Quando o passado não te deixa viver
35 Como assustar uma mulher em três segundos
Notas iniciais
Renée
— Quer conversar?
Perguntei como quem não quer nada, escondida atrás do jornal que, fingia ler, e que propositalmente havia pegado antes dele. Charlie odiava que o abrissem primeiro. Aquilo era uma regra, não dita, da casa. Todos sabiam e obedeciam. Mas, naquele dia, eu não estava nem aí. Peguei aquilo antes que ele usasse desse artifício para se manter mudo e fingir ausência.
Mas, pelo jeito, falhei miseravelmente, porque meu marido não havia dito uma palavra desde que se juntou a mim, na mesa do café, depois do banho, já que havia chegado dos barracões.
— Quero meu jornal.
— Ah, que pena! Estou lendo. Vai ter que esperar. O bom é que sou mulher, posso fazer duas coisas ao mesmo tempo. Então, quer conversar?
— Não me provoque, Renée. As mulheres e crianças dessa casa são as únicas que não merecem minha ira agora. Por isso, fique na sua.
Sorri, por dentro, claro. Ele achava que aquela carranca metia medo. Porém, eu não era boba, não ia provocar tanto. Queria que ele externasse suas frustrações, não que ficasse mais chateado. E, pelo visto, meu plano estava funcionando.
— Não posso ficar na minha se você não está lá, Amor. Fale comigo. Está tudo tão quieto.
— Claro que está! Olhe a sua volta, mulher. Está ouvindo risadinhas sapecas? Ou então um canto suave de quem está vindo para cá? Ou quem sabe passinhos apressados de um Serzinho que levantou bem cedo e só está com um copo de leite, que tomou no curral mesmo, no estômago exigente? Ou, espere, posso pensar também no barulho de botas, tocando o assoalho de madeira da varanda, que significa que minha garota logo se juntará a nós? Está ouvindo?
Apontou com o dedo indicador para cima, se calando e tentando encontrar um mínimo sinal de algo que citou.
— Não, não está ouvindo. Porque eles não estão aqui. Uma das alegrias dessa casa saiu de madrugada arrastando a outra, para evitar confrontos que assustassem o Pequeno. Essa casa está morta! Eu estou morto!
— Charlie! Não diga isso. Vamos resolver isso. Sempre resolvemos.
— Não tem como resolver, Renée.
Passou a mão pelos cabelos de um lado para o outro os revoltando num desalinho anormal.
— Eu disse ontem que sabia que tínhamos pouco tempo. Não demorará para Edward os levar de vez, eu sei, eu vi, falei com ele ontem. O menino “enxugará gelo” se assim Bella e Antony quiserem. É questão de tempo para que ele os tenha de vez. Eu estava consciente e aceitando isso porque sabia que teria mais um tempinho para aproveitar e me acostumar com a ideia. Mas aí chego em casa e... Bum! O mundo caiu sobre minha cabeça. E só Deus sabe como não os perdi ontem a noite mesmo. Porque no “fogo nos olhos” que Bella estava... Rá, se não fosse Jasper aqui para segurá-la... Certeza que teria enfrentado seus medos e partido ontem mesmo.
É, Bella não tinha ido para a cidade imediatamente como prometera depois de uma briga homérica com o irmão, e não fora por vontade própria. Graças a Deus, Jasper estava em casa e conseguiu acalmá-la.
O que não aconteceu agora de manhã. No primeiro raiar de sol, ela apareceu na sala com malas na mão e Antony a tira colo.
Despediu-se sem maiores e dramas e depois, partira para o apartamento em Forks.
Bella era dura quando queria. Isso eu precisava alertar, Edward.
— Ela está de cabeça quente, vai repensar.
— De cabeça quente ela estava ontem. Hoje estava decidida. Mas, quem pode julgá-la, não é? Depois daquele estardalhaço, e das palavras “bonitas” que ouviu, eu também iria embora. E se acha que ela vai voltar assim tão fácil, realmente não conhece sua filha.
É, ele estava certo. Provavelmente estava se lembrando de que, no passado, sua recusa em dar uma camionete que tanto prometera a Bella a transformara em uma mulher que não aceita presentes grandes, uma mulher teimosa e “topetuda”. E que só fazia o que queria.
— Charlie...
— Quer saber? Deixa! Estou frustrado demais. E é bem capaz de descontar em você toda a minha raiva e não merece. Eu só queria saber onde foi que eu errei? Como podem ser tão diferentes?
Já estava pronta para respondê-lo explicando que os 3 têm personalidades totalmente opostas, quando fomos interrompidos pela chegada de Emmett.
— Deixa! Esquece! Perdi a fome.
— Charlie?! Espere!
Mas foi impossível segurá-lo. Só afastou a cadeira e saiu rudemente. Sem nem olhar para o filho.
Raiva emanava dele.
— Não vai se levantar também? É a quinta vez que ele me evita. Quero saber até quando vai fazer isso já que nos cruzamos mais do que tudo, nessa fazenda.
Emmett arrastou a cadeira e se sentou, começando a se servir, como se nada tivesse acontecido.
Era cínico demais.
— Não, não vou me levantar.
Calmamente, dobrei o jornal e coloquei sobre a cadeira de Charlie. Era a minha vez de lhe mostrar quem mandava naquela casa.
— A casa é minha.
— Ah, era sobre isso que conversavam quando cheguei e interrompi? Que terão de me suportar? Ainda mais agora que Isabella decidira fazer “birrinha”? Não precisavam cochichar. E não pensem que chantagem emocional me fará ceder.
Continuo sustentando tudo que disse ontem à noite. Convivam com isso. Tenho minha opinião e não mudo.
O olhei por alguns segundos, em silêncio e pensando no que Charlie falara: onde erramos com Emmett? Será que o demos liberdade demais?
Ah, mas eu resolveria isso agora mesmo. O mostraria quem mandava.
— Não, não era isso que estávamos falando. Aliás, seu pai e eu estávamos decidindo qual era a melhor maneira de dizer-lhe para sair de nossa casa. Ele queria simplesmente te agarrar pelo pescoço e te jogar porta a fora. Mas, eu disse que isso assustaria mais sua esposa, que por incrível que pareça descansa tranquila no quarto da sua irmã. Então, ele mudou de ideia. E eu decidi que eu mesma diria para você nossa decisão: saia!
Séria, como quase nunca sou, olhei-o.
Tá, eu tinha meus momentos. Sou conhecida pela benevolência. Bella herdara tanto de mim. Perdoamos, perdoamos e perdoamos de novo, porém quando nos tiram do sério... Havia sido assim com o filho de Esme no passado. Eu quis estrangulá-lo pelo que fizera com minha filha. Aí veio o tempo, Antony, o amor de Bella que nunca sumira... E eu o perdoei. Não que ainda não fosse conversar com ele a respeito em algum momento, claro que iria. Queria alertá-lo de algumas coisas.
Porém, Emmett há muito precisava de um corretivo. E o daríamos agora. Ele aprenderia, a força, como respeitar a individualidade e desejos das pessoas.
— Como? Mãe...
— Não me venha com essa de mãe. Você atingiu todos os limites. Por sua causa terei que enfrentar a ira de seu pai e sua avó, assim que ela descobrir que Bella e Antony partiram. Tem noção de que esse é o maior medo dela atualmente? Que a gente suma de novo? Ela diz que não sobreviveria a um dia sem o bisneto. E você tirou isso dela, de nós. Seu pai está furioso. Por isso... Saia de nossa casa, Emmett! Parta! “Pegue o beco”! Fora! Se vire! Sua casa está quase pronta, suma para lá. Se mantenha a distância de Bella e Leah. É a primeira coisa boa que fará em meses.
— Mãe, eu...
Passou a mão pelo cabelo, desesperado. Num gesto tão típico de nossa família. As coisas começavam a fazer sentido em sua mente. E pela primeira vez, em anos, vi medo e arrependimento em seus olhos.
— Eu não posso. Eu...
— “Quem procura acha”! Sua irmã está te renegando. Sua mulher não quer te ver, precisa que se afaste até decidir o que fazer com a “bonita” informação que você a deu ontem à noite.
— Eu amo, Leah, mãe. Não queria ter dito aquilo. Só queria...
— Ferir e magoar sua irmã? Eu sei, e conseguiu. Só você para perder as duas mulheres que mais te amam, no mundo, numa noite só, não é, Emmett? Mas, isso não é da minha conta mais. Só saia! Bella e Leah não querem te ver. E, ouse perguntar a seu pai quem ele escolheria?
— Mãe, eu não consigo ficar sozinho. Preciso de vocês. Preciso saber como minha mulher e filho estão? Não dormi de tanta preocupação.
Levantei-me e dei-lhe as costas. Não deixando que o coração de mãe se rendesse a ele.
Emmett era o vilão.
— Ah, me poupe! Eu, no seu lugar, teria vergonha de perguntas deles, já que foi o causador de todo aquele inferno de ontem à noite. E quanto a suas preocupações? Talvez devesse ter pensado nisso antes de falar tanta burrice. Você tem até o fim do dia para tirar suas coisas do quarto. Manterei Charlie e Leah longe de você. Cresça, Emmett! Cresça!
Sai dali escutando os suspiros dele. E gritando internamente: ele precisa aprender, ele precisa aprender.
Bella
— Vovô! Vovô!
Jasper abriu um sorriso enorme quando Antony chamou Carlisle de avô com muita espontaneidade e correu para seus braços.
Havíamos passado uma noite difícil. Leah em meu quarto tendo a pressão controlada de hora em hora por minha mãe.
Enquanto Antony e eu, nos amontoamos no quarto de Jasper procurando abrigo e conforto nos braços de meu irmão.
Meu Pequeno, assim que me viu, se acalmou e voltou a dormir. Porém, eu estava irada demais e nunca que conseguiria relaxar a ponto de fechar os olhos. E foi aí que Jasper, como sempre, se manteve firme a meu lado até que o dia clareasse e pudéssemos sair dali antes de esbarrarmos em Emmett.
Porque só Deus sabe o que aconteceria se isso ocorresse de novo.
— Oi, Pequeno. Que saudades!
— Ah, vovô! Você viu o Tony ontem. Nem dá “pala” sentir tanta “saudadona” assim.
— Claro que dá! Eu senti. Como foi sua noite?
Aproximamos-nos da varanda, onde todos estavam a nossa espera, certamente avisados pelo barulho dos três cachorros que nos rodeavam.
Antony já passava para os braços ansiosos de Esme.
— Depois que mamãe e titio Jas “ablaçaram” Tony “apeltadinho”, foi bom. Tony não “cholou” mais e aí “numiu” quentinho... Titio Jas, mamãe falou que você vai casar logo e ter sua casinha. Mas, como vamos fazer quando eu quiser “dolmir agaladinho” como você e mamãe?
E lá estavam os resquícios da noite anterior: insegurança, palavras erradas e atropelos.
Emmett me pagaria se suas atitudes manchassem a importância da lembrança do dia de ontem para Antony. Aquele deveria ser “o momento” dele e do pai e só isso.
Mas meu irmão tinha que aprontar!
— Ah, mas isso é fácil de resolver, Pequeno. É só você me ligar, que vou correndo. O casamento não mudará em nada o que faço e sinto por você, Amor.
Mas, um filho mudaria. Por Deus! Eu teria que falar com ele de novo. Não dava para fazer promessas que não cumpriria. Isso quebraria Antony. Ele teria um filho, bebês exigem muito, não daria para ele correr para o sobrinho sempre que quisesse. E, sério, eu não precisava de outra crise de ciúmes tipo daquela quando descobriu que Emmett seria pai.
— Ah, então se for assim, sim.
Deu de ombros, concordando e só então se dispôs a dar um beijo em Alice.
— Bella...
— Alice! Está bonita. A barriguinha está começando a aparecer.
— Não sei como. Porque não para nada aqui dentro.
Alisou o ventre e suspirou. E custou muito para mim, não ignorar sua tentativa de “esticar” a conversa quando eu só quis parecer educada. Contudo, era Jasper a seu lado, beijando seus cabelos. O mesmo Jasper que me sustentara à noite toda.
— Sei o que é isso. Sabe o que resolveu para mim? Umas gotinhas de limão num copo de água bem gelada em jejum, todos os dias de manhã. Por que você não tenta? Mal não vai fazer.
— Mas, quando ela diz de manhã, amor, é tipo 5hs. Não sei se ajudará quem levanta as 9.
— Ah, seu idiota! Vou enjoar de você na próxima semana. Assim você aprende.
— Não brinca com isso. Vem cá...
Puxou-a para seus braços e escondeu seu rosto em seu pescoço.
Sorri, quando eles começaram a se implicar, parecendo ainda ter 15 anos.
Eu havia me esquecido como era fácil conversar e gostar dela.
— Obrigado! Te amo!
Jasper levantou a cabeça e agradeceu sem emitir som.
— Disponha
Respondi do mesmo jeito e pisquei feliz, enquanto eles se abraçavam mais.
Eu faria aquilo, por ele e por mim. Eu reconstruiria minha amizade com Alice. Sempre fomos muito mais do que só amigas. Imagina agora quando tenho um filho do irmão dela e ela teria um do meu?
Eu queria que nossos filhos fossem unidos e para isso, precisaria começar conosco.
Ah, a quem eu queria enganar? Eu amava aquela baixinha.
— E você, querida? Está bem?
Não, não estava. Havia sido uma “noite de merda”. Eu não pregara os olhos e chorara uma eternidade nos braços de Jasper. E é bem provável que sabiam disso, Jasper deve ter atualizado Alice.
Só que, Chorara! Isso mesmo, no passado. Porque agora já era. A nova Bella não fazia isso. Porém, aquela fora uma noite atípica. Emmett, literalmente, ultrapassara todos os limites e acabara com meu psicológico. E ainda tinha aquele “inferno” de informação sobre seus sentimentos por Rósalie, que eu me recusara a pensar.
Não era problema meu.
— Tudo certo, tia. O que seria de uma família sem seus dramas?
A abracei ao mesmo tempo em que sorria para Alice, de novo, rezando para que entendesse minha referência.
Eu queria mesmo me acertar com ela, estava decidido.
— Isso mesmo! Todos têm problemas. Só não podemos deixar que eles nos dominem. Agora que tal se entrássemos e...
— Não! Nada disso. Jasper e Antony podem ir com vocês. Agora Bella, vem comigo. Eu a convoquei a trabalho.
“Contra fatos, não há argumentos”!
Ontem tivemos um dia calmo e proveitoso com os Cullen’s e em certo momento tio Carlisle “me intimara” a vir hoje para trocarmos umas ideias sobre as plantações e o estábulo.
— É só um cafezinho, Carl. Vai ser rápido e...
— Nada feito. Primeiro a obrigação.
— Homem, não me desafie.
— Nunca que isso se passou por minha cabeça.
Nunca mesmo, só que ele ignorou completamente os olhares mortais dela, e enganchou o braço no meu, já me guiando para os fundos da residência.
— Carlisle Cullen!
— Amor, se não me engano, Bella gosta de bolo. Mande preparar um, enquanto trabalhamos aqui.
— Mãe, se eu fosse à senhora, os deixaria ir logo. Tenho certeza de que Edward viu que passaram para esses lados de cá. É questão de minutos até que apareça aqui. E quando isso acontecer... Ah, a senhora pode ter certeza, ele os monopolizará totalmente e papai não terá mais chance de tirar suas dúvidas com Bella. Então, por que não os deixamos conversar enquanto eles têm tempo?
— Viu? Até Alice sabe das coisas. Seja boazinha, Esme. Agora vamos, Bella.
— Mas...
Ela ainda resmungou mais alguma coisa indecifrável, contudo, já estávamos nos afastando. Então não ouvimos os impropérios de Esme. Só sei que não deve ter sido nada bonito, já que Jasper tapou os ouvidos de Antony.
— Vovô, mamãe, “espelem”! Tony vai “tabém”. “Plecisa tabalhar”.
— Ah não! Você também?
Esme voltou a lamentar por cima da gargalhada estridente de Jasper.
— “Plimeiro as obligações”, vovó.
E ninguém foi capaz de segurar o Foguetinho que veio correndo, se enfiou entra mim e o avô e foi logo exigindo nossas mãos para segurar.
— Estábulos ou plantações?
— O senhor decide.
Em pensamento, agradeci a Jasper por ter me lembrado que passaríamos aqui. Não dava para dar consultoria de vestido jeans, atual uniforme da loja. A calça de brim preta e a camisa verde, com logo da loja, foram providenciais. Era raro eu usar algo assim agora. Vestido se tornaram meu normal, no entanto “há casos e casos”.
Eu só não abria mão das botas. Ah, isso não! Mas, em compensação tinha uma variedade absurda delas: canos curtos, longos. Santos altos, baixos, finos grossos. Básicas, extravagantes. Neutras, coloridas... uma infinidade. Como dizia dona Renée, era um vício e resquício da antiga Bella. E espero, de verdade, que Edward consiga conviver com isso.
— Tony quer ver cavalinhos.
— Então está decidido, vamos às baias.
Não se contendo, abaixou-se e pegou meu filho no colo. E eu o entendia. Era complicadíssimo não querer abraçá-lo o tempo todo.
— Olhe, o que acha da estrutura?
— Hum!
Com uma mão segurei a ponta do cabelo, que hoje estava impecavelmente preso num rabo de cavalo, e com a outra toquei a testa num gesto involuntário de quem analisa minuciosamente uma situação.
Já estivera ali depois que voltamos, só que nunca com o olhar avaliador de agora. Antes não era problema meu, agora...
— Gosto do que tem aqui, tio. O galpão é alto e bem vedado. Evitando roedores e qualquer outro tipo de animais que possam infectar as matrizes. Foi muito bem planejado e melhorou muito com as reformas efetuadas ao logo dos anos.
Ele sorriu, satisfeito com minha avaliação.
Subimos uma pequena rampa para então entramos nas baias que estavam quase todas ocupadas por maravilhosos exemplares de éguas e cavalos.
— Desce, vovô. Tony quer ver.
— Claro. Só não solte a minha mão. Têm alguns bem bravos aqui.
Tony obedeceu.
Enquanto passávamos pelos corredores, eu olhava atentamente cada detalhe. Não tinha muito a dizer, era tudo muito organizado e limpo. Os animais fortes e bem cuidados.
Do jeito que me lembrava.
— Então?
— Está tudo certo, tio. Posso fazer uns ajustes aqui, outro ali, quanto à alimentação e vitaminas. Ainda recomendo que troquem o feno, do chão, das baias semanalmente. Mas é só. Os animais estão ótimos. Olha essa pelagem!
Acariciei um garanhão negro que estava sendo escovado naquele momento.
Antony imitou meu ato, não perdendo a oportunidade de acariciar um animal tão grande e bonito.
— Claro que está tudo certo. Esse é meu trabalho, Swan!
— Jake? Ah, Jake!
— Olha só você! Tá bonitona, hein?
Para não perder o costume, passou os braços em volta de mim e nos girou.
— Ai, seu maluco! Pare! Me coloca no chão!
— Nada disso. Eu estava com saudades. Nem tem tempo “pros” amigos. Agora, vou aproveitar mesmo e tirar uma casquinha.
Me apertou com mais força e beijou minha bochecha carinhoso e receptivo como só ele sabia ser.
— Isso é porque ela gasta o pouco tempo livre que tem, comigo. Não é, Amor?
— Papai! Você chegou. Que bom! A mamãe e Tony estão “navaliando” as coisas com o vovô.
E como “Alice previu” ali estava ele. De Jeans escuro e camisa azul. Os cabelos revoltos e molhados, recém saído de um banho. E com uma expressão de desagrado na face. Nunca pareceu tão lindo.
— Percebi, filho.
Abaixou-se e beijou Antony, quando o mesmo correu para seus braços.
— Olha! O Cullen sabe o caminho dos estábulos.
Jake provocou. E me colocou no chão quando me remexi desconfortável. Porém não parecia surpreso com Antony chamando Edward de pai. Literalmente, as fofocas correm soltas em cidades pequenas.
— Claro que sei. Visitei esse lugar várias vezes nos últimos anos, pensado se construiria um igual em nossa casa. Porém, decidi que era melhor esperar para a dona da fazenda decidir como queria que fosse o do nosso lar. Amor... Bom dia... Senti sua falta.
Surpreendendo a todos e com uma confiança que eu admirava, ele se aproximou, segurou meu queixo e deu um beijinho leve em meus lábios. Edward não era muito de expor nossa relação, isso era mesmo novidade. Mesmo que impulsionado pelo ciúmes era bom de se ver.
— Tá linda. Sempre está, mas hoje está mais. Ainda bem que cheguei rápido.
Murmurou brincalhão, segurando meus ombros e olhando dentro dos meus olhos, expressando toda verdade do mundo.
Ao nosso lado, Antony tapou a boca com a mãozinha e deu risadinhas engraçadinhas.
— Papai e mamãe... Tony gosta.
— A é? A é? Então venha cá seu garotinho lindo.
O pegou com uma mão só e o levou para perto de si.
— Fiquei sabendo que meu pai os sequestrou. Vim resgatá-los e, trouxe isto... Jasper disse que nem chegou perto de um hoje. Quanto a você, seu Sapeca...
Só então notei que trazia uma caneca com algo fumegante dentro.
— Hum! Que delícia! Amo café! Estava precisando disso.
— E eu não sei? Estou aqui para alimentar seus vícios... E os meus...
Sem pensar muito, se aproximou de novo e beijou, rápido, o cantinho de meus lábios, provavelmente onde estava sujo de café.
— Hum! Delícia! Amo café assim!
Repetiu minhas palavras, porém de um jeito provocante e insinuador. Fazendo com que eu ficasse quente e vermelha, de vergonha e desejo, ao mesmo tempo.
E dizer que não estava amando esse jeito mais despojado dele, seria a mentira do século. Edward sempre me manteve “a um palmo de distância”. Sempre discreto e contido. Acho que por isso as pessoas sempre achavam que eu gostava mais dele do que ele de mim. O que, na época, vejo que era mesmo uma verdade.
— Papai tá “englaçado, beijoqueilo e blincalhão”. Vovô Char não vai gostar. Mas, Tony gosta.
— Ah, mas seu vovô vai ter que se acostumar. Porque o papai aqui pretende dar muitos beijos na mamãe e no filhinho deles. Porque eu amo demais esses dois e nunca mais vou ficar longe.
E provando seu argumento, arrancou risadas altas de Antony enquanto atacava seu pescoço com carinhos.
Não me surpreendeu também que Antony não tivesse ficado com ciúmes do pai tão próximo de mim. Depois de ontem, acho que nada mais me surpreenderia em relação a meu filho. Além disso, como ele mesmo disse, queria a sua família.
— Podemos continuar com o “tour” ou vai mesmo ficar de “conversinha fiada melosa” com seu Cullen?
— Jacob...
Tio Carlisle alertou e eu ignorei a rabugice dele. Aquilo era história antiga. E eu não estava ali por ele nem com ele. Muito menos cairia em seu joguinho de provocação.
Causar ciúmes nunca foi meu modo de agir. Odiava, por experiência própria, a dor daquele sentimento. Além do mais, já tínhamos Benjamin para ocupar o papel de atormentar mentalmente Edward. Não precisávamos de mais esse infortúnio.
— Tem um tempinho, Amor? Queria dar uma olhada mais de perto nas lavouras.
— Se não tivesse inventaria. Vamos?
Perguntou para o pai, que assentiu... Feliz? Antes de sair pela porta.
Jacob, ao contrário, passou por nós pisando duro e remoendo algo inteligível.
— Tony não pode ir ainda, papai. Não “andou” nos cavalinhos.
Tony fez biquinho quando Edward o colocou no chão e pegou sua mão o guiando para fora.
— Esses cavalos não são de cavalgar, Filhote. São matrizes e garanhões. Lembra?
— Isso, Campeão. Os de cavalgar estão nas baias do retiro. Passamos lá outro dia para você se divertir. Ok?
Não muito convencido ele concordou e passou a tagarelar com pai num jogo de perguntas e respostas que eu conhecia há muito. Eram tantos “onde e porquês” que às vezes eu ficava tonta. Porém, Edward os respondia com na maior naturalidade e paciência.
— Hummm! Isso estava bom.
Voltei a gemer baixo quando bebi o restante do café.
— Ah, não faça isso, Bella. Se gemer assim de novo... Eu não respondo por mim.
Sorriu de lado, cochichou e brincou, me segurando com mais força pela cintura.
Estávamos atravessando o pomar, há pouco mais de uns dez passos da plantação de soja.
— Promessas, promessas...
Celibatário de uma figa!
Repeti em minha mente, ignorando sua gargalhada alta.
Ele estava mesmo brincando com fogo?
— Então, olhe só para isso, querida.
Fomos interrompidos de nossa diversão, quando nos aproximamos de tio Carl e Jacob.
Ele tinha alguns grãos nas mãos, recém arrancados, para que eu pudesse avaliar melhor.
Jacob e Edward me olharam com atenção. Antony pegou alguns de mim e passou seus dedinhos, avaliando também.
Era lindo demais, meu bebê.
— Hum, os grãos estão pequenos em comparação ao tamanho e tempo de florada. Preciso saber a marca e qualidade das sementes e adubos que usaram.
— O que há de errado? Usamos os mesmo de todos os anos. Estão bons sim. Todo ano, nessa mesma época eles estão dessa densidade.
A acidez de Jacob me incomodou. Eu o conhecia, estudamos juntos, éramos amigos de uma vida. Mas, convenhamos, ouvir de uma mulher que algo em seu trabalho não estava bom, não devia ser a melhor das sensações.
— Não, não estão.
— Olhe para lá.
Apontei para as terras da Sonho Azul bem mais a frente, onde se via plantas maiores e mais vistosas.
— Plantaram antes. Vamos chegar lá. Aliás, não sabia que ela uma competição.
— Jacob! Seja mais educado, por favor. Eu a chamei aqui. Isso é só uma consultoria, uma troca de ideias.
Carlisle chamou sua atenção vendo que começava a ficar nervoso.
— Não me interessa, senhor Cullen. Plantaram antes e agora ficam aí todos convencidos comparando uma coisa nada a ver.
— Não, não plantamos.
Ergui um pouco mais a voz atraindo, sem querer a atenção de Edward que imediatamente se aproximou mais de mim e do filho. Obviamente temendo que nos exaltássemos mais.
— Tanto meu pai quando tio Carlisle seguem o “calendário das águas” para plantio e colheita. O mesmo que vovô, o pai dele e o pai do pai dele usavam há tempos. Ou seja, plantamos na mesma época. Pegamos as mesmas inconstâncias climáticas. Contudo nosso lucro será de mais ou menos 15% a mais que a daqui. Graças a estudo, planejamento e utilização de sementes e adubos de primeira linha. Isso sem falar na aplicação do calcário, que pelo que parece, foi feita de forma equivocada.
— A “sojinha” do vovô Carl não tá “monita” como a nossa mesmo. Mamãe tá “celta”.
— Olha só? Insolência é de família! E se não acha que a lavoura está boa, isso é você que está falando.
— Ei, calma aí. Está perdendo o respeito, Jacob.
Edward o alertou quando olhou feio para Antony que se encolheu entre as pernas do pai.
Só que eu não perderia essa oportunidade. Se ele queria uma afronta eu aceitaria. Sou mulher, mas sou melhor do que ele no que faço e ponto.
— Quer pagar pra ver? Aposto que quando colhermos teremos mais lucro.
— Aposto! Se eu ganhar terá que admitir que sou melhor, sempre fui. E ainda sairá uma noite comigo.
Quê? Ele queria mesmo provocar Edward?
Tio Carlisle observava animado a discussão. Parecia se diverti com tudo aquilo.
— Aposta aceita! E se eu ganhar var ter que aceitar que uma mulher é mais competente que você. Vai consentir todos os planos que eu traçar para o plantio da Paraíso ano que vem, sem reclamar. E ainda pedirá desculpas a Edward por ser tão mau funcionário.
— Ousada né, Swan? Mas, vou aceitar porque sei que vai perder. Feito!
Pegou a mão que lhe estendi selando o acordo.
— Ok, ok, pontos acertados. Então será que agora podemos entrar? Quero te acalmar e inundar-me de você por alguns minutos antes de conseguir passar horas intermináveis naquele consultório.
— Claro! Vamos lá. Já acabamos aqui, não é tio?
— Acabamos sim. Melhor entrarmos antes que Esme se irrite de verdade. Volte ao trabalho, Jacob!
Começamos a caminhar, sem nos despedir, prontos para sair dali e encerrar de vez aquela conversa. Só que, pelo que parece, Jacob não havia terminado de destilar o seu veneno.
— Fugindo, Cullen? Vou adorar ver seu surto quando Bella tiver que passar uma noite inteirinha comigo.
Jesus, Maria e José! O que aquele imbecil estava fazendo?
Edward enrijeceu a postura e eu sabia que era por causa do tom jocoso que Jacob usou na última insinuação.
Contudo, se o intuito dele era provocar e tirar Edward do sério, não alcançou seu objetivo.
Edward era outro agora. Será que ele não sabia?
— Rá! Dobro a aposta dela sem medo, Black. Se tem uma coisa que Bella faz, e faz muito bem desde sempre, é seu trabalho. Você deveria saber disso melhor do que ninguém. Desista enquanto é tempo. Mas, confesso, vou amar vê-lo recebendo ordens de uma mulher e as cumprindo fielmente.
Jacob resmungou algo atrás de nós. Porém, não nos viramos. Continuamos andando e ele nos seguindo.
— Tá confiante demais. Cuidado com a queda! Esqueceu-se que também faço meu trabalho desde pequeno? Aprendi algumas coisas ao longo dos anos.
— Por isso sei que ela vai ganhar. Conheço os dois. Agora, se não se importa, temos que ir. Tenha um bom dia.
Edward tentou nos desfazer dele quando chegamos aos jardins. Mas, Jake não desistiria assim tão fácil. Estava fazendo de tudo para desestabilizar Edward.
— Não vale se esconder atrás de Emmett quando perder, Bells.
— Não vale se esconder atrás de ninguém quando perder, Jacob. Tenha um bom dia.
— Vovô, esse Jake é bobo. Vai “pelder” feio para a mamãezinha.
— Vai mesmo, querido. E isso é bom, para ver se aprende a ser mais humilde e ouvir.
Eu disse que Carlisle estava se divertindo com a situação.
— Vamos!
Subimos os degraus da varanda não nos preocupando em olhar para trás. O tempo dera uma confiança exagerada a Jacob, no entanto, pelo que parece, o rancor, de eu nunca ter lhe dado uma chance de verdade, nunca o abandonaram.
Eu odiava olhar em volta e encontrar “meio mundo” desconfiando de minha relação com Edward.
Por Deus!
Aquilo era problema meu. Até quando teria que aceitar que tentassem dominar minha vida?
— Hum! Que cheiro bom. Acho que tem bolo mesmo.
Carlisle entrou primeiro. Eu vacilei um segundo e parei. Ato esse que, não passou despercebido por Edward.
— Está tudo bem. “Ela” já foi para Forks. Mamãe me disse mais cedo. Agora entre porque o que eu disse sobre mimá-la e acalmá-la era tudo verdade.
— Sim, senhor.
Brinquei soltando a mão de Antony quando ele quis correr para os braços de Esme.
Rósalie não estava em casa, eu não tinha o que temer. Podíamos aproveitar alguns minutos antes que a realidade de “não ter mais Emmett” na loja tornassem todos os meus pensamentos e tempo.
Rósalie
— Estou aqui. O que quer? Fale de uma vez porque não tenho muito tempo.
— Sente-se!
— Estou bem assim.
— Eu mandei sentar.
Olhou-me por cima da xícara e eu não tive escolha: Primeiro porque ela aumentou o timbre da voz, e estávamos em local público. Num café na esquina da minha loja, há duas ruas da clínica de Edward, para ser mais exata e eu não queria chamar atenção para nós.
Segundo, porque ela estava com raiva. Seu rosto vermelho era prova disso.
Terceiro, eu tinha um propósito com aquele encontro. Agora precisava saber qual o dela.
E, por fim, porque aquela era Tânia... E quando ela manda, a gente simplesmente obedece.
— Café?
— Não! Por que não paramos de joguinhos e vamos direto ao ponto, Tânia? O que quer?
— Joguinhos? É isso que acha que está acontecendo aqui, Rósalie? Pelo que me tomas? Aconteceu alguma coisa, que não estou sabendo, e que abalou nossa amizade de uma vida?
Putz!
— Claro que não, Tânia! Está louca?
Apressei-me em negar. Eu precisava tirar quaisquer dúvidas de sua cabeça. A confiança dela era tudo que eu tinha de mais valioso.
— É que tem um representante comercial me esperando na loja. Tenho trabalhado dobrado agora que Alice está grávida e...
— Alice está grávida? Terá duas crianças em sua família agora? Como não me contou isso?
Droga! Droga! Ela já sabia de Antony e acabei de lhe dar a boa nova. Putz, Rósalie! O que está fazendo?
— Bom, não tenho certeza. Acho que está. Não me interesso pelos assuntos “basé” daquele povo. Só sei que ela anda escorando todo trabalho em mim e quando aparece, vomita até a alma. Então, suponho que esteja. E também pelo fato do Swan não sair de lá e...
— Swan? Jasper Swan? Então eles reataram? Eu também não devia saber disso?
Ahhh, eu estava mesmo dando munição a ela?
— Devem ter voltado. Como disse, não faço questão.
Dei de ombros e passei as mãos no cabelo fingindo desdém. Era melhor eu manter minha boca fechada antes que falasse mais alguma merda.
— Hum, sei! Entendi!
Fechou os olhos em fenda tentando enxergar mais do que eu deixava transparecer. E, se bem me lembro, ela era boa até demais nisso. Foi assim que conseguiu ver o quanto eu e meu irmão éramos idiotas, ambiciosos e manipuláveis.
— Precisa prestar mais atenção a sua volta, Rosie. Qualquer informação é válida para nossos planos futuros. Não é? Estamos falando da mesma coisa, não estamos, Rósalie? Ou será que vai arregar agora?
Segurou minhas mãos por cima da mesa com uma força exagerada, machucando mesmo e mostrando, com atos, que estava disposta a tudo.
Por Deus!
Respirei fundo sentindo na alma a pressão de suas palavras.
— Claro que não, Tânia. Estamos na mesma sintonia de sempre. Se acalme.
Puxei as mãos com força e esfreguei os dedos dissipando a ardência e qualquer dúvida dela.
— Agora, me desculpe mesmo. Mas, preciso ir.
Segurei a bolsa e levantei olhando para todos os lados, menos para ela. O medo de que visse mais do que devia, me apavorou e revirou meu estômago.
— Tá. Pode ir. Aliás, Rósie... Entregue isso a Isabella.
Ah!
— Não nos falamos, Tânia! Nem tenho contato com ela. Nossas famílias fazem questão de me manter longe deles.
Tentei negar o envelope que ela deslizou pela mesa até a minha frente.
— Ah, você dará um jeitinho. Quero saber se essa relação dela com Edward é para valer. E, no fim, estou fazendo um favor. Porque ninguém quer a caipirinha de coração partido outra vez, não é? E, Rosie?
— Hum?
Eu estava atônita demais para falar qualquer coisa. O que tinha dentro daquilo? Eu poderia sumir com “aquela merda” na primeira oportunidade?
— Eu vou saber se não fizer o que mandei.
— Deixe de paranóia, Tânia. Vou fazer o que manda. Mas, agora já vou. Me Liga depois.
Jesus! Eu só queria sair dali para respirar aliviada e poder pensar com mais coerência.
Por isso, segurei as alças, da bolsa, no ombro com mais força e me virei, quase correndo.
— Rósalie?
Ah! Inferno! Deixe-me ir!
— Oi?
Voltei a encará-la, mesmo que meus instintos me mandassem fugir para o mais longe possível.
— A conta...
— Hã? O quê?
— Você esqueceu de pagar a conta. Sua família me deve muito.
Jogou “a comanda” em cima da mesa, deu-me mais uma avaliada sorrateira, depois girou nos calcanhares e saiu. Ativa e com toda postura superior que só Tânia Volturi possuía, me deixando ali com meus medos, apreensões e erros para corrigir.
E, literalmente, eu não sabia por onde começar.
Edward
— Vai me contar o que tem aqui?
— Ainda não. Curiosa...
Brinquei beijando seu ombro enquanto ela destrancava a porta do apartamento deles, aquele bem de frente o loft.
— Chato!
Equilibrou mais as sacolas, de papel, que eu lhe entregara para trazer em troca de seu material e de um Antony, dormindo, que agora eu mantinha nos dois braços fazendo um verdadeiro malabarismo para manter tudo são.
— Um chato que te ama.
— Isso não muda nada, só te torna um chato amoroso e muito inteligente.
Escondeu o sorriso e abriu a porta. Era óbvio que se divertia com nossas brincadeiras. O clima era tão bom, tão suave que às vezes eu temia acordar do sonho.
— Olha... O casal.
— O que faz aqui?
— Ora, Bells! Essa casa também é minha. Investi boa parte do meu rico e suado dinheirinho aqui.
Jasper e Alice estavam esparramados e embolados no sofá, despojados e tranquilos.
— Ah, mesmo?
Sarcástica...
— Eu sei né, Jas. Quero saber agora é por que não foi para a Sonho Azul ainda? Não precisava ter me esperado.
— Ai, irmã, você que ainda não entendeu; somos partes de um mesmo pacote. E como te conheço e sei que não vai para lá...
Deu de ombros.
— Eu também não vou. Só em sonho deixaria que dormisse aqui sozinha com Antony.
— Jas, não precisa eu... Além do mais Edward vai dormir no loft, é aqui de frente. Ele nos socorre se precisarmos de alguma coisa.
— Sei, sei... O que tem aí?
Ele ainda murmurou um “longe demais”, antes de mudar bruscamente de assunto, impedindo-a de começar a surtar.
Mas, nem foi preciso explicação, a preocupação deles em deixá-la dormir sozinha com Antony, era por causa dos pesadelos. Eu já recebera mais de um relato de seus familiares que eles eram horrorosos.
— Pergunte a Edward. Ele e sua chatice não quiseram me contar. Onde coloco isso?
Emburrada e muito linda, levantou as sacolas em minha direção.
— Coloque ali na mesinha. E, se não for pedir muito, pode colocar Antony na cama? Quero ajeitar uma coisa enquanto você faz isso.
— O que está tramando, Cullen?
— Sou um anjo, Amor.
Entreguei-lhe nosso filho, quando ela se livrou das embalagens, na mesa de centro da sala de visitas. Seu material, da faculdade, eu deixara no aparador, perto da porta da frente.
— Ixxa, irmão. Não é assim que se conquista uma mulher. Irritá-la não fará com que aceite ser sua namorada mais rápido.
— Isso, Alice! Ensina pra ele.
Murmurou já no corredor a caminho, supus, do quarto de Antony.
— Será que assim consigo convencê-la?
Perguntei quando desapareceu apartamento a dentro.
Tirei das embalagens um forrinho branco, estendi na mesa. E então, caixa após caixa fui espalhando uma quantidade exagerada de comida.
— Putz! Se ela não casar com você, eu caso. Caraca, Cullen! Trouxe comida para um batalhão. Sabia que estávamos aqui?
— Não, não sabia. E vocês não vão ficar. Podem desaparecer.
Abri o vinho e coloquei nas taças, que também havia trazido.
— Ah! O que preciso fazer para as pessoas entenderem que essa casa também é minha? Não podem ficar me desaforando assim.
— É só você se tocar irmão e... O que é isso?
— Comida?
Dei de ombros e estendi a mão para que ela sentasse a meu lado.
— Sei que não comeu direito hoje. E que vai sentir falta da comida de sua casa. Então, encomendei umas coisinhas.
Fui abrindo embalagem após embalagem e a surpreendendo de uma maneira maravilhosa a cada instante novo.
— Carne assada e em fatias, muita carne. Salada verde com tomate e morango. E, por fim, um Nhoque de batata com molho de tomate e bacon. E a sobremesa, que vou agora mesmo colocar na geladeira, fica por conta do sorvete de flocos com crocante e amendoim.
Corri para a cozinha, guardei o sorvete e, de quebra, revirei as gavetas até encontrar pratos, garfos e colheres.
— Edward, você perdeu o juízo. Tem coisa demais aqui.
— Ainda bem que você sabe dividir, hein maninha? Estamos famintos. E não se esqueça que somos três agora.
— Jas!
— O que, Alice? Olhe só o tanto de comida que ele trouxe? Dá para alimentar toda nossa família e ainda sobra.
— Esse é o intuito, Jasper. Sobrar para o almoço de vocês amanhã. Mas... Como meu coração é puro amor e agradecimento por vocês...
Entreguei-lhe três sacolas intactas.
— Trouxe comida pra gente? Como sabia que...
— Estavam aqui? Oras, Jasper! Conheço-te. Sei que é tão protetor com Bella quanto Emmett, só é mais sensato que seu irmão. Claro que nunca a deixaria sozinha aqui. E quanto a essa daí...
Apontei implicante para minha irmã.
— Onde você está, depois das seis, óbvio que terá “o Chicletinho” grudado em você. Ainda mais que não recebi nem uma mensagem de lamuria “do quanto sente sua falta quanto estão longe”. Lógico que só podiam estar juntos.
— Não sou Chicletinho, seu chato. Só aproveito cada minuto. Não é minha culpa se Bella tem compromissos demais.
— Ei! Estou quietinha aqui. Não me envolvam no rolo de vocês.
Bebericou o vinho e, escondeu a mão que tentava roubar um pedaço de carne, quando lhe dei um olhar de “ainda não”.
— É, Amor, não vamos envolver ninguém no nosso rolo. E vamos sair daqui antes que seu irmão se arrependa e sequestre a comida.
Agarrou as sacolas.
— Será que posso roubar uma tacinha também, cunhado?
Revirei os olhos, mas foi só de brincadeira. O vinho era só para relaxar Bella e eu, não tomaríamos uma garrafa, dava para dividir até com mais gente se tivesse aqui.
— Agora vão. Queria mesmo aproveitar uns minutinhos a sós com ela.
— Ei! É da minha irmã que está falando, sabia?
Abri a boca num “O” perfeito de indignação.
— Fala o homem que engravidou a minha, dias depois de se reencontrarem. Não surte, Jasper! Quero aproveitar a companhia de sua irmã, e se tiver sorte roubar uns beijos, mas é só isso. Não vou extrapolar nenhum limitezinho.
— Eu sei.
Gargalhou alto e saiu arrastando minha irmã. E eu fiquei com cara de bobo. Mas quando me sentei ao lado de Bella e vi o quanto estava vermelha foi que o “click” veio.
— Ele sabe! Sua traidora, contou pra ele da minha condição.
A situação era, no mínimo, constrangedora. Porém, Bella tentando esconder o sorriso derrubou todas as minhas barreiras e início de indignação.
— É Jasper, Edward. Conto tudo para ele. E, você tem que concordar, eu precisava contar para alguém, nunca que conseguiria absorver aquilo tudo sozinha. Era informação demais para uma pessoa só.
— Ah, sua Conversadeira. Eu vou ter que dar um jeito nisso.
E antes que se desse conta, a puxei para que deitasse de costas no tapete e passei a fazer cócegas com as mãos enquanto a beijava pelo pescoço por toda a parte.
Por Deus! A risada dela era música para meus ouvidos. Como vivi todos esses anos sem isso?
Bella
Respirar e se controlar, respirar e se controlar... Mais uma vez, respirar e se controlar, se controlar e respirar... Respirar e não controlar. Nada de controlar muito menos de respirar.
Putz! Não estava funcionando!
— Bella?
— Hum?
Perguntei ofegante em meio a uma penumbra embaçada que eram meus pensamentos e bem... Vocês podem achar que era sintoma das míseras duas tacinhas de vinho que tomei, e bem que podia ser mesmo. Porém, e tendo a acreditar mais nessa teoria, que seja efeito dos beijos molhados que trocávamos no tapete da sala.
— Pare, Amor. Está... Quente aqui.
Inspirou forte em meu pescoço, não ajudando em nada para que meu mantra inicial funcionasse.
— Não estou fazendo nada, Edward. São só beijos.
Senti cócegas quando, provavelmente, franziu a testa e sorriu para minha explicação.
Bom, sei que um homem e uma mulher deitados no chão, com ela por cima, diga-se de passagem, não pode ser considerados só beijos. Mas... Era, bem não era... Mas ele não precisava saber.
Ah, por Deus! O homem havia me alimentado, e bem. Eu tinha que agradecer de alguma maneira. E, como não tive uma ideia melhor, pensei em “meu corpinho” esfregando no dele.
Que homem não gostaria disso? Aparentemente? Edward Cullen.
— Amor, era só beijo há meia hora. Agora é... Nem sei como nomear.
— Desejo? Anseio? Cobiça? Tentação? Vontade? Tenho mais alguns em mente, mas creio que sejam proibidos de dizer em voz alta.
— Bella, eu...
O Calei com mais um “daqueles sem nomeação” e, literalmente, passei as pernas por cima dele e as dobrei, praticamente sentando sobre seu quadril e barriga.
— Por Deus, mulher! Como mantenho a sanidade com você assim? Tão... Quente?
— Esqueça o mundo, só eu e você.
Porque não sou boba nem nada, dei uma balançadinha nos quadris só para sentir e atiçá-lo mais, se é que isso é possível.
— Ahhh...
Perdeu o controle e puxou minha cabeça, com força, para perto de si, me beijando forte e intenso.
A língua explorava cada canto, igual às mãos que agora, com vida própria me acariciavam e apertavam como se o mundo fosse acabar se não fizesse isso.
— Delícia, delícia de mulher. O que você quer? Deixar-me louco? Rendido? Já estou tudo isso? O que você quer? Diz-me e será seu?
Perguntava muito, porém não me dava à chance de responder, porque logo voltava a me beijar e segurar com mais força.
Eu estava fervendo!
— Quero você. Só você, Edward. Faça amor comigo? Vamos para o quarto.
É... Ele até poderia ceder a meus pedidos, mas... Não nos soltávamos. Era a maior “esfregação” da história no tapete da sala.
E que Deus segurasse Jasper no quarto. Ou Alice, quem sabe.
— Sou seu, todo seu. Inteiramente seu.
Segurou meus cabelos afastando-os do rosto e me olhando intensamente, passando verdade a cada palavra.
E foi minha derrota. Voltei a juntar minha boca na dele de um jeito sôfrego, quase que desesperado.
— Também sou sua, só sua. Vamos...
Perdi o fôlego e o raciocínio quando passou os dedos sobre meus seios, por cima da roupa mesmo, já que hoje eu estava com um macacão Jeans justíssimo e com zíper por toda frente. Com um toque e eu estaria livre daquilo era só ele querer.
— Ahh, Edward.
Gemi mais forte enquanto descia as mãos e tentava, a todo custo, baixar seu zíper.
Sim, eu tomaria a decisão.
— Namore comigo?
— Quê?
— Namore comigo?
Segurou minha mão me impedindo de prosseguir com o ato, mas nem precisava porque o choque foi tanto que eu teria parado de qualquer jeito.
— Não vou fazer amor sem compromisso, Bella. Isso é sexo! É o que quero é Amor, Compromisso.
— Ah, não acredito! Putz, Edward! Estou fervendo aqui.
Virei-me, saindo de cima dele e ficando a seu lado.
Levei a mão ao cabelo e comecei e revirá-los de frustração.
— Imagina eu? Celibatário, lembra?
— E mesmo assim, não me quer.
— Não diga isso. Nunca!
Num ímpeto se jogou em cima de mim. E foi a vez dele de se colocar por cima. Porém segurou o peso nos joelhos, para não forçar muito em cima de mim.
— Olha como estou, Bells? Morto, ou melhor, vivo de tanto desejo por você. Te quero tanto que dói. Mas, tenho uma condição e você sabe disso.
— Uma condição muito da idiota.
Ele deu de ombros e sorriu de lado, daquele jeito de quem está se divertindo as minhas custas.
— Compromisso...
Abaixou-se sobre mim e cochichou em meus ouvidos, levando mais uma onda grande de arrepios. E depois passou a morder e beijar, de boca aberta, meu pescoço.
— Namore comigo e te beijo aqui, aqui, aqui e aqui...
Foi descendo a boca, ombro, braços, seios, barriga.
— Seja minha e te beijarei aqui e aqui também.
Passou o nariz por meu umbigo e depois na perna.
— Diga sim e te beijo bem aqui, muito aqui, do jeitinho que mais gostar.
E para derrubar todas as minhas barreiras, lambeu bem ali, no início de onde mais ansiava e clamava por ele. E só para lembrar, eu estava completamente vestida. O que não impedia em nada de meu corpo se desfalecer a cada toque.
— Sim! Putz! Sim. Namoro com você. Só não pare.
— O quê?
Droga! Ele parou.
— Eu namoro com você. Agora volta a boca para lá e tire a minha roupa daí, está atrapalhando.
— Está falando sério?
Ah, me poupe! Estou queimando aqui, Amorzinho.
— Claro que estou, agora...
E foi o ponto, ele não perdeu tempo, enlouqueceu... Passou a morder e chupar cada parte ansiosa de mim.
— A roupa, Edward. A roupa...
Coloquei a mão por sobre o zíper, pronto para tirar aquilo tudo e aproveitarmos o restante da noite.
— Edward?
Choraminguei, quando segurou minha mão, restringindo.
— Já te dei seu sim. Serei sua namorada. Agora cumpra com sua parte.
E foi naquele momento que percebi de onde Antony herdara aquele maldito jeito de nos passar para trás.
— Vou cumprir, Amor. Te beijar em cada parte. Te levar a loucura. Porém, nada de tirar a roupa.
— Quê?
Gritei, certeza que gritei. Mas, quem pode culpar uma mulher necessitada de quase sofrer uma síncope de abstinência.
— Minha promessa envolvia beijos de roupa. Para beijos nus, a oferta é outra.
Eu me arrependeria de perguntar, certeza. Mas, quando se tem um membro bem ereto se esfregando em você, mesmo que coberto por roupas, a gente tende a esquecer até o nome.
— Qual o oferta? Eu aceito. Aceito tudo. Só não pare de mexer aí.
Ele não perdeu tempo. Diferente de mim, que perdi todo o meu fôlego depois daquilo.
— Seja minha noiva, Isabella Swan?
E foi naquele momento que descobri, de uma maneira surpreendente, o significado de: quebrar o clima!
Edward Cullen chantagista e aproveitador de mulheres que se deixam levar por uma vontade louca de... Transar, EU TE ODEIO!
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