Quando o passado não te deixa viver
22 Vocês sabiam
Notas iniciais
Bella
— Agora escove os dentes enquanto retiro os pratos e lavo a louça. Não suje a camiseta de uniforme.
Preparei um prato e guardei no micro-ondas. Jasper não havia subido para almoçar com a gente, estava atolado com as notas que enviávamos direto, on line, para o sistema do governo. Burocracia e mais burocracia. Eu sabia que seria demorado e Antony tinha hora certa para entrar na escola, então nada de atrasos com almoço.
Infelizmente, hoje, meu irmão almoçaria sozinho. Sabe-se lá que horas.
— Tá bom, mamãe. Posso assistir TV enquanto não dá a “hola”?
— Já arrumou o material? Colocou a toalhinha na mochila? Deixei uma limpa junto com seu uniforme.
— Tudo “plonto”!
— Então pode. Só não se suje. Não dá para começar mais uma semana de aula igual a um porquinho.
— Antony “selia” o “polquinho” mais bonito da escola.
— E o mais modesto também. Vá logo, garoto. Antes que eu mude de ideia.
Bati, com o pano de prato, nas costas dele e fui retribuída, antes dele sair correndo para o quarto, com sopros de beijinhos e sorrisos do jeitinho que só Antony sabia.
Era sem dúvida a melhor parte da maternidade. A forma como eles se sentem felizes com tão pouco... Os sorrisos de graças... As demonstrações de amor que surgem do nada...
Eu era realizada! Agradeceria a Deus, todos os momentos, pelo meu presentinho azul.
— Mãããeeee, seu “sulular” tá tocando.
Gritou do banheiro com a voz estranha, certeza que estava com a escova de dente na boca.
Eu esperava mesmo que a camiseta se salvasse.
— Ok, obrigada. Já vou atender.
Desliguei a torneira e corri para a sala em busca do telefone. Era Renée...
— Mãe?
— Oi. Fale comigo. Estou nervosa, não sei como fui deixar sua avó me convencer... Eu minto mal, filha. Você herdou isso de mim. Aro não vai cair na minha conversa. “Vou ser pega no pulo” e ainda vou estragar os planos da sogra.
Segurei uma risada. Mamãe, quando pressionada, verbalizava sem parar nem para respirar.
— Ei? Quem é você e o que fez com minha mãe?
Voltei para a cozinha, coloquei o telefone no viva voz, e continuei a lavar a louça.
— Não brinque comigo, Isabella. É muito sério. Estou a caminho do restaurante e transpirando em bicas. Só de imaginar que vou almoçar com aquele velho... Me dá ânsia. Odeio essa cidade, odeio aquela família, odeio o hospital falido deles... Então seja uma boa filha e me relembre por que estou fazendo isso.
– Ah, isso é fácil, mãe. A senhora vai comprar o hospital porque vovó mandou e porque papai deu o aval e o dinheiro para isso, sem que a senhora precise mexer no seu.
Brinquei, tentando aliviá-la e distraí-la para que se sentisse mais relaxada.
— Você não colabora mesmo. Vou ligar para Jasper, ele é melhor conselheiro.
— Não, mamãe! Estou brincando. Só se acalme. A senhora vai comprar o hospital, primeiro, porque pode fazer isso. Segundo, porque os Volturi nos devem e terceiro porque é uma excelente profissional e sempre pensa no bem estar dos pacientes. E Port Ângeles merece ter a segunda unidade do hospital da senhora e da tia Esme.
Ela não respondeu de imediato, só ouvi o seu suspiro profundo, para depois verbalizar o que pensava.
— O gerente do banco fez exatamente o que sua avó disse que faria. Ligou para Aro assim que recebeu por escrito, a proposta de quitamento da dívida, que Jasper me ajudou a redigir. Estou me sentindo uma consagrada que vai se encontrar com o diabo.
É, Jasper havia me contado isso. E agora, depois de uma ligação do pai de Tânia, Renée estava indo almoçar com ele, para convencê-lo de suas boas intenções para com aquela compra e que não tinha mais relações com tia Esme.
— Hummm, essa comparação não corresponde à doutora Swan. É a mulher que mais admiro, mamãe. Espelho-me na senhora. Não se sinta mal. Eles que começaram o jogo. “Só estamos movendo nossa peça”.
— E será que nossos bispos, cavalos, torres, rei e rainha sairão seguros disso?
Referenciou nossa conversa com o jogo de xadrez que papai tanto amava.
— Nos transformamos com o passar dos anos, mãe. De meros peões para os estrategistas que darão o xeque mate. Fique calma! Vá ao encontro de Aro e faça a parte da senhora. Tenho certeza de que conseguirá.
Renée ficou mais alguns segundos quieta antes de voltar a me responder.
— Eu já te disse o quanto me orgulho de você? Que por mim montaríamos mais uma loja Agro-veterinária antes de comprar outro hospital? Porque é disso que meus filhos, meu marido e meu neto gostam. Vocês são minha vida, Bella. E, pode ter certeza, de que eu não mudaria nada em vocês.
– Mãe, o que foi? Por que está dizendo essas coisas?
Desliguei a torneira, sequei as mãos, peguei o telefone, tirei do viva voz e o coloquei de volta na orelha.
A conversa havia mudado o rumo e eu não queria ser surpreendida pela curiosidade de Antony.
— Não é nada. Eu só acho que não precisamos de outro hospital. Não quando já estou chegando a uma época na vida que quero mais é desacelerar para curtir melhor meus netos. Também tem o fato de que vocês não se interessam por esse tipo de investimento, a não ser Jasper, que, diga-se de passagem, já tem trabalho demais com a loja, a fazenda e os negócios de sua avó. Então, só sobra Edward. Mas...
Ela rodeou, rodeou para chegar ali, naquele ponto. Era sobre ele que queria falar desde o início.
— O que tem ele?
Pude ouvi-la respirando fundo, talvez se preparando, tomando coragem para me dizer algo.
— Eu não sei se entendi bem, mas... Acho que seu ex não é realizado profissionalmente. Parece que desiludiu, há muito, pela profissão. O que me preocupa ainda mais. Por que quem cuidará dos dois hospitais quando Esme e eu decidirmos que está na hora de parar?
Foi minha vez de ficar calada por algum tempo. Renée estava mentindo na cara dura.
Ela não estava preocupada com os hospitais, muito menos com os investimentos que está colocando nesse novo negócio. Minha mãe linda, tinha o dom de falar por meio de incógnitas e meias palavras e aquela fora a maneira que encontrara de me contar que havia algo errado entre Edward e a medicina tão sonhada por ele.
— Bells? Está aí, filha? Estou chegando ao restaurante. Preciso desligar. Você ouviu o que eu disse?
– Estou aqui, mãe. E não sei o que quer que eu diga. Só acho que está equivocada, Edward ama a medicina. Ele me trocou por ela lembra? Um hospital a mais para administrar é o sonho de qualquer médico. Falando em hospital... Preciso de um favor da senhora.
— Mudando de assunto, querida? Você já foi mais sutil.
— Mãe...
— Tá bem, Isabella. Vamos deixar que você digira esse assunto e tire suas próprias conclusões. Sei que quando o assunto é Edward, você decidi o que fazer. Mas, agora fale o que precisa, meu amor? Já posso ver Aro pela vidraça, preciso desligar.
Essa era minha mãe, plantou a semente da curiosidade em mim e sabia que eu especularia até saber mais sobre aquela informação e aí então, lhe contaria o que descobrira.
— Posso deixar Antony com a senhora, no hospital, antes de ir para a faculdade para que o leve para fazenda?
— Como assim? Onde está seu irmão? Depois vai voltar tarde da noite sozinha para casa? Nem pensar! Eu te espero.
— Não é nada disso, mãe. Respire...
Apressei em interromper seu montante de perguntas.
— Jasper está aqui e vai me esperar para voltarmos juntos. Eu só não quero que tenha a obrigação de cuidar de Antony toda noite. Ele tem uma vida e...
— E está vivendo em pecado com a ex que voltou a ser atual. Onde eu errei, Jesus? O mundo está perdido mesmo!
— Mãe!
— O quê? Vocês e essas modernidades. Homens iguais seu pai, que só tocam numa mulher depois de casar, não existe mais. Nem bem se reconciliaram e já estão “de esfregação” que nem podem cuidar de uma criança.
Reprimi uma gargalhada, sabia que ela estava “falando pelos cotovelos”. Renée nunca fora tão conservadora e duvido que meu pai e ela não tenham “se esfregado” antes de casar.
— Ok, dona Renée, informação demais aqui para uma irmã ciumenta. Além do mais, Jas merece esse relacionamento de volta. Não implique com ele. E a senhora não me respondeu, posso deixar Antony no hospital?
— Relacionamento, que relacionamento? Eu não fui informada nem apresentada a esse novo status. Então para mim, continua sendo “esfrega, esfrega” de rua. Quanto a meu neto? Não. Você não pode deixá-lo no hospital. Lá não é lugar de criança. Cadê o pai desse menino? Ele não quer se aproximar? Então, eis a oportunidade. Agora, tchau... vou desligar, porque o velho babão já me viu e está sorrindo como um idiota e não, não conte essa parte a seu pai. Tchau, querida!
– Mãe? Mãe?
Olhei para o celular e fiquei atônita ao perceber que ela havia mesmo desligado.
Por Deus! Renée estava com a corda toda hoje.
Jasper que se preparasse...
Renée
Você pode! Você pode!!! Você pode!
Repeti mais três vezes, mentalmente, a frase que vinha memorizando no trajeto de Forks a Port Ângeles. Especialistas diziam que ajudava. Eu, sinceramente, achava uma baboseira. No entanto, depois de anos de tratamento de Bella, em que a acompanhava sempre que possível, aprendi que terapia, indução, pensamentos bons e compaixão podem fazer milagres quando estamos predispostos para a aceitação.
Então... Você pode! Você consegue! Lembre-se do motivo!
É, eu tinha um motivo. Aliás, um não, dois, ou melhor, acho que três bons motivos para destruir Tânia e sua família inteira.
Sim, eu tinha uma filha pela metade em casa, que não perdia em nada para um zumbi quando a noite chegava. E creio que só a teria inteira outra vez quando se deixasse dominar pelos sentimentos trancafiados no íntimo de seu coração. Essa era minha primeira motivação.
A segunda? Bem, também tenho um neto em casa, que, infelizmente, também não está inteiro. Ele é pequeno, um pinguinho de gente, mas, carrega nas costas o peso de ser o único motivo de sorrisos de sua mãe. Isso sem contar que age com adulto em relação às crises de pesadelos, ansiedade e insônia de Bella. Meu segundo motivo merece ser somente uma criança que faz traquinagens e que se diverte como se não tivesse amanhã.
E o terceiro?... Ah, o terceiro é o mais surpreendente e, confesso, demorei muito para ceder e perceber o quanto essa motivação tem um peso especial em minha vida: Edward. Sim, vocês entenderam bem: Edward. E sabem o por quê? Porque nenhum pai merece perder o nascimento e evolução de um filho, ainda mais esse filho sendo sinônimo de perfeição. Também porque nenhum homem merece perder o amor de sua vida, mesmo que tenha agido como idiota. Que atire a primeira pedra o homem que nunca agiu assim.
Vocês devem estar pensando: Renée é louca, depois de tudo que Edward fez com a filha dela...
Não, eu não esqueci. Muito menos o isento da culpa ou procuro justificativas para seus erros. No entanto, acredito que ninguém mereça o castigo de não ter o filho por perto. Charlie e eu sempre discordamos nesse quesito.
E também acredito em perdão e arrependimento. As pessoas mudam e é nossa obrigação acreditar nisso e dar-lhes uma segunda chance.
E, sério, vi minha filha sofrendo por anos por um amor que nunca será curado. E está estampado na face de meu sobrinho que com ele foi igual para não dizer pior, porque ainda tinha a culpa e as incertezas quanto à vida de Antony.
Ou seja, tenho mais do que boas desculpas para estar aqui nesse restaurante hoje, pronta para colocar o plano de minha sogra em ação. O único problema é que mentir nunca fora meu forte. E espero mesmo não estragar tudo.
— Pois não? Posso ajudá-la? A senhora tem reserva?
Passei pela portas duplas do La Buona Pasta sendo recebida, imediatamente, pelo maitre.
– Boa tarde. Sou Renée Swan e...
— Ah sim, o senhor Volturi a aguarda. Acompanhe-me, por favor.
Pegou de minhas mãos minha maleta e meu casaco e me guiou por todo grande salão até uma mesa mais reservada perto das janelas do fundo, que davam para um, bem cuidado, jardim.
— Ah, minha querida, como é bom revê-la. O tempo só lhe fez bem, Renée.
Engoli o asco quando Aro recusou minha mão para um simples aperto e a levou aos lábios, demorando-se tempo demais ali para o meu gosto.
— Mas, venha. Sente-se. Temos muito que conversar.
Puxou minha cadeira, enquanto minhas coisas eram colocadas no assento ao lado.
— É um prazer revê-lo também, Aro. Claro que eu esperava que fosse numa situação melhor, mas já que foi assim, creio que o destino sabe o que faz. Não é?
— Para mim sempre é um bom momento, minha querida. Ainda mais quando se tem ótima comida e uma mulher bonita como companhia.
Eu sabia que sua arrogância o impediria de dizer que o momento não era bom. O que, em tese, era melhor para nós. Quanto maior o orgulho mais fácil negociar dinheiro fácil.
— Mas, me conte, por onde andaram? E o que os trouxe de volta a um lugar tão irrelevante quanto Forks?
Segurou minhas mãos por cima da mesa, e começou a acariciá-las, e eu, aproveitando que o garçom chegara trazendo água e o cardápio, me livrei de seu agarre.
Charlie ficaria uma fera se pelo menos sonhasse com tudo isso.
— Hum, estávamos no Brasil. Aproveitando o calor e a fertilidade das terras tropicais.
— Brasil? Ah, minha querida, típico de Charlie pensar como gente pequena. Eu, no lugar dele, a levaria para a Europa: França, Itália, Inglaterra... Você merece o melhor. Não um paisinho de terceira.
Abaixei o cardápio e olhei com intensidade para aquela cara enrugada. Mil palavrões diferentes se passando pela mente. O melhor era, “de terceira é a senhora sua mãe que te fez”. Contudo, se eu ainda não estava certa dos planos de minha sogra, acabara de ser convencida. Aro merecia mesmo rolar ladeira a baixo.
Já que estava no inferno, era melhor abraçar mesmo o “maledeto” e acabar logo com isso.
— Charlie não é tão fino, nem tem os mesmo gostos refinados que nós. Prova disso que foi só a sogra rabugenta ligar inventando que estava doente, que nos obrigou a voltar para esse frio horroroso. Ah Aro, você precisa conhecer o Brasil, o litoral salva.
As únicas duas verdades de minhas ultimas palavras fora que duvidava mesmo da doença de dona Marie e também da beleza do litoral brasileiro, se bem que aquele país é bonito por completo.
Oh povo abençoado!
— Interessante! Então posso crer que não estejam nada felizes por voltarem ao lar.
— Lar? Você acha mesmo que a gélida Forks e uma casa na fazenda, ao lado da sogra, pode mesmo ser chamado de lar? Meus filhos e eu estamos contando os dias para voltar. Isso já não nos pertence mais. Nossa realidade é outra.
Ele riu e me estudou de cima abaixo, creio que procurando entender se eu mentia ou falava a verdade.
— Ah, mas sua família está aqui, minha querida. Não dá para desdenhar tanto de sua terra natal.
— Família? Que família? Se está se referindo a Esme, acho que se esquece o que os filhos dela fizeram com os meus. Quero mais é que se ferrem, aliás, é isso que vou fazer com eles, pelo menos nesse ponto, Charlie e eu concordamos.
— Ah sim, a pobre Isabella. Como poderia esquecer-me da menina inocente que se deixou levar pelo garoto que Esme chama de filho. Ela se recuperou? Está mais esperta agora?
Segurei com mais força o “bendito” do cardápio. “O garoto que Esme chama de filho”? Quem ele queria enganar? Lógico que sabia o nome de Edward, tentara jogar a filha para cima dele o tempo todo.
— Bella está bem. Linda e cada dia mais feliz. Pena que tenha o mesmo gosto por terras e animais que o pai. Mas, logo, logo isso acaba. O noivo, que é filho do prefeito da cidade onde morávamos, vai para a Alemanha fazer pós- graduação em economia política e a levará junto. Certeza que quando apresentá-la as maravilhas que o dinheiro compra, esquece essas manias interioranas.
Por Deus! Que Bella nunca imagine que eu disse essas coisas. E que Benjamin me perdoe por acrescentar algumas coisinhas em sua vida.
— Isso é maravilhoso. Mas, se pretendem voltar para onde estavam, por que montarem uma loja e o interesse por meu hospital?
Droga! Vai Renée, mente descaradamente... Agora se livra dessa. Aro é prepotente, mas não é burro...
Só que eu também não sou.
— Isso é questão de dinheiro e da lei do retorno, meu querido.
Retribui o apelido nojento fazendo com ele quase pulasse a mesa e me agarrasse.
— Como assim? Atiçou minha curiosidade.
Paramos e fizemos nossos pedidos quando o garçom voltou. Pedi só salada porque era bem capaz de vomitar tudo ali se pedisse algo mais substancial.
— Voltando ao assunto...
Relembrou que eu estava a ponto de dizer-lhe o porquê de tantos investimentos se partiríamos em breve.
— Primeiro, meu filhos montaram a loja, porque precisavam investir em alguma coisa, e como sabe, imóveis são o meio mais seguro e também porque vender produtos agrícolas em uma área rural, como Forks, é o mesmo que vender água no deserto. E o hospital? Bom, vendi minha parte do de Forks e quero investir em algo que satisfaça- me financeiramente e pessoalmente.
— Vendeu? Essa é nova. E como assim quer investir em meu hospital para se satisfazer?
A língua coçou de vontade de dizer que o hospital dele, era na verdade, do banco, mas... Pela milésima vez, só na última hora, me contive.
— Vendi. O negócio ainda está sendo mantido em segredo para não assustar fornecedores e clientes, mas eu não suportava mais aquela situação. Esme e sua família quase destruiriam a minha, eu precisava me livrar dela e destruí-la ao mesmo tempo.
— Continuo não acompanhando seu raciocínio, Renée.
A loja já esquecida, era evidente que compra e venda de hospitais eram de seu maior interesse.
— Ora, Aro, é simples. Acha que Esme tem tanto dinheiro disponível a ponto de não colocar as finanças de sua família em risco? Quanta acha que minha parte no hospital vale? Ela não estava preparada para nossa volta, muito menos para minha ira em relação a eles e a tudo que os envolve. Carlisle teve que hipotecar as terras para levantar dinheiro para ela, que logo, logo também serão nossas. Porque é evidente que não conseguirá pagar o banco e aí Charlie comprará a dívida.
— Só que você não está levando em consideração que agora ela tem a renda do hospital todinho para ela.
Tomei um gole do meu suco de maçã e sorri triunfante e teatralmente, os olhos dele brilhavam perante a possibilidade de acabar com parte de nossa família.
— É claro que estou. E é por isso que quero comprar sua dívida para com o banco. Depois, vou fazer uma reforma geral, equipá-lo com tudo de última geração e por fim, contratar os melhores profissionais. Forks está a um pulo daqui, acha mesmo que as pessoas não ficarão sabendo de tudo isso? E quando se trata de saúde ninguém economiza. Gastam o que têm e o não tem.
Que Deus me perdoasse por aquelas palavras, Ele era testemunha de que não pensava assim.
— E isso tudo para depois vocês irem embora? Não entendi seu raciocino ainda, Renée. Apesar de estar adorando suas ideias.
Paramos de novo, quando os pratos chegaram. A salada parecia realmente gostosa, apesar de ser de um restaurante italiano.
Mentalmente, prometi que voltaria ali com meu marido para experimentarmos o máximo de massa possível e também com a intenção de apagar a imagem de Aro sorrindo para mim daquele lugar.
— Você não está entendendo, porque ainda não te falei da cartada final...
— Que será?
— Quando os Cullen já estiverem atolados em dívidas e você se reerguido, porque não terá mais a dívida do hospital, o venderei de volta para sua família. Cravando assim, de vez, a faca no coração de minha cunhadinha.
O garfo dele parou a pouca distância de sua boca. Eu podia descrever cada detalhe da expressão embasbacada: surpresa, dúvida, interesse, ganância e por fim, credulidade.
Demorara duas horas, um estômago revirado e cem dólares, porque era evidente, que quem pagaria aquele almoço seria eu.
No entanto, valera à pena. Era questão de segundos até que sugerisse que nos encaminhássemos ao banco.
Minha sogra tinha razão, Aro e sua família nos pagariam e se arrependeria com seu maior desejo: o dinheiro.
Edward
— Não, senhora Jhones, a senhora não pode tomar mais uma dose de laxante. Eu sei, eu sei... Mas, tem que esperar fazer efeito.
Passei as mãos no cabelo e senti a dor dos muitos fios sendo arrancados. Como explicar, por telefone, a uma senhorinha de 80 anos que se tomasse mais um remédio acabaria no hospital com uma diarréia daquelas.
— Eu sei que não está funcionando. Mas, o medicamento demora até 50 minutos para fazer efeito... Vamos fazer um acordo?
Esperei que ela esbravejasse mais comigo e quando, finalmente, se calou pude então propor minha ideia.
— A senhora espera mais meia hora, se não conseguir usar o banheiro nesse meio tempo, pode ir direto para o hospital que darei autorização para a internação e faremos mais uma série de exames.
Para constatar a mesma “prisão de ventre” de sempre... Pensei.
Senhora Jhones era um, dentre tantos casos, de pacientes solitários e carentes que todas as semanas estavam em meu consultório ou na unidade de pronto atendimento do nosso hospital.
No fim das contas ela só queria atenção e me contar como sofria pela falta de visitas de seu filho Bill.
E pensar que passei cinco anos na universidade para isso... E pensar que negligenciei o amor de minha vida e meu filho para isso. Deus!
— Ok, se o remédio não fizer efeito, à consulta será por minha conta, eu prometo. E...
— Ele está, mas não poderá te atender. Está numa consulta importantíssima ao telefone e ainda tem mais três pacientes o esperando. Quer falar com o doutor Cullen? Entre na fila, Swan. Marque uma consulta.
Senti os pelos de minha nuca se arrepiarem ao ouvir, entre um resmungo e outro da minha paciente diária, Jéssica falando alto e se irritando com um Swan.
E seja qual for o que estivesse ali fora, ela não poderia fazer isso. Eu estava reconstruindo uma vida com eles.
Aliás, ela não podia gritar com ninguém na recepção.
— Ok, senhora Jhones, eu preciso ir. Tenho uma emergência. Ligue-me de novo daqui à uma hora, para relatar as boas novas... Eu também gosto muito da senhora... Não se preocupe, não é incomodo...
Levantei, com o telefone ainda no ouvido, e rumei para a porta. E minha paciente não parava de falar.
— Minha mãe também sente a falta da senhora... Sim, nós a visitaremos em breve para aquele chá. Obrigado... Não, não estou te despachando... É que tenho mesmo uma emergência e...
— Ele é médico, não está a sua disposição. E não sou garota de recados, sou a secretária da clínica. Eu já disse, se quiser falar com o doutor, marque uma consulta.
Droga! Droga! O que Jéssica estava fazendo?
— Tudo bem, senhora Jhones. Tenha uma boa tarde. Fique com Deus. Talvez devesse visitar o padre Marcus, ele me disse outro dia que está com saudades da senhora. Que não aparece para se confessar ha muito tempo... Não, claro que ele não me contou seus pecados. Estávamos apenas comentando das pessoas que mantêm Forks de pé e o nome da senhora foi lembrado e...
Marcus me mataria por mandá-la para ele. Como minha paciente de sempre, ela era a fiel de sempre, com a mesma história de sempre...
A senhora Jhones só queria conversar.
— A porta é por ali.
Jéssica voltou a falar alto lá da recepção.
— Até mais, senhora Jhones, eu preciso mesmo ir.
De qualquer maneira, desliguei o telefone e o joguei em cima do aparador. Sabia que teria sérios problemas com a auto-estima daquela senhorinha, mas algo me mandava descobrir o que estava acontecendo.
Por isso, abri a porta de qualquer jeito e quase perdi uma batida ao ver que Bella já havia se virado e se retirava a passos largos da clínica.
Poderia ser qualquer Swan, mas era a principal Swan...
— BELLA?!
Gritei, fazendo assim com que toda a atenção da recepção se voltasse para mim.
— O que pensa que está fazendo, Jéssica? Quer perder o emprego?
Crispei meus olhos nela e sussurrei, mostrando assim minha frustração, enquanto atravessava a recepção e ia ao encontro da mãe de meu filho.
A noite de domingo ainda vívida em minha mente, assim como o sabor marcante da pizza de tomates secos.
— Oi. Queria falar comigo? Aconteceu algo? Está tudo bem?
Ela não respondeu de imediato, primeiramente me avaliou de cima abaixo e então, uma pontinha de sorriso despontou de seus lábios.
Não era a primeira vez que me via de branco ou era?
Confesso, mesmo sendo um profissional frustrado, amei ser aprovado em sua avaliação. E ver aquele sorrisinho de Bella sabendo que eu era o motivo... Deus... Há anos isso não acontecia.
— Não é nada. Deixa pra lá! Não quero atrapalhar. Sua secretária disse que estava em uma ligação importante e que não marquei hora. Falamos-nos depois, não é nada importante.
Putz! Eu mataria Jéssica. Em dois meses de volta dos Swan’s essa era a primeira vez que ela me procurava por livre e espontânea vontade. Não era possível que tudo fora estragado por mau comportamento de uma funcionária.
— Não está atrapalhando. Eu tenho todos os minutos do mundo para você, venha comigo.
Sem dar chance de ela pensar duas vezes, coloquei a mão em suas costas e a guiei de volta, a caminho de minha sala.
Por Deus! Era a primeira vez dela ali. De repente uma ansiedade ameaçou me dominar, será que ela gostaria do lugar? Será que estava tudo em ordem? Mesmo me esforçando não conseguia lembrar se havia algo fora do lugar.
Pensar com coerência quando tínhamos contato físico, por menor que fosse, não era fácil.
— Vou atrasar a próxima consulta, por alguns minutos, Stanley. Ela será de graça para o próximo paciente, como um pedido de desculpas. Ah, e não vá embora antes de conversarmos. Temos muito que resolver.
Disse baixo do jeito que só ela e eu ouvíssemos, Bella não falaria comigo se soubesse que deixei alguém esperando.
Mesmo que lhe explicasse que o senhor Joshua era exatamente como à senhora Jhones, doentes de atenção.
— Não nos interrompa e nem passe nenhuma ligação.
Não esperei por sua resposta. A expressão assustada era prova de que havia entendido o que fizera e que acarretaria em algo nada bom.
Era a segunda vez que ela destratava meus amores. Primeiro Antony e agora Bella, isso não ficaria assim.
— Edward, não precisa atrasar sua vida por minha causa, posso voltar depois.
— Você não me atrasa, Bella. Entre, vamos conversar.
Ela não discutiu. Não teve timidez, nem situação constrangedora. Simplesmente entrou.
Como esperado, “varreu” todo o ambiente com os olhos. Não me passou despercebido que focou atenção nas escadas que levavam ao andar superior.
— Sente-se. Bebe alguma coisa? Água, suco, refrigerante, chá? Se quiser outra coisa posso providenciar. É só dizer.
Apontei-lhe a cadeira de frente a minha mesa e me dirigi ao frigobar.
— Não, obrigada. Estou bem.
Eu não estava, por isso, peguei uma garrafa de água. Precisava controlar a ansiedade que era tê-la tão perto.
Segundos depois de um grande gole, fui para minha cadeira.
— Está tudo bem, Bella? Confesso que estou surpreso com sua visita. Em que posso ajudá-la?
Seus olhos pararam no chapéu que Antony me dera, que agora tinha encontrado seu lugar em cima da arca que fica atrás de minha mesa e que guarda pequenas relíquias para mim: Uma imagem de São Lucas, santo protetor dos médicos, que Esme me dera assim que inaugurei a clínica. Um estetoscópio antigo que ganhei de meu orientador quando terminei, com louvor a residência. E por fim, o chapéu, o primeiro e mais valioso presente que recebi de meu pequenininho amor.
— Ficou lindo aqui. Obrigado por tê-lo deixado me trazer. Nunca me senti tão agraciado por algo. Sabe, Bella, de tudo que já fiz na vida, Antony é o único acerto. Nem se eu vivesse 100 vidas poderia te agradecer por não ter desistido dele.
Ela ainda observava o chapéu, mas seus olhos estavam totalmente fora de foco. Parecia se lembrar de algo intenso.
— Tem que agradecer a ele, Edward. Como eu te disse, Antony que não desistiu de mim. E quanto ao chapéu? Precisa aprender uma coisa sobre seu filho: Ele consegue exatamente tudo o que quer. Basta contar uma de suas histórias ou usar suas próprias palavras contra você mesmo. Isso me lembra o porquê de minha visita...
Fiquei mais atento, a tudo. Absorveria tudo dela, afinal não conhecia mais essa nova Bella nem meu pequeno filho.
— Prossiga, Bella.
De insegura ela não tinha nada. Por isso, levantou um pouco o rosto e me encarou de frente.
Aprisionei, em meu íntimo, a vontade de colocar as mãos por cima das suas. Não era assim que eu a reconquistaria... Sabia disso.
— Estou aqui para saber se quer mesmo conviver com Tony? Ou se vai querer só o papel de tio sem compromisso e que estará para ele somente nos momentos em que nos encontrarmos em casa de familiares esporadicamente?
Passei as mãos pelos cabelos, me contendo. Será que ela nunca voltaria a ter confiança em mim? Eu já não tinha deixado minhas intenções bem claras.
— Eu quero tudo, Bella. Não estou brincando. Quero ser pai com todas as responsabilidades que essa função exige.
— Hummm.
Olhou-me com mais atenção, como se minhas palavras tivessem alcançado algo que ela certamente aprovou.
— Então, como oportunidade para que estreitem os laços e me ajudando num assunto, gostaria de saber se quer ficar com seu filho enquanto estou dando aulas? Não serão todos os dias, sei que tem responsabilidades no hospital também. E não pense que estou me livrando do meu filho na primeira oportunidade. Eu só quero deixar Jasper tranquilo algumas noites, para que ele aproveite seu relacionamento com Alice, ele merece. E minha mãe acha, e concordo com ela, que hospital não é lugar de criança. Poderia deixá-lo com Emm, mas... Não é uma opção no momento. Então... Pensei em adequar o útil ao agradável, mas não quero que sinta isso como obrigação, se não puder eu desisto das aulas. Meu filho é prioridade e...
— Calma, Bella. Respire.
Esquecendo totalmente o controle e deixando o entusiasmo dominar, coloquei uma das mãos por cima das dela, que estavam em minha mesa.
Não fui rechaçado.
— Eu me sentiria honrado com essa oportunidade. Não me atrapalhará em nada, Bella. Tenho dois plantões por semana, mas posso adequar para os dias que você não dá aula. Será perfeito.
Ela soltou a respiração, aliviada, ao mesmo tempo que tirou as mãos debaixo das minhas.
Rápido demais, Edward. Rápido demais... Não era porque ela lhe dera uma chance com seu filho que faria o mesmo com vocês. Não, ainda não.
— Tudo bom, então. Vou conversar com Antony também. E Jasper estará bem aqui de frente, você pode chamá-lo se precisar. Eu só não quero tirar a liberdade dele, porque tem que cuidar de Antony.
— Não precisa se explicar. Será perfeito.
— Tudo bem. E, não precisa ser todo tempo que eu estiver fora, Jasper, de todas as maneiras, me espera para irmos para casa juntos. Você pode entregá-lo ao tio sempre que precisar e...
Levantou-se, levemente constrangida.
— Bella. Tá tudo bem.
Coloquei-me de pé também. Por que ela estava sem jeito? Eu é que devia estar agradecendo. Como fazê-la perceber que era oportunidade que eu precisava?
Por que estava indo embora? Será que pedir para ficar... A vida inteira de preferência era loucura demais?
— Não quero te atrapalhar.
— Não está atrapalhando. É a chance que eu esperava, Bella. Quero conhecer melhor meu filho. Se acalme.
Dei a volta na mesa e segurei seu ombro, a olhando com intensidade, passando verdade. Mostrando, sem palavras, que ela e Antony eram meu objetivo final.
— Ok. Se estiver tudo certo então, eu preciso voltar agora. Ainda tenho que conferir o material da minha aula de hoje. Obrigada!
Quebrando nossa troca de olhares e sendo o elo mais forte de nós dois, ela se remexeu, se livrando do meu agarre, e começou a caminhar para a saída.
Respirando fundo, a segui.
— Vai trazê-lo hoje já? Minha noite está livre. Estou ansioso.
Ela acenou concordando.
— Vou. Deixo-o aqui quando estiver saindo. Por favor, não o mime demais. Vou dar-lhe janta antes de sair. Não se preocupe com alimentação. Quando tiver com sono, o que acontece lá pelas nove, ele te pedirá leite no copinho. Mas, essa parte você já sabe como se virar. Ele gosta de ouvir música quando está com sono, à televisão só o alerta e...
Caminhamos até a porta, com ela falando e falando, e quando saímos para a recepção da clínica, ela nem se tocou que as pessoas ali esperando nos observavam com atenção.
— Ele não gosta de desenhos de super- heróis. Gosta mais de desenhos de animais e...
— Certo, Bella. Nós vamos conhecer os gostos um do outro, aos poucos. E se eu não der conta de algo, ligo para Jasper. Você pode dar suas aulas tranquila.
— Certo e...
Olhou-me ainda em dúvida.
Contudo, minha mente já estava concentrada na pessoa, de saltos barulhentos e roupa curta, que atravessava as portas para onde nos dirigíamos.
Putz! O que eu fizera para Deus?
— Ora, ora, ora... Se não tenho uma bela surpresa. Eu estava mesmo vindo contar ao Ed as novidades.
Tânia jogou o cabelo para o lado, levantou o nariz e parou a nossa frente.
Bella não se moveu, um passo, para desviar. Parou a sua frente. Ambas encarando uma a outra.
Jéssica e as demais pessoas ali na recepção nos encaravam. Havíamos virado o centro das atenções de novo.
— Eu tive notícias de que voltou, Swan. Mas, confesso, aqui era o último lugar que esperava te encontrar porque, se todas as fofocas que escutei forem verídicas, o Ed é última pessoa com quem quer se relacionar.
Olhou Bella de cima abaixo, avaliando... Bella não lhe retribuiu o gesto. Era evidente que Tânia não a afetava mais, ou se afetava, ela escondia muito bem debaixo da máscara de forte.
— Isso prova que você está duplamente equivocada, Tânia. Não acredite em fofocas e não, não estou me relacionando com ninguém. Agora se me permitem... Tenho mais o que fazer... Obrigada, Cullen.
O sobrenome bateu com tudo em mim. Era evidente que a presença de Tânia despertara lembranças antigas e talvez até trouxessem dúvidas novas. Eu não precisava daquilo... Aliás, ainda não havíamos conversado sobre a influencia atual daquela mulher em minha vida.
— Podemos continuar nossa conversa, Bella. Não tenho nada a tratar com senhora Volturi.
Deixei-a saber, que Tânia não era bem- vinda.
— Ah, Ed, senhora não...
Pendurou-se em meu ombro antes que eu pudesse prever. Se o intuito era incomodar, Bella. Não surtiu efeito. Fato que me incomodou?
— Nosso assunto já terminou. Deixe-me saber se não tiver problema com aquele nosso assunto, não quero incomodar...
Agora sim, olhou para a mão de Tânia em mim. Livrei-me dela, não queria que tivesse a impressão errada.
— Já estamos conversados. Só tenho duas prioridades em minha vida e você já sabe quais são.
— Certo... Então, tenham uma boa tarde.
Estava pronta para sair e eu a segui deixando Tânia plantada no saguão. Porém, ela não perderia a oportunidade.
— Sabe, Ed, se eu fosse você não ficava de assuntinho com essa daí. É o mesmo que confraternizar com o inimigo. Você e sua família podem se ver envolvidos no meio de vingança e talvez assuntos sórdidos e armações que podem os levar a falência. Sabe com quem meu pai almoçou hoje e fechou negócios?
Foi instantâneo, Bella se voltou para ela e sorriu. Sorriu como eu nunca havia visto. Havia muita coisa naquela ato: orgulho, verdade, informação, vingança, cinismo?
— Ed...
Virei-me para ela também, sem me conter, sorrindo. Até ameaço dizer que repetindo o gesto de Bella.
— Vo... Vo... Vocês sabiam...
A compreensão a atingindo com força total.
— Droga! Enganaram meu pai. Enganaram...
Saiu correndo para a saída, nervosa e já com o celular em mãos.
Mal ela sabia que era tarde demais. Minutos antes de Bella chagar, Esme me ligara contando que tia Renée lhe mandara fotos saindo do banco e com os papeis de quitamento da dívida de Aro. Era fato... os Volturi estavam em nossas mãos agora.
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