Notas iniciais
Capítulo enorme e totalmente dedicado a duas pessoas especiais: Jo G Cullen e Déh Oliveira que fizeram desses dias, tão difíceis, valerem a pena, ao recomendarem minha fic. Obrigada! Serei eternamente grata por tudo que fazem por mim. Amo vocês. Ah, Jo te mandei MP.

Bella

Enfim, eu estava na loja...

Depois de uma manhã conturbada pelas indagações de Charlie, a estranheza de Jasper, a conversa com Emmett e os olhares de águia de Renée e, sem contar as tarefas diárias da fazenda, isso tudo e lógico, depois de deixar Antony na escola, eu podia respirar aliviada em partes, e começar a segunda parte do meu dia: a loja.

— Fique com a parte burocrática hoje. Faça os pedidos. Deixe que eu fico aqui na frente nos atendimentos. Se precisar fazer algum nas fazendas, mando te chamar.

Emmett passou o braço pelo meu ombro e me puxou mais para ele, assim que saímos da garagem e nos dirigimos à loja, pelas portas da frente.

Não ousei olhar para a clínica, não sabia ainda como reagiria quando visse Edward hoje.

As lembranças daquele beijo ainda frescas demais em minha mente.

— Vou aceitar sua oferta. Preciso sentar por, pelo menos, uma hora.

— Eu sei.

Carinhoso, beijou minha testa quando adentramos o local, atraindo rapidamente todos os olhares dos funcionários para nós.

É, deu vontade de gritar, nós fizemos as pazes. Emmett está de volta.

— Boa tarde, a todos.

— Boa tarde.

Separei-me dele e antes de me afastar totalmente, percebi olhares estranhos em minha direção. Não sabia do que se tratavam, mas também não levei em consideração. Cidade pequena tem dessas coisas.

Passei pela sala de Jasper, que estava aberta, e o vi parado, feito uma estátua, com um sorriso bobo nos lábios encarando a tela do computador. Eu podia apostar meu chapéu vermelho que ele não via nada a sua frente.

— Ei, cheguei tá? Quer conversar?

Ele não respondeu, nem se dignou a olhar em minha direção.

Fiquei pensando, será que o amor faz isso com as pessoas, as torna cegas, surdas e o que mais?

— Jas?

Nada! Insisti agora um tom mais alto.

— Jasper!

Nadica de nada!

— Jasper Swan!

Usei a tática de dona Renée. Ela nunca falhava.

— Oi? Quê, Bella? Por que tá gritando? Não sou surdo, sabia!

Abafei uma gargalhada.

— Oh, me perdoe. Só passei para te avisar que cheguei e que se quiser conversar estarei na minha sala. Emmett está lá na frente.

Soei divertida. Era evidente que ele estava flutuando de felicidade e ao mesmo tempo imerso em preocupação.

— Tá, já passo lá. Vou deixar você se espantar sozinha primeiro.

— Do que está falando?

Foi a vez dele, de dar de ombros e fingir desentendimento.

— Como você disse, nada! Só acho que estamos completamente perdidos e enredados de novo, irmã.

— Não sei do que está falando.

Fingi desentendimento. E ele, não perdendo a oportunidade, veio até mim, levantou meu queixo, beijou minha bochecha e sorriu mais ainda, se é que era possível.

— Tá bom, irmãzinha. Pode dar uma de boba, mas só até eu entrar naquela sua sala, porque temos demais que conversar. Agora vá. Quero te dar um tempinho para pensar em tudo. Vá...

Agindo mais estranho ainda, Jasper empurrou minhas costas e quando fiz menção de falar alguma coisa, fui interrompida.

— Ah... Calada! Conversamos daqui a pouco.

Sem alternativa, porque ele simplesmente voltou-se para seu escritório e fechou a porta na minha cara, rumei para minha sala.

O que estava acontecendo com o povo naquele dia? Parecia que um pouquinho da loucura de todo mundo havia caído bem em Forks.

— Vai entender...

Conversei comigo mesma, isso claro antes de abrir a porta e “dar de testa” com uma enorme... Enorme... Coisa, bem em cima de minha mesa.

Ah, Deus! O que era aquilo?

Desconfiada, deixei em cima do sofá, a bolsa e uma sacola de frutas que trouxe da Sonho Azul, para só então me aproximar e contemplar o enorme aparato em cima de minha mesa.

Tá, admito, “aparato” não era uma boa palavra para descrever a... O... Bom, literalmente, era uma caixa, um baú..., não sei como descrever melhor, só sei que era bonito. Com cores sérias e pastéis e o melhor, recheado de coisas gostosas. E como toque final, um vinho tinto frisante, que eu amava e tomava com Jasper e Emm, sempre que tínhamos um tempinho só para nós.

Ah! E tinha chocolate! E não era qualquer chocolate, era de uma marca Italiana, que poucos sabiam, que eu idolatrava e não era assim tão fácil de encontrar aqui em Forks.

Tomada pela curiosidade, pesquei o cartão em meio aquela bagunça organizada, e qual foi a minha surpresa ao abri-lo.

Bella

“O Edward que não deve ser nomeado”, ignoraria o que aconteceu ontem. Trataria como algo corriqueiro ou simplesmente te mandaria “uma flor qualquer”, como desencargo de consciência.

Porém, “o novo Edward” que quer te reconquistar e provar que sim, vai valer à pena se render e se entregar, sabe do que você “parece” gostar.

Aprecie sem moderação!

Obrigado por ontem. Não me sentia tão vivo há muito tempo.

Ah! Perdão por todas as vezes que perdi a paciência quando você implorava para passarmos naquela Chocolateira distante. Prometo nunca mais deixar faltá-lo em seus dias, principalmente nos de TPM.

Completamente e apaixonadamente, seu...

E.C.

Minha primeira reação foi trazer o cartão para junto do peito e abraçá-lo como se fosse seu próprio dono, depois o cheirei, como se a fragrância de Edward estivesse presente ali.

Por fim, peguei os óculos, de leitura, li e reli mais uma três vezes, admirando a letra bonita e delicada, que em nada se parecia com rabiscos de médicos e veterinários, diga-se de passagem.

Incontrolavelmente, suspirei mais alto e deixei me inebriar pela sensação de ter recebido um presente inesperado e cheio de carinho. Como ele nunca havia feito.

Por Deus! Por que ele fazia aquilo? Será que não entendia que agindo assim ficava quase que impossível ignorá-lo ou rechaçá-lo?

Atordoada e ainda sem palavras, sentei e virei aquilo tudo para mim, observando mais de perto.

— Sabia que ia ficar assim com cara de idiota, por isso te dei uns minutinhos para absorver. “Seu Peguete” tá jogando duro, hein? Vinho e chocolate? Só faltou uns queijinhos. Já podemos abrir?

Estendeu um copo de plástico, daqueles descartáveis, em minha direção.

Rá! Só nos sonhos dele!

— Dá um tempo, Jasper!

Disfarçando o quanto afetada estava, peguei meu presente, coloquei em cima do frigobar e voltei para minha mesa.

O cartão? Bem guardado, como uma relíquia, na gaveta da escrivaninha.

— Edward não é meu peguete.

Sem cerimônia e com um sorriso irônico enfeitando o belo rosto, o mesmo de agora a pouco, ele entrou e se esparramou na cadeira a minha frente.

— Não é? E como se chama agora a pessoa com quem se fica de “esfrega, esfrega” na calada da noite?

— Ah, seu idiota! Fale baixo. Esqueceu que Emmett está aqui? É assim que quer que ele descubra?

Atirei uma borracha na direção dele, que claro, a pegou sem o menor esforço.

— Ué! Não sabia que era segredo. Vai namorar escondido agora? Tá parecendo uma criminosa, ou seria adolescente. Não precisa disso, você sabe, não é? Ninguém paga as suas contas.

Pagar as contas, era a maneira dele de dizer que eu era independente.

— Olha quem fala... E não tem nada de namoro ou “esfregação”, Jas. Foi só um beijo. Dos bons, é bem verdade, mas foi só um beijo. Um momentinho de fraqueza. Já passou.

— Sei... Acho que precisa avisar isso a ele.

Olhou-me intensamente daquele jeito que só ele sabia fazer e que tinha certeza que eu mentia e que estava sendo evasiva.

— Lembra que não está falando com Emmett, tá? Sou eu que estou aqui, eu que compartilho ou compartilhei dos problemas parecidíssimos com os seus. Não vou te pressionar, irmã. Respeito seu tempo. Só não pense demais... Você pira e faz besteira quando isso acontece. Viva Bella! É tão bom!

— É?

— É! Certeza!

E ali, com ele a minha frente, eu encontrei o meu irmão de antes. O lindo, o feliz, não o que se rendia aos caprichos de Maria, e sim o companheiro que se deixava dominar pelo amor de Alice. A mesma Alice que fora a minha melhor amiga, a companheira de alma de Jasper.

— Essa certeza toda atende pelo nome de Alice Cullen?

— Está desviando o assunto. A pauta aqui é você e seu Cullen.

— Tudo da mesma família. Não respondeu a minha pergunta.

Acenei com a mão fazendo mesmo pouco caso de minha vida. Eu queria era saber o que havia acontecido para que ele transbordasse tanta felicidade.

— A certeza, atende pelo nome de Amor, Bells. Estou entregue. Ela é como eu me lembrava, ou melhor, arrisco dizer. Estou apaixonado.

— Você sempre esteve.

Ele concordou.

— Sei que prometi não me render, ser firme como você. Mas, irmã... É inexplicável. Estou explodindo por dentro. A vi agora a pouco e já estou com saudades, quero passar cada segundo do meu dia com ela. Lamento tanto que não possa cumprir minha promessa.

— Bobagens, Jasper. Estávamos no Brasil ainda. Tomados por distrações, gostosas distrações, e dispostos a nos mostrar como Swan’s que nunca fomos. Não lamente por amar. Alice te ama, sempre amou. A relação de vocês não tem nada a ver com a minha e do irmão dela. Seja livre, meu Jas. Viva seu amor. Seja feliz! Tem meu apoio.

Emocionado com minhas palavras ele segurou minhas mãos por cima da mesa.

— Tenho mesmo? Seja qual for a situação?

— Claro que tem.

Afirmei sorrindo ao perceber uma pontinha de preocupação no semblante dele.

— Contanto que ela não tire a partezinha de você que ainda é minha e do meu filho. Porque disso não abro mão. Mas, podemos aproveitar essa parte à noite e nos fins de semana, quando estiver em casa.

Como água no fogo, a determinação dele sumiu e com aquele ato percebi três coisas...

A primeira, falei demais, e fiz Jasper se lembrar de coisas que não precisava.

A segunda, era que ele tinha mais alguma coisa para falar, porém, deixou para lá.

A terceira? Bom, a terceira era que ele não cumpriria a promessa de não me deixar sozinha nas mãos de Charlie e Emmett. Eu sabia... Jasper logo seria totalmente de Alice.

Edward

— Mas, que droga, Alice! Quantos anos você tem?

— Ah, poupe-me da lição de moral, Edward. Somos bem grandinhos. Olhe para trás e então verá o irresponsável, dessa família, que fez um filho na primeira vez com a namorada.

Hum! Doeu! Quase me curvei, foi por pouco. Porém, fazer o quê? Mereci a acidez dela.

— Perdoe-me, eu não quis te machucar.

— Não, irmã. Eu que peço desculpas. Estou aqui te julgando, quando deveria ser seu ponto de apoio. Mas, já passou. Foi só um surto de irmão mais velho ao descobri que a irmãzinha mais nova está grávida e pronta para começar a construir sua própria família.

— Tudo bem. Eu quase enlouqueci ontem à noite também.

— Percebi. Sua maneira de surtar é esplêndida, preciso aprender. E obrigada por se abrir, amei ter te ajudado ontem.

O surto dela foi ficar em silencio, imersa em pensamentos. Foi de Forks até a Paraíso sem dar uma palavra comigo. Eu sabia que algo estava acontecendo, conhecia Alice, só não tinha proporção do tamanho do seu “problema”.

— Seu bobo, eu não queria preocupar mais ninguém. Já bastou Jasper que quase enfartou.

— Se o resultado do ataque dele foi te comprar um anel, pedi-la em casamento e você dizer sim, espero sofrer disso algum dia e que o resultado seja o mesmo. Porque acho que se pedir Bella em casamento, certeza que ela jogará o anel em mim. Eu perdi a oportunidade de fazer isso e receber um sim, quando passamos pela mesma situação que vocês.

— Ah, irmão. Não seja tão cruel com você mesmo. Não compare. Jasper e eu. Somos maduros, e ele se assustou. Vocês, naquela época, não tinham maturidade nenhuma. E não julgue a Bella de agora, você está fazendo demais isso hoje, julgando as pessoas. Bells é forte, segura e muito, muito inteligente. Não apresse as coisas, vá no ritmo dela, ganhe terreno e tenho certeza que comprará um anel logo, logo. Pelo que vi ontem ela já está cedendo.

Não pude conter a alegria enorme, que com certeza eu apresentava, ao relembrar o momento, um dos mais sublimes de minha vida.

— Não sei se significa que está cedendo, só sei, irmãzinha, que foi majestoso, perfeito e melhor, a iniciativa foi dela. Lógico que eu queria fazer isso desde que a vi naquela festa da igreja. Mas me contive, exatamente como você e Esme mandaram. Todavia, ontem... Irmã do céu...

Abanei-me de um calor inexistente e até beberiquei meu suco de laranja. Estávamos na cafeteria perto da clínica tomando um lanche da tarde. Cancelei todos os meus compromissos quando ela me ligou emocionada com o tal pedido de Jasper e agora aqui estávamos, lanchando e jogando conversa fora enquanto não chegava seis horas para que eu corresse de volta pronto para receber meus amores.

— E como recompensa você mandou uma surpresa para ela? Sabe Edward, o sofrimento fez bem para você, lamento a situação, mas que fez bem, ah isso fez.

— Não foi uma recompensa. Bella nunca foi esse tipo de mulher.

— Toda mulher gosta de uma linda surpresa, irmão. Não se deixe enganar por essa nova pose de durona dela.

— Não foi isso que eu disse. Sempre fui relapso quanto a essas coisas. Acho que por saber que Bella era apaixonada por mim, tinha a ideia errada de que não precisava agradá-la, surpreendê-la... E é aí que eu quis dizer de recompensa também. Você recompensa quando uma pessoa faz algo que julga certo e que, na maioria das vezes, foi só a seu bel prazer. E não foi isso que aconteceu ontem nem hoje. Bella não precisa disso, Alie. Aposto que eles têm mais dinheiro que você e eu juntos. O presente foi mesmo para que ela soubesse que eu agora vejo as coisas com outros olhos. Percebo o tipo de mulher que ela é e que sempre merecerá mais e mais de mim.

— Uau! Tá de quatro?

— Completamente.

Bati uma mão na outra limpando as migalhas do sanduíche, de peito de peru, que havia comido.

Ela fez igual apesar de ter só comido uma salada de frutas.

— Vou pagar a conta, se quiser me esperar lá fora...

— Vou com você, acho que quero um chocolate.

Acompanhou-me até o balcão e pegou uma barrinha de um sabor ao leite com menta. Aproveitei e escolhi mais dois, de côco e brigadeiro.

— Isso tá rendendo, Bella vai ganhar mais agradinhos hoje?

Segurei sua mão a impedindo de pegar a carteira. Eu pagaria aquela conta com todo orgulho. Afinal, era meu primeiro sobrinho que eu acabara de agradar.

— Bella não gosta dessa marca. São para Antony.

— Isso, estraga o menino no meio da semana. Aí a mãe dele te escalpela.

Dei a mão ajudando-a a descer os degraus da confeitaria e pronta para entrar no meu carro.

— Não vou estragar nada. Ele chega para ficar comigo depois de jantar, é só uma sobremesa. Te deixo na loja? Precisa fechar?

— Não. Vou ficar com Jasper no apartamento. Rosálie vai fechar. Sabia que está toda chorosa hoje? Ninguém me disse nada, mas creio que o encontro dela com Jasper não tenha sido dos melhores.

— Azar o dela.

— Edward!

— Tá, dona Esme mais nova, não está mais aqui quem falou. Não vou discutir isso com você, e é só porque carrega meu sobrinho. Rósalie é meu limite rígido. Bella não parece querer vê-la então, nem preciso me preocupar, Agora vamos mudar de assunto... Diga-me quando vai fazer um exame laboratorial? Precisamos marcar uma ultra. Tia Renée deu uma reformulada no corpo clínico do hospital. Tem uma obstetra nova.

Dirigi devagar no curto espaço que nos separava de nosso destino, logo a clinica imponente se mostrava no fim da rua.

— Jasper e eu vamos conversar sobre isso hoje à noite. E, Ed, creio que Jas não tenha contado a ninguém ainda. Por favor, não conte a Bella. Acho que os Swan’s serão mais difíceis de aceitar a ideia, por causa de tudo. Creio até que tenha sido por isso a falta de entusiasmo dele ontem à noite.

— Se Bella perguntar, eu vou responder. Recuso-me a mentir para ela. Nunca mais cometerei os mesmo erros, Alie.

Dei seta e estava pronto para virar à esquerda quando percebi Emmett saindo, pelo portão da garagem, do apartamento deles.

Um misto de sentimentos me inundou com a certeza que veio de que haviam feito as pazes.

— Ele continua bonito. Rósalie perdeu mesmo.

Surpreendendo a mim e minha irmã, ele tocou o chapéu e balançou a cabeça em nossa direção, num sinal claro de cumprimento típico de tio Charlie e dele.

Levantei a mão e Alice deu tchauzinho e sorriu.

— O mundo está acabando ou eles estão prontos para fugir de novo? Ele nos cumprimentou?

Um arrepio me tomou ao pensar naquela possibilidade, mas rapidamente a expulsei de mim. Bella me prometera.

E logo deixei que a lembrança boa da conversa com Bella de ontem, sobre fazer as pazes viesse à tona; Ela havia seguido meu conselho.

— Nenhuma das duas coisas. Acho que isso é resultado de muitas orações, Alice. Preciso dizer a Marcus que parece que a tempestade está mesmo passando.

Ainda ficamos parados por mais um tempinho vendo Emmett entrar sozinho na camionete e sair. Isso me fez lembrar outra coisa, eu tinha um compromisso na concessionária na sexta-feira.

— Vai descer aqui ou a garagem?

— Aqui. Quero ver se pego Bella antes que entre para o banho e depois saia correndo. Estou trabalhando em estreitar nossos laços. E você bem que podia me ajudar e...

Desceu do carro e se baixou para falar comigo pela janela.

— Nada disso, nem tenho esse poder. “Estou aprendendo a engatinhar com Bella, Lice. Nada de correr ainda”.

Usei uma metáfora para dizer que estávamos apenas no início de algo que nem nome tinha ainda.

— Agora vá de uma vez. Preciso tomar um banho também. Porque daqui a pouco sou todo do meu filho.

— E não vai mesmo me dizer o que são esses pacotes aí atrás? Deixar uma mulher grávida curiosa é errado, sabia?

— Vá chantagear seu Swan, sua chata. Isso aqui tem dono.

— Te amo, irmão. É bom ter você de volta.

— Assim como eu te amo. E é bom estar de volta à vida.

Só ela e eu sabíamos do que aquilo se tratava. Há anos eu me tornara intragável e agora voltava a sorrir sempre que podia.

Era mesmo maravilhoso estar de volta à vida...

Bella

— Mãããmãããeee?

Jesus Cristo das mães surdas, eu acrescentaria narrador esportivo na futuras profissões de Antony. Certeza, ele tinha talento.

— O Antony chegou!

Entrou correndo em meu quarto, jogou a mochila no chão e pulou em cima de minha cama, se jogando, com tudo, nos travesseiros.

— Ainda bem que me avisou, filho. Porque certamente eu não ficaria sabendo.

Esfreguei a toalha nos cabelos retirando o excesso de água do banho recém tomado.

— Sabe, mamãe, a “senhola” colocou pouco lanche na minha “lancheila” não deu para eu e minha amiga Clair enchermos a “barrilga”.

Virei-me para ele e sorri quando ele levantou a camiseta, de uniforme, e bateu por cima do estômago.

Sentei-me na beira da cama, desamarrei e retirei seus tênis.

— Mas, eu não sabia que estava alimentando essa tal de Clair também. Tinha uma fatia de bolo, um iogurte e uma maça na sua lancheira. Mais do que suficientes para você.

— É, mas se, é... Como papai Memmett disse mesmo?

Não me passou despercebido que ele voltou a chamar Emmett de pai. Eu até imaginava que isso aconteceria, só não achei que seria tão rápido. Porém, bastou o tio buscá-lo na escola que as coisas parecem que voltaram as boas entre os dois.

— Ah, sim. Quando divide “pol” dois, o lanche foi pouco, mamãe Bella.

— Entendi. Mas, se era uma divisão, o que Clair levou?

— Ora, mãe!

Firmou o corpo nos cotovelos e me encarou enquanto eu retirava suas meias e puxava sua calça de uniforme.

Ele precisava tomar banho rápido, ou não teria tempo de comer. Só que estava tão bonito argumentando comigo que nem eu me prendia a detalhes de tempo.

— O quê?

— Você não sabe? A Clair não leva lanche. O papai dela fica lá no “poltão” da escola e ela “estulda” comigo. Então eu “divildo” o meu com ela, mamãe.

Morrendo de amores e impossível de me controlar, o puxei para meu colo e o enchi de beijos o fazendo gargalhar alto.

— “Pala, mamãe”! “Pala, mamãe”! Tá fazendo “colsquinha”! E “colsquinha” gasta a “muniteza”!

— Cosquinha não gasta a “boniteza” nada. Só faz o bebê da mamãe ficar mais lindão ainda.

— Sou só lindão, bebê não. Já sou “qualse” um adulto.

— É nada. Proíbo-te. É o bebê da mamãe.

O peguei no colo e o levei para meu banheiro, o sentei na bancada e retirei o resto de suas roupas.

Estiquei o braço e liguei a ducha, sempre o segurando com a outra mão.

— Tô indo, Bells. Não quer mesmo que leve o Tony?

Emmett falou alto, provavelmente da porta do quarto. Deve ter imaginado que era eu no banho.

— Não, Emmett. Pode ir. Antony vai fica com o Edward.

— Certo! Se cuida então. E não cheguem muito tarde.

— Ok. Vá com Deus!

Ele ainda respondeu um “Amém”, antes de fechar a porta e sair. Meu subconsciente percebeu que ele não resmungou quando lhe disse o que faria com meu filho. Isso era bom, muito bom na verdade.

— Tudo bem, seu Lindão. Agora somos nós. Vamos tomar esse banho enquanto você me conta melhor dessa sua nova amiga.

O coloquei dentro do Box e me abaixei para ajudá-lo com o banho.

Ele, como sempre, fechou os olhos, por via das dúvidas, ainda colocou as duas mãozinhas por cima, e enfiou a cabeça debaixo d’água.

Os cabelos claros, se tornando escuro imediatamente.

— Ela não é nova amiga, mãe. Eu já conheço desde que você me colocou naquela escola. Eu “semple” divido meu lanche com ela. Mas, essa semana a Clair tá com mais fominha. Hoje eu só tomei o iogurte. Mas tô com muita fome “agola”.

A informação dele dizia mais do que imaginava. Quando disse que o pai da Clair fica no portão imaginei que poderia ser o porteiro e que talvez a garotinha estude na escola pelo sistema de bolsas, ou algo assim, já que aquela escola tem preços absurdos. Só não esperava que ela, pelo que parece, não tivesse o suficiente de comida em casa.

— Tudo bem, amor. Vamos terminar esse banho, depois vou preparar um sanduíche bem grande para você. E prometo que amanhã coloco mais lanche na sua lancheira. Tá bom? Pode abrir os olhos, já terminei esse cabelo. Agora me dá esse pé de chulé aí...

— Meu pé é “cheiloso” mamãe. “Ingual” eu todo.

— Tô sentindo nada cheiroso aqui. Só “fedorzinho” de suor.

Puxei a duchinha e passei a enxaguá-lo com mais cuidado. Ele não parava de tagarelar de seu dia e Emmett e tudo mais.

Dei-lhe toda atenção, até quando o sequei, vesti e preparei seu lanche.

Deixaria para pensar em como descobrir mais sobre sua coleguinha mais tarde, todavia prometi a mim mesma que não esqueceria. Meu Pequeno estava fazendo a parte dele, era minha vez de fazer a minha.

— Mãe, amanhã podemos ir no shopping? “Pleciso complar” uma coisa. O vovô pagou a minha mesada ontem. E titio Jas disse que o “salálio” sai amanhã.

— O salário?

— Lógico. Ou você acha que vou ficar atendendo os “clientes de glaça”?

— Não. Nem por um minuto isso passou por minha cabeça. Mas, só me esclareça aqui: O que quer comprar? E precisa mesmo ser no shopping? Porque não tem um em Forks. Aí só em Port Ângeles e para ir até lá, só no sábado à tarde, ou domingo, amor.

Charlie pagando mesada não era novidade, desde pequenos ele fazia isso conosco, e claro, tínhamos nossas obrigações de criança: guardar os brinquedos, colocar o prato na pia e por aí vai...

Depois quando começamos a ajudar mesmo na lida da fazenda, passou a nos pagar por isso. Tanto que agora, cada um recebia por produção, Emm, Jas e eu, éramos quase que sócios de Charlie.

Agora Jasper pagando salário a Tony, ah, isso era novidade. E eu precisava mesmo descobrir mais depois.

— Hum, acho que tem que ser no shopping, mamãe. “Lembla” que eu “pleciso complar” um “Senor Olhelhudo” pro tio “Edwald”? E ah “tabém quelo complar” uma coisa pra Clair.

Coloquei o sanduíche a sua frente, depois o copo com suco de laranja e me sentei perto dele pronta para ajudar caso derramasse.

— Espera, fala devagar. Lembra do que a fonoaudióloga disse? Não tem ninguém bravo nem com pressa aqui.

O relógio da cozinha marcava 18hs15min, ainda tínhamos tempo.

A porta da frente se abriu e vozes podiam ser ouvidas. Jasper e Alice provavelmente.

— Tá bom, mamãe. Mas podemos ir no shopping? A Clair “plecisa” de uma coisa.

Ah Deus, a bendita Clair de novo! Será que era justo comigo? Meu Filhote estava pronto para comprar presentes para uma menina e outro pro pai com seu primeiro salário. E eu?

Uma pontinha de ciúmes ameaçou me consumir.

— O que a Clair precisa tanto?

Alice e Jasper escolheram aquele momento para entrarem abraçados na cozinha.

Soltaram-se imediatamente assim que nos viram.

Jasper estava estranho, parecia me avaliar com mais cuidado. Porém algo ainda brilhava em seu olhar e agora, reparando bem, em Alice o mesmo fenômeno estampava a face dela.

Eles escondiam algo.

— Oba! Sanduíche? Quero. E aposto que Alice também. Dá um pedacinho?

Aproximou-se, beijou meu cabelo, a testa de Antony e abriu a boca esperando que recebesse, na boca mesmo como de costume, um pedacinho de pão.

— Hum, que delícia!

Mastigou contente a “migalha”, como se fosse mesmo a melhor refeição do mundo.

— Você quer, tia Lice?

Fez menção de repetir o ato com minha ex melhor amiga.

Segurei sua mãozinha.

— Assim não, Pequeno. Lembra que, com as pessoas de fora, a gente coloca no prato e oferece tudo? A pessoa que pega o dela.

Apontei para o pratinho a sua frente. Ele concordou, mas foi com relutância, que a ofereceu do jeito certo.

Ele estava com fome de verdade.

— Aceita, titia?

Alice sorriu, aquele sorriso lindo de fada dela, atravessou a cozinha e também beijou o rostinho do sobrinho.

— Não, Antony. Muito obrigada. Acabei de lanchar com Edward. Pode comer.

— Eu que “agladeço”.

Ele, bem aliviado, puxou o prato para si e voltou a se deliciar.

— Bella.

Cumprimentou-me de onde estava.

— Alice.

Um clima estranho pairou na cozinha e Jasper pareceu mais perdido ainda. E como eu não queria colocar meu irmão naquela situação, fiz minha parte.

— Por que não se sentam? Estão com fome? Faço um para vocês também. Enquanto Antony termina para irmos.

Apontei para o sanduíche.

— Eu aceito.

— Eu agradeço de novo. Fica para outra hora e pode apostar que vou cobrar. Se ainda faz daqueles de antigamente, sei que estou perdendo. Mas, realmente, acabei de lanchar com meu irmão.

Jas, puxou a cadeira para ela, depois se colocou a seu lado já enchendo dois copos com o suco que eu havia deixado na mesa.

— Certo. Só um minuto.

— Mamãe, “voxê” não respondeu.

— Não fale de boca cheia, cowboy. E o que foi que sua mãe não respondeu?

Jas limpou o rosto dele, melecado de maionese.

— Pois é, senhor meu irmão, esse rapazinho aí está pronto para ir ao shopping comprar presentes para Edward e uma tal de Clair. Aliás, ele disse que o salário sai amanhã. Bom saber disso, estava começando a desconfiar do nosso administrador.

Jasper passou o braço por sobre o ombro de Alice. Juntos eles riam de minha explicação.

— É isso aí, garoto, a gente gasta dinheiro é com garotas mesmo. Agora me diz o que vai comprar?

Bati com o pano de prato no braço dele. Não tinha disso de garotas e garotos, meu filho era uma criança e criança não namora.

— O do titio “Edwald” eu não vou falar “polquê” a titia Lice é “rimã” dele, e vai que ela conta? Agora a Clair “plecisa” de um tênis, titio. Ela vai pra escola de “chilelinho” das “plincesas” e os coleguinhas ficam rindo. Ela disse que não tem um tênis. Eu tenho um monte, se ela fosse menino, ia dar um dos meus. Mas, ela é menina. “Plecisa” de um “losa ou blanco”.

— Ei, não sou fofoqueira. Só por que sou mulher? Isso é pré-conceito.

— Não é “por lisso”. É “polquê” é “rimã” do titio. E “rimãos” contam tudo um “pala o outo”. Mamãe e titio Jas são assim.

Esclareceu para a tia. E arrancou um sorriso de Jas ao exemplificar a relação irmãos como a nossa amizade.

— Respire e fale devagar.

Alertei mais uma vez.

— Bells?

Jasper e a namorada se viraram para mim e certeza que eu estava tão boquiaberta, com a explicação de Antony, quanto eles.

— Aparentemente, Clair é filha do porteiro. E acho que as condições não devem ser muito boas já que ele anda dividindo o lanche com ela. Precisamos ver isso. Escutou a parte dos “coleguinhas rindo”? Acho que vou dar uma passada na diretoria amanhã. É assim que começa... Eles precisam aprender valores, desde pequenos.

— Mamãe...

Resmungou agora baixo me olhando com aqueles verdes imensos e donos de mim.

— Eu prometo, meu anjo. Vamos a Port Angeles, sábado. Agora vá escovar os dentes. Já estamos na hora.

Coloquei o prato, com dois sanduíches no centro da mesa, vai que Alice muda de ideia.

— Iupe!

Saiu comemorando.

Peguei as coisas dele para lavar e deixar tudo impecável como nossa ajudante havia deixado.

— Como consegue?

— O quê?

Parei o que fazia e prestei atenção a Alice que estranhamente estava a meu lado com um pano de prato em mãos, só esperando pelas coisas que eu lavava.

Ela estava mesmo fazendo o possível para se reaproximar.

— Criá-lo tão bem? Percebe que, mesmo sem entender, ele vê a gravidade da situação da amiga e quer ajudar? Ele é... Maravilhoso. Como consegue?

Entreguei-lhe o prato e sorri, acho que era a primeira vez que a brindava verdadeiramente com aquele ato.

— Não fiz nada sozinha. Somos uma família com um mesmo ideal. Ele será caridoso, humilde e amável. Fomos criados assim, Alice, sabe disso. Só deixamos o pior de nós vir à tona quando um dos nossos é atacado.

— Ensina ele essas coisas desde pequeno...

Não era uma pergunta.

— É de pequeno que se aprende a valorizar o ser humano e pelo que parece, estamos no caminho certo.

— Estão, claro que estão. Ensina-me?

Então, a mão dela estava em meu braço, e um lindo anel de brilhantes clareou minha mente para a conversa de Jasper de mais cedo.

Ele também estava virado para mim, aguardando uma reação e pronto para agir se a Swan podre que habita em mim viesse a margem.

— Seja bem vinda a família, Alice!

A puxei para meus braços, sentindo o conforto de uma lugar que eu sempre amara ficar.

Por mim, por Jasper, por Edward... Nós recomeçaríamos.

Edward

Horas, minutos, segundos... Nunca um dia passou tão devagar em toda em minha vida.

Depois da noite de ontem, dormir estava fora de cogitação.

Estava extasiado demais para relaxar, então praticamente sobrevivi. E quando, nem bem o sol havia raiado, vim para a cidade, comprei alguns presentes, atendi no hospital, almocei, vim para clínica, cliniquei, lanchei com Alice, corri de volta para o loft e nada... O maldito ponteiro do relógio não andava.

Tinha passado e repassado cada segundo daquele beijo inúmeras vezes e ansiava, ao mesmo tempo em que temia, por reencontrar a dona de meus pensamentos o quanto antes.

E então aqui estava eu agora, correndo escada abaixo quando escutei o barulho da fechadura na porta.

Graças a Deus, ela havia usado a chave que lhe dei. Isso era um bom sinal. Não era?

— Tio “Edwald” nós chegamos.

Abaixei-me e abri os braços para receber o pequeno foguetinho que vinha ventando em minha direção.

— Que bom que chegou! Senti saudades.

— Eu “tabém” e hoje não tem “devê”. Mamãe nem vai precisar fazer listinha de “lecomendação”.

E antes que meus olhos a contemplassem, meu olfato a sentiu. Deliciosa! Como a fragrância mais pura e essencial de meu ser. E sem mais me conter, volte-me todo para ela. E não, eu nunca estaria preparado para essa nova versão.

— Isso é bom, campeão. Quer dizer que teremos um tempo a mais. Podemos ver um filme novo que comprei. Quer saber qual é?

Eu falava com ele, mas minha atenção estava toda nela. Belíssima, de saia secretária azul marinho e uma blusa, sem mangas, de tecido fino com babados na frente adornando os botões, de um lilás claro e delicado.

Nos pés? Ah, era demais para minha sanidade! Botas! As benditas botas pretas que iam até quase os joelhos. De saltos grossos e bico redondo. Delicadas e práticas. E acho que era a única coisa nela que lembrava a minha antiga namorada adolescente.

— Oi.

Não respondi de imediato, estava bobamente a contemplando.

Os cabelos estavam soltos e nunca as cascatas castanhas e longas pareceram tão brilhantes e atrativas.

Um lado meu quis protestar, com faixa, megafone e tudo mais: Tinha que ir tão bonita para dar aula em dois cursos que 70% dos alunos são homens?

Contudo, o lado Edward que quer reconquistá-la, engoliu aqueles sentimentos. Afinal, era por culpa minha que agora ela desfilava de saias e vestidos, não era?

— A mamãe disse “oi”, titio.

Antony colocou as duas mãozinhas sobre a boca, provavelmente rindo da expressão que eu fazia ao vê-la tão linda.

E Bella? Bom, ela também tinha um sorriso presunçoso estampado. Certamente que sabia o quanto me afetava.

— Ah, desculpe. Oi, Bella.

Aproximei-me mais, e meio sem saber o que fazer, lhe estendi a mão.

Ela enrubesceu perante meu desajeito.

— Boa noite, Edward. Ele está certo. Não tem dever e já lanchou e foi um baita lanche. Então leite só mais tarde e não se preocupe se ele dispensar, comeu muito agora a pouco.

Entregou-me uma bolsa azul, daquelas parecidas com as de bebê, que segurei com a outra mão, meio desajeitado.

E antes que ela escapulisse, porque tinha certeza que era o que faria, pelo adiantar da hora, coloquei Antony no chão.

— Pequeno, por que não sobe e olha o que tem em cima da minha cama? Acho que vai gostar.

— É o filme? Podemos fazer pipoca, mãe? Pipoca não enche “barrilga” é só para “distlair”.

— Isso! Palavras de Emmett, vai repetindo... Mas, podem. Pipoca pode, hoje.

Ele abriu um dos maiores sorrisos que já vi e então voltou-se para mim e levantou as sobrancelhas, esperando que eu respondesse a parte da pergunta feita para mim.

— É um filme e mais alguma coisa. Por que não vai olhar? Suba devagar.

— Tá bom. Eu já sei subir, titio. Vovó me ensinou lá no “Blasil”. Pesinho um, depois pesinho dois. “Devalgar”... Tchau, mamãe. Tony te ama todinha.

— Isso mesmo.

— Mamãe ama, bebê, todinho.

— Pesinho um, pesinho dois, pesinho um... Não sou bebê.

Virei-me vendo-o fazer como descreveu. Aproveitei e coloquei a bolsa dele em cima de uma das cadeiras da recepção.

Quando desapareceu dentro do loft, voltei-me todo para a mulher de minha vida.

— Hoje é dia dos presentes? Sabe que não precisava, não é? Nada de ficar mimando a gente.

— Consegui mimar você um pouquinho? Nossa, Bella! Você está linda e muito, muito cheirosa. Seus alunos são sortudos.

Sem esperar por autorização, porque tive receio que ela não viesse, me juntei a ela, colei nossos corpos e descansei as mãos em sua cintura.

— Obrigada pelo presente, Edward. Eu amei. Claro que me senti mimada, mas, insisto, não precisava. E, sortudos meus alunos? Ah, duvido que pensem da mesma maneira. Pedi para que me entregassem um herbário de várias espécimes de alimentação animal de grande porte. Nunca que estão pensando como você nesse momento. Sou a bruxa da semana.

— Humm, amo o modo professora. Só faltou os óculos de leitura.

— Estão na pasta.

Gargalhou em meus braços e óbvio que por instinto, acariciou meu peito.

Putz! Foi meu fim. E tomando a iniciativa, dessa vez, busquei sua boca, com carinho e devoção.

Não tinha explicação, Bella era o meu tônico vital. Pergunto-me como sobrevivi sem ela todos esses anos.

Doce, amável... Aquele era o tipo de beijo que você sabe, é único. Para a vida toda e capaz de conseguir o mundo de quem quer que seja.

— Deus! Que saudades de você! Quanto mais eu te beijo mais quero te beijar.

Baixei a cabeça em seu pescoço dando selinhos de boca aberta. As mãos agora acariciavam seus lindos cabelos.

Enquanto as dela, estavam nos passadores de minha calça, me puxando para mais perto, numa mania deliciosa que ela tinha desde sempre.

— Então me beija, porque estou em cima da hora e seu filho não vai demorar muito a exigir atenção.

Escutá-la dizer que Antony era meu filho... Por Deus! Era uma emoção fora do comum.

— Seu pedido é uma ordem.

Voltei a me entregar aquele ato grandioso. Eu queria parar o mundo. Desejava que tudo congelasse e que ficássemos naquela bolha só nossa para o restante de nossas vidas.

— Hum! Precisamos parar, Edward. Preciso ir, preciso mesmo!

Eu sabia, mas acho que nenhum dos dois conseguiria aquilo.

Era a vez dela beijar meu pescoço e aspirar meu perfume.

— Amo essa fragrância.

— Eu sei. Fiz questão de nunca deixar faltar esse perfume em meu nécessaire. Foi o último presente que me deu antes de partir.

Lembrava também que não o tinha valorizado na época porque era diferente dos que eu usava e a marca não tão famosa. Bella nunca se importou com isso. Só comprava o que gostava.

— Com loção pós- barba e o cheiro natural de Edward, fica perfeito.

Aspirou mais forte tirando o restante de minha sanidade, fazendo com que eu quase fundisse meu corpo ao dela.

— Eu te amo tanto, Bella.

— Eu, eu... tam...

— Tio “Edwald”! Não consigo “ablir”.

Bella me empurrou a tempo. Tão rápido que, graças a Deus, o pequeno furacão, no topo da escada, não nos pegou no flagra.

Ofegávamos iguais dois adolescentes descobrindo o amor.

Ela não disse as palavras, quase, mas não disse.

— O que foi? Estão “bligando”?

— Não, meu amor. Edward e eu só estávamos conversando. Mas, mamãe já está de saída. Seja bom. Tchau...

Acenou para o filho, que pareceu respirar aliviado com a resposta dela, e para mim também.

Toquei seus dedos, em sinal de compreensão.

— Eu “semple” sou bom, mamãe Bella.

— Se cuida. Te vejo mais tarde.

Com as mãos em seus ombros a acompanhei até a porta. A vontade de dar-lhe um beijinho de despedida foi quase maior do que eu, todavia, ainda éramos observados pelo melhor de nós dois.

Quanto tempo será que eu teria que esperar até perguntá-la se já podíamos contar a nosso filho?

— Esperarei ansiosamente.

E antes que eu processasse o que disse, virou as costas e partiu, me deixando mais atônito do que nunca.

Será que aquilo significava mesmo o que significava?

— Titio, está tudo bem? O Tony, lindão da mamãe, ainda não conseguiu “ablir” isso.

Tranquei a porta atrás de mim e então subindo os degraus, de dois em dois, corri ao encontro dele pronto para surpreendê-lo. Se bem que, com a modéstia e a auto-estima elevada que possuía, duvidava muito que conseguiria isso algum dia.

— Tudo bem, vamos dar um jeito nisso.

O empurrei de volta para dentro do loft e o sentei em minha cama. Já tinha deixado tudo preparado para nossa seção cinema.

— Aqui...

Cortei a fita que amarrava e lacrava o pacote dele.

— Ah! É o filme novo do Rei Leão. Que legal! Esse eu ainda não vi. Podemos ver “agola”.

Disse uma frase inteira quase toda certinha, só escorregando no finalzinho.

— Não só podemos, como vamos. Mas antes olhe direito, tem mais uma coisa aí dentro.

E pela primeira vez pude contemplar a transformação, em seus olhinhos, mais maravilhosa que um pai poderia querer. Em segundos a surpresa se tornou admiração.

— É uma “pampufa”? Você me “complou uma pampufa” de leão?

Sem cerimônia pegou as duas peças e as encaixou nas mãozinhas observando maravilhado cada detalhe do presente.

É, parece que Edward Cullen acertou em cheio nas suas escolhas hoje. E admito, a sensação era maravilhosa.

— Bom, era para ser do Simba...

Sentei-me na cama e passei a descalçá-lo de seus tênis impecavelmente brancos.

— Mas, não encontrei dessas aqui em Forks, então, comprei essas de leãzinho mesmo. Gostou?

Não tirei suas meias. Forks tinha uma temperatura fria e ainda mais, que nos deitaríamos para ver um filme e provavelmente, ele dormiria. Ou seja, mais frio ainda.

— Eu amei, titio. Agora só falta a pipoca e estamos “plontos”.

— É mesmo, espere só um minuto.

Liguei a televisão e deixei num canal de desenhos qualquer.

Enquanto ele se ajeitava entre travesseiros e edredons, corri até o espaço da cozinha e fiz pipoca, de micro-ondas mesmo porque estava ansioso demais para voltar para ele.

— Aqui, segure.

Entreguei-lhe o balde, com a comida desejada.

— Agora só preciso me preparar para também assistir o filme.

E com os olhinhos atentos em mim, fui até o banheiro me troquei, já saindo de lá pronto para sua reação.

— Ah, você “complou pampufas pá” você também. “Palecem” as minhas.

Deitei-me ao seu lado e o imitei quando levantou os pés mostrando a semelhança dos dois calçados.

— Também era para ser do Mufasa. Mas, não encontrei aqui em Forks. Vou ver se Alice encontra pra gente quando for a Port Ângeles. Ok?

— Eu gostei dessas. “palecem” papai e filhinho. “Plecisamos complar uma da Salabi” para a mamãe.

Coloquei o filme e fiquei em silêncio por um tempo absorvendo as palavras dele e pensando em como não pensei em comprar uma pantufa para Bella também.

Distraindo-me e como se tivesse feito aquilo à vida toda, ele voltou a se deitar e colocou a cabeça em minhas pernas, quando resolvi que só ficaria sentado e escorado na cabeceira da cama.

— Começou.

Todavia, quando o leãozinho foge, a vontade de saber mais a respeito do que ele sabia, falou mais alto do que eu.

— Ele não devia ter fugido. A mamãe dele vai ficar preocupada.

Puxei mais a coberta sobre o corpinho dele e coloquei uma pipoca em sua boca.

— Ela vai mesmo. Mas, ele tava “tliste e atoldoado” o papai dele “moleu”, titio. Eu não gosto dessa parte.

— Eu também não.

Alisei seus cabelos.

— Os papais não deviam “molrrer”. Eles “plecisam” cuidar das mamãe e dos seus filhotes. Mamães não deviam cuidar de seus filhos sozinha ou só com os titios.

Prendi a respiração com a certeza de que não estávamos falando mais de leões, leoas e filhotes. Antony era muito mais esperto do que eu imaginava.

Então era a minha chance de saber mais. Bella disse que eu poderia indagá-lo, não disse?

— Não, campeão, mamães merecem ajuda para criar seus filhos e isso não é obrigação de tios e sim de pai. O seu ajudou sua mamãe?

Ele negou sem tirar os olhos da televisão, mas nem uma palavra saiu.

— Você... Sabe por que ele não fez isso?

Amedrontado, continuei a sondá-lo bem lentamente.

— A gente “molava lonjão, lá no Blasil”. E o papai do Tony não podia ficar lá conosco. Ele tinha que “estuldar e tlabalhar pala”, um dia, “molar com mamãe e eu.

— Quem te disse isso?

Ele estava nervoso, era evidente, tanto que trocava demais o erre pelo ele, segundo Alice, Jasper dissera que a psicóloga e a fonoaudióloga dele entraram em acordo no diagnóstico, que o motivo desse “problema”, era mais como uma válvula de escape para algo que o incomodava.

— Mamãe Bella disse e a vovó “tabém”. Titio Memmett, Tio Jas e vovô não falam do papai.

Foi minha vez de ficar surpreso. Bella dissera que não tinha dito nada de horroroso sobre mim a ele, mas ter essa afirmação fazia com que eu a venerasse mais e mais.

Quanto aos outros, devo agradecimentos à tia Renée. Já as atitudes de Emmett, Jasper e tio Charlie, eu já imaginava. Bella sempre fora a garotinha deles, e eu havia sido perdoado até demais por tantos erros.

— Você sabe onde ele mora?

Pressionei mais um pouquinho só, podia sentir o coração batendo nos ouvidos de tanta ansiedade.

— Aqui em “Folks”.

— Mesmo? Sua mãe disse isso?

— Não. Mas, quando o vovô pediu “pá” gente vir “molar” aqui o titio Memmett “glitou” com ele e disse que o vovô “tava” fazendo a coisa “elada”. Que mamãe e eu não “pecisa... pecisa... pecisavámos” de homem nenhum em nossas vidas. Acho que ele falava do papai do Tony, “polque” naquela noite a mamãe “cholou” muito e teve os “pioles” pesadelos. Tony ficou com medo.

O puxei para meus braços, a vontade de fechá-lo em uma proteção foi tanta que nem me importei em assustá-lo.

— Não precisa ficar com medo. Estou aqui. Nada mais vai acontecer com você ou a mamãe.

E partindo de vez meu coração, ele chorou, chorou alto de soluçar.

— “Obligado”, titio. O Tony não gosta de “cholar”, sou “folte”, o lindão da mamãe Bella. Só que... Às vezes ela tem sonho ruim e eu num gosto.

Os pesadelos. Eu precisava ficar mais íntimo para conversar com ela sobre eles.

— Eles vão passar. A mamãe só precisa se sentir segura, e eles vão passar, eu prometo. Não precisa ficar com medo.

Ele suspirou e então deitou a cabeça em meu peito, os olhos já começando a pesar.

— Quer seu leite?

Beijei sua testa.

— Não, obrigado. Tony comeu muito.

Assenti o ninando.

— Posso fazer só mais uma pergunta?

Ele concordou.

— Vocês estão em Forks há um tempo, campeão, a mamãe já disse quem é o papai?

Um sorriso glorioso abriu-se e antes de responder ele levantou os pés e encarou, de novo, as pantufas.

— Ainda não, titio. A mamãe não está “prepalada”. O Tony a conhece, ela vai dizer quando for a “hola” certa. Muita coisa “pleucisa” acontecer ainda. Eu “espelo” e sei que o papai vai “espelar tabém”.

Eu ia indagar mais, juro que ia, aquela resposta era formadinha demais para um garoto de quatro anos.

Deus! Ele era esperto demais. E parecia que sabia muito mais do que deixava transparecer e eu estava pronto para testar esta teoria, quando de repente, ele se levantou correndo do meu colo, pulou no chão e passou a cantar, em gritos, com os personagens do filme.

Hakuna Matata, é lindo dizer! Hakuna Matata, Sim vai entender. Os seus problemas... Vem, tio Edwald. O Timão e o Pumba “tão” chamando.

Aquilo era um porco e um macaco cantante? Eu precisava pesquisar no Google. Aparentemente, meu filho sabia, pois cantava alto a sacudia uma barriga imaginária ali, numa pose clara de Emmett.

Isto é viver, é “aplender”.

Deixando me arrastar por mãozinhas poderosas, cantei e pulei como, acho que, nunca fiz.

Mas quem se importava? Ele estava feliz, eu estava feliz. Aliás, nunca fora tão feliz.

Então...

Hakuna Matata. Para vocês!

Bella

As vinte e duas e quarenta, eu adentrava a clínica de Edward, tudo parecia silencioso, mas bem iluminado.

Ele deixara todas, literalmente, todas as luzes acesas para mim. O que eu agradeceria em algum momento. Será que ele sabia que a nova Bella odiava o escuro?

E como fizera mais cedo, usufrui da chave que me deu, e fui entrando. Não chamei, não toquei a capainha.

Passei pela recepção, entrei em sua sala e sem me render a curiosidade, que queria observar com mais cuidado cada detalhe, subi para a parte de cima.

Lá, as luzes também estavam acesas, somente na parte onde ficava a imensa cama e a TV é que uma pequena penumbra reinava.

E bem lá no meio, estavam eles rendidos pelo sono, enquanto a TV havia parado nos créditos de algum filme.

Antony estava sobre o peito de Edward, que o segurava, protetoramente, com as duas mãos. O edredom só cobria as costas de meu filho e, consequentemente, o peito do pai. Os pés, dos dois, estavam de fora, e juro foi hilário e emocionante, ao mesmo tempo, perceber que usavam pantufas de leão, no melhor estilo pai e filho.

Foi maior do que eu, retirei o celular do bolso e registrei o momento. Já era hora de Antony ter seus primeiros momentos com o pai registrados.

Quando fui focar a imagem, foi que percebi que uma lágrima teimosa escorria pelo meu rosto e que algo forte queimava dentro de mim.

Era amor! Amor pelos homens de minha vida!

Aquele era o momento que sonhei uma vida inteira. A pergunta era: eu estava pronta para assumir aqueles sentimentos para ele e para o mundo?

Notas finais
Mais uma vez, perdão pela demora. Como vocês sabem, somos comerciantes. Então, não preciso dizer mais nada, né? E com isso a concentração e a criatividade dão lugar ao desespero e preocupação. Vão rezando por nós aí... Para quem ainda não sabe, estou no Insta, me sigam lá porque tem spoilers sempre: @kodelcarla39 Beijinhos e até breve.