Quando o Tempo Parar
1 Epitáfio
— […] É chamado de Glioblastoma Multiforme. É um tipo de tumor raro e agressivo, classificado como grau quatro.
Isabella parou de ouvir assim que o Dr. Cullen disse tumor agressivo.
O som da voz dele se tornou ruído. Ela via os lábios do médico se moverem, mas não ouvia nada.
“Eu vou morrer?”
A pergunta surgiu na mente como um farol solitário iluminando uma ilha..
— Quais são as minhas chances? — perguntou, sem expressão no rosto pálido.
— Como disse, é um tumor raro e muito agressivo. Ele atinge a região do sistema nervoso central. — O oncologista girou a tela, apontando uma mancha escura na imagem do cérebro. — A cirurgia é delicada, mas possível. Com o tratamento completo — cirurgia, radioterapia e quimioterapia — a média de sobrevida é de um a dois anos.
— Então eu vou morrer de todo jeito? — a sobrancelha arqueou, fria.
— Eu queria dizer que não. — suspirou o médico.
— E se eu não fizer o tratamento?
— Três meses, talvez menos. Eu sinto muito.
Dr. Carlisle Cullen sentia de verdade.
Diante dele, uma jovem de apenas vinte e quatro anos, bonita, bem-sucedida e agora, condenada.
Ele sempre acreditou que médicos deveriam lutar até o fim para salvar alguém. Mas havia casos em que até o impossível era inútil. E aquele era um deles.
Isabella, porém, não reagiu.
Parecia que o corpo estava ali, mas o resto dela havia ficado preso no instante em que ele dissera tumor agressivo.
— Obrigada, doutor. Acho que já sei o suficiente. O fim é bem certo. — levantou-se, recolheu os exames e a ressonância. — Obrigada.
— Isabella — o médico a chamou antes que ela saísse. — Por favor, me procure se precisar. Eu sei que uma notícia assim mexe com tudo, mas… podemos tentar.
Ela apenas acenou com a cabeça e fechou a porta.
Eu vou morrer.
O dia estava incomum em Forks.
A cidade, sempre úmida e cinzenta, amanhecera ensolarada e quente. Duas senhoras abanavam o rosto com leques, reclamando do calor e do efeito estufa.
Bella, como gostava de ser chamada, observou as rugas nos rostos delas e pensou que jamais teria tempo de envelhecer.
O iPhone tocou dentro da bolsa.
Atendeu sem olhar o visor.
— Alô?
— Oi, e aí? Já saiu da consulta? O que o médico disse? Eu não estou te vendo! — era Alice, sua irmã mais velha, em vídeo.
Bella ajeitou o celular em frente ao rosto.
— Vou dirigir agora. Te encontro em casa.
— Por quê? É algo sério? Bella, me conta!
— Não entra em pânico, Allie. Daqui vinte minutos tô aí.
Desligou antes que a irmã pudesse insistir.
Encontrou o carro — um sedã de luxo recém-comprado — na vaga L3 do hospital.
Deu partida e o motor ronronou suavemente.
Tinha conquistado tudo que quis: era redatora de um jornal de Washington, trabalhava com o que amava, ganhava bem, viajava pouco,, tinha amigos, vida social, e namorados que nunca duravam mais que três meses.
“Que ironia… agora eu é que não passo do terceiro mês.”
Ligou o rádio.
A música Viva La Vida da banda Coldplay tocava no ápice do refrão.
— Ah, pelo amor de Deus! — desligou com força.
Sentia-se alvo de uma piada cósmica.
Encostou a testa no volante, respirando fundo.
Tumor agressivo.
O sussurro voltou.
Engatou a marcha e saiu do estacionamento.
A casa de Alice Whitlock era lilás e amarela, a mais alegre da rua 7.
Tinha uma varanda com balanço e brinquedos espalhados das filhas gêmeas.
Bella Bateu quatro vezes com a aldrava de porta e pode ouvir os passos e a disputa animada das meninas para ver quem abriria.
Alice apareceu na entrada, sorrindo.
— Você disse vinte minutos.
— Desculpa, acabei me distraindo. — Bella beijou-lhe a bochecha. — Cadê as terroristas?
— Você sabe que essa palavra não é legal nos Estados Unidos. Como foi no médico?
As gêmeas, Katherine e Irina, correram para abraçar a tia, competindo pela atenção.
Bella sempre gostou de ser a tia rica e divertida, não a mãe exausta com olheiras — embora jamais dissesse isso em voz alta.
— É um apelido carinhoso. — deu de ombros.
— Diz isso para as vítimas do 11 de setembro. E o médico? — Alice insistiu.
Não sabia como responder e também não pôde deixar de fazer uma ligação entre o atentado terrorista com o tumor em seu cérebro.
Como daria a notícia? “Então Allie, ele disse que é um tal de glionãoseioquê e que tenho três meses de vida, mas se eu ficar careca, debilitada passando por várias cirurgias, posso ter até dois anos. Tem comida?”
Droga.
— Kate, Nina, vão pra sala, meninas.
— Você promete assistir Discovery Kids com a gente? — perguntou Irina.
— Claro. Depois eu vou.
Quando ficaram a sós, Alice cruzou os braços.
— O que aconteceu, Bella?
— Vamos pra cozinha. Tô com fome.
Isabella se sentou na ilha de mármore enquanto Alice preparava um sanduíche rápido e um suco de uva.
A ansiedade da irmã era palpável.
— Fala logo, Isabella. O que ele disse?
Nome completo e tom sério. Alice soava igual à mãe quando algo era grave.
— Eu não lembro o nome direito… mas entendi bem quando ele disse tumor agressivo, grau quatro.
O silêncio caiu.
Trinta segundos longos, até Alice sussurrar:
— O quê?
Sentou-se, pálida.
— Com tratamento — continuou Bella, fria — eu teria uns dois anos. Sem ele, três meses.
Empurrou o prato terminado e apoiou o rosto na mão.
Alice puxou os cabelos curto para trás olhando para algum ponto não específico e saiu em direção ao corredor que dava acesso ao lavabo, sem dizer nada.
“Eu devia ter sido mais delicada.”
Bella ficou ouvindo as risadas das sobrinhas e foi se juntar a elas no sofá azul da sala.
Alice voltou uma hora depois, olhos vermelhos, voz trêmula.
— Você vai fazer o tratamento. — disse com firmeza. — Jasper tem contatos, a gente cuida de você. Se ficar careca, compramos uma peruca, pronto.
Bella sorriu, abraçando-a com ternura.
— Allie… — separou-se para olhar o rosto dela — vai acontecer. Em três meses, ou em dois anos.
— Não… — Alice negava com a cabeça.
— Shhh. — Bella secou-lhe as lágrimas. — O médico foi claro. Vai acontecer.
Alice começou a chorar de novo, tremendo. As meninas observavam assustadas.
— Mamãe? O que tá acontecendo? — perguntou Kate.
— Eu… eu… — Alice ofegava.
Bella se ajoelhou em frente as sobrinhas.
— Meninas, vão brincar um pouco no quarto, tá? Depois a tia sobe.
— Mas…
— Depois. — sorriu, tentando tranquiliza-las.
Quando ficaram sozinhas, Alice desabou.
— Ele pode estar errado! — gritava. — Você tem vinte e quatro anos! Isso não pode acontecer!
— Foi o Dr. Cullen. — respondeu Bella, serena. — Ele é o melhor médico da cidade.
— Não é justo! — chorava, agarrando as mãos da irmã. — Por favor, Deus… não leva ela de mim!
Bella a abraçou forte.
— Eu não quero fazer o tratamento, Allie. Não quero perder o pouco que tenho. Quero viver o tempo que me resta. Fazer o que nunca fiz. — fez uma pausa. — Quero, pelo menos, uma frase digna na minha lápide.
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