Notas iniciais
Oieee... leiam as notas finais. Capitulo totalmente e merecidamente dedicado a minha linda Bárbara Cullen que me deixou imensamente feliz com a minha sétima recomendação. Obrigada!

Sexta feira à tarde

Renée

É, não tinha jeito, Esme poderia ter todos os defeitos do mundo, mas desonestidade, definitivamente, não era um deles. O que não era uma novidade, já que uma vez Swan, sempre Swan.

E só Deus sabe, que não foi fácil chegar a essa conclusão. Perdi a conta de quantas vezes conferi relatórios e balancetes do hospital. Cheguei ao ponto de levar para casa e pedir que Jasper avaliasse com seu intelecto de administrador. Porém, nada! Nenhuma vírgula fora do lugar.

Tudo batia. Cada compra, cada pagamento, cada investimento... Notas fiscais, relatórios e extratos bancários estavam ali para provar as movimentações.

Não tinha jeito, não tinha do que duvidar, a mulher era boa no que fazia. Tanto que mantivera nosso hospital no Nível I e ainda o transformara em referência nacional. Gerando um lucro de 30% a mais que cada ano anterior. Era meta batendo meta. Um sucesso.

E mesmo deixando metade dessa quantia depositada para capital de giro e/ou talvez gastos extras do hospital. A outra metade, que ela dividira em parte igual comigo e deixara em uma poupança, ainda poderia ser considerado um valor apreciável.

Como eu disse, a mulher era muito boa no que fazia.

— “Esmiuçou” bastante? Encontrou algum erro? Algo que procurava? Ou podemos virar a página agora?

Dei um pulo na cadeira, de susto, e estupefada observei a figura pequena, mas autoritária o bastante para entrar, sem bater, em minha sala.

— Boa tarde, sogra. Então, resolveu ouvir meus conselhos e veio fazer uma checagem geral nesse coração.

— Hum! Talvez! Se conseguirmos chegar a um acordo, quem sabe.

Sem cerimônias, sentou-se a minha frente, empurrou todos os papéis para um lado e colocou sua bolsa a nossa frente.

— Vai entrar? Ou ficará aí parada feito uma múmia?

— Ela não me convidou.

— E precisa? Achei que o hospital também fosse seu.

Só então me dei conta que dona Marie não estava sozinha.

Diferente da mãe, Esme não entrou. Ficou parada na porta observando minha reação. Esperando minha aprovação.

— Entre!

Ordenei antecipando e evitando assim mais um comentário ácido que certamente viria de minha sogra.

É, olhando assim para a altivez dela dava até para concordar com a teoria de Emmett, que acredita que dona Marie nunca “esteve nas últimas”. Ela só usou dessa desculpa e da idade avançada para nos trazer de volta a Forks.

Depois de tudo pelo passamos e vimos, não duvido de mais nada.

— Então, agora que já resolvemos esse probleminha de acomodação, será que podemos voltar ao assunto? Encontrou algo errado nos balancetes?

Interessada em minha resposta, Esme sentou-se ao lado da mãe.

— Não, minha sogra. Não há nada em desacordo. Tudo está correto.

Rapidamente, recolhi toda documentação, coloquei na pasta e guardei na gaveta, fazendo uma nota mental de arquivar aquilo logo que elas fossem embora.

— Isso é bom. Apesar de que, eu já sabia. Não criei desonestos, Renée. Pais relapsos e fugitivos talvez, mas mentirosos não.

Ao mesmo tempo, Esme e eu nos olhamos. Aquele comentário tocava em nossas feridas e nos atingia em cheio.

— Agora, já que resolvemos esse pequeno detalhe de desconfiança, podemos passar para a segunda etapa e falarmos de negócios.

— Negócios?

— Não olhe para mim. Também estou por fora. Ela só chegou e me arrastou para cá. Estou tão confusa como você.

Esme não sabia do que se tratava.

Deus! Ela estava tramando. Dona Marie nos colocaria em uma fria, certeza! Eu a conheço.

— Do que se trata, minha sogra? Sou toda ouvidos.

— Bem, como bem vivenciaram, anos atrás perdi parte de minha família. Em parte por culpa nossa mesmo. E quando digo nossa, me incluo, porque se tivesse ensinado melhor minha filha a ser mãe, ela não teria deixado que seu garoto mimado magoasse uma adolescente ingênua e apaixonada...

Olhou para Esme, que instintivamente, abaixou a cabeça.

— Também porque não ensinei meu filho a ser um pai corajoso. Ele preferiu fugir a enfrentar o problema de frente.

Foi minha vez de sentir o sangue subir para o rosto. Marie falava, sem medo, algo que estava a sufocando há muito.

— Contudo, depois de anos, forçados, de afastamento de parte de minha família, cheguei à conclusão de que o maior erro de meus netos, foi serem fracos. Foram feitos de marionetes e sofreram manipulações. E isso é imperdoável porque os Swan’s são fortes, eu sou forte.

A convicção com que falava e a expressão dura que dirigia a mim e a filha era aterrorizante.

— Mas, não posso negar, fui atingida em cheio quando se mudaram. Achei que não ia suportar tanta dor. Os que ficaram pareciam zumbis, os que partiram estavam quebrados. E então, minha família enfraqueceu.

Uma lágrima solitária escorreu e por meio segundo consegui enxergar a senhora idosa, cansada e abatida, que nos fez voltar para Forks por causa da saúde debilitada. Mas, foi só por meio segundo, porque logo que secou o rosto a postura autoritária retornou.

— E ali, no auge da perda, em meio à dor de ver quieta, sem poder fazer nada, o sofrimento dos meus, jurei no túmulo do meu Geoffrey que os principais causadores, dessa fissura, pagariam. Que demorasse o tempo que fosse, mas que um dia eles pagariam. Então, eis aqui o motivo de minha visita. Tenho um plano e quero que o execute para mim.

— Como disse, sou toda ouvidos, sogra.

Não estava entendendo, juro que não estava. Ela pretendia castigar Rósalie e Edward e me usaria para isso?

— Mãe, por favor...

— Calada! Sua vez de falar ainda não chegou.

Esme também estava apreensiva e confusa.

— Anos atrás, para ser mais exata, no dia em que Rósalie trouxe a garota Volturi para um de nossos almoços de Domingo, eu sabia que seria um problema. Há tempos os pais dela guardam rancor de nós por Geoffrey e eu termos atrapalhado um negócio desonesto dele e termos comprado esse hospital para vocês. E a aproximação de Rosie e Tânia foi a chance que esperavam para adentrar nosso mundo e tramar alguma coisa.

Agora eu começava a entender. Minha sogra não citava Rósalie e Edward quando dizia do principal culpado de todos os problemas de nossa família, ela falava de Tânia Volturi.

— Aro, minou, influenciou, comprou... Sei lá... A filha mimada para que se aproximasse cada vez mais de Rosie e a transformasse numa “megera juvenil”, afastando-a assim da boa influência de Alice e Bella e, o que não estava nos planos, também a afastou de Emmett. Só que, como todas sabemos não parou por aí, eles queriam mais e foi a vez de Edward ser enredado e iludido. E também sabemos no que se transformou, mas isso não vem mais ao caso agora.

Por Deus! Não era possível! Se tudo aquilo fosse mesmo verdade os meninos tinham era caído numa armadilha ardilosa e cruel.

— Claro que essas informações não isentam Rosie e Edward de todo mal que fizeram. Porém, dão respaldo e justificativa para o que tenho em mente.

— E o que tem em mente mamãe?

Era evidente que, nem de longe, Esme se surpreendera com aquela história.

Fico me perguntando quantas vezes a ouviu ao longo desses últimos anos.

— Vamos comprar o hospital dos Volturi de Port Ângeles. Aliás, vamos comprar a dívida, já que Aro e Jane hipotecaram até a outra metade que compraram. Eles estão atolados em dívidas. O banco nem refutará nossa proposta, e depois os colocaremos para fora de lá a pontapés. Quero vê-los falidos, arrasados, destroçados... Só assim aprenderão a nunca mais mexer com um Swan.

— Mãe, isso é vingança.

— Ah, deixe de ser puritana, Esme! Chame do que quiser. O certo é que vou garantir que aquela família desapareça de nossas vidas e parem de tentar jogar a ordinária da filha para cima de Edward, afim de que nosso dinheiro os salve da derrocada.

Era bem ali, naquele ato, que eu via o gênio de minha filha.

Tão iguais! Guardam, guardam, para depois, no momento certo, darem o golpe final.

— Ela ainda se joga para ele?

Perguntei preocupada, já que sabia dos sentimentos mais íntimos de minha Bella.

Porém, dona Marie balançou a mão com desdém, não dando a mesma importância que eu, àquela informação.

— Claro que se joga! Eles precisam de dinheiro. Mas, não se preocupe, porque agora Edward virou homem e sabe muito bem o que quer.

— Mamãe!

— Ora, Esme! Não sei por que espanto. Toda cidade, e talvez até o estado, sabem que seu filho esta na seca desde sempre, só esperando e se resguardando para nossa Isabella.

— Ai Deus! O que deu na senhora hoje? Tomou a medicação?

Minha cunhada tentou segurar o pulso da mãe, para aferir sua pressão, porém foi rechaçada com outro balançar de mão.

Eu me segurava para não rir, mas confesso, saber que Edward não tivera ninguém esse tempo todo, me deixava até esperançosa.

— Ok. Eu entendi o ponto da senhora e tenho que concordar, estou animada com o plano. Mas, me diga, onde entro nisso tudo?

— Ah, essa é a parte fácil. É só raciocinar, querida.

Sorriu grande perante minha resposta. Era evidente que achava que eu já colaboraria.

— Primeiro, queremos seu dinheiro. Juntando com minhas economias e as de Esme dá para comprar o hospital e ainda sobra para reformá-lo e equipá-lo com tecnologia de ponta como o daqui.

— Minha parte? Ninguém perguntou se tenho algo guardado? Carlisle não vai investir. Ele anda com aversão a medicina.

— Não precisa mentir, querida. Sei das suas finanças, sei que tem a mesma quantia guardada que depositou para Renée. E esse é o dinheiro que quero de vocês. O resto eu arrumo. Não permito que Jasper cuide minhas finanças à toa. O garoto é bom. Deveriam contratá-lo para cuidar da parte burocrática dos dois hospitais. Quanto a Carlisle? Ele está chateado com a medicina, porque foi a fixação de Edward pelo curso, pela profissão que o fizera perder seu melhor amigo. Agora que Charlie está de volta, isso logo passa.

Dona Marie estava se divertindo, isso era fato.

— Dinheiro? Sem problemas. Preciso mesmo investir. E, a não ser com isso e o trabalho, não vejo em que mais posso ser útil.

Interrompi a conversa das duas, fugindo assim do assunto “aproximação de Carlisle e Charlie”. Se elas achavam mesmo que seria fácil... eu tinha pena.

— Você, minha querida norinha, vai ser a compradora da dívida no banco.

— Eu? Por quê?

— Ora! Essa é óbvia.

Ela se esticou um pouquinho e sorriu como se tivesse tido a ideia mais brilhante do mundo.

— Todos sabem que Swan’s e Cullen’s se estranharam e que não se dão mais bem. O que espero que acabe logo. Enfim, se Esme ou eu tentarmos a compra, o banco avisará a Aro e temo que ele dê um jeito de arranjar esse dinheiro, e aí, nada feito. Mas, se for você... E com um pouco de ludibriação, fazendo-o acreditar que não suporta Esme e por isso vendeu sua parte aqui do hospital e que quer comprar outro para destruí-la completamente. E que assim que ele “melhorar das pernas” venderá para ele metade do seu próprio hospital, não haverá erro. Não tem como ele negar. Está com a corda no pescoço, cederá a qualquer proposta que não vier de mim ou Esme. Então, o que me diz?

Era um bom plano. E no fim eliminaríamos um concorrente e ainda me vingaria um pouco do que minha menina passou. No entanto, não era algo que eu poderia aceitar sozinha. Precisava pensar...

— Preciso conversar com Charlie. Não vou mentir para meu marido. Se entrar nessa será com o apoio dele, ou nada feito.

— Eu sei. É assim que se faz.

Ela concordou. Depois se virou para Esme.

— Agora é sua vez de falar...

Sem que eu esperasse, minha cunhada se levantou, deu a volta em minha mesa e se postou a minha frente.

— Não gosto da parte de achar que isso é uma vingança, porém, sofremos muito. Nem de longe somos o que um dia fomos e acho que a cura está em nós. Antes de ser minha cunhada, é minha amiga Renée. Ajude-me a acabar com o que acabou conosco. Ajude-me a restaurar nossa família. Se dermos o primeiro passo será muito mais fácil para os outros. Somos adultas, nos amamos e temos porque lutar pelo perdão e pela nossa união. Perdoe-me por ter sido omissa e uma péssima sogra para sua filha? Juro que se Deus me conceder esse milagre de novo, isso não se repetirá.

Remeteu Antony e Bella. E então estendeu a mão para mim.

Pensei...

Pensei...

Pensei... E como um recomeço, a puxei para um abraço.

— Me perdoe pela fuga? Eu só queria proteger minha filha e meu neto.

— Eu sei!

— Perfeito! Eu sabia que se entenderiam.

Dona Marie bateu palmas satisfeita.

Era o fim de uma era. O começo de uma era...

Jasper

Sexta-feira à noite

— Jas? Jas? Jasper, você tá aí?

— Bella!

Num sobressalto e assustado pelas fortes batidas na porta, me coloquei de pé procurando, como um louco, a boxer em meio ao amontoado de roupas espalhadas pelo chão.

— Jas?

— Já vou!

Merda! Havíamos pegado no sono e Bella chegara da universidade.

Quantas horas eram?

— Oi.

Abri dois dedos de porta, e olha lá...

— Vamos? Já está tarde.

— Tá. Vamos sim. Pode ir descendo. Eu pego o Antony e te encontro na garagem.

Desconfiada, ela ficou na ponta dos pés e tentou ver algo dentro do quarto, mas como era “um pingo de gente” e eu bloqueava quase tudo, nada viu.

Só restou-lhe me observar com mais atenção. Deve ter visto o caos em pessoas.

— Tá tudo bem? Aconteceu algo? Por que trancou a porta? Antony ficou aqui fora sozinho e...

— Ora, Bells! Não me ensine minhas obrigações. Fiz Antony dormir na cama dele, como toda noite, depois trouxe a babá eletrônica para cá, tomei um banho, deitei e cochilei. Estava cansado, foi uma semana exaustiva.

Assim que as palavras saíram de minha boca me arrependi. Primeiro porque eu mentia e ela sabia disso, me conhecia. Depois, porque saíram dois tons mais alto do que de costume, parecendo rude demais.

Instantaneamente, ela se retraiu. E eu quis me chutar por tamanha imbecilidade. Bella não conseguia lhe dar com gritos.

— Desculpe. Eu... Eu, não queria atrapalhar. Pode voltar para o... O...

Nervosamente e olhando para o chão, visivelmente constrangida, ela passou uma das mãos pelos cabelos e se afastou, sem se virar, indo de encontro a Antony.

— o... Seu sono. Vou pegar meu filho. Vamos para fazenda. Não se preocupe. Desculpe.

— Não! Bella? Isabella! Parada aí!

Tarde demais, ela já devia estar com Antony nos braços. Eu precisava me apressar.

— Droga!

Voltei para o interior do quarto disposto a acordar Alice e lhe explicar o que acontecera, porém, para minha total surpresa ela estava sentada na cama se cobrindo somente com o lençol e me olhando atentamente.

— Desculpe, amor. Eu preciso ir. Não podia ter dormido. Não podia... Tenho que me apressar. Agi como Emmett. E Bella vai pegar a rodovia sozinha se eu não consertar a burrada que fiz. Droga! Ela tem traumas do acidente. Fica apavorada dirigindo a noite sem algum conhecido por perto. Ela trava. Perde noção de lugar e espaço.

De qualquer jeito, recolhia as roupas do chão e me enfiava dentro delas enquanto sussurrava.

Do lado de fora, os choramingos de Antony, por ter sido acordado, ressoavam e atiçavam minha consciência pesada.

— Ela ficou chateada!

A afirmação saiu baixinho, quase inaudível. Alice nem fazia ideia de como Bella estava destruída por dentro. Qualquer coisa, mesmo que parecesse pequena, era gatilho para memórias ruins.

Confundindo-me, ela se levantou e passou a se vestir rapidamente também.

— Ei, não precisa ir. Fique aqui. Durma no nosso quarto. Deixarei minha chave com você. Amanhã é sábado, Antony não vem para a cidade, porque fechamos a loja meio dia. Ninguém sobe aqui nesse dia. Descanse. Durma na nossa cama. Deixe seu cheiro por todo lugar.

Segurei seu rosto, beijei os lábios e apreciei o corpo lindo e desnudo da mulher que amo.

Há cinco dias estávamos nessa de namorar escondido. O que não era um problema se levarmos em conta que Bella vai para universidade as dezoito e trinta e só volta às vinte e três horas. E que Antony dorme às vinte e uma.

Tínhamos tempo. Ela saiu antes de minha irmã chegar, todas as noites essa semana. O maldito problema foi o babaca aqui, ter dormido hoje.

Coisa de principiante.

— Não! Desce, vai! Estarei logo atrás de vocês. Hoje vou para a Paraíso. Só deixe que Bella vá primeiro para que não perceba os faróis de meu carro.

Todos esses dias ela havia dormido no loft de Edward, então nuca tivemos que nos preocupar com Bella percebendo outro carro indo para mesmo destino que nós àquela hora da noite.

Pensativa, ela se soltou de mim e voltou a se vestir.

A porta da frente bateu.

Droga! Mil vezes droga!

— Ela sabe, Alice.

— Mas, não está pronta para aceitar. Só fico pensando que se Bella, que tanto me amava, não me perdoou ainda. Imagina seus pais? Enfim, vou respeitar o tempo dela, Jas. E...

O portão eletrônico abriu. O barulho era inconfundível.

— Se apresse. Vou segurá-la. Vemos-nos amanhã com muito mais tempo. Prometo! Te amo!

Dei um último beijinho nela, peguei os sapatos e saí correndo, descalço mesmo.

Conversaria com Alice amanhã, no sábado. Sairíamos, provavelmente iríamos para uma cidade vizinha, longe das fofocas e possivelmente passaríamos a noite lá, juntos como sempre deveria ter sido. Só voltaríamos domingo para o almoço na vovó.

— Bells! Bella!

Gritei e não me dando por convencido, bati as duas mãos no capô da camionete, chamando a atenção dela para mim, fazendo assim com que se assustasse e pisasse no freio.

— Abra!

Apontei para o vidro, e não coube outra alternativa a ela a não ser abrir.

— Me espere! Só vou calçar os sapatos. Perdoe-me, não queria gritar. Só acordei assustado.

Mostrando-me que sabia o que se passava, ela olhou para o outro lado da rua onde o inconfundível Poshe amarelo de Alice estava estacionado.

— Está tudo bem, Jas. Não tem o que perdoar. Volte para lá. Vá ser feliz. Preciso aprender a me virar. O filho é meu. Não deveria obrigá-lo a assumir uma carga que não é sua.

— Ei! Pare com isso! Por que está falando assim?

Abri a porta e puxei-a de dentro do carro diretamente para o aconchego de meus braços.

Antony dormia tranquilamente em sua cadeirinha.

— Ele não é uma carga, nem você, irmã. Nos amamos, lembra? O que foi, Bells? Por que está chorando?

Beijei seu cabelo enquanto o corpo pequeno balançava devido aos soluços silenciosos.

— Bells?

Ainda grudado nela, a virei de costas para a entrada das escadas. O atrito dos sapatos com o piso, anunciavam que Alice descia.

— Eu cheguei e estava escuro, completamente escuro. Foi sufocante! Não encontrava o celular na bolsa, para ascender à lanterna e então, ter coragem de entrar. Fui tateando em meio às paredes até encontrar o acendedor de luzes. Só que eu não conseguia respirar depois... Eu... Não queria chamar. Sabia que estava acompanhado. Mas fiquei com medo. Desculpe, eu não devia, eu...

Ah, por Deus! E o idiota aqui grita assim que abre a porta. Só eu mesmo. Se Antony presencia outra cena da mãe apavorada, nem Edward conserta dessa vez.

— Oh, Bê. Eu que peço perdão. Devo ter apagado as luzes, sem perceber, quando fui para o quarto. Nada disso vai se repetir, Bells. Eu prometo.

Alice parou no último degrau quando nos percebeu ali abraçados e chorando. Agindo muito bem, se escondeu atrás da pilastra dos fundos.

— Acho melhor, a partir de segunda, levar Antony na Sonho Azul antes de ir para a universidade ou deixá-lo com mamãe no hospital até que encontre uma babá confiável para os meus horários de aula. Não quero atrapalhar, Jas. Não vou te obrigar a escolher. Eu nunca quis isso. A psicóloga nova disse que tenho que caminhar sozinha, me libertar de vocês. Criar independência.

— A psicóloga nova não nos conhece. Pare com isso, Bells. Quer afastar Antony de mim, é isso? Não percebe que agindo assim, aí sim, está me obrigando a fazer uma escolha? É uma situação nova. Só precisa de ajustes. Pare de querer se afastar. Isso não funciona. Quantas vezes já tentou? Você não tem que viver sozinha. Não precisa colocar a máscara de forte. Sou eu aqui.

A apertei mais a mim. Mas, não tinha jeito, a capa protetora já estava colocada.

Ela daria um jeito para que eu não ficasse todas as noites com Antony.

— Vou pedir desculpas a Emm. Assim ele volta para loja e leva Antony quando for embora à tarde.

— E você volta tarde da noite sozinha? Só em seus sonhos.

— Eu, eu durmo aqui. E vou para fazenda de madrugada.

— Dorme aqui sozinha? Só em seus sonhos. Pare com isso. Não vai pedir desculpas a Emmett. Foi ele que errou. Não vai voltar sozinha, nem vai dormir aqui. Eu te amo, Bells. E vocês são minha família, minha vida. Confie em alguém, irmã. Confie em mim. Não vou te deixar. Não vou te trocar ou te esquecer. Você vai se curar, só confie... Respire fundo e confie.

Beijei sua testa e sequei seu rosto controlando cada respiração dela.

Em pensamentos, agradeci a Deus por ela não ter me feito escolher. Eu não poderia mais... Eu era egoísta, queria tudo. Merecia Alice e merecia minha irmã e meu sobrinho. Tirar qualquer um deles, seria arrancar um pedaço de mim.

— Eu te amo, Jas. Obrigada por ser meu porto.

— Assim como eu te amo, sua chorona. Agora para de manha. Vamos para casa porque está tarde e Charlie deve estar arrancando os cabelos de preocupação.

Ajudei-a a entrar de volta na camionete e fechei a porta para ela.

— Vá devagar. Ninguém aqui está compressa.

Esfreguei sua mão na minha e beijei seus dedos. Para só então me afastar e deixar que ela desse ré para a rua.

— Alice, não precisa se esconder. Eu não mordo.

Sorriu lindamente para mim, e então engatou a primeira e saiu como se nada daquela cena de pouco minutos atrás tivesse acontecido.

— Vamos?

Alice saiu de seu, nada bom, esconderijo e veio a meu encontro.

— Ela falou comigo. Falou. Vamos sim, preciso compartilhar essa felicidade com mamãe.

A beijei mais uma vez, me despedindo.

Eu era um abençoado! Teria as duas em minha vida, era questão de tempo. E ainda provaria a Emmett o tamanho de sua incompetência.

Domingo

Bella

— Mamãe, por que estamos indo a pé? Eu gosto muito da nossa “camonete”.

Balancei a mãozinha dele, agarrada a minha, e contemplei como era lindo o sol da manhã nos cabelos claros de meu milagre.

— Porque é pertinho, meu amor. E queria aproveitar, dar uma caminhada e conversar com você.

Apontei para nossa casa e a de vovó. Mostrando-o a distância que não passava de uns quinhentos metros, mais ou menos.

— Se na volta eu “ficá” cansado você me dá colo?

Pediu manhoso e, para meu deleite, falando quase tudo certinho. A fono e a psicóloga nova eram boas mesmo.

— Claro que carrego. Ou então, você pode voltar como o vovô ou com Jas ou Emm.

— Titio Emm, não. Ele fica “bligando” com você. Posso voltar com o tio “Edwald”? Sabia que aquela casa bonitona lá da “estlada” é dele?

Ou com tio Edward... Valhei- me Nossa Senhora! Desde aquela manhã que eu era obrigada a ouvir histórias e mais histórias da aventura que foi, comer e dormir sem mim.

Por Deus! Eu precisava mesmo aprender a dividir meu pequeno com o pai. Mas na teoria era tão mais fácil.

— Mamãezinha linda, a gente pode “ir lá” um dia? Só para conhecer?

Parou a minha frente, com aqueles lindos olhos verdes intensos, e juntou as mãozinhas em forma de pedido.

— Vou pensar nisso. Agora venha aqui porque vou te dar “uns amassos” para matar a saudade.

— Ah não, mamãe! Eu já sou rapazinho e rapazinho não fica ganhando beijos de mamãe. É “pagá mico”.

Correu na minha frente, fazendo graça e fugindo de meu agarre.

— É isso que está aprendendo naquela escola cara, né, seu Pestinha? Falar gírias. Venha aqui que eu vou te pegar e esquentar esse bumbum. Vou te mostrar a cor do meu chinelo.

— Não vai não. Seu “chilelo” é marrom claro, eu já sei.

Correu mais. E foi só então que percebi um carro vindo lentamente, quase parando, em nossa direção.

— Acabou a brincadeira. Venha aqui. Olhe o carro.

Obediente e educado, ele parou quando percebeu que eu falava sério e que o carro saíra da estrada para adentrar o gramado frontal da sede original da Sonho Azul.

O peguei no colo. Carros e estradas eram meus pontos fracos também.

— Olha só, estão perdidos, irmã. Querem carona?

Ah, misericórdia de mim, Senhor! O homem estava de óculos escuros, cabelo molhado e ainda sorria tudo que podia.

Como alimentar um ódio se ele não ajudava? Isso sem falar, que dirigia o maldito Volvo.

— Oi titio, bom dia. Oi tia Lice.

É, Alice estava no banco do passageiro e parecia absurdamente mais bonita e feliz hoje, assim como Jasper quando chegou em casa as dez da manhã.

— Oi príncipe. Venha com a gente. Tá muito grande e pesado pra sua mãezinha carregar.

Antony, como um macaquinho, grudou mais em mim, negou o convite e a corrigiu do seu jeitinho mais lindo de ser.

— Ixxa! Você se enganou, titia. Antony não é “plincipe”. Antony é “vetelinário” e peão de rodeio e “advogato”.

Veterinário era novo em sua lista de futuras profissões. E não tinha como esconder, me deixou muito orgulhosa.

— E “obligado” pela carona. Mas vamos a pé mesmo. Mamãe e eu estamos caminhando para “espailecer”.

Foi maravilhoso ver o espanto e admiração deles por meu bebê. Era prova que mesmo com tantos percalços eu estava fazendo um bom trabalho.

— E titio “Edwald” me desculpe, mas esse seu carro é muito pequeno e feio.

— Antony!

Bom trabalho? Onde?

Por Deus! Senti o sangue se acumular em minhas bochechas.

— O quê, mamãe? Você diz que devemos “falá” só a verdade,

— Filho, mas não pode ser assim. Isso é falta de educação.

— Ah, deixe-o, baby.

Achando graça, Edward encerrou o assunto e me fez gelar repetindo de novo, o modo como me chamava nos dias bons.

E quebrando ainda mais minhas barreiras, desceu do carro.

— Leve meu carro feio, irmã. Acho que também estou precisando espairecer.

E quando parou a nossa frente eu precisei de alguns segundos para voltar a raciocinar.

Edward estava lindo. De sandálias de couro, camiseta básica preta e bermuda, esporte fino, branca.

E o cheiro? Um perfume totalmente novo ao meu olfato. Era mais... Másculo? Nada da fragrância que eu lembrava e que me fez passar mal tantas vezes quando estava grávida e me recordava dele.

— Vocês são “englaçados”. Ficam olhando um “pala” o outro de boca “abelta”. E o titio ainda se enganou. O nome da mamãe é Bella, não baby.

Aproveitei a perspicácia de Antony para me recompor. Porém, muito satisfeita, percebi Edward voltar a me avaliar de cima abaixo. E, modéstia a parte, a saia longa, estilo cigano, a regata vermelha e o chinelo de dedo, de couro, e meu cabelo solto, formaram uma combinação perfeita. Eu estava bem. Bonita, para ser mais específica.

— É mesmo, pequeno sabido. Não é baby, é Bella e muito, mas muito bela mesmo.

Fez um elogio disfarçado brincando com as palavras homônimas, tirando um sorriso de mim.

Depois se aproximou e com olhos quentes, pegou Antony de meu colo e o aconchegou em si.

Os dedos tocaram meus braços, acidentalmente, causando um frisson e calafrios bons que eu bem conhecia.

Droga!

— Quanto a meu carro, ele pode até ser feio, mas em compensação minha casa é linda, foi desenhada pela melhor... E ainda tem um pula-pula gigante e novinho lá no jardim do fundo.

— Como assim? Um pula-pula “glande”? Mamãe!

Antony só faltou bater palminhas, como Alice fazia, de tanta empolgação.

— Podemos “ir para lá” agora? Podemos?

Falando em Alice, ela guiou o carro devagar, passando por nós e estacionando na lateral da casa. Bem ao lado da camionete de Jasper.

Toda família já havia chegado e no momento se encontravam espalhados pela varanda nos esperando e olhando com atenção demais para nossa interação.

— Hoje não dá, filhote. Prometo pensar no assunto depois que Edward e eu tivermos uma conversa séria.

— Ah não, mamãe.

— Antony... Antony...

O repreendi baixo quando fez bico e cruzou os braços, emburrado.

— Ei, amigão. Não precisa disso. Pensa, não é uma negativa. Sua mãe e eu só precisamos acertar algumas coisas, conversa de adulto. Além do mais, hoje tem almoço da bis-vovó, não podemos perder. Ou vai querer passar o dia a base de mamadeira? Porque na cozinha, eu confesso, não sou dos melhores.

Ele, pelo menos, sabia onde era a cozinha agora. Tão diferente do Edward adolescente.

— “Dedeira” não, tio “Edwald”. Leite só no copinho do Simba e do papai dele, né mamãe?

Estávamos muito perto da casa agora. Era provável que já ouvissem nosso assunto.

— Isso mesmo, no copo. Já é um rapazinho.

— Mas, por quê? Faço tão bem uma mamadeira, lembra?

Antony e ele se divertiam. O luxinho de agora a pouco, já totalmente esquecido.

— Faz nada. Mamãe, você “plecisa” ensinar pro titio as coisas. Ele pega a “dedeira” e balança ela “loucona” assim ó...

Antony balançava os braços e gargalhava muito. Contagiando a mim e ao pai.

— Eu balançava assim?

— É. Para, titio.

Edward o levantou nos braços e o sacudiu fazendo com que os cabelos dele esvoaçassem.

Era a mais linda interação entre pai e filho.

— Vai machucar o menino.

Emmett comentou audivelmente nos tirando de nossa bolha feliz.

— Estamos chegando.

Quebrei o restinho do clima assim que decifrei as feições bravas de meu pai e meu irmão mais velho. Era evidente que não aprovavam o que viam.

— Você tá com “flio”, tio “Edwald”? Está “tlemendo” de repente.

Edward também sabia o que o aguardava, contudo sua resposta a Antony me surpreendeu.

— Não é frio, Pequeno. Isso se chama ansiedade. Esperei anos por uma oportunidade e agora ela chegou. Estou feliz e apreensivo ao mesmo tempo. Só quero fazer as coisas certas dessa vez. Preciso convencer pessoas importantes, aliás, uma pessoa muito importante, de que mudei.

— E você mudou?

Paramos na entrada da varanda e antes de responder o filho, Edward olhou um por um, deixando-me por último.

— Mudei muito, Antony. Precisei perder tudo que tinha, sofrer tudo que podia, mas valeu à pena, eu aprendi.

— Então não tem “polque tlemer”, titio. Mamãe diz que quando “fazemos coisa feia” é só pedir desculpa e não “fazê” mais, que Papai do Céu perdoa. E se o Papai do Céu perdoa todo mundo tem que “peldoar”. Não é, mamãe?

Eu e minhas lições... Cair no contra-testemunho com meu filho não seria o mais certo a se fazer.

— É, amor.

Com lágrimas nos olhos, reflexo da lição de moral recém aprendida, peguei Antony dos braços do pai.

— Preciso que faça um favor para a mamãe.

— O que é?

Ele segurava meu rosto com as duas mãozinhas e acariciava com cuidado, como se soubesse da importância da situação.

Decidida, deixei que as palavras saíssem.

— Mamãe precisa ter uma conversa chata, de adultos, com tio Edward. Quero que se comporte e fique com o tio Jas e...

Pensei, por um segundo. Jasper precisava viver. Antony era minha responsabilidade, não dele. Além do mais, Alice estava ali. Ele precisava aproveitá-la mesmo que fosse discretamente.

— Ou melhor, quero que você fique com o vovô e a vovó até voltarmos.

— Bells, você prometeu que...

Estendi a mão interrompendo Jasper. Ali não era lugar para aquela discussão.

— Mamãe promete que será rápido e...

— Paradinha aí, irmã! Ninguém vai fazer nada? Vão mesmo deixar que ela seja enganada de novo? Eu não! Nossa relação já está uma merda mesmo. Terei que ser eu a fazê-la cair em si? Talvez se relembrá-la de como o “Dom Juan” ali é bom só com palavras, ela acorde.

— Emmett, eu também quero falar com você. Eu...

— Não!

Instintivamente, segurei o braço de Edward impedindo-o de prosseguir. Emm estava a ponto de perder o controle e as consequências poderiam resultar em palavras que afetariam Antony.

— Olha, que lindo! Eles já se tocam. Contem os dias até que ela volte a abrir as pern...

— Chega, Emmett!

Charlie o interrompeu a tempo.

— Se não respeita sua irmã, respeite pelo menos sua avó e sua esposa grávida. Vá para casa agora! Quer ser tratado com um moleque? Assim será.

Emmett variava olhares de ódio entre mim e Edward.

— Vovô tá bravo e titio Memmett tá falando coisas feias. Podemos ir “embola” com titio “Edwald”, mamãe?

— Pronto! Parabéns! Era isso queria? Conseguiu!

Charlie ficou mais nervoso ainda com a observação de Antony. Não era segredo para ninguém que um dos maiores temores dele, como nossa volta, é que quando o neto soubesse de seu parentesco com os Cullen’s, se encantasse e escolhesse-os.

— Vamos embora, Leah. Parece que não somo mais bem vindos nessa droga de almoço em família.

— Não, não! Você vai! Leah fica! Se seu descontrole assusta seu sobrinho, não quero que o mesmo aconteça com seu filho. Além do mais, ao redor da construção de vocês as ervas daninhas estão tomando conta. Tire à tarde para “carpir” aquele lugar. Assim quem sabe, esfria a cabeça e repensa as atrocidades que anda falando e fazendo. É assim mesmo que me ajuda, Emmett?

Ele não respondeu. Somente olhou-nos com maior intensidade e então saiu, sem se despedir de ninguém, fritando pneus, estrada a fora.

Se tem uma coisa que ele, Jasper e eu sabemos muito bem, é que a palavra de Charlie Swan era a última lá de casa, totalmente a lei maior.

— E você rapazinho, venha aqui com o vovô. Já resolvi o problema, não precisa tentar fugir quando acontece alguma coisa. Se não puder resolvê-lo peça ajuda a um adulto, de preferência a mim. Agora, vamos ali na cozinha ver se tem um suco bem gelado para nos refrescar, enquanto sua mãe resolve uns probleminhas.

Pegou Antony de mim e com o olhar duro, no meu, deu o seu recado.

— Não entenda a minha repreenda a Emmett como apoio a seus atos. Sua sorte, mocinha, é que sempre pouparei Antony. Porém, quando chegarmos em casa conversaremos a sós. Minha opinião quanto a...

Virou-se em direção a Edward.

—... Suas escolhas não mudaram. Não existe arrependimento para o que fiz, faria e farei de novo qualquer coisa para proteger minha família.

— Eu sei, pai. Eu te amo.

O beijei na bochecha.

— Não bajule. Estou irritado por não ter sido consultado sobre esse assunto. Sei que não a mesma Bella de antes, não me desaponte.

— Tá bom. Já volto.

Alisei e beijei os cabelos dele.

Dei um “tchau” geral, para o restante “mudo” de minha família. E então, ao lado de Edward, contornei a parte da frente da casa e começamos a andar rumo à frondosa árvore que ficava na parte da frente da casa, onde tantas vezes brincamos e nos divertimos quando criança.

Edward

Caminhamos em silêncio até que ela parou e se sentou numa das raízes que ficavam para fora.

Permaneci de pé, organizando cada pensamento e preocupação: a ira de Emmett, o aviso de tio Charlie, a esperteza de meu filho.

Eu tinha tanto no que pensar...

— Você acha que algum dia Emm me perdoará? Acha que poderemos voltar a ser amigos? Acredita em perdão?

Sondei enquanto me sentava perto dela. A vontade de segurar sua mão alcançando índices inexplicáveis em mim. Meu braço ainda estava dormente onde ela tocou depois de tanto tempo.

— Emmett tem os motivos dele, Edward. Sei que ele exagera, mas nunca o condenarei por tentar me proteger. Ele foi o sopro de brisa em meio à tempestade.

Ela estralava os dedos, nervosa, mas os olhos estavam longe, num passado inalcançável para mim.

— Sabe, só preciso de um favor seu antes de começar com isso.

— O que quiser, Bella.

Sussurrei sentindo na alma a tristeza que já tomava conta dos olhos dela.

— Desde que decidi que conversaria com você, tenho me questionado e por isso fiz da vida de minha psicóloga e da terapeuta, do Brasil, um tempo difícil. E as duas me aconselharam a mesma coisa. Então, por indicação médica e pela minha sanidade, essa será a primeira e última vez que ouvirá a história toda, pelo menos de minha parte. E não me importo se não gosta da ideia ou se sua família vai querer mais informações. Há tempos deixei de pensar nos outros. Então, preste atenção aos detalhes e se tiver dúvida em algo pode perguntar depois, mas não a história toda, essa será uma situação só.

— Certo. Posso conviver com isso.

Eu sabia que não seria fácil, nem para ela nem para mim.

— É engraçado, eu ensaiei tanto para ter essa conversa. Tinha vezes que falava horas e horas enquanto cavalgava ou dirigia e agora, que estou aqui, não vejo como isso será bom. Para ninguém.

Ela mais uma vez estava com o olhar perdido.

— Sempre pensei que começaria a história te contando que papai decidiu, junto com mamãe, que fugiríamos porque não suportaria a ideia de tudo que eu teria que enfrentar. Depois pensei que falaria assim... Passamos por cidade tal e cidade tal, mas... Não. Não é dessa perspectiva que quero te contar tudo.

Respirou fundo e deixou que uma lágrima escorresse pela face bonita.

— Até porque até hoje não sei bem a logística da coisa. Não sei por quais cidades passamos nem que caminhos percorremos, isso você terá que perguntar a Emm, ou Jas ou papai. Eu estava desacordada durante todo o processo.

Não precisava, essa parte Jenks já me contara.

— Na verdade, eu nem sei por onde e se devo te contar tudo que aconteceu. Jasper me acusou de querer te poupar, e mesmo que eu nunca admita, acho que ele tem razão. Porém, a terapeuta acha que preciso colocar para fora tudo que está aqui, coisas que nem meus pais sabem direito.

Outra lágrima desceu, enquanto colocava a mão sobre o coração.

— Na verdade, Edward, eu nem lembro direito sobre a fuga. São imagens borradas. São dores camufladas... Eu estava quebrada já. Minha mente não funcionava direito, desde o término, desde que beijou Tânia e não abriu o envelope que te dei.

Retesei. Eu precisava corrigir aquilo. Não podíamos começar com uma mentira.

— Eu não beijei Tânia, Bella. Eu a rechacei, mas você não viu. Já tinha se virado e eu, muito idiota, não fiz questão de corrigir seu pensamento. Achei que seria mais fácil se pensasse que eu era mesmo um traidor. E quanto ao envelope, eu me esqueci dele, juro por tudo que é mais sagrado, eu esqueci. Só fui me dar conta daquilo na noite em que fugiram.

— Eu sei, não precisa se desesperar. Cheguei a essa conclusão depois de anos de terapia. Você era tudo, menos traidor e irresponsável.

— Quanto a Tânia eu...

— Espere, por favor. Deixe-me falar. Depois eu te escuto, prometo que escuto. Só não interrompa. Ou então não conseguirei seguir adiante.

Assenti. Faria o que ela quisesse.

— Como eu disse, hoje sei que não era um traidor e irresponsável que ignoraria o próprio filho. Mas, naquela época em meio à rejeição e medo de uma gravidez solitária, eu só pensava o pior de você. Só queria me enrolar em meus problemas e chorar até morrer. E foi aí que meu pai resolveu que precisava me tirar de casa. Lembro-me de ir dirigindo e de sentir a liberdade quando segurava firme o volante da camionete e ouvia o motor rugir a meu comando. Lembro de ter recusado que Charlie me comprasse um carro, ele até cedeu e disse que podia ser a tão sonhada camionete, mas eu não quis. Estava ferida demais, por esse motivo também. Havia jurado que só teria um carro quando comprasse um. E foi exatamente o que fiz anos depois. Mas, voltando a aquele dia fatídico, na volta para casa papai não me deixou dirigir, tinha combustível na traseira e ele ficou apreensivo quanto a minha direção. E foi então que tudo aconteceu, um caminhão cortou outro em local proibido, não ia dar tempo de voltar e papai foi obrigado a nos jogar para fora da pista. Lembro da camionete capotando uma, duas, três vezes para então parar. Sei que saí do carro e puxei meu pai. Mas depois tudo não passa de um borrão e daqui para frente às informações são de terceiros, porque eu não estava mais em mim.

Agora ela esfregava uma mão na outra e olhava para os próprios pés.

— Segundo contaram, eu tive órgãos vitais perfurados por costelas quebradas, tive cinco, ao todo. E quando nada poderia ficar pior, fizeram exames e descobriram que eu estava grávida. Segundo especialistas, meu caso se tornou gravíssimo, no momento em que me levantei e forcei papai para fora do carro, eu me coloquei em risco e a meu filho também. E foi através dessa informação que Charlie tomou a decisão de fugirmos. Tudo foi resolvido às pressas, cerca de duas horas depois da descoberta da gravidez eu já estava dentro de uma UTI aérea rumo ao desconhecido.

O prazo mínimo de que fomos para casa e eu caí em mim.

— Foram dias de um inferno para toda minha família. Tive paradas cardíacas duas vezes e minha pressão se descontrolou inúmeras vezes. Mamãe não dormiu por praticamente cinco dias, até que chegamos ao Brasil, nosso destino final, e uma junta médica conseguiu me estabilizar.

Olhou-me com atenção quando disse Brasil, porém eu já sabia daquilo também. Não era surpresa.

— E por milagre de Deus, meu bebê estava vivo. Ele havia passado por cada percalço comigo e não havia desistido, se mantinha uma pontinha de luz no fim do túnel.

Literalmente um pontinho.

— Depois disso, foram mais quinze dias de UTI, de medicação, de orações e lágrimas. Até que numa tarde eu acordei com muita sede e em volta de pessoas estranhas e que falavam um idioma totalmente estranho para mim. E quando me colocaram a par do havia acontecido, da mudança... Foi que a segunda parte da luta começou. Eu não lutaria mais pela vida, lutaria pela vontade de seguir em frente.

Deixei que minha própria lágrima escorresse.

— Meu pai comprou a fazenda nova, os meninos foram para a faculdade, mamãe começou a atender no hospital. E eu? Eu só queria acordar do pesadelo de não ter você mais alcance das mãos e dos olhos. Perdi as contas de quantas vezes quis morrer, quis dormir e não acordar mais tamanha dor e frustração. Eu te odiava pelo que havia feito comigo, me achava feia, burra, imprópria. Contudo, ao mesmo tempo, te amava com tudo que havia em mim e te queria de volta. E foi aí que quase coloquei tudo a perder...

A cada palavra dela um pedaço de mim se desfazia. Era pior, muito pior do que imaginava. Eu havia acabado com meu amor.

— A fazenda ficava muito longe da cidade mais próxima, cerca de uns cem kilômetros. E em duas oportunidades, quando a saudade e a dor me fizeram surtar, saí andando a ermo, a fim de fugir e voltar para você. Machuquei-me muito, feri mãos e pés e quando me encontraram eu estava desidratada e mais devastada do que nunca. Foi Emmett quem me encontrou sempre. Então ele me segurava nos braços e me ninava dizendo que tudo ficaria bem. Nem sei te falar de quantas noites eu gritei e chorei de medo, de pavor, de dor... Meu peito sufocava e eu queria mesmo morrer. Não tinha coragem de fazer aquilo com as próprias mãos, mas pedia a Deus a cada segundo que me levasse.

Não, Ele não a ouviu. Bendito seja. Eu agradeceria até o fim de meus dias.

— Emm e Jas pararam tudo e viveram a minha vida. Sempre que um não estava, o outro estava. Eu negligenciei os primeiros meses de gravidez. Não me importava, não tomava as vitaminas e não queria fazer o maldito pré- natal. Eles me levavam a força. Conversavam como minha barriga e diziam a todo o momento que meu filho era amado e querido. Não me orgulho dessa atitude. Eu estava devastada e fora de mim demais para raciocinar.

Antony pagou pelos meus erros. Machuquei sua mãe a ponto de colocar sua vida em risco.

— Por fim, quando a depressão estava no auge e eu não aguentava mais, fui ao estábulo escondida, a noite, disposta a acabar com o sofrimento. Eu amarraria uma corda e pularia. Já sabia direitinho como e onde fazer. Cheguei ao ponto de me preparar para o pulo e foi aí que...

Fiquei inerte e completamente parado...

—... Meu pequeno milagre tomou forma. Antony mexeu. E não foi uma mexida lenta, como toda mulher diz que acontece em início de gravidez. Ele praticamente me chutou. E foi a melhor coisa que poderia ter acontecido. Eu paralisei. Fui tomada por uma onda infinita de amor. A consciência de que carregava uma vida e que ela era inocente reascendeu a chama da vida. Eu desisti de morrer.

— Por isso, às vezes, o chama de pequeno milagre.

Constatei não resistindo à ordem dela de ficar calado.

— Todos lá em casa o chamam assim. O “pequeno” é só pelo tamanho mesmo, porque o que fez comigo foi grande, muito grande. A partir daquela demonstração de presença eu caí em mim. Resolvi que lutaria, que mudaria e que sufocaria a maldita dor a transformando em rancor pelos que me fizeram colocar a vida dele em risco.

Eu, para ser mais exata.

— Papai diz que acordei para a vida aquela noite, e que fechei as portas do inferno. Não demorou muito, voltei para a faculdade. No Brasil o sistema é um pouco diferente, se fizermos uma prova, passarmos e pagarmos, estudamos e fazemos o curso que quisermos. E foi a minha tábua de salvação. Eu precisava ocupar a cabeça. Não deixar que a dor voltasse. Eu estudava de manhã e a noite e durante a tarde, cuidava da fazenda. As madrugadas ainda eram difíceis, mas eu ainda tinha Jas e Emm. E tudo foi se ajeitando, ajeitando... Meus hábitos foram mudando. Éramos novos na cidade, então as pessoas, munidas pela curiosidade, se aproximavam e mostravam interesse. Passei a sei almejada, querida, pretendida. E isso foi o melhor que aconteceu. Melhorou minha auto- estima. Eu estava grávida e mesmo assim os brasileiros, que sinceramente, são lindos e atenciosos, me queriam. Passei a pensar no que sempre me falava. Aposentei as calças e botinas. Fiz um rombo nas contas de papai. Nunca comprei tanta futilidade em roupa na vida. Alice ficaria orgulhosa. E assim, aos poucos fui me recuperando, recuperando até chegar ao ponto que estou hoje. Antony nasceu, encheu nossa casa de alegria e eu agradeci por ele ter sido forte por nós dois. Por isso, o mimo mesmo. Fui uma fraca no início. Não disse o quando o amava e agora o compenso todo dia. O amo e não tenho vergonha de falar sempre que posso.

Ela foi a lama, quase se perdeu e tudo porque eu era um inconsequente egocêntrico.

— Confesso que tive receio quando papai nos pediu para voltar, mas sabia que um dia teria que enfrentar o passado e eis que aqui estou. Não totalmente curada, mas disposta a lutar a cada dia pela melhora. Há dias que estou bem, há dias que a auto-piedade e o medo ainda dominam, ainda mais em dias de muito estresse. Mas, agora sei pelo que devo lutar. Antony é minha luz no fim do túnel. Por ele eu sigo em frente.

O fim do depoimento fora emocionante, nem parecia a Bella melancólica e sofrida. Ela estava cheia de vida. Com olhos brilhando de amor pelo filho.

— Pronto! Agora é sua vez. Prometo que vou ouvir sem interrupções.

Tomado pela vontade de ser perdoado fiz a única coisa que podia: dei dois passos e me ajoelhei a seus pés.

— Primeiro, eu nunca fiquei com Tânia, não passei de um joguinho na mão dela e de Rosie. Fui um idiota que compactuou com as atrocidades delas. Eu não via o que estava debaixo do meu nariz. Não via que, por meus atos, perdia o amor de minha vida. Segundo, eu só abri o envelope quando cheguei em casa depois de seu pai nos expulsar do hospital, foi quando descobri da gravidez e voltamos para lá, mas, já era tarde vocês já tinham partido. Terceiro, eu te procurei, Bella. Contratei um detetive e seu pai o descobriu e o comprou. No momento em que aquele rompimento se deu, eu sabia que havia feito besteira. Eu quis consertar, mas já era tarde demais, veio o acidente, a fuga... Eu te procuro desde aquele dia. Eu te amo, Bella. Nunca deixei de amar. Quero meu filho, quero você, sempre quis. Pode ser do jeito que você mandar, serei grato com o que me oferecer, só me perdoe. Por favor, me perdoe. Com tudo que tenho, eu te imploro, me perdoe? Eu... eu lamento, Bella. Sabia que tinha feito um estrago em você, tinha certeza que acabara com aquela menina doce e inocente, mas, por Deus, Bella! Nunca imaginei algo assim. Perdoe-me? Eu era um fraco. Por ser adotado não me considerava um Cullen de verdade. Eu queria vencer, a qualquer custo. Não importava o que sacrificasse no processo.

Ali de joelhos, prostrado, eu a entregava os meus maiores medos e segredos. Eu abriria meu coração.

— Fui um completo idiota, baby. Só caí em mim quando quase te perdi para as armações de Tânia e Rósalie, depois para o acidente e por fim, perdi de vez quando fugiram.

Sentei sobre as pernas e baixei a cabeça.

— Me envergonho de achar que sofri. Não foi nada perto do que passou. Mas, preciso que saiba que não vivo desde aquele dia, eu vegeto. Nada tem importância, nem o trabalho, nem o carro... Em todos esses anos as únicas vezes que me senti vivo, que me interessei por algo foi quando comprei de Carlisle as terras que você queria que fossem nossas e depois quando construí a nossa casa, do jeitinho que você tinha desenhado, sonhado. Eu tinha fé de que um dia voltariam e então eu imploraria seu perdão.

Eu chorava, sem acanhamento nenhum, eu chorava...

— Eu tive tanto medo, Bella. Mês após mês, ano após ano e o detetive não tinha notícias, hoje sei que seu pai o descobriu e comprou seu silêncio, porém na época, a cada falta de novidade um medo doentio de que algo tivesse acontecido me assolava. Tive pesadelos onde você e nosso filho não resistiam. Tive noites insone pensando que você poderia ter interrompido a gravidez, tamanha raiva de mim. Quando acordava só tinha a certeza de que se descobrisse que aquilo fosse verdade, eu os seguiria. A dúvida foi o que me manteve vivo.

Respirei fundo, buscando o controle de minhas emoções.

— Fiz da vida de minha família um inferno. Carlisle desistiu de mim. Eu o tirei seu melhor amigo. Mamãe e Alice se revezavam para me vigiar com medo de meus atos. Vovó me condenava por ter acabado com sua família. Eu estava completamente sozinho, Bella. Ainda estou. Porém, não reclamo mais...

Levantei a cabeça e a encarei. Foi emocionante perceber que ela também chorava e pela primeira vez desde que voltou, vi a tão bem vinda, compaixão, que eu não merecia, mas que estava ali, em seu olhar.

Aquela era a Isabella que eu conhecia.

— Tudo pelo que passei me trouxe até aqui. Sou outra pessoa. Sei o que realmente importa e o que quero nessa vida. Sou e serei eternamente grato a você, por não ter desistido nem de você, nem de nosso filho. Por isso, eu imploro...

Estiquei o corpo e voltei a ficar de joelhos.

— Me perdoa? Por tudo que é mais sagrado, me perdoa? Deixe-me fazer parte da vida do meu filho. Vamos no ritmo que você quiser. Posso ser só o “tio Edwald” enquanto ainda não confia em mim perto de nosso bebê. Prometo ser paciente. Vou te mostrar a cada segundo que darei a vida por meu, ou melhor, por nosso Pequeno Milagre. E então, se um dia eu convencê-la de que renasci, para melhor, aí sim pedirei a chance de ser o pai que Antony merece. Por favor, Bella.

Não pedi mais uma chance para nós. E Deus sabe como eu queria, queria tudo, aliás. Mas iria devagar.

Eu a reconquistaria no tempo certo e do jeito certo dessa vez.

— Por favor? Por favor...

Sussurrei de novo, como numa prece de desesperado.

— Edward, eu...

Notas finais
Primeiro: Esse capítulo é um dos meu preferidos. Ele marca o fim de uma era. Daqui para frente iniciaremos uma fase de perdão, reconquista e muito amor. E sim, caminhamos do meio para o fim. Segundo: O Nyah não está mandando notificações de novas MPs. Respondi a todas que haviam me mandado. Deem uma olhadinha na caixa de mensagens de vocês. Terceiro: Caminhamos para o fim do ano. Lembre-se que sou comerciante, minha vida fica mais corrida nessa época. Por fim: Meu Twitter é: @CarlaKodel adicionem lá se quiserem um contato mais direto comigo. Como eu disse no início, capítulo todinho para Bárbara Cullen que me encheu de muito mimo com uma linda recomendação. Eu amei!