO CONVERSA FIADA. Esses ai nunca ouviram falar sobre privacidade. Existem coisas que devem permanecer ocultas por um bom motivo. Sabe o velho ditado ‘A verdade dói’, pois é… Dói! Ps: Obrigada pelo chocolate Caroll, e eu sei que você lê meu blog.”

Tete-a-Tete com S&S

O pós ápice o mundo parecia completamente distinto, como se a magia da corrida da alcateia tivesse inundado toda Wuruhuintown. Para a maioria das pessoas, era mais um dia comum, e para aqueles que eram mais espiritualizados, percebiam aquele momento relaxado, como se o corpo e mente estivessem acabado de sair de um spa. Os faes pareciam relaxados, as bruxas suspiravam de contentamento, os lobos eram puro contentamento. E para os humanos qualquer péssimo pensamento era expurgado antes mesmo dele iniciar.

– Eu já disse NÃO! — Shannon praticamente rosnou para Wilhelm e Jacob — Se vocês perguntarem mais uma vez eu juro que…

– Ela aprendeu a rosnar — Wilhelm bateu palmas, enquanto seu irmão segurava-se para não rir.

– Cuidado Willie que ela pode ter aprendido a morder também — Jacob cochichou não tão baixo.

Shannon estava vestida como uma turista hoje, cabelos castanhos soltos e encaracolando nas pontas que mal chegavam na metade das costas. Ela usava calça preta e uma blusa tomara que caia com bustiê. Para aparar o frio, um sobretudo risca de giz e uma bota cano alto. Ela tinha um ar distante, mas os irmãos cheiraram as ervas da farmácia local espalhados pelo corpo dela. Shannon decidiu ignorar os dois enquanto caminhava para casa. Quando estava quase chegando, viu ao longe uma figura alta segurando um ramalhete de flores.

– Willie, é quem eu penso que é?

– Se algum de vocês abrir a boca mais uma vez eu vou fazer um casaco de pele de lobo pra mim — Shannon colocou as mãos na cintura — Ele não nos ouviu ainda não?

Os irmãos trocaram um olhar antes de concordar, antes de se afastar.

– O que aconteceu? Meninos? — Shannon observou os dois fofoqueiros da cidade saírem quase correndo de perto dela — Se ele não ouviu, por que estão agindo assim?

– Poxa Shanny, não queremos confusão com eles — Jacob apontou com um gesto Lothar aparecer do outro lado do quarteirão — Se eles estão dançando, nós não queremos estar por perto. Foi um prazer te conhecer.

Shannon bufou irritada, e deu uma olhada por cima dos ombros. Quando percebeu que nenhum dos dois homens havia percebido que ela estava por ali, andou o mais rápido que pode para longe deles. Depois de muito pensar, Shannon foi por um caminho que jamais escolheria particularmente. Enquanto caminhava, algumas pessoas a ignoravam ou não fugiam como sempre. Encontrou com o senhor Punnu que a parou e pela primeira vez a cumprimentou corretamente. Estava quase chegando a casa de Isis e Kallai, quando viu Emer aparecer juntamente com Bernard. Eles conversavam tão compenetrados que não deveriam tê-la visto, mas o lobo ergueu o rosto na direção de Shannon e parou. Emehir fez o mesmo e depois de um aceno de Bernard, elas finalmente se olharam.

– Shannon — Emer ergueu a saia e correu o melhor que pode para uma mulher grávida — O que aconteceu com você?

Ela mordeu o lábio inferior, segurando as lágrimas. Bernard já estava com um lenço estendido para Shannon.

– Estou de luto.

– Oh! Sinto muito — Emehir abraçou-a — Meus pêsames querida, que seus mortos sejam recebidos pela Deusa.

– Meus sentimentos — Bernard levou a mão ao coração e inclinou o corpo, assim que Shannon pegou o lenço.

– Obrigada. Mas eles não merecem ser recebidos pela Deusa — Shannon torceu o nariz.

– Shannon!

Ela balançou a cabeça para a reprimenda de Emer e indicou o caminho da casa de Isis.

– Vou atrás de Isis, e vocês?

Bernard corou brevemente e em seguida balançou a cabeça, enquanto Emer abaixava o rosto. Shannon começou a rir, o que deixou ambos com o rosto avermelhado. Na mulher a fez sumir, graças a cor do cabelo.

– Vim entregar as mochilas de Avalon e Bernard veio conversar com Kallai. Mas não tem ninguém em casa. E Bernard disse que tinha como encontrar a Isis. Ela está na casa da Sophie.

Shannon olhou para a sacola que Bernard carregava e parecia grande para a quantidade que não poderia ter indicado tanta dificuldade que Emer encontrou para construir. Quando chegaram na casa de Sophie, Bernard resmungou baixo e deixou a sacola no chão e quando ele já estava longe, Isis abriu a porta.

– Hoje é dia de mulher, Fergus foi colocado pra correr também. Entrem.

Emer e Shannon entraram, enquanto Isis carregava a sacola. Quando chegaram na cozinha, Sophie estava servindo biscoitos de nata com chocolate quente para Avalon e em algumas canecas para todas. Emehir adiantou-se para ajudá-la.

– Não sabia que você fariam um dia de mulheres, eu poderia ter ajudado.

– Não seria, mas parece que a lua cheia foi… exaustiva — Sophie balançou a cabeça para Avalon e Isis — E para todas nós.

Shannon pareceu despertar nesse exato momento, quando ela falou sobre a lua cheia. Quando Isis entrou com o saco de mochilas, ela sentou-se sem olhar para nenhuma das mulheres.

– Digamos que a lua cheia deveria ser um bom momento, mas não é, e precisei da ajuda de uma psy. — Isis olhou para o chocolate e mergulhou uma colher na caneca antes de revirar o liquido — Há coisas que são imutáveis, coisas como suas tradições humanas, e que são tão sagradas quanto o que vocês acreditam ser de mais sagrado.

– O que aconteceu? — Shannon estranhou o rosto abatido da tão imponente mulher.

– Não te interessa.

Shannon sorriu, gesto imitado por todas as outras mulheres.

– Pelo menos você continua a mesma — Shannon deu de ombros — Então seja lá o que aconteceu, não te deixou tão mal assim.

– Porque não falamos sobre suas roupas? Finalmente está se vestindo como gente — Isis ergueu a sobrancelha.

– Não te interessa — Shannon imitou até mesmo a entonação da voz de Isis, enquanto Sophie e Emer seguravam a risada, até que o sorriso morreu em seus lábios — Estou de luto. Essa lua cheia atingiu em cheio todo mundo.

Avalon soltou um grunhido e então pulou na cadeira que Fergus tinha feito para que ela pudesse acompanhar as refeições na casa dele. Sophie suspirou e tocou o ombro de Shannon.

– Foi durante a lua cheia? Não me diga que foi um lobo — Sophie perguntou pesarosa, o clima entre as mulheres totalmente intenso para seus sentidos.

– Não foi um lobo — Shannon cruzou os braços e todas as mulheres lobas suspiraram aliviadas — Foram dois.

Isis engasgou-se o chocolate que tinha começado a tomar, Avalon inclinou a cabeça ligeiramente para o lado, orelhas em pé. Emer começou a rir e Sophie piscava os olhos rapidamente. Dois lobos? Ela lembrou-se de um que parecia um ouriço na manhã seguinte. Começou a rir juntamente com Emehir.

– Desembucha — Isis falou quando finalmente tomou ar — Pelo menos alguém tem algo de interessante para contar sobre essa lua.

Ao se ajeitar na cadeira, Isis deixou que sua mão caísse contra o dorso de Avalon. A loba mostrou os dentes ligeiramente para a mulher, mas deixou que ela acariciasse seus pelos. A lembrança da lua lhe permitindo estender apoio a uma improvável amiga. Avalon deixou a cabeça apoiada na mesa, e todas as mulheres olharam para Shannon, esperando que ela contasse.

– Estava conversando com Caroll, quando ele disse que iria fechar o pub muito mais cedo do que o normal, porque era o ápice da lua e que eu devia voltar para casa. Disse que era uma noite boa para ouvir a música da natureza e tudo o mais. Até que ele disse que seria mais seguro voltar para casa pela cidade, e portanto pegar o caminho mais longo para casa — Shannon parou de contar e começou a rir — Oh meu Deus, isso está parecendo a história da Chapeuzinho Vermelho, literalmente.

– Chapeuzinho Vermelho? — Emer a interrompeu curiosa.

– Eu te conto qualquer dia desses. — Sophie riu da falta de conhecimento de histórias tradicionais — Ou quem sabe possamos assistir a um dos vários filmes.

– Fui pela cidade, e estava voltando o mais rápido que podia, até que ouvi um uivo. Estava perto, então fui ver quem era — Shannon olhou para a xicara a sua frente e suspirou — Era Lothar e ele veio até mim e ficou se esfregando no chão. Parecia um cachorrinho pedindo atenção com as patas pro alto.

Todas as mulheres lobo puxaram o ar, enquanto Avalon ergueu o rosto e afastou-se ligeiramente da mesa. Shannon e Emer entreolharam-se e a ruiva deu de ombros.

– Ok! Alguém pode começar abrindo a boca e explicando o que foi isso — Shannon olhou de Isis para Sophie — Por que tanto espanto?

– Antes de te explicar, você pode nos dizer como era o uivo? — Sophie perguntou com cuidado.

– Você quer que eu uive? — Shannon disse boquiaberta.

– Que tal essa, pode nos ajudar Avalon? — Isis colocou o dedo sob o queixo pensativa e então sorriu — Se algum desses sons parecer com o que ouviu a peça para parar.

Avalon grunhiu, numa especie de resmungo, mas começou a uivar. O som estalou no ar e Sophie estremeceu enquanto Isis sorria. Shannon pareceu se concentrar no som e então negou.

– Não era assim.

– Isso é um uivo para a caça — Explicou Isis — Próximo.

Avalon parecendo que regida por uma orquestra mudou o timbre, e seu corpo chacoalhou brevemente, e Sophie explicou o que era quando Shannon recusou este som também.

– Isso é um chamado para quando a alcateia esta espalhada. Aviso de perigo próximo.

A loba mudou a música e dessa vez Shannon deu um ligeiro pulo na cadeira. E então pediu para que Avalon continuasse cantando, até que finalmente concordou que era um som muito parecido com esse. Isis sorriu e olhou para Sophie e negou a pergunta silenciosa da rainha lupina.

– Shannon você tem certeza que o som era esse? — Sophie perguntou receosa — Como sabe que era esse o som?

– Isso porque um outro lobo cantou algo semelhante logo em seguida… Eu não sabia que o Adami era um lobo tão bonito. Mas, eu tenho certeza, por que ouvi esse som duas vezes.

– Espera! — Isis olhou curiosa para Shannon — Quando isso?

– Quando Lothar estava no chão. Eu o reconheci e fui até ele para cumprimentá-lo também e a última coisa que lembro foi de jogar bolas de neve nos dois que decidiram se pegar nos dentes. E claro, quando não funcionou — Shannon ergueu as mangas do casaco e mostrou a marca dos raspões dos dentes dos dois — Eu fiz a idiotice de tentar pará-los eu mesma.

– Você tem bolas de ferro — Sophie soltou num suspiro, o que fez Isis rir — Shannon, aquilo era um chamado de acasalamento. Eu nunca ouvi falar de Lothar se dar dessa forma, mas pela forma como o descreveu, ele praticamente se entregou em uma bandeja de ouro para você, e quando Adami a chamou, se você tivesse ficado no lugar, significaria que tinha escolhido meu cunhado e eles não lutariam.

– Volta um pouco — Shannon olhou para Sophie — Desde quando você tem boquinha suja? E como assim acasalamento? Foi isso que o Willie quis dizer com dança?

– A dança do acasalamento — Isis falou entre risadas — Você tem dois machos jovens e sadios mostrando quem é o mais forte entre eles. Devia se sentir orgulhosa e não de luto bobinha.

– Eles morreram pra mim — Shannon discordou, mas uma vozinha na mente a deixou inquieta — Eles não vão parar não é?

– Não até que escolha um dos dois ou nenhum — Isis sorriu maquiavelica — Mas tem suas vantagens.

– Eu não vou nem perguntar que tipo de vantagens — Shannon balançou a cabeça negativamente — Eu não posso nem entrar em casa, eles estão lá na porta. Acho que vi Adami com um buque de flores. Alias, devem ser da estufa do Dougal, o que significa que alguém vai levar uma mordida no traseiro quando descobrir.

– Que vantagens seriam essas? — Emer finalmente falou.

– Todos os tipos, se ela fosse uma loba, seria a companhia de um macho na lua cheia, assim como Avalon tem de Dougal. Afinal, um companheiro é para a vida toda não é mesmo Ava? É a certeza de que não importa o que aconteça, ele sempre estará lá por você. Obviamente não apenas na lua cheia, mas no dia a dia também. Você acha que sabe o que é viver, até que finalmente encontra o seu companheiro. Os companheiros correm juntos e quando tem uma família, eles correm primeiramente com sua família antes de com a alcateia. Todos no mesmo território, um pouco distantes, mas ao mesmo tempo juntos — Isis suspirou — É inexplicavel. A sensação de correr em liberdade, sentir o vento em sua totalidade, a grama, neve e pedras escorregando entre suas pat…er dedos. Tanto faz, mas acima de tudo, sentir o calor dele ao seu lado.

Avalon uivou graciosamente e pulou no colo de Isis, enfiando o focinho em seu ombro. Isis bufou e tentou afastar Avalon e quando não conseguiu, a loba esfregou o focinho pelo seu ombro e pescoço, em sinal de carinho. Sophie olhava a cena com curiosidade. Era uma atitude única de Avalon, que até então nunca tinha tido nenhuma demostração de afeto para com Isis, mas talvez ela tenha percebido o estado de humor da própria rainha.

– Mas vamos falar de coisas mais alegres. Ava, temos uma surpresa para você. — Isis falou animada — Desde que você finalmente teve uma resposta em manter mais tempo como humana.

Isis olhou para Emer, que mantinha o rosto baixo e pensativa. Quando percebeu que ela não iria falar qualquer coisa, suspirou e abraçou Avalon, antes de finalmente fazer um gesto para que ela descesse. Então ela puxou a sacola e antes de tirar deu uma olhada no material, ficando ligeiramente espantada pela quantidade de mochilas que estavam ali.

– Como aparentemente as minhas aulas de yoga finalmente fizeram efeito, eu imagino que deve ser incomodo andar nua por ai depois de tanto tempo. E ficar carregando uma roupa na boca te incapacitaria a comunicação. Portanto, decidimos fazer algo para te ajudar. Eu desenhei junto com Bernard algo que fosse único e versátil.

Avalon curvou o rosto curiosa e ficou com o rosto ali inclinado, olhando para a sacola.

– Escolhemos tecidos que fossem elásticos o bastante, para que você pudesse carregar o que precisar, mas infelizmente alguem tem que te ajudar a colocar. Ou pelo menos no começo, até que você mesma consiga achar um jeito de usar sozinha. Não fizemos o experimento, mas acho que dá pra você colocar como humana e mudar tranquilamente.

Ao terminar de falar, Avalon puxou uma das mochilas e mostrou para a loba. Avalon uivou contente, enquanto Isis mostrava os bolsos e como ela serviria para carregar pequenos objetos.

– Fergus comprou um celular e já colocou uma lista de contatos com as pessoas mais próximas. E podemos ver roupas leves para você começar a usar, acho que Isis pode ajudar com isso — Sophie sorriu.

As mulheres continuaram conversando e Avalon tentou mudar para que elas pudessem vê-la, e o resto do dia, elas falaram sobre trivialidades, até que Fergus ligou perguntando se já poderia voltar para casa. Sophie brincalhona disse que iria colocar todas as mulheres para correr para que ele pudesse voltar e assim encerrou-se o dia. Durante o telefonema, Shannon questionou Emer do porque ela estava muito quieta. Emer apenas falou tratar-se sobre cansaço, mas quando ela disse, Avalon olhava-a diretamente. A loba bufou, ergueu-se nas quatro patas, espreguiçou-se e trotou para fora antes de todas.

Não muito longe dali, Kallai estava terminando de falar com alguns entrevistadores de revistas comerciais. Quando ele tinha proposto expor os lobos, ele sabia que não devia mostrar sobre tudo para a humanidade. Havia muito que os humanos jamais entenderiam, como eles cuidavam de seu mundo e também como aplicavam a justiça. Os sobrenaturais sempre foram silenciosos sobre sua existência, mas quando a tecnologia e a curiosidade humana mostrou-se muito forte, eles deram o primeiro passo, e estabeleceram uma linha — por mais que invisível — daquilo que seria realmente mostrado. O mundo não estava preparado para conhecer o bicho-papão. Por essa razão, alguém deveria ser o bode expiatório, aquele que iria se expor ao mundo. Esse não era Kallai, mas ele era o porta-voz, alguém que o mundo sempre procuraria. O Brenin da América escolheu a dedo seus lobos modelos, e depois de muito discutir, mostrou quem eles eram e o que faziam. Havia homens lobos em tantas profissões de alto risco, que eles eram os heróis do povo. Heróis mascarados, mas ainda assim… heróis.

Mas havia dias, como hoje, que ele preferia que outro assumisse seu lugar, para que ele pudesse ser como um urso, deitar e dormir, e deixar que o resto do mundo desmoronasse por si só. Ele encostou a cabeça contra o respaldo do sofá e respirou fundo. Sua mente revoando em uma pessoa, desde que seu lobo decidiu sumir, de novo. Ele repassou o que havia acontecido na noite de lua cheia, e estava no mundo das lembranças, quando ele ouviu o som de patas raspando a porta do escritório. Kallai não precisava de seus sentidos para certificar-se de quem era. O som das unhas eram característicos, e não importava o que estivesse fazendo, ele sempre parava para ela.

O brenin levantou-se do sofá e quando abriu a porta, uma loba prata praticamente o derrubou no chão. Ele sentiu o sorriso antes mesmo de perceber suas reações, Avalon sempre o fez sorrir. Era sua menina mais preciosa. Kallai deslizou as mãos pelo pelo macio dela enquanto ela rosnava e trancava os dentes numa suposta mordida brincalhona. Ele fingiu correr dela, enquanto Avalon batia com as patas no chão e corria atrás dele, batendo os dentes numa imitação de mordida. Eles brincaram assim por um tempo, até que Kallai sentiu o stress passar e imaginar se sua menina não tinha algo de omega ou psi nela, ou se era puramente porque era sua filha querida e ela sempre sabia. Quando ele sentou-se no sofá para que ela o acompanhasse, Kallai esperou por tudo, menos a sua menina se transformando na sua frente. Ele abaixou os olhos, em respeito a quem ela era, apesar de que nenhum dos dois se preocupava com a nudez. Velhos hábitos nunca mudam.

– Por que? — a voz de Avalon saiu rouca e em uso.

O lobo abriu os braços para recebê-la. Geralmente essa era a ação que sempre faziam quando ela conseguia mudar. Eles se abraçavam e ficavam assim até que ela voltava a ser uma loba, mas dessa vez, ela sentou-se no sofá em frente à ele.

– Por que o que meu amor?

– Por que você me olhou com raiva na lua cheia? Por que não estava com Isis e sim com Emehir? — Avalon respirou fundo — Eu não entendo.

Kallai abaixou a cabeça, como se ele fosse o filho sendo repreendido e não o contrário. Logo, Avalon estava abraçando o pai, confortando-o. Seja lá qual fosse a razão, deveria ser intensa o bastante para que Kallai silenciasse. Ele deixou que sua menina o apoiasse, até que ela não aguentou ficar tanto tempo em corpo humano e voltar a forma de loba. Acostumado ao animal do que à humana, Kallai afundou a mão no pelo branco de Avalon e encostrou o rosto no pescoço dela. Apesar de Avalon conseguir conversar com Fergus com a mente, como uma ligação particular entre os gêmeos, ela era para Kallai como uma confidente. Seus mais anseios, pensamentos e ações eram sempre contadas à ela, e nunca, seus segredos foram contados. Cada filho era como uma ancora em sua vida, Avalon sua conselheira, Fergus a representação da força e estabilidade e Lothar era aquele que mantinha sua sanidade.

– Eu não sabia, eu não estava presente.

A loba grunhiu.

– Deixe-me explicar, eu não conseguia mudar. E nunca iria admitir isso para Isis. Ela não é sua mãe. — Kallai esfregou o rosto — E muito menos você.

A loba abanou o rabo, mas Kallai poderia dizer que não era de alegria.

– Eu chegarei lá, não me interrompa — Ele sorriu quando Avalon colocou a pata sobre sua coxa — Quando eu a afastei fui correr como homem, encontrei com Emer e ela estava chorando ao lado de uma mulher. Meu lobo forçou a transformação na hora, eu vou resumir a história para você apenas no que realmente interessa.

Avalon curvou a cabeça para a esquerda, mantendo as duas orelhas em pé. Kallai esfregou a orelha dela e fechou os olhos relembrando-se da noite. Ele amou uma vez, amou de uma forma que nunca antes imaginou que poderia. Então ele sabia, por mais que o animal não soubesse.

– Ela me falou do porque estava chorando, mas você quer saber o porque reagi daquela forma. Você sabe, meu lobo tem uma autoridade tão grande sobre mim, que as vezes parece que somos dois indivíduos distintos. Para a maioria dos homens e mulheres lobos, seu animal é apenas o extremo de seus instintos mais enraizados em seu ser. Eu sei que sou diferente, a individualidade do meu lobo alcança outro nível. Ele a ama, de uma forma tão primal e tão profunda, que ele esquece das minhas vontades, e até mesmo da própria família. Acho que se ele alimentar seu desejo, o lobo ficara mais tranquilo. Ele queria protegê-la do que ele viu e também do que ouviu mais tarde.

As orelhas da loba curvaram-se para trás. E Kallai esfregou o peito com a palma da mão e quando olhou para a filha fez uma careta.

– Eu não tenho o mesmo sentimento pela Emer assim como o lobo tem. Mas não posso negar oferecer a proteção que ela precisa. Acho que quando inconscientemente aceitei isso, o lobo me jogou pra fora para que pudesse proteger e cuidar. Quando acordei eu estava deitado ao lado dela, mas sei que não me transformei antes de deitar. Eu fiquei na borda da cama à frente da janela e da porta, se algo entrasse, teria que passar por mim.

Avalon rosnou baixo e Kallai passou a mão pelo pescoço da filha.

– Espere, deixe-me explicar. A mulher que estava com Emer, era como o homem que a atacou e aparentemente irmã dele. — Kallai sentiu um rosnado nascer no seu peito, mas segurou-o quando perceber que Avalon demonstrou sua frustração — E o pior é que a podridão é mais embaixo do que pensamos. Não foi um caso isolado… Temos um traidor.

Quando Kallai falou sobre o traidor a loba agitou-se e uivou uma música triste. Ele apertou o pescoço dela quando seu uivo cessou, em concordância silenciosa do ato.

– Emer me disse algo que… — o olhar de Kallai mudou para a janela, esquecido de onde e com quem estava, falando de coração o que aconteceu — … Ela disse que se ela não tivesse sido… Os pedaços do corpo dela estariam agora nas mãos de Aaron. Eu nem sabia que ele estava vivo. Eu não saberia de onde veio o golpe, estaria morto agora. Ela… ela disse que valeu a pena.

Kallai olhou para Avalon, em seus olhos, lágrimas fugiam pelo seu rosto.

– Alguém quer o meu lugar, ou algo que Aaron tem, ou simplesmente quer guerra. O mundo não está preparado para monstros, e nós morreríamos lutando e levaríamos muitos conosco. Seria um mar de sangue.

Quando todas partiram para casa, Emehir ficou para trás ajudando Sophie a arrumar a louça. Ela também sabia que Fergus queria voltar para casa para certificar tanto suas crianças quanto sua esposa. Mas havia coisas que ela precisava verificar ela mesma. Elas ficaram em silêncio, o que disse muito sobre o que estava acontecendo. Quando se sentaram novamente na mesa da cozinha, Emer passou a mão sobre o ventre e pensou no calor que ela ainda sentia. Trina havia dito que sua menina era mais forte do que parecia, e que devia estar produzindo seu próprio fogo. Ela sabia que graças a isso não precisaria chegar perto de Thorian nunca mais.

– Vai me contar o que está acontecendo? — Emehir soltou finalmente, o que assustou Sophie.

– Direta e reta, mas e você, vai me contar?

Ambas sorriram, até que Sophie expandiu seus sentidos e permitiu que a alma da alcateia invadisse seu ser. Os sentimentos que ela sentiu apertaram seu coração, mas ela continuou ampliando e buscou o impacto de outros seres, especialmente daquela que estava ao seu lado. Não havia julgo, apenas um vazio reconfortante. Sophie bufou e fechou-se numa concha particular.

– Quando eu penso no que aconteceu na minha vida, em tudo que se passou e tudo o que vivi. Nós somos criaturas muito longinquas, as vezes a maioria de nós até mesmo esquece há quanto tempo está aqui, como Dougal. Mas nada disso impede de dizer a verdade sobre nosso passado. Durante um tempo eu poderei adiar a verdade, mas e quando o passado vier a tona? Quando tudo o que me aconteceu for exposto como a feia ferida que é, como poderei olhar meus filhos com a mesma cara? Como eles irão me olhar?

Emer suspirou e olhou para seu ventre. Levantou-se e após dar a volta na mesa, ela abraçou a loba. Sophie permitiu-se apoiar em alguém pela primeira vez.

– Eles irão te ver como eu vejo, uma mulher forte e que lutou por eles desde o começo. Eu não me lembro dos meus pais. Eles morreram quando eu era muito pequena — Emehir encostou a testa no ombro de Sophie — Eu nunca contei isso para ninguém da minha família, até porque eu não deveria lembrar, era muito jovem. Mas eu lembro de alguns detalhes, não tudo, mas o mais importante. Lembro de estar na floresta, e então de gritar. E logo uma mulher em mim, seus olhos me firmando, me impedindo de fugir e dando forças. Quando acordei estava com meus tios, que choravam e durante um tempo todos foram proibidos de se aproximar da floresta. Meus tios me criaram e eu não conheci ou lembro dos meus pais. Sei que todos tem seus defeitos e que eles não eram anjos, mas não importa, por que me orgulho de quem eles eram.

Sophie deu um sorriso sem humor algum, e afagou os cabelos de Emehir. Os dois tons de ruivos se chocando, parecendo um fogareu. Os dedos de Emer afagavam os ligeiros cachos do cabelo da loba.

– Ainda assim Emer, você fala que seus pais de alguma forma foram herois para você. Eu vendi meu corpo, deixei que me usassem… Conheci Fergus assim e ele foi quem me ajudou a sair. O que eles irão pensar de mim?

– Faça-me um favor Sophie — Emehir esbravejou e ergueu as mãos ao alto — Como acha que explicarei o motivo da minha própria filha nascer? Ninguém é perfeito Sophie, mas podemos mostrar que erguermos a cabeça e continuamos a viver o nosso melhor. — Emer tocou o ventre da amiga — Por eles.

Os olhos de Sophie se arregalaram e lágrimas teimosas caíram enquanto ela soluçava.

– E no pouco tempo que te conheci, você sempre se doou para os outros, sempre colocou a todos à sua frente. Você me tomou como acolhida depois de tudo, ninguém te pediu para fazer sua casa um pequeno lar para mim — Emer apontou na direção da edicula — Então o que aconteceu, você fez por alguém não foi?

A loba piscou as lágrimas fora e concordou com o rosto, quando ouviu o comentário sobre ajudar ela sentiu o lábio inferior tremer. O olhar dela pareceu distante, como se recordando o que tinha acontecido com ela.

– Meu irmão… estava preso.

Emehir segurou a mão de Sophie com uma ligeira força, trazendo-a de volta ao presente.

– Quando chegar a hora, você e Fergus devem explicar a eles o porque e como você saiu dessa.

As duas se abraçaram e ficaram em silêncio por um tempo, até que Sophie não aguentou.

– Obrigada pela ajuda. Estou tão acostumada ao contrário que… O que aconteceu Emer? O que te deixa tão distante? A sua lua cheia também foi, bem, como posso colocar, cheia?

– Vamos dizer que tive um fragmento de felicidade, após um tormento de informação.

Sophie levantou a sobrancelha inquisitiva.

– Se houve felicidade, então…? Oh! Ela não durou?

Emer pareceu considerar as palavras de Sophie e lembrou-se de ser embalada e voltar a adormecer, quando a conversa de travesseiro tomou caminhos mais obscuros.

– Esse fragmento foi roubado, não me pertence e nunca pertencera. E me sinto péssima por ao menos ter obtido. Ainda mais depois de tudo que ouvi hoje.

Sophie arregalou os olhos.

– Kallai? Oh! Não me diga que ele não correu com…

– Não. Sabe o que é o pior? Isis é mandona, irritante e com toda aquela pompa de aristocracia, que quando ela entra em qualquer lugar, quem está no ambiente se prepara para enfrentá-la. E exatamente por isso, que ela acaba enfiando-se tão fundo no seu coração que quando você menos espera ela está lá. Sei que Kallai a respeita e não importa que tipo de relacionamento eles tem, ele jamais a trairia. E por alguma razão que seja, se ele não fosse tão digno assim, eu não agiria assim pelas costas dela… Exatamente por ser ela.

– Você o ama tanto assim? — Sophie olhou pesarosa para Emer — Eu nunca ouvi falar de um lobo que deixou uma companheira. A ligação entre os dois quando é criada é algo único. Eu diria que é uma ligação similar à alma.

Emer concordou com um breve menear se cabeça.

– Imaginei que fosse algo assim. Kallai primeiro foi meu herói, aquele que me protegeu e em seguida ele foi mexendo comigo. Há algo nele, que eu não tenho palavras para descrever. Diria que foi amor a primeira vista, mas... Acho que foi algo cultivado. Eu anseio pela presença dele, por ouvir a voz dele, mas mais do que tudo, eu quero ouvi — lo sorrir e brincar.

– Ele faz isso, mas raramente.

– Exato. Eu o quero bem, Sophie. Tanto que chega a doer.

Sophie abaixou a cabeça.

– Falar de amor é complicado. Eu também não sei quando foi que eu comecei a amar Fergus.

Não muito longe dali, no pub de Caroll, dois homens lobos estavam sentados lado a lado no bar do pub. Caroll ofereceu Goleuni para os dois, mas ambos decidiram pelo bom e velho Johnny Walker. Adami ignorava o médico, olhando para o lado de fora, sua mente totalmente em Shannon.

– Se não saíssemos de lá, Shannon nunca voltaria para casa. — Lothar resmungou — Você não pode tê-la.

– Por que não Lothar? Quando você decidiu que a queria? Eu nunca te vi perto dela. Nunca senti seu cheiro nela.

Lothar estava brincando com o guardanapo, e quando Adami o retrucou, ele esmagou o papel.

– Sinceramente? Não te interessa. Você não serve para ela.

– Por que não? — Adami insistiu, virando o rosto para olhar Lothar nos olhos.

– Por que você também não colocou o cheiro nela.

– Coloquei sim — Adami resmungou — Quase toda semana. E ela dorme comigo pelo menos duas vezes por semana.

– Não definitivo, e não com a permissão dela — Lothar ignorou o comentário da cama — Você ao menos explicou o que ela está fazendo?

O rosto de Adami ficou vermelho, e para disfarçar, ele virou o copo em um gole. Não o deixaria mal, mas o gosto da bebida o manteria aceso na conversa, lembrando-o do porque estar ali, sentado tranquilo ao lado de seu oponente. Quando Adami olhou para Lothar, o médico estava apertando os nódulos da testa, como quem tenta afastar uma dor de cabeça. O homem lobo sorriu maldoso, o comentário que ele fez estava dando o efeito desejado.

– Posso não ter falado para ela, mas de alguma forma ela sabe. Shanny disse que ia pensar em "nós" e agora você entra na jogada. Por isso te pergunto mais uma vez, por que não posso tê-la?

– Você não a ama! — Lothar bateu com a mão contra o mármore negro — Não tem o direito de impor sua vontade sobre a dela. Shannon tem o direito de escolher.

Caroll cruzou os braços irritado com o mal trato de sua propriedade, e Lothar fez um gesto de perdão ao vampiro.

– Eu sou mais jovem que você Lothar, mas não sou tão novo assim. Não sei como você aguenta ficar sozinho. Eu não quero passar a eternidade sem alguém. Meu lobo não encontrou nela uma companheira, mas sei que posso convencê-la. Shanny é única, divertida, me faz querer sorrir e estender um tapete vermelho para ela passar e se necessário tirar minha própria pele se ela precisar ser aquecida. Ela é perfeita e eu lutarei por ela.

Lothar olhou para Adami e suspirou.

– Sei que ela é perfeita. Mas não desistirei de protegê-la.

Dougal estava deitado há horas olhando para o teto de sua cabana. Ele tinha muitas coisas na própria mente. Kallai uma vez havia perguntado como que ele conseguia manter a mente sã, que ele não se deixasse levar pela loucura. As vezes ele mesmo se perguntava como. Não havia um tutorial para seguir, muito menos um manual dizendo como se evitar ou ser um homem lobo. Uma vez Dougal até tentou montar um, mas ia contra todos os seus princípios, por que delimitaria uma espécie tão especial e perigosa como os lobos.

Eles e os vampiros eram como os policiais e detetives entre os sobrenaturais e em alguns casos, eram juri e juiz das sentenças. Eles eram considerados os melhores nisso por serem quem eram. Se um manual existisse, apenas destruiria essa individualidade única de cada uma das especies.

Mas o que eu não daria para saber como fazer isso parar. Dougal resmungou e virou-se novamente na cama. A voz de Zahra não deixava sua cabeça. Ele relembrava do dia em que voltou para casa e encontrou aquele lagarto gigante. Um monstro que ele quis destruir e perseguiu o mundo atrás e nunca encontrou. Um criminoso que jamais foi pego.

Ana lik ya habibi, era o que Zahra sempre dizia quando ele se afastava, Eu sou sempre sua, meu amor. Ele lembrava-se de olhar em seus olhos, de abraçá-la, de ficar cada dia menos no mercado. Então os olhos verdes dela mudaram para cinzas, então para azuis, e logo ele não via apenas o rosto dela. Os rostos das pessoas queridas por ele, sua alcateia, pessoas do presentes misturando com pessoas do passado.

Ele tentou pensar em qualquer outra coisa, em poemas, em hinos, em tudo, menos no que via. Dougal viu um rosto que pensou que jamais veria. Uma mescla de tudo que ele achou mais precioso e ele. Um olhar duro e de um verde brilhante. O lobo dele uivou e então os rostos voltaram a mudar, então o monstro. Suas garras cheias de sangue, o corpo de sua Zahra no chão, e quando ele achava que estava abrindo a bocarra com a fumaça fumegando em um principio de fogo, uma loba branca aos seus pés, com o pelo manchando-se de vermelho.

Ana lik ya habibi

Ele estava uivando, seus olhos manchados, seu coração dolorido. O corpo mudando e voltando, e o lobo querendo correr. Querendo fugir de seus pesadelos. Ele arfou entre o som entristecido que mais parecia não ter fim. Dougal bateu com a cabeça contra o alto da cama e sentiu o sangue escorrer pela testa. Nada disso importava, era como se o pesadelo tivesse vontade própria, como se o passado voltasse a acontecer e ele não poderia fazer nada, há não ser ver aqueles que ele amava morrer. Ele se lembrou do medo que ele praticamente conseguiu tocar quando Emehir conversou com ele sobre o monstro que a atacou. Ela disse que ele era um homem e que o reconheceria se o visse, mas tudo que Dougal se perguntava era, se aquele monstro era o mesmo que havia matado Zahra. Se era o mesmo que viria por Emehir, por Sophie, por Isis, por Shannon, se era o mesmo que viria por Avalon.

Seu lobo decidiu por ele, mudou e ele sentiu as patas deslizaram pelo chão de madeira. O tique taque das unhas logo sumiu quando o lobo atingiu as tundras que cercavam sua casa. Ele sentia o cheiro do mirtilo, de terra, de alguns ursos perdidos e animais menores. E por trás de tudo aquela suavidade da chuva que viria. Não era suave, mas para sua mente perturbada, seria como um purificador. Kallai havia pedido para matá-lo se ele enlouquecesse, mas quem viria por Dougal se ele se perdesse? Seu lobo rosnou em desacordo. Imagens dele correndo pela neve misturaram-se com a realidade. Ele correu e não soube por quanto tempo, se foram dias ou meses, tudo que ele sentia era a chuva no pelo, deixando-o mais lerdo. Todos os outros habitantes das tundras já estavam protegidos contra a chuva torrencial, e ele era o único em pé. O lobo começou a rumar para a cidade e o homem ficou em desarmonia. Lá não. Não vamos machucar ninguém. E a resposta do lobo foi uma imagem da estufa e as flores na ala fechada. Sua estufa era um imperio, seu canto na mente exterior. Haviam flores distintas, e algumas das quais até mesmo esquecidas pelo tempo. Mas flores que o ajudavam ao lobo a relembrar os anos que partiram. Você é tão nostálgico. O lobo grunhiu num tom que soou como uma risada. Detesto quando estamos nostálgicos. O rabo abanou discordando e Dougal finalmente sentiu o lobo retirar-se, pelo virando pele, e a agua agora massacrando seu sensível tato. Dougal jogou os cabelos para trás, com as mãos no cabelo, a cabeça inclinada para trás, homem e lobo inspiraram profundamente enquanto a água explorava seu corpo. Imagens de uma sala ampla, cheia de arcos que davam a vários outros cômodos. Uma sampa decorada com véus que revoavam com o balançar do vento, e uma sensação instigante, uma que ele conhecia. Sim, estamos em casa.

Ele abriu a porta e viu uma mochila dentro da estufa. Uma mochila que ele não se lembrou de ter deixado lá. O cheiro da chuva e o amargor das lembranças deixou seus sentidos nublados, onde ele se sentiu um simples humano. Dougal procurou por indícios de roubo, mas quem em sã consciência roubaria um homem lobo? Wuruhuintown era um lugar livre de crimes locais, e a guarda cuidava mais das crianças e dos turistas que problemas como esses, além de levar bêbados para casa. Quando ele percebeu que não havia nada fora do lugar, pensou que algum lobo tinha deixado as coisas por perto para correr. Com isso em mente, deixou a porta da estufa entreaberta e com mais praticidade para que um lobo empurre com a pata, ele seguiu para a estufa em anexo.

Ao deixar o setor de ervas e entrar na estufa das flores, Dougal sentiu o coração cavalgar mil léguas. Avalon estava em pé, como humana, diante de um vasilhame preparado onde criava suas lótus favoritas. As flores pareciam enaltecidas com o toque reverencial que Avalon empregava nelas. Mas não foi o toque que o agitou, foi a lembrança do beijo que sua bebê lhe deu, e o fato que ela não estava nua como deveria estar com seu pouco tempo de corpo humano. Ela usava um vestido de seda, que abraçava seu corpo com suavidade e mostrava curvas que até então então nunca tinha percebido. Ela vai me dar trabalho, e seu lobo rosnou concordando. Ao som do lobo em sua mente Avalon virou e seus olhos abriram num gesto de surpresa, ela olhou para o rosto dele e o silêncio imperou entre eles. Até que uma gota de chuva escorreu pelo pescoço de Dougal e chuva e os olhar de Avalon acompanhou aquela gota ávida por atenção. Desceu pelo peito, morreu no umbigo, e então num bater de asas de uma borboleta ela não era mais uma humana. Uma loba branca grande demais para um animal comum, mas do tamanho adequado à uma fêmea lupina. Dougal aproximou-se e abaixou para ficar com o e posto o nas próximo do focinho dela. O material que ela usava, estava rasgado no chão. Com hesitação, o lobo estendeu a mão para tocar seu pelo, e ouviu um grunhido de aprovação da loba.

Ele ergueu-se e olhou para as lótus que antes estavam recebendo atenção de Avalon. As pétalas pareciam tristes e solitárias sem os dedos dela. Em um reflexo, Dougal pegou a lótus vermelha e segurando pela raiz separou-a da vasilha e entregou para a loba, que a segurou com uma delicadeza distinta para um animal com dentes perigosos. Por instantes seu corpo tremeu em lembrança a algo similar que fez no passado, em um passado o qual dar uma flor de lótus para uma mulher era o mesmo que dar seu coração para a paixão de sua vida. Dougal sorriu sem jeito e então deslizou a mão no pelo macio de Avalon.

– Uma flor para uma flor — Ele sorriu quando ouviu um rosnado breve da loba — Perdoe, mas eu sou um verdadeiro poeta cheio de trocadilhos antiquados…

Finalmente o olhar dele caiu sobre os pedaços do vestido que ela estava usando como humana. Dougal segurou o pedaço do tecido e girou-o procurando por algo distinto. Avalon curvou a cabeça e olhou pro tecido na mão do homem lobo. Quando ele começou a pegar os outros pedaços, ele começou a parecer frustrado. Correção, ela vai me dar MUITO trabalho. O som do rosnado vindo de Dougal fez Avalon recuar um pouco.

– Você estava sem roupas intimas?

A loba endireitou o corpo e com a lótus na boca, saiu balançando o rabo e rosto erguido.

Todos os homens lobos tem suas funções, dentro da alcateia existem as hierarquias e níveis de poder e de respeito. Fergus conhecia todos esses, sabia também das posições que os lobos mais velhos acabam se envolvendo. Lobos que lidam com outros seres, como os faes, bruxos ou vampiros. Agora eles lidavam com os humanos também. Antes a função que ele executava era oculta dos olhos humanos porque poderia ser considerado cruel e perigoso em sua conclusão. Ele e Lothar eram distintos, enquanto seu irmão tinha uma posição gentil em ambas hierarquias. Para os humanos, Lothar era um médico curador, para os lobos ele era um ponto de equilíbrio, um tranquilizador de lobos. Sophie não lidava com os humanos, mas ela era a ancora que firmava alma e mente da alcateia.

Fergus apertou a mão num ato impensado. Suas lembranças do que teve que fazer durante seus anos de vida. Ele era um daqueles que lidava com o externo, alguém responsável por olhar para a alcatéia e ao mesmo tempo para o mundo. O cuidado de julgar delitos e aplicar aplicar justiça. Em comparação com os sistemas penais, os sobrenaturais eram crus, pois tinham formas de evitar que inocentes fossem massacrados em jugos errôneos. Ainda assim algumas penalidades eram tensas demais. As mais impactantes estavam presentes com ele em sua pele. Cada linha e traçado era a marca de uma morte ou um juízo que levou com ele um pedaço de sua alma.

Seu pai havia conversado com ele nos últimos meses sobre a situação de Emer. Eles ainda não tinham ideia se o ataque foi um caso a ser notificado às outras raças ou era algum problema especifico. Fergus estava reconstruindo todo o caminho que a mulher tinha feito até chegar ali. E no meio do caminho ele identificou um homem lobo. Um crime de sua especie, que deveria ser lidado pelos seus. Mas quem seria a tal criatura que o pai falou, ou que Dougal dizia ter encontrado com outro em seu passado. Nesse momento ele estava no seu escritório, na sede onde a alcateia fazia todas as reuniões. O conselho do Alasca não estava presente, o que o permitia respirar com tranquilidade, ou já teria algum velho lobo tentando instigá-lo a voltar a viajar. Muitos casos pela América a serem lidados, casos que seu pai o liberou e tinha enviado outros. Mas ele sabia que não eram muitos os lobos que tinham estomago para o trabalho.

Seu lobo estava sentindo-se enjaulado, indo de um lado a outro. Ansioso por voltar a campo, mas também rodeando nos mesmos problemas que tinha se enraizado dentro dele. Antes de Sophie ao menor sinal de perigo ele teria partido sem pestanejar, não havia um porque não sair em viagem pelo mundo e perseguir pistas e caçar os “vilões”. Agora tudo estava diferente, agora antes de pensar em qualquer coisa, vinha Sophie. Não foi o fator dela ser psy, mas sim ela ter aceito quem ele era, com tatuagens marcando seus mortos, com as mãos que pareciam nunca estarem limpas de sangue, nem o cargo de juiz dos lobos. Aqueles como Fergus eram temidos, não foram criados para serem amados.

– Diga que é pornografia.

Fergus deu um pulo da cadeira. Seu irmão estava sentado na poltrona a frente da sua mesa. E se ele não conhecesse Lothar, diria que ele estaria brincando, mas havia passado tanto tempo desde que seu irmão era seu irmão. Em algum momento, ele deixou a alcateia para viver como um lobo solitário, e quando voltou não era mais o mesmo.

– Porque acha isso?

– Está olhando com tanto interesse para a tela. Só pensei, quem sabe…

O mediador observou o irmão com interesse.

– Isso foi uma tentativa de piada? — Um canto do lábio subiu disfarçadamente.

– Não irmão, isso é sarcasmo. Eu tenho que te ensinar tudo mesmo? Pobre Sophie.

Fergus deu a volta na mesa e abraçou o irmão. Esfregou a ponta do nariz no dele e depois enterrou o rosto entre seu ombro e jugular. Lothar enlaçou seu irmãozinho, que era passava sua altura e o aninhou em seus braços. Deslizou a mão pela cabeleira negra dele e se deixou apoiar no contato tão necessário entre eles. Havia um tempo em que não tinham ficado assim, sem necessidades de falar, apenas sentindo.

– Não suma de novo — Fergus deixou escapar, um medo antigo, de quando se vive por tanto tempo e não tem ideia quando aqueles que ama vão morrer — Não suportaria perder você agora.

– Eu não aguentaria partir irmão. Se eu fosse, não voltaria mais.

O mediador afastou-se e observou seu irmão. Ele tinha os olhos da mãe dizia Kallai, mas as vezes ele se perguntava se aqueles não eram olhos de lobo, sempre ali, encostado na pele, pronto para mudar quando menos esperava. Lothar tinha pose de omega, mas um olhar predatorio tão intenso, que as vezes ele pensava que seu irmão daria um excelente mediador. Não, ele salva vidas, ele cura pessoas, jamais aguentaria ser como eu.

– Desembucha — Lothar guiou-os para se sentar nas poltronas da sala — Você estava com aquele olhar.

– Não sei do que está falando.

– Fergus nós crescemos juntos e você é muito fechado dentro dessa sua cabecinha, mas quando tem algo de errado você dá aquele olhar… Além disso sou médico, quando as pessoas esperam por resultados que já sabem que vai ser ruim, elas também dão esse olhar. — Lothar pensou um pouco — É Sophie?

Fergus manteve um silêncio que seria incomodo, se Lothar não estivesse acostumado a quem era o mediador. Ele era mais de ações que palavras, então quando o irmão abaixou a cabeça e fechou os olhos… Lá vem bomba. Lothar inclinou o corpo um pouco para frente e esperou.

– Tem a ver com Sophie, mas não é ela. Apesar de tudo, a gravidez vem seguindo tranquila.

– Quer que eu a verifique? — Lothar estremeceu. Ele não queria fazer o parto da cunhada. Não se perdoaria se a perdesse na mesa — Apesar que durante a gravidez de lobas, elas são as mais indicadas para dizer se algo vai errado com os bebês. A mente lupina fica muito agitada quando há dores ou…

– Sou eu.

– Que merda é essa de “Não é você sou eu?” — Lothar resmungou — Não é você que tem três lobos na cabeça. Sophie é forte e está aguentando.

– Você é um ótimo ouvinte — Fergus resmungou baixo.

– Isso foi sarcasmo? — Lothar apenas riu.

O mediador ergueu o canto dos lábios em metade de um sorriso. Então seu corpo relaxou, ele apoiou as costas na poltrona e inclinou a cabeça contra o topo, finalmente relaxando.

– Lothar quando você tiver filhos o que acha que eles pensaram de você?

– Jamais terei filhos Fergus

Fergus ergueu a cabeça e olhou para Lothar. Nunca ouviu o irmão falar sobre assunto de família, mas…

– Eu ouvi algo de Sophie, e acho que… Shannon é o tipo de mulher que irá querer uma família um dia.

– Estávamos falando de filhos certo? — a voz quase um rosnado.

– Sim, mas sempre podemos voltar ao assunto.

Percebendo que não ia passar por essa sem conversar, Lothar suspirou vencido. Ele sacudiu a cabeça e passou a mão pelos cabelos, revirando-os. Em seguida ajeitou-se na poltrona que praticamente estava deitado.

– Foi o momento da lua. Meu lobo estava querendo companhia feminina, quando Shannon me reconheceu, ele deve ter esquecido que era um lobo e abanou o rabo como um cachorrinho contente por atenção.

– Mas Adami…

– Apareceu e me desafiou pela atenção dela. — Lothar ergueu a sobrancelha — A reação foi atacar.

– Mas você é um omega.

– E antes de um omega eu sou um macho, porra.

Fergus abriu a boca para falar algo, mas Lothar havia apoiado os cotovelos no joelho e afundou o rosto nas mãos. O mediador fechou a boca e esperou. Seu irmão respirou fundo e quando exalou a voz dele saiu quase num sussurro.

– Eu realmente não quero falar sobre isso.

– Entendo. — Fergus ergueu as palmas das mãos ao alto — Paz!

O tempo parou para eles, e depois de muito tempo, o qual Lothar tentava lembrar sobre o que falavam, finalmente retornou a conversa.

– Você falou de filhos… Você será um grande pai, e se não for, o papai vai ser o pior avô do mundo. Ele vai estragá-los com o tempo, ser um babador e até mesmo deixar que eles dancem na cabeça dele. Toda a alcateia vai amá-los. Serão filhotes bem queridos, sempre são quando nascem. Só depois daquela fase da adolescência, que parece não acabar nunca, que irão deixar a cidade de pernas para o ar. Mas você é pai de primeira viagem — Lothar sorriu — É normal se sentir desamparado em como será ser pai.

– Não é isso

Fergus olhou para a mesa. Mesmo de costas, ele sabia que o porta retratos tinha uma foto de Sophie e o irmão. Aquele a quem ele ajudou a resgatar, aquele que agora era um grande homem e fazia tudo em prol dos inocentes. Ele e Lothar eram parecidos em sua essência, mesmo que enquanto Lothar fosse um medico, Andrew era um detetive. E para o mediador? Que herança ele daria aos filhos?

– Minhas mãos estão com ensanguentadas. Minha alma está corrompida, eu matei muitos. Em nome da lei, mas ainda assim, matei.

O mediador esperou que o irmão retrucasse ou resmungasse. Até mesmo um rosnado, mas o silencio dele foi aterrorizante. De alguma forma, ele queria que Lothar o absolvesse. Quando olhou para o irmão, ele tinha a cabeça baixa e o olhar perdido no tempo. Até ele me teme, não é como se eu não soubesse, mas… Seu lobo rosnou em desaprovação, ele não se importava com as mortes. E era isso que Fergus mais temia.

– Eu estou tentando contar… — Lothar começou e seu tom de voz pareceu distante — E não consigo de tantos… Eu lembro o nome de todos, especialmente das mulheres. Elas até mesmo me dizem qual vai ser o nome dos bebês.

Lothar estendeu suas mãos para o irmão.

– Estas mãos também estão manchadas de sangue. Eu me lembro o nome de cada um que morreu nas minhas mãos. Alguns eram estimados amigos humanos, outros femeas da especie e suas crias. Também nossos prisioneiros, que adoeciam ou estavam feridos. Inocentes e criaturas de má índole. Não importa o que eram, mas sim quem eram. Você me perguntou o que meus filhos iriam pensar de mim. — Lothar ergueu a mão até sua testa e apertou — Quando chegasse a hora em que estiverem prontos para entender, eu sentaria com eles e explicaria o que eu fiz, porque eu fiz e então diria que farei de tudo para que o que quer que aconteça, eles tenham orgulho de mim como homem e como pai. Você tem seus fantasmas, suas tatuagens o lembram e também contam a vida daqueles que já foram. Uma época eu tentei escrever os nomes das pessoas, mas depois do décimo livro eu decidi parar...

Fergus engoliu em seco.

– Não foi sua culpa. Eles iriam morrer de alguma forma.

Lothar sorriu sem humor.

– Fergus… Os seus fantasmas, também iriam morrer de alguma forma, se não por você, por outros. E não há nada que possamos fazer a respeito disso. É a vida...

Aaron havia entrado em contato com Bernard para receber novas atualizações com relação à Emehir, apesar de poder falar diretamente com o primo. Kallai tentou falar com o parente durante todo esse tempo, mas era como se o lobo tivesse voltado para o mundo dos mortos. O motivo era confiança, como Bernard havia comentado. Ele havia acabado de desligar o telefonema, quando o som de batidas o sobressaltou. Quase ninguém vinha para o apartamento, e ele ficou em estado de alerta, até que ele percebeu que se tratava de Emehir. Ele ajeitou a roupa e verificou se estava tudo no lugar com uma passada de olho, e finalmente abriu a porta.

– Emer que bons ventos a trazem?

A ruiva sorriu, mas seu sorriso não chegou aos olhos. Bernard deu espaço para que ela passasse por ele, e antes de fechar a porta ele verificou os corredores. Um instinto de proteção agitando seu lobo, quando ao atravessar portal do quarto, ela passou a mão pelo ventre. Emehir não adentrou muito ao cômodo, e Bernard estendeu a mão para que ela se sentasse no sofá da pequena sala de estar do quarto.

– Infelizmente não foram bons ventos. – Emer estava pensativa – Eu ainda estou aprendendo sobre a vida fora da vila, e não apenas sobre os humanos, mas também sobre os sobrenaturais. Eu gostaria de saber, de você que já tem uma noção, o que acha do povo da alcatéia de Kallai?

Bernard recuou um pouco e pensou no porque da pergunta. Será que alguém a ameaçou? Dougal falou que aconteceu uma vez, mas... Quem seria o louco de atacá-la com tantos lobos fortes ao seu redor? A mente dele viajou, enquanto seu lobo rosnava em sua mente.

– Não é o que você está pensando... Por favor, apenas me diga. Eu conheço alguns lobos, mas sei que existem muitos mais. No congresso havia lobos que eu nunca tinha visto antes. Não entendo como tudo isso funciona.

– Não me assuste com perguntas dessa Emer – Bernard suspirou e permitiu-se relaxar – É meio distinto falar sobre alcatéias. Cada uma é única. Eu sinto falta da minha, mas se eu levar Kallai para nossa alcatéia e ele enlouqueceria em questão de dias. Brandon e Odilon dizem que coordenam um hospício e não uma alcatéia.

– Um hospício? – Emer ergueu a sobrancelha, e tentou não sorrir.

– Quando Kallai começou a correr pelo mundo, ele era um grande lobo solitário. Mas lobos solitários são poucos, porque somos um povo que necessita de contato, do pele-a-pele. Nós precisamos de presença. Kallai nunca foi assim, ele era único, mas não se incomodava do contato de outros. Sua força chamou atenção e outros lobos começaram a correr com ele. Alguns vieram e trouxeram companheiras e filhos, então por onde ele passou, aquela forte alcatéia que era diferente de tudo que se conhecia, fazia com que outros viessem. Então os lobos de Kallai são orgulhosos, vaidosos, que gostam de momentos isolados mais do que de contato. Há alguns que não são, mas eles são os que equilibram essa imensa alcatéia. Eles são muitos, e por isso elas se dividem em várias pequenas alcatéias pelo território. Não é a toa que Kallai se estabeleceu aqui no Alasca inteiro.

Emehir estava absorvendo as palavras de Bernard, e ao parar, ela ainda estava tentando analisar suas palavras. Havia muito em jogo, e qualquer passo errado verteria contra sua menina.

– Mas essas qualidades não podem mudar uma pessoa?

– Emer, o que aconteceu? Você se sente ameaçada?

Ela abaixou a cabeça com os olhos marejados.

– Se eu te dissesse que o homem que me estuprou me encontrou e...

– Onde?

Bernard mudou da agua pro vinho ao ouvir sobre o estupro. Suas mãos tornaram-se algo similar a garras, seus dentes afiaram-se e o rosnado que foi sua voz era gutural e assustador. Mas ainda assim, Emehir continuou firme. Ela deslizou a mão pelo ventre e contrariando qualquer coisa que ela tinha aprendido nos últimos tempos encarou Bernard.

– Acalme-se, ele não está mais aqui. Kallai já sabe em partes. Eu prefiro que o que vou dizer agora fique aqui. Mas antes que tal deixar de lado suas garras?

O homem lobo rosnou para ela contrariado com a falta de sangue, mas com uma habilidade única, ele voltou a retrair as garras. Antes de permitir-se que ela continuasse a falar, Bernard foi até o banheiro e molhou o pescoço e testa com agua fria.

– O que ele estar aqui tem a ver com o bando?

– Algum tempo depois do que aconteceu, uma mulher apareceu e disse que meu bebê corria perigo. Eu me encontrei com ela e me explicou muito sobre minha menina e sobre o que aconteceu. Trina me disse que seu irmão deveria ser punido nas leis de seu povo. Não me pergunte sobre o que ela disse do povo, eu prometi que não iria contar em troca de tudo o que descobri. Eu precisei de algo deles que, sem isso, minha menina iria morrer.

Bernard esfregou o rosto e sentiu a barba pinicar em sua mão.

– Sem ofensas, mas… Por que você daria continuidade a vida da criança?

– Por que ela não tem culpa e… Eu quero uma família, seria minha chance de cuidar de alguém meu.

– E sobre a alcateia?

– Trina conversou com seu irmão sobre o que aconteceu. Ela disse que em uma cidade aqui perto, ele encontrou a pessoa que o contratou para me matar. E ele cheirava a lobo.

– Acha que ele é da alcateia do Kallai? — Bernard resmungou baixo.

– Queria saber se é possível com uma alcateia tão grande e espalhada, que alguém se rebele.

– Não sem Kallai saber. Mas não é somente por isso que você gostaria de saber isso. Não é?

– Se ficar muito perigoso, gostaria de saber se poderia voltar para casa. De qualquer forma, eu sai de lá e antes disso não tinha perigo algum.

Um sorriso se formou nos lábios de Bernard e ele fechou os olhos em puro prazer.

– Minha alcateia irá recebê-la. Você perguntou o que eu achava da alcateia de Kallai, mas Emer, vai muito além de apenas como é a alcateia dele. Entenda, Kallai é o mais poderoso daqui e ele é o Brenin. Ser um lobo envolve magia também, algo inexplicavel e que somente sendo para compreender. Há alguns Brenins espalhados pelo mundo, Na Oceania está Kirrily, uma loba durona e que não gostaria de encontrar tão cedo, na Africa está Sirhaan, Yuu na Ásia, mas a Europa está sem um Brenin. Eles são como reis, são os alfas dos alfas. Todas as alcateias respondem a eles, e o motivo de todo mundo temer Kallai é que ele cuida de todas as três Américas. Ele é um lobo poderoso demais, e… — Bernard parou um pouco e rosnou — … motivo suficiente para um louco tentar derrubá-lo.

– Era o que eu temia. Mas, e quanto a sua alcateia? Eles estão próximos a minha casa?

– Há muito para explicar em tão pouco tempo, eu poderia ficar horas e horas falando sobre nossa especie. Mas uma coisa que preciso explicar antes de falar da minha alcateia, é que cada uma é distinta. Os lobos da alcateia de Kirrily por exemplo fixaram-se um em cada alcateia que fica espalhada pela Oceania, ela é praticamente uma loba solitária com apenas alfas na sua mente. Os lobos de Kallai são mais soltos, mas eles tem ideia de quem manda. Mas independe do significado, todos são lobos. Próximos as alcateias há outras especies, mas eles não aceitam a magia da alcateia como sua própria e não fazem parte dela. Estar em uma alcateia é como ter uma parte de sua alma ligada a várias outras pessoas. O que difere a minha das outras, é que nós não somos apenas lobos.

Emehir entreabriu a boca para perguntar algo, mas logo calou-se. O olhar apaixonado de Bernard dizia tudo.

– Os lobos que viviam conosco no passado, foram se desvinculando de nós ou morreram após a perda de companheiras ou companheiros. Da época em que criamos, poucos foram o que ficaram, na verdade somos em quatro, além de Aaron há os gêmeos Dunat e Duncan. Nós encontramos com um fae antigo que estava passando por problemas e precisava de mais do que um lar, ele precisava de uma alcateia. Foi a primeira vez que algo desse tipo acontece, e ele sugeriu ao Aaron que abrisse caminho há aqueles que precisavam de uma segunda chance. Brandon lançou uma magia que faz com que as criaturas, sejam elas quem forem, sintam sua sintonia e venham até nós, em particular nós nos chamados de renegados. Aqueles que ninguém mais quer. Quando digo que somos um hospício, digo de verdade, temos lobos que estão loucos, mas que aprenderam a voltar a sanidade conosco, temos bruxos abandonados, temos até um vampiro e uma humana adorável que faz a contabilidade de todos nós. Somos uma família forte e bem unida, e ouso dizer ao invés de apenas um pedacinho de alma, demos metade das nossas pela alcateia.

– Você os ama muito. — Emer acariciou a face direita de Bernard, que se inclinou ao seu toque.

– Com todo meu coração. — O lobo fechou os olhos e ficou em silêncio, enquanto ouvia o eco da presença de seus irmãos de alcateia — Eles te protegeriam. Ninguém sabe sobre nossa alcateia, para o resto do mundo, estamos mortos ou quem não está é um solitário. É um poder de Brandon. Enquanto todos os outros vivem na luz, nós ficamos na sombra, e passamos desapercebidos. É pela nossa própria segurança. Se você partisse comigo, ninguém a encontraria.

– Temo pela vida de minha filha e também pelas pessoas que passei a amar aqui — Emehir suspirou vencida — Se quem quer que queria me matar, tenha como objetivo atingir essa alcateia, não quero que ele tenha sucesso. Desculpe por pedir para levar o perigo a sua.

Bernard ajoelhou-se diante de Emehir e segurou suas mãos. Ele beijou as costas das mãos e depois apertou-as com certa delicadeza. Seu olhar estava firme nos dela, com um brilho que dizia que ele enfrentaria o inferno por ela.

– Não levará. Você é nossa Emer, iremos cuidar tanto de você quando de sua menina. Eu prometo.

Kallai convocou uma reunião com Fergus, Dougal, Lothar e alguns de seus lobos mais confiáveis, assim como os irmãos Baas, Chipo e Adami. Eles discutiram sobre as possibilidades do perigo que os afligia e qual seria a possibilidade da morte de Emehir em seu terreno. Havia muitas variáveis e Kallai explicou por cima como ele descobriu que o responsável pela morte era um homem lobo, assim como chegou a conclusão que os pedaços do lobo que ele encontrou nas tundras, eram de alguém da alcateia do contratante. Depois de muita discussão, dor de cabeça e elaboração de estrategias para o cuidado dela, assim como a noticia de que ela iria dar a luz a qualquer momento, Kallai saiu junto com seus filhos para espairecer.

Com muita dificuldade ele tentou desfocar sua mente de Emer e sua criança, mas de tudo que eles haviam conversado na manhã pós lua cheia, o fato de que ela daria a luz a qualquer momento, era o que o assustava. Fazendo as contas, ela não devia estar com quatro meses completos. E para piorar ela havia se recusado a falar sobre quem eram essas criaturas. Depois de perceber que estava avoado demais da conversa de seus filhos, pediu perdão e se retirou. Ele caminhou para casa, mas ao chegar leu um recado de Isis que dizia que ia passar um tempo na casa de Shannon. Kallai achou estranho, pois Isis não se envolvia com humanos, até que leu a nota de PS, que dizia que ela iria afastar alguns lobos atrevidos de perto da humana. O Brenin não deixou de rir imaginando que um dos lobos deveria ser seu filho.

Kallai sentindo-se enjaulado dentro de casa tão solitária, voltou para a cidade, mas logo se provou ser uma péssima ideia, pois muitos o paravam para conversar, especialmente turistas. Então ele partiu para lugares menos visíveis, e quando menos percebeu estava próximo a casa de Fergus. Ele farejou o ar e aguçou sua audição, e quando finalmente comprovou que estava sozinho, mudou o curso para a edicula de Emer. Por instantes ficou parado diante da porta matutando se entrava ou não, até que finalmente decidiu por entrar.

Na saleta da edicula, ele sentiu-se entrando em um mundo alternativo. Seu cheiro estava presente em todo o ambiente, mesmo que ele não estivesse lá por muito tempo. Não havia outro cheiro, além dos dois. Mas foi então que reparou no que não havia visto na lua cheia. Sua atenção estava totalmente na ruiva, que ele deixou passar desapercebido os itens no canto da sala. O berço, provavelmente feito por Fergus, estava com alguns brinquedos de pelúcia e tinha um mobile inuite pendurado acima dele. Um apanhador de sonhos na direção do travesseiro, e sacolas de roupas de bebes no canto. Kallai se sentindo um intruso aproximou-se nos itens de bebês. Havia uma mescla distinta de objetos, como se pessoas distintas tivessem dado sem elaborar um único tema. Ele sorriu para as várias chupetas temáticas, e segurou brinquedo por brinquedo, farejando-os buscando para ver se havia algum perigo neles. Kallai sentou-se na cadeira de balanço e olhou para aquele comodo bem estruturado. No canto extremo da saleta havia uma porta para o quarto e outro para um banheiro, mas quem estivesse sentado na cadeira teria visão de tudo e a janela não tinha acesso ao ponto onde ele estava.

O homem lobo pensou que seu filho tinha pensado em todos os pequenos detalhes enquanto ajudava a preparar esse pequeno lar para Emer e a criança. Ao lado da cadeira havia um pequeno móvel e sobre ele um grande livro, com várias orelhas e fitinhas saindo dele. Kallai pegou o livro com cuidado e leu o título. Segurando o riso ele começou a folhear os vários nomes e significados que Emehir havia separado. Muitos com tantos significados distintos, mas todos direcionados a uma única coisa: esperança.

– Kallai? O que faz aqui?

Ele estava tão concentrado lendo os nomes que não ouviu o som da porta abrir, e muito menos que Emer estava parada segurando um pacote nas mãos. Kallai pulou para ajudá-la, mas ela revirou os olhos.

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– São pãezinhos. Não está pesado.

Ainda assim Kallai pegou o pão e indicou a mesa para que ela se sentasse. Enquanto ela se ajeitava, o homem lobo procurou pelo balcão algo para que Emer bebesse, até que descobriu uma garrafa térmica com chocolate quente. Ela acompanhava todos os movimentos dele em silencio, e quando ele já havia aprontado a mesa, Emehir tinha um olhar curioso nos olhos.

– Vou perguntar de novo, o que faz aqui?

– Louca para me ver longe? — Quando Emer mordeu o lábio inferior, Kallai sorriu — Ajudaria se eu dissesse que estou me escondendo aqui?

– Se escondendo? De quem?

Kallai deu de ombros.

– De todos. Eu precisava de um lugar calmo, e… — Ele apontou com um gesto de cabeça — … Coisas de bebês me acalmam.

– O tão poderoso Brenin da América tem uma paixão secreta por bebês?

Kallai deu risada, e inclinou-se mais para perto de Emehir e falou baixo em tom de segredo.

– Não conte para ninguém, mas crianças em geral são minha fraqueza.

Eles sorriram cumplices daquele momento relaxante, mas não falaram mais nada enquanto comiam. Quando Emer terminou de comer, Kallai foi até o balcão com abastecimentos e retirou mais algumas bolachas e um pedaço de bolo que parecia ter sido feito de manhã e serviu para que ela comesse. Emehir tentou oferecer para Kallai, mas depois de negado ele buscou o livro e ficou folheando enquanto ela terminava de comer.

– Então, crianças são sua perdição?

– As vezes, eu tenho que visitar algumas cidades pelas Américas, e sempre que posso visito as escolas. Vou em forma de lobo, ele parece aceitar minha preferência pelas crianças. E as deixo brincar comigo. — Kallai deu de ombros — Mas na verdade eu que me divirto brincando com elas. As crianças são puras, e não tem preconceitos ou se preocupam se o que estou fazendo é por marketing ou porque eu realmente gosto. Elas aceitam de coração aberto. É muito mais do que eu poderia pedir.

– Não consigo vê-lo brincando com crianças — Emehir ergueu a sobrancelha — É muito sério.

– Há muito sobre mim que quase ninguém conhece. — Kallai parou nos olhos numa página e então virou para Emer — Eu gosto deste.

Ela começou a rir e cruzou os braços.

– E?

O canto dos lábios dele ergueram-se em um tremor ligeiro.

– E que é um bom nome. Soa bem, e tem um significado lindo.

Emer esfregou o ventre. Kallai seguiu o movimento com o olhar e sua mão coçou para seguir tocá-la. Um palpitar no coração ao se lembrar de quando a sentiu chutar.

– Realmente, ela é uma criança inocente, pura em seu coração e alma. Eu gostei dele, mas ainda não é… Ela.

– Que tal um nome composto?

Ao perceber o olhar que Kallai estava dando ao seu ventre, ela estendeu a mão para ele, e quando ele se aproximou de seus dedos, ela o puxou para mais perto e levou a mão dele para seu ventre. Quando os dedos dele na tocaram, Kallai fechou os olhos e abaixou-se para encostar o ouvido na barriga, enquanto seus dedos escovavam pela lateral do ventre.

– Ela é uma criança sortuda. Terá uma família grande e uma mãe que a amará muito. — Kallai sorriu e então ergueu o olhar para ver lágrimas deslizarem pelo rosto de Emer — Que tal Aldott Wynne?

– Wynne eu já sei o que significa, é um nome de uma vizinha minha. — Emehir ergueu a sobrancelha — O que significa Aldott?

– Abençoada.

– Apesar do motivo de seu nascimento não ter sido bom, não quero que ela carregue essa chaga em sua vida. Um nome puro e belo, combina com ela.

Kallai fechou os olhos e deslizou de um lado a outro a ponta do nariz pelo ventre de Emer e em seguida beijou-a.

– Seja bem vinda Aldott Wynne. Estou ansioso para te conhecer.