Quando o coração fala mais alto que a razão!

4 Capítulo 4 - Lembranças do passado.


Essa deveria ser a noite perfeita, apenas Jonas e eu, mas ela tinha não só que vir até aqui como tinha que estragar tudo. Eu não estava mais pensando racionalmente, vê-la beijar o Jonas de propósito bem na minha frente fez meu corpo estremecer de raiva. Eu não aguentava mais ver aquilo, caminhei até eles e ao chegar bem perto empurrei Jonas para o lado fazendo-o tropeçar e cair em um canteiro de flores e quando finalmente fiquei em frente à Micaela olhei bem em seus olhos e desferi um tapa em seu rosto com toda a força que eu tinha o que a fez cair no chão devido ao choque da minha mão contra sua face.

― Ficou louca Erica? ― Ouvi um Jonas assustado e confuso me perguntar enquanto se levantava.

― Não se mete Jonas. ― Respondi da forma mais grossa o possível, naquele momento com a raiva me consumindo eu não dava a mínima pro que ele achava.

― Você realmente achou que poderia chegar aqui e fazer o que quisesse? ― Perguntei para Micaela que ainda estava no chão com a mão sobre o rosto, no local onde ela havia levado o golpe. ― Presta bem atenção no que eu vou te dizer Micaela. Você cometeu um erro muito grande ao achar que pode brincar comigo e pro seu próprio bem e melhor que entenda logo isso de uma vez, por que se não você vai ganhar muito mais do que um tapa na cara. ― Cuspi cada palavra enquanto ela apenas me olhava de baixo sem dizer nenhuma palavra.

Eu não aguentava mais ficar ali, a raiva que antes me consumia agora estava dando lugar a outro sentimento, podia sentir um nó se formar em minha garganta e lágrimas brotarem em meus olhos, parecia que uma faca havia perfurado meu peito, eu precisava sair dali, não podia deixar ela me ver chorar ou demonstrar fraqueza. Então saí daquele jardim o mais rápido possível, procurei Lívia e arrastei-a daquela festa assim que a encontrei. Ela parecia confusa sem entender o porquê de eu estar chorando ou por que a saída repentina da festa, mas eu não disse uma palavra sobre o que havia acontecido apenas pedi que ela me levasse para casa e assim ela vez.

― Você não vai mesmo me dizer o que aconteceu? ― Lívia perguntou quando já estávamos na porta de minha casa.

― Eu não quero falar sobre isso agora. ― Respondi tentando impedir que novas lágrimas se formassem em meus olhos. ― Eu te falo depois, agora eu só preciso ficar um pouco sozinha. ― Falei com tristeza na voz.

― Está bem, mas se precisar de qualquer coisa você sabe que pode me ligar a qualquer hora não é? ― Lívia disse preocupada já que eu sou tipo de pessoa que raramente chora.

Apenas acenei positivamente com a cabeça, Lívia se despediu e foi embora. Entrei em casa e quando passava pela sala vi um bilhete deixado pela minha mãe dizendo que Ela o David e os meninos haviam saído e talvez voltasse tarde da noite. Ainda eram 22h00min então conhecendo minha mãe supus que ainda demorariam algum tempo para voltar, melhor assim, tudo o que eu queria agora era ficar sozinha e ter um pouco de paz.

Ao chegar ao quarto tirei minhas roupas e fui para o banheiro, coloquei a água mais gelada o possível e deixei que ela percorresse todo o meu corpo enquanto tentava esquecer o que havia acontecido essa noite. Depois de alguns minutos em baixo o chuveiro saí do box peguei algumas roupas limpas que havia levado para o banheiro e vesti-me. Tudo o que eu queria naquele momento era dormir e esquecer tudo. Saí do banheiro e fui em direção a minha cama, mas quando olhei para a porta do quarto vi a última pessoa que eu queria ver naquele momento. Mesmo que agora morássemos na mesma casa e dividíssemos o mesmo quarto eu não conseguia acreditar que depois de tudo que a Micaela havia feito ela ainda tinha coragem de olhar na minha cara naquela noite.

― Vai embora daqui. ― Disse em voz alta, podia sentir a raiva de antes voltar.

― Você tem todo o direito de estar com raiva de mim, mas me deixa explicar, por favor. ― Ainda parada na porta do quarto ela me pediu com uma expressão totalmente oposta do que eu estava acostumada a ver em seu rosto.

― Eu não quero ouvir uma palavra se quer que venha de você. ― Respondi subitamente. ― Eu não me importo com a merda da sua explicação. Some da minha frente agora. ― Gritei a última frase deixando toda raiva que estava sentindo sair.

Micaela parecia diferente do que eu estava acostumada ver, mas eu não me importava eu só queria que ela sumisse, eu não aguentava mais olhar para ela. Então a vi baixar um pouco a cabeça e olhar para os lados como se quisesse evitar olhar-me diretamente nos olhos, mordeu o lábio inferior e virou de costas fazendo menção de sair. Parecia estar pensando em algo, mas depois de alguns segundos virou-se para mim novamente.

― Você não vai mesmo se lembrar de mim não é? ― Perguntou-me e só quando me olhou nos olhos foi que pude perceber algumas lágrimas correrem em seu rosto.

― Do que diabos está falando? ― Perguntei-a confusa apesar da raiva.

― É claro que você não lembra, por que iria se lembrar de algo bobo que aconteceu anos atrás. ― Disse enquanto tinha um sorriso triste em seus lábios.

― Eu já te perguntei, do que diabos está falando? ― Questionei-a enquanto ficava cada vez mais confusa.

― Oito anos atrás, você foi passar as férias do meio do ano no sítio dos seus avós, foi onde nos encontramos pela primeira vez. ― Ela respondeu.

Do que ela estava falando? Oito anos atrás, a primeira vez que nos encontramos? De onde ela tirou isso, oito anos atrás eu realmente fui passar minhas férias no sítio dos meus avós, mas lá eu não conheci ninguém além de um garoto do sítio vizinho. Eu não consigo lembrar o nome dele agora, mas eu tenho certeza que ele foi o único, eu não poderia errar sobre isso, afinal ele foi o primeiro menino por quem me apaixonei, ele era gentil e engraçado e foi com ele que dei meu primeiro beijo. Aqueles foram uns dos melhores dias da minha infância se não da minha vida, eu lembraria se tivesse conhecido mais alguém.

― Eu não faço a mínima ideia do que você está falando. ― Falei tentando entender.

― Eu ainda me lembro do dia em que nos conhecemos, você estava com vestido branco com flores vermelhas e usava o cabelo amarado em um rabo de cavalo. ― sorriu enquanto parecia reviver a lembrança. ― Eu não te culpo por não se lembrar, afinal comparado com hoje a oito anos eu era muito diferente, mas talvez isso te ajude a recorda. Naquela época eu usava cabelo curto e gostava de me vestir como um menino então talvez não se lembre de nenhuma menina, mas talvez se lembre de um menino.

― O que? ― Falei incrédula das palavras que eu havia acabado de escutar, não podia ser verdade, não podia ser ela. Foi só então que o nome do menino voltou a minha mente confirmando meu medo naquela hora. ― Mika?

― Então você lembra. ― Sorriu pra mim. ― Eu pedia que todos me chamassem dessa forma para parecer mais masculino e condizer com minha aparência naquele tempo. Eu jamais perdoei meus pais por termos ido embora tão repentinamente deixando-me sem uma chance de me despedir. Nunca me esqueci de você ou daqueles dias em que eu senti pela primeira vez o que era amar, mesmo que na época eu ainda não soubesse o que era. Pensei que nunca mais fosse te ver outra vez, mas quando meu pai disse que iria se casar novamente e me mostrou uma foto da sua família eu te reconheci assim que pus meus olhos naquela foto. ― Micaela olhava para mim de uma forma serena.

Eu não consegui acreditar no que estava acontecendo, minha cabeça parecia que ia explodir com todas aquelas informações. Eu não queria acreditar que era verdade, eu não queria acreditar que a primeira pessoa por que eu me apaixonei era uma garota e pior ainda era a Micaela. Contudo o que estava acontecendo minha voz parecia estar presa em minha garganta então apenas permaneci calada ouvindo uma Micaela, diferente de tudo o que eu já tinha visto desde que ela chegou, falar.

― Você ainda deve estar com raiva de mim por eu ter beijado o Jonas, mas quero te explicar por que eu fiz aquilo. ― Micaela olhou-me com receio. ― Em toda a minha vida você foi a única pessoa que eu amei. Quando eu percebi que provavelmente eu nunca mais ia te encontrar outra vez eu tentei esquecer aquele sentimento, tentei ficar com outras meninas até mesmo com alguns meninos, mas eu nunca consegui sentir por ninguém o que eu havia sentido por você. Depois de todos esses anos eu achei que tudo tinha ficado no passado, mas quando eu cheguei aqui e te vi novamente todos aqueles sentimentos voltaram, então quando eu vi a forma que você olhava para o Jonas eu... ― Ela deu uma pausa enquanto parecia encontrar a melhor forma de falar. ― Eu fiquei com ciúmes, então tentei atrair a atenção dele pra mim para que ele não se interessasse por você e achei que talvez vendo eu e ele nos beijar você ficasse com raiva e se afastasse dele. Sei que foi um jeito completamente estúpido de fazer as coisas, mas... ― Vi-a baixar a cabeça por alguns segundos e depois olhar bem em meus olhos. ― Eu ainda te amo Erica, eu ainda sinto o mesmo que senti por você há oito anos.

Depois de ouvi tudo isso eu não sabia mais o que dizer ou até mesmo o que pensar, minha cabeça estava tão confusa como nunca esteve antes em toda a minha vida. A Micaela que estava parada ali na minha frente era diferente de tudo o que eu já havia visto dela antes, ela não parecia alguém ruim como estava acostumada a vê-la, mas sim parecia frágil de uma forma que eu não pensei que ela pudesse ser. Eu não sabia mais se ainda estava com raiva dela ou se eu estava com medo de tudo o que estava acontecendo.

― Eu... ― Tentei dizer algo, mas não conseguia pensar em nada, então alguns segundos depois vi ela vir em minha direção.

― Me perdoa? ― Disse pouco depois de para bem perto de mim. ― Eu não quero que me odeie. ― Ela olhava bem dentro dos meus olhos como se buscasse uma resposta neles.

Movi minha boca em uma segunda tentativa de falar algo, mas nenhum som saiu dela, minha mente estava completamente nublada. Micaela continuava a se aproximar lentamente de mim, estava tão próxima que podia sentir sua respiração bater contra meu rosto. Com a minha capacidade de raciocinar me abandonando cada vez mais fechei meus olhos em um movimento quase involuntário devido à proximidade que estávamos e então pouco depois pude sentir seus lábios tocarem os meus, eram suaves e delicados de uma forma que eu nunca poderia ter imaginado, pouco depois sua mão subiu até meu rosto intensificando o beijo, meu coração batia tão rápido que pensei que ele fosse rasgar meu peito, depois de algum tempo comecei sentir a necessidade de retribuir o beijo então passei a mover meus lábios com mais rapidez e força como se agora eu precisasse daquilo para viver. Meu corpo não respondia mais a mim e sim apenas a ela, minhas mãos brincavam em seu corpo e até mesmo em seus cabelos como se tivesse vida própria e cada toque fazia-me deseja-la mais e mais. Ela pôs uma mão em minha cintura e me puxou contra seu corpo e então pude sentir o calor que emanava dela, era aconchegante e excitante ao mesmo tempo. Eu nunca havia sentido nada igual ao que ela estava me fazendo sentir, parecia que tudo havia desaparecido, o mundo, as pessoas, era como se o tempo tivesse parado. Nossos lábios pareciam que se encachavam perfeitamente como se houvessem sidos feitos um para o outro, mas a necessidade de ar que se fazia nos separou por alguns segundos os quais nos olhamos, como um animal faminto olha para sua refeição, enquanto recuperávamos o ar perdido. Mas quando eu ia me entregar ao desejo novamente uma voz familiar me fez voltar à consciência.

― Erica, Micaela vocês já estão em casa? ― Ouvi minha mãe perguntar enquanto subia as escadas. No mesmo instante olhei assustada para Micaela que estava apenas alguns centímetros de mim e empurrei-a para longe.

―Ah vocês estão aí. ― Minha mãe disse entrando no quarto. ― Pensei que fossem ficar até tarde na festa.

― Não estava tão boa quanto imaginávamos. ― Micaela respondeu o mais natural possível enquanto eu parecia tão nervosa e assustada quanto um assassino prestes a ser interrogado pela policia. Minha mãe havia chegado e eu sequer ouvi, e se ela não tivesse falado antes de entrar no quarto? Cada pensamento me assustava mais e mais.

― É uma pena você parecia tão animada para ir a essa festa não era Erica? ― perguntou-me com um olhar meio triste.

― Nem tanto. ― Respondida forma mais curta tentando não evidenciar meu nervosismo.

― Bom eu preciso trabalhar amanhã cedo então se me derem licença eu vou indo. Boa noite meninas ― Disse saindo do quarto deixando eu e Micaela sozinhas novamente. Senti-me aliviada depois que minha mãe foi embora, mas só então percebi que não queria ficar sozinha com a Micaela outra vez.

― Erica... ― A interrompi antes que pudesse continuar o que ia dizer.

― Não... seja lá o que você ia falar. Nunca aconteceu nada aqui está me ouvindo? ― Disse enquanto lembrava-me do beijo. E sem dar outra chance para ela falar deitei na minha cama virada de costas para ela e fechei os olhos tentando ignora-la.

― Boa noite Erica. ― Micaela disse com uma voz calma.

― Boa noite. ― Respondi apenas por educação.

Alguns minutos depois ouvi Micaela entrar no banheiro e não muito tempo depois a ouvi sair, mas não importava o quanto eu tentasse dormir eu não conseguia, só conseguia lembrar de tudo o que havia acontecido e me perguntar porque raios eu deixei que ela me beija-se. Cerrei meus olhos com força e comecei a repetir mentalmente a ordem dos elementos da tabela periódica na tentativa de não pesar mais na Micaela e conseguir dormir. Depois de um longo tempo desde que havia me deitado finalmente adormeci.

Acordei no meio da noite coma garganta seca, suspirei com preguiça de descer até a cozinha para beber um pouco de água, mas se não o fizesse não conseguiria dormir daquela forma, reuni um pouco de coragem e sentei na cama. Quase não percebi por causa do escuro que estava que a cama da Micaela estava vazia, eram 02h45min da manhã então por que ela estaria de pé àquela hora, mas por outro lado eu também estava então não me importei muito. Todas as luzes da casa estavam apagadas como de costume já que minha família sempre gostou de dormir no escuro total então nunca deixávamos nenhuma luz ligada. Desci as escadas e fui em direção à cozinha, mas enquanto passava pela sala subitamente fui puxada para o lado e colocada de costas contra a parede, senti uma mão cobrir minha boca impedindo que eu gritasse ou fizesse algum barulho, mas quando estava prestes a tentar qualquer coisa para fugir reconheci o rosto que estava em minha frente, era a Micaela, sua mão esquerda ainda me impedia de falar e foi então que percebi que ela tinha o dedo indicador levantando sobre os lábios dizendo-me para fazer silêncio. Meu coração ainda estava acelerado por causa do susto e mesmo sem entender direito o que estava acontecendo balancei positivamente minha cabeça dizendo que havia entendido que não devia fazer barulho. Então lentamente e com receio nos olhos ela tirou a mão que cobria minha boca.

― O que está acontecendo? O que está fazendo aqui? ―Perguntei ainda assustada em um tom quase inaudível.

― Desci para ir ao banheiro e ouvi meu pai na cozinha falando com alguém no celular, eu não sei sobre o que é, mas essa conversa está muito estranha. ― Ela respondeu entre sussurros para que David que estava logo no cômodo seguinte não nos ouvisse.

― Acha que ele está traindo a minha mãe? ― Perguntei em voz baixa tentando entender o que estava havendo.

― Foi o que eu achei no começo, por isso fiquei escondida pra tentar descobrir, mas estou achando que é algo pior que isso. ―Falou de uma forma tão séria que a situação começou a me assustar.

Ela pediu que eu fizesse silêncio para podermos ouvi a conversa de David e tentarmos entender sobre o que se tratava, mas realmente boa coisa não devia ser afinal ele veio atender esse telefonema no meio da madrugada como se não quisesse que ninguém o ouvisse. Maior parte da conversa não fomos capazes de entender, pois David estava quase sussurrando ao celular, mas havia momentos em que ele alterava a voz então podíamos entender apenas algumas partes. Foi então que ouvimos.

― Fica calmo, ninguém vai ser preso por causa disso. ― David falou como se estivesse discutindo com alguém. ― Foram três anos atrás ninguém vai ser preso agora.

Ele parecia nervoso ao falar a ultima frase, mas ele não foi o único, Micaela começou a agir diferente depois de ouvi-la, parecia que alguma coisa fazia sentido em sua cabeça, tanto que agora eu podia ver uma mistura de terror e medo em seus olhos.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.