Quando o amor bater à porta
1 Não o ignore
Notas iniciais
Quando o amor bater à porta, não o ignore.
A manhã não estava lá aquela maravilha. Primeiro, tinha ido mal na prova de anatomia 2 e Deus sabia como precisava passar naquela maldita matéria. Segundo, o seminário de patologia estava atrasado e ninguém mais além dela parecia estar interessado. Estava estressada. Que o mundo explodisse, precisava de uma pausa.
Marchou até uma das lojinhas de comida e saiu de lá decidida com uma sacola. Precisava só de um local pra sentar e repensar a vida até chegar a conclusão que conseguiria sobreviver ao semestre de Medicina. Deus, faltavam mais três até conseguir a residência.
Para ele, o dia estava mais ou menos. Estava cansado, é claro. Os últimos semestres de Engenharia mecânica pareciam um Cerberus de mau humor. Tinha horas que sentia-se tentado a desistir de tudo e ir pro interior gerenciar de alguma filial pequena da empresa do pai, mas sempre no final chegava à conclusão que valia a pena terminar o curso. Por mais que ora ou outra surtasse, amava mexer com carros.
Estava sentado num banco debaixo de uma árvore. O campus não estava tão movimentado, uma vez que aquele horário era de aula. Matar aquela matéria chata de Teoria aerodinâmica naquele dia não faria mal. Foi aí que reparou na menina de cabelos rosados vindo em sua direção. Sabia que não era exatamente na direção "dele", mas sim na direção do pedaço do banco desocupado. Em segundos, viu a jovem sentar emburrada e abrir uma sacola.
Viu ela abrir uma barra de chocolate e a morder com vontade. Tipo morder muito, como quem morde um sanduíche depois de horas sem comer. E mais outra mordida. Ele não soube se foi a cara incrédula dele ou o fato de ele não ter sabido disfarçar naquele momento seus pensamentos. Ela o encarou.
— Quer um pedaço? — A pergunta foi sincera pelo que ele viu. Ela parecia extremamente frustrada com alguma coisa quando encarou os olhos esmeraldinos.
— Não gosto de chocolate, obrigado. — Ela deu de ombros e continuou a comer. Ainda eram nove horas da manhã...
— Sabe, acho que hoje eu não tô muito bem. — Ela começou a falar, para a surpresa dele. — Quem em sã consciência confunde o oblíquo com o íleo?
— Hã... Provavelmente eu confundiria, se isso te consola. — Ele sorriu de canto e ela suspirou. Ótimo, estava falando com um total estranho sobre o fracasso da prova.
— Direito? — Arriscou ao ver as roupas do moreno. Ele negou. — Relações internacionais?
— Engenharia mecânica — ele riu. — Medicina?
— Estou surpresa. Geralmente começam a chutar com enfermagem, dizem que não tenho cara de médica. — Suspirou deixando o chocolate de lado e encarando o céu limpo. O sol tentava passar, mas as folhagens densas o impediam. Aquele lugar era ótimo.
— Tive a impressão de que você é inteligente, então comecei pelo mais alto. Dizem que sou observador. — Ela parecia ser interessante, na verdade. Primeiro pela cor do cabelo, depois pelo jeito espontâneo que presenciou nos últimos minutos. Não estava acostumado a lidar com pessoas assim.
— Alguma chance de ser um serial killer? — Ela abriu um olho e o encarou, para logo em seguida voltar para sua posição relaxada apoiando o pescoço no encosto do banco. — Eu particularmente acho que não, mas vai saber né.
— Não. Se eu fosse, você não estaria mais aqui. — Ela levantou rápido a cabeça e ele riu.
— Sou Sakura. E você, estranho?
— Itachi.
Decidiram trocar os telefones depois de mais uma hora de conversa sobre a vida, faculdade, sonhos e aspirações. Itachi descobriu que ela tinha vinte e três, nasceu no interior e tinha o sonho de morar fora do Japão. Sakura descobriu só que ele tinha vinte e sete e trabalhava na empresa do pai.
— É na mesma área do seu curso, então? — Indagou curiosa. Ele assentiu.
— Trabalhamos com confecção de peças de carro pra uma empresa maior, na verdade. Quando eu me formar talvez possamos ir um pouco mais além e arriscar enviar modelos de veículos pra matriz. Meu irmão foi pra área de desenho industrial.
— Não tenho irmãos. Então não sei o que significa ter que competir com alguém, como as pessoas falam. — Sakura riu enquanto Itachi a encarou pensativo. Talvez os dois competissem, de fato. Sasuke sempre tentava ser melhor do que ele, mas por mais que Itachi nunca levasse a sério essa história de competição, ele sempre estava na frente do mais novo.
— Até que é interessante ter companhia, às vezes. — Murmurou ainda pensativo. — Bom, preciso ir. A gente se vê, Sakura-san. Pode me mandar mensagem quando estiver cansada de decorar o que são os oblíquos.
Ela fechou a cara e cruzou os braços.
— Eu estava quase esquecendo da prova, senhor killer. Obrigada por me lembrar. — Ela levantou e pegou a sacola com o chocolate. — Pega, pode ficar com o resto pra você. Estourei a cota do mês. E pode me chamar de Sakura.
E restou uma sacola de plástico na mão do moreno. Ela só foi embora pra próxima aula um pouco apressada. Garota interessante, foi o que pensou quando entrou no carro. Hesitou antes de pegar um pedaço. Talvez pudesse deixar de lado a intolerância a lactose naquele momento, tomaria um remédio depois.
—-
Sakura Haruno enviou uma mensagem.
Itachi bocejou enquanto refazia os cálculos da última questão. Acabou deixando pra última hora uma lista de exercícios gigantesca e só agora, quase cinco horas da manhã, estava perto de acabar.
Você disse que eu podia enviar mensagem quando estivesse cansada de decorar músculos.
Fez bem. Qual é a prova da vez? Itachi sorriu com a mensagem. O semestre começaria a apertar nos próximos meses, então deveriam adiantar o máximo de matéria que pudessem.
É sobre tecidos. Estou virada desde ontem, acho que não consigo reter mais informação :(
Experimente dormir um pouco, não adianta você fazer uma prova com sono. Ou quem sabe distrair por alguns minutos.
Sakura suspirou. Estava jogada na cama com vários papéis ao redor. Talvez Itachi tivesse razão. Se ela se distraísse por algum tempo, conseguiria votar ao pique.
O que tá fazendo? Não esperava q vc fosse me responder agora.
Seriais killers geralmente têm problemas com insônia.
Brincadeira. Terminando uma lista de cálculos, deixei pra última hora como o bom aluno que sou.
Ainda bem q vc é normal, se já tivesse feito assim que passaram eu desconfiaria que você esconde garotas mortas debaixo da sua casa.
Bom, não conheço o vizinho do andar de baixo. Vai que...
Os dois exibiam sorrisos com a última mensagem. Sakura brincar que Itachi era um assassino se transformou na piadinha interna dos dois com o passar do tempo.
Me conta um sonho utópico.
Tão de repente assim? Ele largou o lápis e deu total atenção ao celular. Sakura era Sakura, afinal.
:)
Ok... Quero criar coisas que possam ajudar as pessoas de alguma forma, não quero criar só coisas que deem dinheiro, mas que tragam conforto pra quem precisa.
Uau. Você tem um coração. :p Sakura achou fofo. Talvez não fosse algo tão impossível assim, imaginava que ele conseguiria.
Haha. Engraçadinha. E você?
Quero fazer o bem pras pessoas por meio da minha profissão. Quero ser útil.
Belo sonho, quem sabe você não encontra a cura do câncer. Não esperaria menos da minha pseudo médica favorita.
Ei. Eu sou a única estudante de medicina que você conhece... Os outros estão ocupados demais estudando pra conversar com você ou ter qualquer vida sociável.
Justamente :b Sakura deu uma gargalhada.
Seu falso. Já consigo pensar de novo, vou voltar pro meu livro. Bye.
Não exagere nos estudos. Depois da prova podemos sair... Hesitou antes de enviar. Mas queria mesmo a companhia da jovem.
Vou pensar no seu caso.
Só se você quiser.
Pensar no seu caso?
Não, sair mesmo. Sei que você aceitaria :)
Os dois voltaram a trabalhar um pouco mais felizes.
—-
Algum tempo depois...
Senhor Killer enviou uma mensagem. Levantou sonolenta da mesa quando o celular vibrou no bolso. Droga, tinha apagado na biblioteca. Agradeceu aos céus pela bolsa com o computador ainda estar no lugar que tinha deixado.
Quer ir tomar um café? Por minha conta, estranha.
Vc é meio polido demais no whatsapp, senhor killer. Respondeu rindo baixinho enquanto guardava os livros.
Força do hábito, desculpe. Onde você está? Posso te pegar.
Biblioteca do bloco L. Te espero lá na frente. Bocejou enquanto colocava a bolsa no ombro e catava o fichário. Colocou os fones de ouvidos e foi andando meio cambaleante pra fora do prédio.
Itachi já estava ali num carro preto que não tinha a mínima ideia de qual marca pertencesse. Era péssima com nomes de coisas daquele estilo.
A rosada entrou no carro fazendo uma pseudo dancinha ao som de Ed Sheeran. Itachi ergueu as sobrancelhas e riu. Só depois que ele começou a dirigir que ela tirou os fones do ouvido.
— Ah, esse cara é incrível. Você já ouviu? É sensacional! — Ela começou a procurar a opção de colocar a música no carro via Bluetooth.
— Já, inclusive tenho um álbum só dele aqui. — Ele começou a mexer no som e logo começou Shape of You. Sakura começou a cantar junto, para a surpresa do Uchiha. Deus, ela era doida.
Oh I, oh I, oh I, oh I
I'm in love with your body
Oh I, oh I, oh I, oh I
I'm in love with your body
Oh I, oh I, oh I, oh I
I'm in love with your body
Every day discovering something brand new
I'm in love with the shape of you
Come on, be my baby, come on
Come on, be my baby, come on
No sinal, as pessoas encaravam e o moreno decidiu que estava quente o bastante para usarem o ar condicionado — em outras palavras, vidros escuros. Itachi não resistiu e gargalhou diante da performance da Haruno. Céus, ela não existia.
— Eu não sabia que você tinha um bom gosto musical. — Sakura falou ofegante e começou a rir. Não sabia se tinha sido culpa da noite em claro com a quantidade de cafeína absurda que tomou combinada com o cochilo.
— Eu não sabia que você era meio doidinha. — Itachi riu com vontade da cara que ela fez. — Você não tem mais aula hoje, se os meus cálculos estiverem certos.
— É, só amanhã mesmo. — A menina espreguiçou no banco e começou a olhar a paisagem ao redor.
— Inaugurou uma cafeteria perto da empresa e eu pensei se... — Itachi viu-se lutando com as palavras. Por que era complicado chamar Sakura pra um encontro? Fazia algumas semanas que conversavam pessoalmente e pelo celular.
— AH! — Ela gritou de repente olhando pela janela. O Uchiha tomou um baita susto e estava pronto para dar uma bronca na jovem quando ela continuou: — Inaugurou um paintball! Vamos?!
—-
O que diabos fazia Uchiha Itachi num paintball seria uma boa pergunta para o momento. Talvez questionar o porquê de Uchiha Itachi estar com a perna suja de tinta roxa seja outra pergunta que faça sentido.
— Eu não acredito que você me fez vir aqui. — O moreno gemeu enquanto andava ao lado da rosada. Estavam no meio da partida, Itachi levou um tiro na perna que estava doendo horrores e que provavelmente deixaria um hematoma bizarro depois. Sakura levou um tiro no colete e Itachi outro, mas poxa, não vale na perna.
— Para de chorar e me dá cobertura! — Sakura riu quando se jogou atrás de uma pilha de pneus. Ela puxou Itachi consigo.
— Acho que você esqueceu de comentar que é insana no paintball — Itachi resmungou enquanto olhava atento o campo.
— Querido, já marquei quatro pontos. Estamos na frente. — Ela apontou pro placar. Roxo 2, Vermelho 4.
— Ok, você quer ganhar, né? Vou jogar pra valer então! — Sakura ficou surpresa quando a postura do mais velho mudou. Ótimo, ela era uma pessoa competitiva mesmo.
Marcou mais três pontos na dupla adversária, enquanto Itachi acertou dois tiros. Era divertido se não pensassem na dor daquelas bolinhas de tinta. Por sorte, só tinham eles e mais dois jogadores. Não era sempre que as pessoas decidiam jogar numa quarta-feira.
— Isso aí, time! — Sakura gritou quando o relógio zerou. Roxo 3, vermelho 10.
— Ok, agora vamos na farmácia enfaixar minha perna. — Sakura riu da brincadeira e algum tempo depois estavam já limpos de volta no carro. Um tanto suados, mas limpos.
— Pra quê academia quando se pode atirar nos outros? — A rosada brincou quando sentou no banco de carona.
— Se eu não soubesse que você é você , eu ligaria pra polícia. Foi divertido, podemos fazer isso mais vezes. — Itachi tentou arrumar os cabelos no retrovisor, mas desistiu. Ficariam meio bagunçados por um tempo. Já Sakura, tinha o cabelo preso estrategicamente num coque.
— Obrigada, foi divertido mesmo. Agora você que ir tomar sorvete? — Sakura perguntou animada. Ele fez uma careta.
— Não sei como você consegue gostar tanto de doce, mas vamos lá. Tudo que a senhorita quiser. — Sakura riu da voz que ele fez. Itachi era divertido, por mais que não parecesse em um olhar à primeira vista. Ele era gentil, atencioso. Uma ótima companhia às quatro da manhã na véspera de prova.
Depois de um milk shake de framboesa e uma casquinha, os dois conversavam numa pracinha perto da faculdade.
—...e então a Ino gritou pra gente correr. Eu nunca corri tanto na vida, aquele cachorro parecia ter saído do Resident Evil. Só nos livramos dele quando pulamos pra dentro do quintal da minha casa e ele ficou latindo por algum tempo. — Sakura ria enquanto contava as peripécias que a amiga a metia quando eram crianças. — Ela foi embora pros EUA na sétima série, nunca mais a vi. Parece que ela mudou de número e não consegui entrar em contato com ela de novo.
— É uma pena. Seria interessante ouvir a versão dela. — O sol já se punha e estavam sentados diante de um parquinho deserto. Sakura sorriu com a memória. Tinha sido uma ótima ideia lembrar de coisas que aconteceram quando crianças.
— E você? Alguma invasão à propriedade alheia? — A rosada o encarou com a cabeça levemente inclinada.
— Acho que não tive infância igual você, desculpe. — Ele coçou a cabeça sem graça. O pai nunca deu tanta liberdade pros filhos quando crianças. — No máximo já levei um gato pra casa escondido.
— Quê? Um gato? — Sakura parecia incrédula e já começou a rir. — Pode contar como foi isso.
— Eu encontrei um filhote de gato na escola e levei pra casa. Cuidei dele por um mês até que a minha mãe encontrou e disse que era melhor eu levar ele pra adoção, pois o meu pai poderia surtar. Então eu tive que dar pra um colega. — Itachi não tinha ficado necessariamente feliz com aquela memória. Sakura percebeu e não gostou. O sorriso naqueles lábios combinava melhor. Itachi a encarou. Sakura encontrou-se diante de uma mar ônix cheio de sentimentos direcionados à ela. Itachi viu esmeraldas tão líquidas e confortantes.
— Gosto do seu sorriso. — Ela simplesmente disse antes de tocar a bochecha do moreno.
— Gosto de você, Sakura. — Itachi sussurrou como se fosse um segredo. Um segredo que começou a surgir e crescer num dia qualquer em que se encontraram ao acaso. Um segredo que o faz sorrir sem ter medo de ser quem é. Um segredo que não sabe o que esperar.
— Acho que não me importo de ser alvo de um serial killer... — A rosada murmurou e as bochechas pareceram pegar fogo. O que sentia por Itachi? O que sentia em relação a todo o cuidado, atenção, brincadeiras? Como explicar o calorzinho no coração quando via que ele estava do lado de fora do prédio esperando a aula dela terminar ou quando ele mandava mensagem do nada? O que dizer sobre o que sentia ao tocar a pele macia daquele moreno que passou a habitar seus pensamentos?
Não se sabe dizer quem começou. Só se sabe que naquela tarde havia duas pessoas apaixonadas dividindo sensações. Itachi finalmente provou os lábios da rosada. Sakura finalmente sentiu o gosto do Uchiha.
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