Quando o Mar beija a Sombra.
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Até lá embaixo
Percy se sentia culpado. Vinha sonhando com aquilo repetidas vezes, durante várias noites. Percy se sentia muito culpado.
Fazia dois meses, tão pouco tempo, mas a dor tinha continuidade. E de dor Percy entendia, ele já havia sentido diversas. Mas nada se comparava a essa que sentia a esses dois meses.
Dois meses que ela se foi, dois meses que ele a perdeu. Essa dor não se comparava com nenhum veneno ou cortes com bronze celestial. Essa doía mais, muito mais. Percy já perdera diversos amigos e colegas, porém nunca machucou tanto. Aquela cena que ele não conseguia esquecer. Peribeia segurando Annabeth, ela se debatendo e tentando lutar até o final, nunca se entregando. E depois a queda. Seus cabelos loiros envoltos ao sangue, sua pele bronzeada pálida, o seu peito sem batidas.
Percy se lembra de parar no meio daquela confusão toda e correr por ela. Mas era tarde, ele nem pode se despedir. Percy fitava-a caída no chão e sem vida. Ele percebia que ao redor estava uma imensa confusão, que os outros precisavam da sua ajuda. Mas ele não conseguia se mexer, não conseguia sair de perto de Annabeth. Ele apenas voltou a si depois que viu os deuses lutando ao lado de seus filhos e derrotando os gigantes.
**
Nico, esse nome, vinha sendo repetido diversas vezes em sua cabeça. Vinha pensando e sentindo coisas que o deixava preocupado. Nico di Angelo tinha se confessado para ele, contou que já teve sentimentos por Percy. No dia que isso aconteceu Percy não sabia o que dizer nem pensar. Ficou parado fitando o garoto a sua frente com uma cara de idiota.
Mas Percy não tinha culpa, ele nunca percebera que Nico gostava dele. Nem teria como, Nico nunca demostrou gostar de alguém. Ainda mais quando o considerava culpado da morte de sua irmã.
Ou será que Percy estava enganado? Pensando bem, Nico já tinha ajudado e protegido ele diversas vezes. Deve ter sido difícil para Nico. E com certeza tudo aquilo era difícil para Percy.
Gostar de uma garota. Sentir-se atraído por uma garota. Amar uma garota (uma em especial). Ter sentimentos por uma garota. Até ai estava tudo normal para Percy Jackson. Mas essas coisas poderiam mudar? Percy sentia que sim. Suas atrações, seus desejos, suas admirações estavam o deixando confuso, ou mais do que já era.
Naquela manhã de outono, Percy saiu de seu chalé e olhou ao seu redor. No mesmo tempo em que tudo tinha mudado, tudo continuava igual.
Do chalé de Atena saiu o grupo de crianças e adolescentes sendo guiados por Malcom. Antigamente era Annabeth em seu lugar. Annabeth que os liderava. Percy não liderava ninguém, nem ele mesmo.
Do chalé ao lado saiu Nico. Seus cabelos bagunçados e suas vestimentas pretas de sempre. Mas não tanto como antes, agora, pelo menos, ele usava uma camiseta do Acampamento debaixo de sua jaqueta de aviador, a sua velha e surrada jaqueta. Nico caminhou até ele.
-Você está pior do que eu. — Nico apontou para seu rosto — Acho que você não tem dormido muito bem, Percy.
Era óbvio, as olheiras embaixo se seus olhos deixavam claro. Seus cabelos estavam mais bagunçados do que o normal. E suas vestes estavam amarrotadas.
-Eu...eu tenho tido uns sonhos, sabe? É confuso. — Percy fitou os olhos negros de Nico, aqueles olhos pareciam sombras. As mesmas sombras que Percy já viajou com Nico.
-Sonhos do Tártaro? Ou sobre Annabeth? — Nico susurou a última parte. Não por querer, mas porque ninguém falava sobre o que aconteceu com Annabeth no Acampamento.
Mas, Nico não entendia o porque disso. Annabeth era uma grande guerreira e estrategista. Uma das maiores semideusas que Nico conheceu. Então porque não lembrar dela como um grande exemplo?
Nico havia sentido a morte de Annabeth. Ele sentiu tristeza também, o que deixou claro que ele não tinha mais nenhum sentimento por Percy. Que ele não sentia mais ciúmes dela.
Não! Nico di Angelo não gostava mais de Percy Jackson, Percy era, agora, apenas um cara comum, nada mais que isso. Talvez um possível amigo.
Percy era lindo, isso Nico não negava, muito mais bonito que ele próprio. Percy tinha uma beleza própria, a beleza de um deus grego, literalmente.
-Sonhos sobre... — Percy respirou fundo — Sobre Annabeth também, mas não é só ela que invade minha cabeça. — ele respirou novamente — É melhor nós irmos para o café da manhã.
Percy saiu em disparada deixando um Nico parado e confuso. Se Percy não queria falar sobre o assunto porque veio falar justo com ele? Eles nem eram amigos de verdade. Ele deveria ter ido falar com Grover.
Mas pensando bem, Percy e Grover nem estavam mais tão próximo. Na verdade Percy não estava mais próximo de ninguém. Toda vez que alguém se aproxima para conversar com ele, ele dava um jeito de escapar, um jeito de fugir.
Até mesmo Rachel, Hazel, Frank e Tyson vieram de Nova Roma para conversar e tentar anima-lo. Porém durante toda a visita Percy conseguiu se esquivar.
Nico desistiu de pensar sobre o assunto. Era melhor começar sua manhã pensando em panquecas, bacon e hambúrgueres.
**
Eram três horas da tarde. Percy deveria estar no treino de arco e flecha, mas não estava. Ele nem era bom com o arco mesmo. Preferia ficar sentado perto dos campos de morangos.
Percy não tinha ninguém para conversar ou um ponto para focar. Tudo ao redor era tão conhecido pelo mesmo. Muitas monotonias o cercavam. Aquilo nunca tinha o entediado, mas agora o acampamento era sufocador. Talvez fosse a hora de ir embora daquele lugar. Mas ele não conseguiria ir embora e abandonar todas as suas lembranças guardadas daqueles longos cinco anos.
De longe Percy viu Nico passar, o garoto conversava com Will Solace, os dois pareciam muitos animados. Eles também deveriam estar em algumas atividades do acampamento, mas não estavam. Aquilo deixou-o encucado, onde será que estavam? Ou onde estavam indo?
Percy levantou do chão para prestar mais atenção nos dois garotos que conversavam. Eles estavam muitos animados, isso era evidente. Percy ficou com vontade de participar daquilo. Mas talvez eles pudessem achar estranho Percy se meter na conversa. Nico di Angelo. Era apenas aquilo que fazia Percy mudar de ideia e caminhar até os dois garotos. Porém Percy mudou de ideia logo depois do primeiro passo. Ele parou estático com o que via. Não. Não mesmo. Mas seus olhos arregalados não deixavam mentir o que via. Will Solace beijando Nico di Angelo. Calma, talvez ele estivessem apenas vendo se um dos dois estavam com mau hálito e não se BEIJANDO.
Pelo amor dos deuses, o que era aquele incômodo que Percy sentia no peito? Aquela vontade de socar Will Solace, a vontade de adquirir os poderes de Jason Grace pegar Nico e sair voando com ele em seus braços para bem longe daquela boca nojenta de Will. Mas o garoto não tinha aquele poder. A única coisa que Percy poderia fazer era explodir um monte de água do lago na cara do Solace. Mas Percy não teve nenhuma culpa quando isso aconteceu.
Will e Nico voaram para longe um do outro, todos molhados e assustados. Olharam ao redor e focaram o olhar em Percy. Deve ter ficado bem óbvio quem havia sido, porque Percy Jackson era o único filho do deus do mar no acampamento.
Percy não sabia o que fazer, ele não deveria ter feito aquilo, nem sabe porque que fez aquilo. Ou talvez saiba, mas não confessa. E mais uma vez naquele dia Percy desejou ter os poderes de Jason. Percy apenas virou de costas e saiu andando para o único lugar onde ele poderia colocar seus pensamentos em dia.
**
Era hora do jantar no acampamento. Nico já havia tomado banho e se arrumado. Estava entrando no Pavilhão do Refeitório, ele esperava ver Will. Will tinha o tinha beijado hoje a tarde. Foi o primeiro beijo de Nico, foi estranho mas bom, mas talvez ele não tenha sentido o que achou que sentiria quando beija-se Will. Foi...legal e não apaixonante como ele deveria ser. Mesmo assim Nico queria tentar algo com Will, não apenas para esquecer de vez o que sentia por Percy, mas para o próprio bem, depois de tanto sofrimento ele merecia alguma coisa que o fizesse sorrir, e Will estava mais do que bom para assumir esse papel. Sim, Nico ainda sentia algo por Percy. O garoto havia dito que não sentia mais nada, mas não é assim tão fácil esquecer o moreno de olhos verdes. Que hoje o acertou com um jato de água na cara o que atrapalhou seriamente o seu primeiro beijo. Percy estava estranho hoje. Depois do jato de água Nico viu Percy mais longe deles, ele parecia igualmente assustado com o que acontecera. Depois o moreno saiu apresado.
Nico entrou no Pavilhão e avistou Will, que sorriu para ele. Will estava sentado com todos os seus irmãos, filhos de Apolo, que eram muitos. Nico sorriu de volta e foi pegar um pouco de comida, colocou no prato algumas coisas que gostava e fez a sua oferenda para o pai e para Poseidon pedindo que ele ajuda-se Percy a seguir em frente e voltar ao que era antes. Depois seguiu até a sua mesa, onde era o único, e começou a comer.
No meio do jantar algumas pessoas passavam por ele e o cumprimentavam, tipo Jason Grace, Piper, Leo Valdez, que depois que voltou de Ogígia com Calipso nunca para de sorrir.
Depois do jantar todos foram para a fogueira, onde todos cantavam e brincavam. De novo Nico sentou sozinho, não porque ninguém sentava perto dele, mas porque o garoto já estava tão acostumado que era estranho quando tinha tanta gente ao seu redor.
Todos estavam muitos ocupados para perceber, mas Nico percebera, Percy não estava na roda hoje, ele nem havia aparecido no jantar também. A última vez que Nico o viu foi no acontecido essa tarde. Os meio sangues tinham um tempo ainda antes do toque de recolher, e Nico iria aproveitar para procurar Percy, até porque ele estava começando a ficar preocupado.
Nico tentou sair escondido, o que é fácil quando se é filho de Hades que facilmente se mistura com as sombras.
Primeiro ele procurou no Anfiteatro. Percy não estava lá. Foi no chalé de Percy, mas ele também não estava lá. Decidiu ir nos estábulos, um dos lugares preferidos de Percy, mas nada encontrou. Então Nico parou e pensou, onde será que estaria Percy Jackson? Se ele estivesse num desenho animado uma luz teria acendido em cima de sua cabeça.
**
Já deveria estar quase na hora do toque de recolher, Nico tinha que correr. Quando chegou ele estava suado e respirava com dificuldade. Mas sorriu, Percy estava lá. Sentado na beira do mar. Nico caminhou até ele e sentou-se ao seu lado. Percy olhou para ele e seus olhos brilharam. Aquele verde... Era impossível de não olhar. Então ele disse uma coisa que deixou Nico totalmente surpreso:
-Eu tenho sonhado com você, Nico. — A voz rouca do garoto que estava no auge da sua juventude preencheu o vazio da noite que antes era apenas das ondas do mar — Venho sonhando com... Nós dois. Nós juntos nos campos de morangos, onde colhemos morangos e sorrimos um para o outro. Nós dois juntos no inverno, onde estamos na rua coberta de neve e eu te protejo do frio. Sonhado com nós dois deitados debaixo de uma árvore de mãos dadas. Eu venho sonhando com nós dois juntos e isso tem me deixado louco.
E então aconteceu algo que Nico di Angelo nunca viu na vida. Percy Jackson estava chorando. Durante todos os anos que Nico conhecia Percy ele nunca havia visto aquilo. Nem mesmo quando cremaram a mortalha de Annabeth. Nico levou a mão delicadamente até o rosto de Percy e secou as lágrimas que ali escorriam. Aquilo fez Percy voltar a falar.
-Eu sei que nós semideuses, as vezes, sonhamos com o futuro, com o que nos irá acontecer. E Nico eu sinto que teremos um futuro. Eu sinto que meus sonhos são previsões, e o mais importante eu quero que sejam previsões, eu quero que as realizemos juntos. Porque, por mais que eu queira, não consigo parar de pensar em você. E eu espero que você me dê essa chance, Nico di Angelo.
Então aconteceu o beijo, o beijo tão esperado pelos dois. Percy puxou Nico para perto e o beijou, calmo e lento. As mãos de Percy foram para a cintura de Nico e as de Nico para o pescoço de Percy, seus movimentos eram tão igualitário que eles ficariam ali eternamente.
O beijo para Nico parecia a coisa mais certa que ele já tinha feito na vida. Ele sentiu o que não havia sentido com Will, era totalmente diferente, era apaixonante. Percy o impulsionou para trás fazendo-o deitar na areia da praia. Foi quando ele teve a maior certeza. Quando o beijo se tornou impossível de ser mantido por falta do oxigênio eles o cessaram. Os rostos próximos e as respirações desiguais.
-Eu lhe dou quantas chances forem precisas para ficarmos juntos. — Nico sussurrou antes de se beijarem de novo, de novo e de novo.
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