Quando o Eterno Inverno se Foi

1 Os olhos verdes e os cabelos cor de fogo


Notas iniciais
Olá, caro leitor! Aqui vamos nós em uma aventura através da vida de Severo Snape. Espero, do fundo do meu coração pulsante e ansioso por lhe contar minha história, que goste de ler as próximas páginas. Lembre-se que tudo é possível, assim como os nossos mundos de fantasia também são. Agora, a partir deste exato momento, ''Quando o Eterno Inverno se foi'' é uma história real.
E eu quero que você faça parte dela.
Agora.
S.J

— Me desculpe...Por favor!

— Eu não quero saber. Eu não quero ouvir você.

— Por favor! Pare. Me desculpe! Por favor, Lily...

— Poupe o seu fôlego. Eu não quero ouvir você.

— Eu não queria ter dito aquilo...

— Mas você disse, Severo! Você disse! Sangue-ruim!

— Eu estava nervoso! Escapou, porque não gosto que você ande com o Potter... Fiquei com raiva de você! Fiquei com raiva quando te vi com ele!

Lily virou as costas para Severo Snape e desapareceu no ar em forma de uma fumaça cinza, assim como toda aquela cena dolorosa de se reviver. Em questão de segundos, Snape acordou, ofegante, com as mãos em punho cerrado, sentindo a tensão tomar conta de todo o seu corpo. Respirou fundo, sentindo o ar preencher seus pulmões até os fazer doer. Fora mais uma noite de pesadelos com a sua pior memória existente. Para seu alívio, pelo menos naquela manhã ele não acordara dizendo ''Me perdoe, Lily'', aos gritos e lamentos. Não era incomum manhãs como aquela acontecerem na vida de Severo Snape, não pelo menos desde o dia em que Lily Potter fora assassinada. Acordar nunca lhe era uma tarefa fácil, pois Snape se deparava com a realidade de sua vida: Escura, fria, cinzenta, e exatamente igual ao seu pequeno quarto onde passara seus últimos anos em Hogwarts. Snape carregava consigo um fardo pesado, quase insuportável, e saber que Lily nunca o perdoara era um punhal fincado em seu coração de onde dali jamais iria sair, nem mesmo com a magia mais poderosa.

Snape levantou-se de sua cama vagarosamente, sentindo o frio do chão de madeira tocar a sola de seus pés. As masmorras de Hogwarts eras frias e os alunos constantemente reclamavam do eterno inverno que ali fazia, mas para Snape, tão acostumado com o frio, aquilo não lhe incomodava; Ele também vivia um eterno inverno, todos os dias, congelado em todas as suas entranhas, somente sentindo o seu sangue correr em suas veias, e nada mais. Muitas vezes, Snape jurava para si mesmo que nem mesmo mais sentia seu coração bater. Os dias se passavam feito páginas de um velho livro abandonado sendo viradas pelo forte vento de um dia chuvoso, e a dor era uma fiel hospedeira, talvez a única companhia íntima de Snape; ela era como um fantasma, assombrando seus dias e suas noites, que nunca mais foram iluminados pelos raios do sol, sem mesmo pela luz do luar. Muitos fantasmas o acompanhavam, alguns silenciosos, outros nem tanto, dentro de sua mente e coração. Snape permanecia preso em sombras, escondendo-se na escuridão, oculto por detrás de seu luto.

Era uma segunda-feira e Dumbledore pedira na noite anterior para que Snape o encontrasse naquela manhã. Banhou-se e rapidamente saiu em disparada pelos corredores de Hogwarts, ainda vazios e silenciosos, sem a presença dos alunos. Aquele era um dia chuvoso e de céu nublado, onde as nuvens de cor cinza não deixavam nenhum raio de sol adentrar nos territórios da escola. Caminhando em passos rápidos e movido pela ansiedade, Snape logo chegou diante da grande estátua da fênix com as asas abertas e, ao falar a senha secreta, posicionou-se nas escadarias, que começaram a se mover em subida e em espiral. Em poucos segundos estava diante da já tão familiar sala do diretor de Hogwarts. Logo sua chegada despertou os adormecidos pintados nos quadros pendurados pelas paredes da sala; Armando Dippet, retratado em óleo, fez soar sua forte voz, anunciando a entrada de Snape.

— Severo! Aguarde! O Professor Dumbledore estará chegando em poucos minutos! — Disse Armando, levantando-se da cadeira dourada onde fora retratado acomodado nela. Snape apenas cerrou os olhos e lançou um olhar frio para Armando, nem um pouco feliz em escutar tanto barulho logo de manhã. Aproximou-se escrivaninha do diretor, que estava totalmente bagunçada, cheia de papéis, livros, cacarecos dourados e até mesmo um prato com restos de seu jantar da noite anterior. Snape sentou-se em uma velha cadeira de madeira e de acento acolchoado vermelho. Ouviu ao fundo um ronco alto, que provavelmente vinha de um dos quadros e de alguém retratado em um deles, ainda dormindo. Através da única janela ao fundo da sala, Snape pôde ver a fina chuva que caía naquela manhã nublada e cinzenta; detestava dias chuvosos pois fora em um deles que Lily morrera.

Snape muitas vezes perguntava a si mesmo o que ainda fazia ali, vivo, sentado diante da escrivaninha de um dos homens mais poderosos de todos os tempos, lecionando em Hogwarts e com tantas responsabilidades em mãos; cometera os piores erros durante toda sua vida; fizera as piores escolhas e caminhara por caminhos tortuosos. Ele era merecedor de mais uma chance? Quando pequeno, não tinha nenhuma expectativa para seu futuro, e a única vez que tivera fora quando conhecera Lily; Ele guardava dentro de si a sensação doce da alegria ao saber que iria finalmente sair da casa de seus pais para ir para Hogwarts ao lado de sua melhor amiga; Snape não deixava de lembrar, nenhum dia sequer, de seu coração batendo forte a cada pensamento de que ele e Lily seriam inseparáveis. Lily fora a única pessoa capaz de o enxergar por dentro, com os olhos do coração. E mesmo mergulhado em amor, ele conseguira tornar a vida daquele delicado lírio em trevas. O fardo carregado por e que se arrastava junto de cada passo que dava em sua vida, levava junto dos erros, a memória do corpo de Lily sem vida; Entre todas as suas lembranças, ele guardava também a do dia em que abraçara Lily em seus braços, e somente o fizera quando estava morta. Snape também tinha pesadelos onde revivia aquela noite; os raios do lado de fora da casa em Godric's Hollow iluminavam o cenário de destruição, e o som da chuva violenta que derramava suas lágrimas naquela triste noite não era capaz de silenciar o choro alto do bebê Potter; Snape apertava o corpo de Lily contra seu corpo, pensando em milhares de possibilidades de a fazer voltar para a vida, como se fosse existente um feitiço rápido para fazer aqueles olhos verdes se abrirem novamente. Ainda eram vivas todas aquelas sensações, e Snape as revivia todos os dias. E alguns dos dias eram piores.

— Severo. — A voz de Dumbledore soou alta e clara pela sala, cortando os pensamentos de Snape e o trazendo de volta do passado para o presente. Rapidamente, Snape levantou-se da cadeira, reverenciando o diretor, que o recebia com um sorriso amigável no rosto coberto pela longa barba prateada. — Muito obrigado por atender o meu chamado!

— Diretor — Snape observava Dumbledore, apreensivo; Sempre fora chamado ao escritório do diretor quando algo importante precisava lhe ser dito. Durante os últimos anos, suas idas até ali eram para acalmar seu coração dolorido, enquanto se afogava em seu próprio sofrimento. Snape confiava em Dumbledore; O diretor o recebera com braços abertos, perdoando seus erros e acreditando na existência de alguma bondade dentro dele, algo que Snape nem mesmo acreditava ser real em si mesmo. Dumbledore vestiu um robe de seda e cor vinho que estava pendurado no encosto de sua cadeira dourada e sentou-se calmamente. — No que posso lhe ser útil? — Indagou Snape. Ele esperava que não fosse nada mais relacionado a possível volta de Você-Sabe-Quem.

— Sente-se, Severo. Por favor. — Pediu Dumbledore, ainda com seu sorriso amigável no rosto, fitando Snape por detrás de seus óculos em formato meia-lua. Nervoso, Snape tornou a sentar, apertando os braços da cadeira de madeira com força, para aliviar sua tensão.

— Algo ocorreu? — Perguntou Snape, tentando arrancar logo de Dumbledore o motivo por ele estar ali tão cedo.

— Acalme-se, Severo. Vejo que está nervoso. — Dumbledore agora pegava em suas mãos um grande bolo de papéis amarelados.

— Considerando que da última vez que me convocou, falamos sobre a vinda do menino dela e... A possível volta de...- Disparou Snape, sentindo seus músculos se contraírem somente ao pensar em uma possibilidade de Você-Sabe-Quem retornar. — Apenas espero que não seja...

— Não, não. — Respondeu Dumbledore, calmamente, muito compenetrado no que fazia. O diretor parecia procurar algo naquele bolo de papéis. — Hoje lhe chamo aqui pois precisarei de seus serviços. Além de o ter como docente.

— Meus serviços? — Indagou Snape. Dumbledore pegou um daqueles papéis e ficou em silêncio por alguns segundos, sem responder Snape. — Diretor, o que o senhor-

— Oclumência, Severo. — Antes que Snape pudesse indagar Dumbledore novamente, o diretor logo lhe deu a resposta, agora fixando seus olhos sob Snape. — Preciso de suas habilidades com Oclumência.

— Minhas habilidades com Oclumência?- Snape estava confuso; sabia que Dumbledore era um homem de muitos planos, mas que pouco revelava sobre eles.

— Raramente abro exceções em Hogwarts, mas as faço somente em casos particulares. E estou diante de um caso particular. — Dumbledore pegou sua pena dourada e a mergulhou em seu tinteiro de cor azul. Snape tentou ler o que Dumbledore começou a escrever ali, debruçando-se sobre a escrivaninha. — Sendo claro, para acabar com sua apreensão, Severo, irei lhe pagar quatrocentos galeões a mais para que preste os seus serviços para mim. Veja, aqui- E Dumbledore mostrou para Snape o papel onde escrevia com sua pena e tinta azul; Ali, Snape pôde ler ''Para Edward Dubois''. — Edward Dubois, meu antigo aluno e amigo de muita estima minha, veio até mim suplicando por ajuda. Ele e a família sofreram um terrível ataque de nomes muito conhecidos por você, Severo.

— Como?

— Comensais da Morte, Severo. Edward é auror, assim como sua esposa Margot. Ambos foram responsáveis por apreensões antes da queda do Lorde das Trevas. O ataque veio da fome por vingança. — Explicou Dumbledore. Snape sentiu um golpe no estômago; relembrar o seu passado como um Comensal fazia o fantasma da culpa dentro de sua alma gritar ainda mais alto.

— Diretor, o Senhor sabe que não tenho mais nenhuma relação com...

— Severo, não é necessário que me reafirme que não está mais caminhando ao lado daqueles que escolheram o mal, confio em sua pessoa e em sua redenção. — Dumbledore abriu um sorriso para Snape, que ainda permanecia tenso, sem perceber o quanto suas mãos doíam em estar apertando os braços da cadeira. — Edward sofrera um ataque cruel em sua residência, e Macnair e Rowle foram maldosos o bastante em procurar por seu ponto mais fraco, a filha. — Dumbledore tornou a escrever. — Macnair e Rowle foram cruéis o bastante para usar a maldição Cruciatus na garota, o que lhe causou diversos danos. Edward não sente que Beauxbatons é um local seguro para a filha agora no momento, e por isso veio até mim.

— Ela virá para Hogwarts, presumo?

— Sim, ela virá para Hogwarts. Edward acredita que sobre meus olhos ela estará mais segura. Acredita também que nosso método de ensino será ideal para o estado da menina. Mas ele e Margot estão extremamente preocupados com a filha, pois os danos da maldição a transformaram em uma nova pessoa, cheia de medos e inseguranças, incapaz de enxergar a luz do dia novamente. — Dumbledore terminou de escrever. — Sabemos que a Oclumência é ideal para recuperar a mente de um indivíduo que sofre os danos da maldição Cruciatus. E precisarei de você para isto, Severo. Preciso confiar em você para este serviço ao meu prezado amigo.

— O Senhor sabe que a Oclumência depende principalmente da força de quem a pratica, Diretor.

— Precisarei que seja paciente, Severo. Ambos os pais estão desesperados. É uma boa garota, notas e comportamento exemplares em Beauxbatons. Sei que não será um fardo para você.

— Eu — Snape não sentia conforto diante daquela responsabilidade; não acreditava que era a pessoa certa para uma tarefa em que teria de reverter algo feito por aqueles que um dia chamara de companheiros. A fantasma da culpa, que o acompanhava com fome por sugar toda sua vitalidade, não permitia que Snape tivesse a esperança de que poderia ser bom para alguém ou alguma coisa; por que ele poderia salvar uma garota, sendo que tudo o que fizera nos últimos anos de sua vida fora arruinar tudo o que era puro? — Eu não sei se poderei ser de serventia para o problema, Diretor.

— Severo, eu sei que muitas feridas em você ainda não foram cicatrizadas. — Disse Dumbledore; O diretor olhava para Severo como se pudesse o enxergar por detrás de sua pele, ossos e órgãos. E Snape estava certo; Dumbledore realmente sabia muito bem o que se passava ali dentro dele. — Mas estou lhe dando chances para você poder provar que fez a escolha do caminho certo. Não para mim. Mas para você mesmo.

Snape ficou em silêncio por um breve tempo, desviando seus olhos de Dumbledore e pousando seus olhos em seus sapatos de couro preto. Ele não gostava da maneira que muitas vezes o diretor lhe olhava, como se soubesse exatamente tudo o que pensava e sentia. Desde que conseguira o perdão de Dumbledore, criara com ele uma relação que nem mesmo Snape tivera com seus pais; fazia muito tempo em que ele não se entregava para outra pessoa, abrindo as portas de sua vida, vulnerabilidades, anseios e sensibilidades. Lily era a única pessoa que tivera acesso a quem Snape realmente era, e após tanto tempo, não sabia mais como ser uma porta aberta.

— Severo, sei que é capaz de fazer coisas boas. — Disse Dumbledore, de uma maneira que fazia parecer que tentava tocar o coração frio e fechado em milhares de chaves que Snape carregava dentro do peito. — Não faça o trabalho somente como meu funcionário, mas faça pelo alguém que está dentro de você.

— Eu aceito. — Snape disparou, voltando os olhos ao diretor, sem dar tempo para pensar em qualquer saída de emergência para fugir do pedido de Dumbledore. — Eu irei ajudar a garota.

— Você fez uma ótima escolha, Severo. — Dumbledore abriu ainda mais o sorriso, fazendo aparecer pequenas fendas em seu rosto envelhecido, ainda percorrendo seus olhos em Snape como se o analisasse em camadas profundas. — Bem, agora preciso entregar uma carta para Edward, pedindo para que venha aqui ainda hoje à noite. Faremos uma breve cerimônia para a seleção da garota para uma das casas. E irei precisar de você presente, Severo. Será bom para que Edward o conheça.

— Estarei aqui se é de sua vontade, Diretor.

Snape deixou a sala de Dumbledore sentindo-se assombrado por seus fantasmas do passado. Naquela manhã, além de ter aberto seus olhos após um terrível pesadelo com sua mais dolorosa memória, precisou reviver de maneira indireta os feitos terríveis daqueles em que, um dia, foram seus companheiros, dentro de uma fé cega e imoral; ser um Comensal da Morte lhe parecia ser um título do qual sentiria orgulho por ter, muitos anos atrás, quando ainda era um jovem cheio de ânsia por encontrar seu lugar no mundo. Pouco Snape sabia que encontrara um aconchego especial ao lado de Lily, mas preferiu entregar-se para as artes das trevas. Snape estava cego demais para enxergar tudo o que fosse sutil e inocente, bem debaixo de seu nariz. Nunca tivera um teto sólido e sem buracos, e sempre sentira a tempestade e seus raios caírem em sua cabeça, desde pequeno; não tinha uma casa para chamar de sua; não era pertencente a nenhuma família cheia de abraços calorosos para dar, nem a nenhum coração pulsante. Caminhando pelos corredores de Hogwarts naquela manhã chuvosa e cinza, Snape parecia ver cenas do passado, enxergando a si mesmo, jovem, encolhido, curvado, caminhando, só, fugindo de seus medos e detestando a si mesmo por não ser bom o suficiente como James Potter. Snape pensava que se não era bom o suficiente por todos aqueles em que um dia suplicara para ser amado, seria bom então para a dor. E em um pensamento masoquista, afundado em seu próprio oceano azulado e escuro, Snape colocou seus pés em uma estrada sem destino, e deu suas mãos para aqueles sem piedade no coração. E não havia um dia em que ele não desejasse matar sua culpa, a silenciar, a mandar embora e para longe para sempre, ficando finalmente em paz e livre de seus fantasmas e apunhaladas afiadas.

O dia se passou e Snape ouvia a voz de Dumbledore em sua mente feito uma trilha sonora de uma festa fúnebre para um cadáver solitário; ''Severo, sei que é capaz de fazer coisas boas'', dizia a voz. Snape poderia tentar cavar seu corpo e sua alma e ainda assim, duvidaria de si mesmo e de sua capacidade de ter algo vivo ou bondade ali dentro. Sentia-se preso em sombras, e elas os acompanhava em todos os lugares em que ia, principalmente durante a noite e na hora de dormir. As sombras eram irmãs dos fantasmas em sua mente, o assombrando todos os dias e todas as noites, o fazendo detestar a si mesmo. Seus pais o detestavam; Lily Potter o detestava; seus alunos o detestavam e nem mesmo conseguiam sentir a vontade de serem bons e terem afinco em sua matéria, pois sabiam muito bem que Snape estava ali somente para os preencher de grosserias, e nada mais. Snape sabia muito bem o que diziam pelos corredores e dormitórios das casas de Hogwarts; ''Snape é o pior'', ''Eu não suporto as aulas do Professor Snape'', ou ''Snape é desprezível''. Quem depositaria fé em um homem como ele?

No jantar, Snape pouco conseguiu comer. Estava exausto após cinco aulas e uma detenção de um dos seus piores alunos, Marco Young. Snape não suportava Young, nem mesmo olhar para ele; A cada momento em que seus olhos passavam pelo garoto, via James Potter perfeitamente em sua frente, em carne, osso, óculos ovalados, vestes da Grifinória e arrogância. Pelo menos naquela segunda-feira chuvosa e cinza, Snape tivera o gosto doce em ver Marco Young se contorcer de cansaço após lavar todos os caldeirões usados do final de sua aula de poções. Um dos fantasmas que também acompanhava Snape era o fantasma de James, em memórias amargas de sua voz lhe gritando ''Ranhoso!'', e seu sorriso satisfeito em o ver gritar, pendurado no ar de ponta-cabeça. Não existia um dia sequer em que Snape não se arrependesse de ter se sentado com Lily no mesmo vagão em que James Potter e Sirius Black; Ele deveria ter a puxado pela mão e ido embora dali, ou talvez ter inventado qualquer desculpa. O que mais frustrava Snape era saber que desde pequeno, quando sentia em que agarrara a felicidade com suas mãos, logo via que tudo não passava de uma momentânea ilusão.

Nove horas da noite e enquanto descansava em seus aposentos, Snape recebeu a visita de Nick-Quase-Sem-Cabeça, que o avisou que Dumbledore o queria em sua sala. O fantasma não poupou palavras em revelar seu descontentamento com o fato de que uma nova aluna de Hogwarts havia sido selecionada para a casa da Sonserina. Snape logo presumiu que Nick-Quase-Sem-Cabeça falava a respeito da tal garota corrompida pela maldição Cruciatus.

— Uma garota brilhante! Com toda a certeza seria mais feliz na Grifinória.- Resmungou Nick-Quase-Sem-Cabeça, atravessando a parede do quarto de Snape e sumindo.

— Da próxima vez, bata, ou nem pense em atravessar minhas paredes! — Gritou Snape, fazendo questão de ser alto o suficiente para que Nick-Quase-Sem-Cabeça escutasse sua voz. — Você tem sorte em já ser um fantasma!

Andando rapidamente e fazendo suas vestes esvoaçarem pelo ar, Snape foi ao encontro de Dumbledore. Durante o caminho, abotoando alguns dos botões de suas vestes, fora pensando na escolha do Chapéu Seletor; ''Uma garota fragilizada na Sonserina?'', pensou. Uma das poucas motivações que Snape tinha em vida era a de ser diretor da Sonserina, posição lhe confiada por Dumbledore, e que exercia com grande orgulho. Não estava acostumado com a fragilidade, pois a vida sempre o fizera ser uma rocha que nunca poderia se quebrar; Mas Snape fora quebrado tantas vezes, que já nem mesmo sabia qual era a sensação de ser algo quebrado. Na verdade, já não sabia a sensação de mais nada. Caminhando pelos corredores, via de canto de olho os rostos dos alunos se voltando para sua presença. Alguns lhe olhavam com curiosidade, outros com medo. E se a garota o temesse? Até mesmo Lily passou a o temer. Durante toda sua juventude, Snape sonhou em ser temido, e jurou a si mesmo que todos aqueles que um dia lhe apontaram dedos e lhe diferiram risos debochados e maldades iriam se curvar diante de sua grandeza. Mas tudo o que Snape fez fora afastar qualquer possibilidade de sentir e viver o que ele nunca conheceu, mas, no fundo, sempre desejou: Algo que nunca tivera de sua mãe, nem pai...nem mesmo Lily.

Chegando diante da escadaria para a sala de Dumbledore, Snape procurou recompor seu corpo preso em tensão; falou a senha, e logo começou sua subida em espiral. Ao subir, seus olhos pousaram em Dumbledore, que estava sentado como de costume em sua cadeira dourada e, do outro lado da escrivaninha, em frente ao diretor, Snape pôde ver um homem. Ambos conversavam em voz baixa, como se não quisessem ser ouvidos. Presumiu que, provavelmente, aquele homem era Edward Dubois. Dumbledore, ao ver Snape, levantou-se imediatamente de sua cadeira; O diretor agora usava um robe verde escuro, decorado com desenhos de luas e sóis dourados, combinando com seu pequeno chapéu de borlas. Snape aproximou-se em passos vagarosos.

— Diretor, o Senhor solicitou minha presença? — Perguntou Snape, anunciando sua entrada. O homem ali sentado em frente a Dumbledore se virou para ver quem era o dono daquela voz; Ele tinha um rosto magro, cabelos ralos e grisalhos, um nariz longo e de ponta arrebitada e olhos grandes e azuis tão claros que poderiam ser confundidos com pedras de cristal.

— Ah, Severo! — Dumbledore abriu seus braços e por algum momento Snape pensou que seria abraçado pelo diretor. — Venha, sente-se. — Dumbledore disse, cordialmente. — Edward, aqui está Severo!

— Oh — O homem, que realmente era Edward Dubois, se levantou da cadeira onde estava sentado e esticou seu braço para cumprimentar Snape. Ele vestia um suéter verde escuro e um longo casaco azul feito do couro de algum tipo de animal. Snape pode notar um relógio de bolso prateado caindo para fora do bolso do casaco do homem, e notou também que os ponteiros eram feitos de pedras cravejadas e esverdeadas. Deveria ser muito rico. — Eu nem mesmo sei como lhe agradecer. — Disse o homem, e enquanto se cumprimentavam, Snape notou que Edward tinha um leve sotaque francês na fala. — Saiba que lhe sou agradecido desde este exato momento!

— Prazer em conhecê-lo.- Cumprimentou Snape, soltando a mão de Edward após algumas chacoalhadas. Snape sentia-se terrivelmente ridículo diante de interações sociais, como se fosse uma criança com medo de gente.

— Minha garota é Sonseira. Sonserina!— Vibrou Edward, arregalando seus grandes olhos azuis. Parecia tentar conquistar o apreço de Snape a qualquer custo. — Eu tenho certeza absoluta que ela trará muito triunfo para a sua casa!

— Eu estou sabendo da notícia. Sir Nicholas fez questão de me avisar sobre, sem nem mesmo anunciar a sua chegada antes de atravessar a parede de meus aposentos de maneira extremamente invasiva e inadmissível. — Disparou Snape, juntando suas mãos atrás de suas costas. — Por favor, Diretor, da próxima vez, seria agradável ser avisado de outra forma.

— Eu peço desculpas, Severo. Não havia outra maneira mais rápida de lhe convocar. Ah, por favor, sente-se. Temos algumas coisas para conversar. — Disse Dumbledore, indicando com a mão para Snape uma cadeira de madeira escura ao lado de uma alta estante de livros velhos e empoeirados. Snape logo se sentou, e Edward fez o mesmo.

Snape era um alguém muito observador e logo notou o estado extremo de nervoso em que Edward Dubois estava sucumbido; O homem balançava suas pernas rapidamente e, sobre elas, passeava com as palmas de suas mãos, para frente e para trás. Snape reconhecia muito bem um corpo cheio de medo quando o via; por muitos anos, o medo fora sua ferramenta favorita, e ali ele tinha certeza de que aquele homem estava suplicando por salvação, amedrontado, sendo dilacerado em pavor. Dumbledore pegou uma garrafa de vinho sobre a escrivaninha, em sua direita, e serviu a taça dourada de Edward, que agradeceu milhares de vezes, fazendo reverências curtas ao curvar suas costas ao diretor.

— Está servido de uma taça de vinho, Severo? — Perguntou Dumbledore, mostrando a garrafa de vinho para Snape. Snape negou com a cabeça.

— Não, eu agradeço. — Respondeu Snape. Edward Dubois, antes de dar um gole de sua taça, brindou no ar para qualquer coisa invisível ali e disse qualquer palavra em francês, bem baixinho. O homem realmente sucumbia em desespero.

— Bem, hoje a noite a Senhorita Dubois veio acompanhada de Edward e sua mãe até minha sala para nossa cerimônia de seleção para as casas. Ela está sob sua responsabilidade agora, Severo. É uma Sonserina.- Disse Dumbledore, calmamente, enquanto Edward nem mesmo tirava seu rosto da taça dourada. — Acredito muito no Chapéu Seletor e sei que ele tem motivos certeiros para a seleção de Delyssie.- E Dumbledore olhou para Snape por cima de seus óculos meia-lua. ''Delyssie era o nome dela'', pensou Snape.

— São poucos os que são selecionados para a Sonserina. Presumo eu que deve ser uma garota de muitos talentos. — Disse Snape. E caso a garota fosse um problema, ele seria o primeiro a dar um jeito para a ver fora dali, ele pensou. E logo após o pensamento indelicado, repreendeu a si mesmo por ter o deixado passar por sua mente.

— Ah, ela é sim, ela é sim! Minha Delyssie é tão preciosa quanto qualquer relíquia existente! — Vibrou Edward, com um sorriso no rosto e lábios manchados de vinho. Mas logo seu rosto se fechou e foi tomado por uma expressão onde se podia ali ver dor. — Eu somente quero a ver bem...É tudo o que eu quero. Que ela volte ao o que era antes...

— E ela voltará, Edward, eu lhe prometo! — Disse Dumbledore, com um tom de voz que parecia querer amaciar o coração de Edward. — Tenho minha total confiança no Professor Snape. A arte da Oclumência irá ser a melhor saída.

— Por favor — Edward largou a taça sobre a escrivaninha, derramando um bocado de vinho sob a madeira dourada. Virou-se para Snape, os olhos azuis agora nublados por lágrimas. — Por favor, salve minha garota...

— Irei fazer o possível, Senhor Dubois. A Oclumência poderá bloquear a mente de sua filha contra os traumas deixados como marcas em sua mente. — Disse Snape. Reparou que Edward o olhava como se ele fosse alguma espécie de mártir, salvador; não sabia como se portar diante de um homem desesperado e quase em prantos, e sentia-se desconfortável diante da situação. Snape não estava acostumado com lágrimas, nem mesmo com as dele mesmo.

— Ela é uma boa menina...É inteligente, é cheia de talentos! A ver chorosa por todos os cantos faz meu coração ser destruído em pó...Eu e Margot confiamos nossa filha a vocês. — Disse Edward, choroso, limpando as lágrimas de seus olhos com suas grandes mãos cheias de anéis.

— Em Hogwarts ela estará segura. Com Snape como seu Oclumente ela irá voltar para você, Edward, como uma nova garota. — E Dumbledore abriu um sorriso, esticando os braços sobre a escrivaninha, alcançando o ombro esquerdo de Edward e lhe dando ali algumas palmadinhas. — Confie, homem! Está tudo bem!

— Eu agradeço muito. — Agradeceu Edward, mostrando um sorriso fraco em seu rosto visivelmente cansado pela tristeza. Snape apenas permanecia em silêncio, observando as lágrimas que não paravam de brotar nos olhos daquele homem de meia-idade e em desespero pela filha. Por alguns segundos, Snape invejou aquele homem; Todos os que conhecia tiveram o direito de seguir suas vidas, com suas mulheres e famílias, podendo sacrificar qualquer coisa por elas. Por que com ele fora diferente? Por que com ele tudo sempre fora tão difícil? Por que com ele todas as coisas da vida pareciam estar amarradas em cordas impossíveis de serem cortadas?

— Severo, a garota Dubois irá ter sua permanência no último ano letivo. Tenho aqui um histórico com as notas de Delyssie, e todas me parecem formidavelmente brilhantes! — Disse Dumbledore, pegando um pergaminho enrolado em fita azul que estava em cima de sua escrivaninha e o esticando com seu braço até Snape.

— Minha menina é uma mente brilhante! — Exclamou Edward, ainda com a voz trêmula. — E é formidável em poções! Desde pequenina, ela adorava pegar os caldeirões da avó e misturar tudo o que visse pela cozinha de minha esposa ali dentro! — E deu uma risada gostosa. Snape pode ouvir o som do amor naquele riso.

Snape abriu o pergaminho e viu ser um histórico escolar da Academia de Magia de Beauxbatons, logo ao notar o emblema dourado, cheio de arabescos, e com um ''B'' no canto esquerdo e superior do papel. Passeou seus olhos por cada nota e realmente eram exemplares. A garota não havia sido selecionada para a Sonserina à toa, pensou Snape. Mas logo seus olhos se atentaram ao último ano letivo da garota, cujo qual ela somente fizera até o segundo bimestre; suas notas haviam caído drasticamente.

— Presumo que a Senhorita Dubois somente cursou o ano passado até o segundo bimestre...- Observou Snape.

— Sim...Foi um pouco depois de...Tudo acontecer...- Disse Edward, com a voz embargada. — Ela tentou retornar para a Academia, mas tudo piorou...

— As notas caíram drasticamente. — Comentou Snape, passeando seus olhos por todos os zeros marcados ali. — Espero que a Senhorita Dubois possa recuperar suas notas pois notas são requisitos primordiais para o triunfo de uma casa em Hogwarts. E também temos o NIEM— Mas antes que Snape pudesse completar sua frase, levantou os olhos do pergaminho e reparou Dumbledore o olhando com pavor, e logo depois com reprovação. Snape logo entendeu que deveria ficar calado, mesmo não compreendendo o que havia dito de tão absurdo.

— Nós seremos pacientes para que ela alcance o triunfo dentro da melhor maneira possível, certo Severo?— Assegurou Dumbledore, quase dando uma evidente piscadela para Snape.

— Sim...- Snape respondeu, agora olhando para Edward e vendo que o homem já derramava suas lágrimas em silêncio novamente.

— Edward, faça questão de que Delyssie descanse hoje. Amanhã ela terá um grande dia, e lhe asseguro que estaremos ao lado dela para a encaminhar em Hogwarts. Não se esqueça — Dumbledore levantou-se de sua cadeira e caminhou até Edward. Snape continuou compenetrado no histórico escolar da garota, e deparou-se com notas excepcionais em Defesa Contra as Artes das Trevas, desde seu primeiro ano escolar; os alunos da Sonserina costumavam ser muito bons na matéria, assim como os da Corvinal, mas não tão bons quanto aquela garota. — Tudo está sob controle, Edward. — Completou Dumbledore, colocando suas grandes mãos sobre os ombros magros de Edward. Ambos os amigos se abraçaram rapidamente, enquanto Edward agradecia milhares de vezes em um tom de voz choroso e gaguejante.

— Foram cruéis demais com ela, Albus.- Lamentou Edward, choroso, apoiando suas mãos sob os ombros de Dumbledore, como se a qualquer momento fosse desabar no chão. — Não era necessário...Não era! Que torturassem a mim! Não ela!

— Delyssie será uma mulher mais capaz de enfrentar qualquer perigo da vida após o que ela passou. E a mostraremos como encontrar sua força. — Disse Dumbledore, procurando acalmar Edward, que parecia reviver em sua mente cenas de horror. Snape bisbilhotava a cena dos dois amigos ao levantar os olhos do pergaminho algumas vezes, mas logo voltava sua atenção para as notas da garota. Não se sentia bem quando estava envolto em emoções, fossem dele ou de outros; Emoções era algo que tentava evitar a qualquer custo. Tudo o que sentira na pior noite de sua vida em Godric's Hollow já havia sido o bastante para nunca mais querer sentir qualquer coisa novamente. Talvez fosse esse o motivo para suas vestes terem tantos botões; O medo de deixar qualquer sentimento penetrar sua alma era aterrorizante.

Após mais alguns bons minutos de conversas sendo jogadas fora, Dumbledore se despediu de Edward. Snape assegurou ao homem mais uma vez de que faria o possível para ajudar sua filha, quase obrigado pelos olhares através dos óculos de meia-lua de Dumbledore, que o colocava nos eixos para que agisse como o ''perfeito e zeloso professor''. Edward se despediu com milhares de cumprimentos e apertos de mão, o que irritou Snape consideravelmente, já que tanto contato físico não lhe agradava nem um pouco. A sala de Dumbledore foi tomada por um silêncio repentino, mas onde eram audíveis os pensamentos gritantes de Snape.

— A escolha é sua, Severo. Sabe que não estou lhe obrigando a nada. — Dumbledore cortou o silêncio, mais uma vez olhando para Snape com seus olhos que viam através de pele, ossos e entranhas.

— Eu irei ajudar a garota, como lhe prometi. — Snape manteve seus olhos nos de Dumbledore por poucos segundos, pois não queria demonstrar o quão frágil se sentia naquele momento; já havia decidido consigo mesmo que estava satisfeito em passar os anos de sua vida em Hogwarts, escondendo-se entre sua sala de aula e seus aposentos, aguardando pelo dia em que finalmente a morte viria o ceifar. Snape não abria as portas e janelas de sua vida para ninguém, e abotoava suas vestes como se fosse uma armadura de ferro onde nenhuma emoção ou sentimento pudesse o atingir e o penetrar. Todas as vezes em que Snape abrira sua vida para outros, fora ferido; ninguém o enxergou como ele realmente era, e ninguém quis o compreender ou aceitar suas dores. Estava condenado a padecer junto de seus fantasmas e também estava condenado a viver sendo dono de uma alma adoecida pela amargura da vida, cheia de feridas não cicatrizadas, fugindo de qualquer toque doce ou crença de boa fé.

— Severo, quero que entenda que você também é capaz de trazer luz. Salvar vidas. — Dumbledore começou a se aproximar de Snape, caminhando vagarosamente. — Teus dons sempre me impressionaram, desde que é menino. Eu via em você um menino com um futuro brilhante, ambicioso, tendo a glória e todas as capacidades em suas mãos. Você fazia jus a sua casa, Severo. O Chapéu Seletor não errou em momento algum em sua escolha. Quando o vi escolhendo os caminhos errados, senti uma imensa dor por você. Senti uma imensa dor por alguém que poderia ter um destino diferente. — E Dumbledore observava cada detalhe no rosto de Snape, procurando ali o menino franzino que conhecera anos atrás, agora envelhecido pelos anos e dores da vida, mesmo ainda sendo jovem. — Estou lhe dando uma chance para que acredite que pode fazer muito mais do que caminhar entre as sombras. E gostaria muito de ver sua crença em si mesmo.

— Estou bem onde estou, Diretor. — Retrucou Snape, entendendo e acolhendo muito bem cada palavra de Dumbledore dentro de seu coração, mas novamente, impondo sua armadura invisível de ferro ao seu redor e fingindo que nada o penetrava naquele momento.

— Precisarei que seja forte. Precisarei que tenha fé em si mesmo. Precisarei que acredite que é capaz de cultivar algo tão maior quanto a força usada em um feitiço. — Disse Dumbledore, sem deixar de encarar Snape, que não tinha coragem de olhar o diretor nos olhos. — Precisaremos, pois não sei o que irá vir em nosso caminho, Severo.

— O que quer dizer?

— Quero dizer que você sabe que no ano que vem, o menino Potter estará aqui. E você também sabe que são reais os rumores...

— De que o Lorde das Trevas está para voltar? — O estômago de Snape dava cambalhotas ao precisar tocar no nome daquele que arruinara sua vida. O gosto amargo da azia subia por sua garganta até sua boca.

O Lorde das Trevas voltará. Aqueles que bebem da insanidade por poder não desistem...- Dumbledore falava em um tom mais baixo, como se Você-Sabe-Quem pudesse estar ali, naquele exato momento, escutando toda aquela conversa. — Existe algo, Severo. Existe algo que ele fez, mas que ainda não sei o nome. E aquela noite trágica da morte de Lily e James, algo também aconteceu. Algum dia tipo de magia que ainda desconheço..., mas suspeito.

— E o que quer de mim? — Snape agora olhou para Dumbledore, realmente querendo saber qual seria a resposta do Diretor, faminto por entender se poderia ter alguma serventia, afinal.

— Como eu lhe disse, Severo...O Lorde das Trevas voltará. E precisarei que esteja de acordo e seguro com o caminho que precisará escolher. — Dumbledore abaixou ainda mais o tom da voz. Snape sentiu um frio percorrer seu corpo e o paralisando por alguns segundos. — Preciso que entenda que é capaz de produzir luz, Severo. Preciso que entenda qual é o caminho a percorrer.

— Eu entendo. E entendi. — Respondeu Snape, compreendendo muito bem o que Dumbledore quis lhe dizer. O rosto de Lily brotou em seus pensamentos feito uma flor a desabrochar, e seu sorriso tão doce guardado a sete chaves em suas memórias lhe deu um cálice cheio de coragem, fazendo o frio que sentia ir embora. — Eu já fiz minha escolha. Por...Por ela.

E em um impulso, sem pensar, Snape virou as costas para Dumbledore e se retirou de sua sala, sem olhar para trás. Não queria prolongar aquela conversa com o diretor, assim como também não queria demonstrar o quanto estava frágil. Era humilhante demais para Snape demonstrar qualquer fragilidade sequer. Prometera para si mesmo, desde o dia que deixara a casa de seus pais, que nunca mais permitira qualquer pessoa o enxergando como o ''fraco'', o ''incapaz''; Em Hogwarts, dava cada gota de magia de seu corpo para provar a si mesmo e para todos que os limites não existiam para ele. Quanto mais se aprofundava nas Artes das Trevas, mais as cabeças se abaixavam diante de sua presença. Ser frágil, para Snape, era ilegal, inadmissível, quase como uma maldição ou um copo de veneno que não deveria ser ingerido. E o que mais lhe frustrava nos últimos anos de sua vida, ele estava cada vez mais bebendo daquele copo, e permitindo ser envenenado.

Caminhando em passos rápidos de volta para seu aposento nas masmorras, Snape topou com dois alunos que estavam fora de suas camas, desrespeitando o horário de recolhimento. Rapidamente, iluminou a ponta de sua varinha com Lumus e pôde ver os rostos assustados do garoto e da garota, ambos da casa Corvinal. Snape abriu um sorriso irônico no rosto, pois se tinha algo que lhe dava prazer, era poder instaurar a ordem em Hogwarts, e colocar todos aqueles que desrespeitassem as regras em seus devidos lugares. Enquanto enchia seus pulmões para aterrorizar os alunos, sentiu um alívio por algo ter acontecido, o afastando do fantasma de sua fragilidade, e silenciando seus pensamentos que rodopiavam feito pequenos furacões em sua mente.

— Senhorita Green. Senhor Cooper. — Snape quase enfiava sua varinha no nariz batata do garoto da Corvinal, cujo rosto se contorcia em terror. — O que fazem fora de suas camas? — Mas antes que a garota, Louise Green, pudesse dizer algo, Snape colocou a ponta da varinha iluminada na direção de seu rosto cheio de sardas. — Eu não quero ouvir. Menos dez pontos para a Corvinal. Voltem agora para seus cômodos antes que a penalidade para vocês e seus espíritos aventureiros seja pior.

Os dois jovens da Corvinal saíram em disparada de volta para suas camas, aterrorizados pelo morcego preto na escuridão que era a imagem de Snape naquela noite, onde somente seu rosto pálido podia ser visto meio a penumbra dos corredores de Hogwarts já não mais iluminados pelo fogo nas arandelas. Snape se deliciava dos pequenos momentos onde podia sentir que era respeitado, mas nos últimos tempos, saber que o motivo de respeito de todos para com ele vinha somente do medo, o incomodava feito uma agulha o cutucando em sua cabeça, afiada e irritante. Muitas coisas incomodavam Snape, assim como muitos questionamentos atormentavam sua mente. Mas não queria dar ouvidos para nenhum deles, nem mesmo queria ouvir seus fantasmas, e cuspiria todo o veneno do copo que bebia, mesmo sem querer.

Naquela noite, Snape demorou para dormir. Os fantasmas estavam ali: A culpa; a fraqueza; James e Lily Potter; Você-Sabe-Quem; o bebê Potter que, agora era um garoto crescido e em um ano estaria ali; Memórias felizes do passado; Arrependimentos; E o pior de todos os fantasmas, o fantasma do medo. Eram nos momentos antes de dormir em que Snape os escutava claramente, voando ao redor de sua cama e assombrando seus sonhos. Ali, no escuro de seu quarto nas masmorras, Snape não acendia nem mesmo uma vela. O escuro se camuflava junto de sua alma, e era onde conseguia se esconder, junto de todos os fantasmas. Pensava muito em cada palavra dita por Dumbledore; O diretor sabia de algo, mas não fazia ideia do que era. Algo relacionado ao Lorde das Trevas, pensou Snape, sentindo a tensão dominar todo o seu corpo, mesmo deitado em sua confortável e quente cama. Os pensamentos não queriam que ele dormisse, nem mesmo os trovões que soavam seus urros na noite chuvosa daquele final de segunda-feira. Snape fechou os olhos e respirou fundo. Como um Oclumente como ele conseguia permitir que sua mente fosse atacada daquela maneira? O que estava acontecendo? Por que estava permitindo ser fraco?

Snape somente conseguiu adormecer após ingerir uma dose de seu frasco de Poção do Sono. Fora a poção mais usada por ele desde a morte de Lily. Naquela noite, Snape não sonhou com absolutamente nada, ou simplesmente sua mente apagou qualquer informação que tenha visto durante seus sonhos. Mesmo após uma noite profunda de sono, Snape acordou na manhã seguinte sentindo-se arrebatado e com a cabeça ainda dolorida. O seu relógio tocou seus sinos delicados quando era exatamente seis horas da manhã, e para sua surpresa, o sol se mostrava presente naquela terça-feira, mesmo após um dia tão cinza e chuvoso. Snape se levantou de sua cama e começou a preparação para mais um dia igual a todos os outros de sua vida. Nenhum gosto doce, nem mesmo agridoce; somente viver e esperar a chegada da morte para o ceifar.

Severo Snape.- Uma voz soou alta do lado de fora da porta do cômodo de Snape. — Severo Snape!- Snape, terminando de colocar suas vestes, correu até a porta de madeira escura de seu cômodo. Logo reconheceu ser a voz de Nick-Quase-Sem-Cabeça.

— O que você quer? — Rosnou Snape, aborrecido com a presença do fantasma ali.

— Estou fazendo o que me foi pedido, Professor. Dumbledore me comunicou o quanto você detestou minha presença aqui na noite passada. Estou somente utilizando dos modos de vocês vivos, não atravessando as paredes. Se eu pudesse bater na porta, bateria. — Retrucou Nick-Quase-Sem-Cabeça, ignorando o mau-humor de Snape. — Dumbledore quer sua presença em sua sala.

— Agora? — Indagou Snape. Olhou para o relógio e agora ele marcava seis e cinquenta e cinco da manhã.

— Agora.

— Avise ele que já estou indo. — Pediu Snape, meio a um longo suspiro. Mas não obteve resposta. Snape destrancou a porta de seu cômodo e a abriu com violência, e viu que Nick-Quase-Sem-Cabeça não estava mais ali. Aliviado por não precisar ter mais interações com o fantasma, respirou fundo e colocou-se em caminho para a sala de Dumbledore.

Snape fez o mesmo caminho de sempre até a sala do Diretor, e desejando não ter nascido, também, como sempre. Chegando diante da grande escultura de Fênix, disse a senha em voz baixa, colocou seus pés sobre o primeiro degrau da escada espiral e iniciou sua subida, sendo levado até Dumbledore. Quando a escadaria parou seu movimento, Snape foi surpreendido pela imagem de uma sala de Dumbledore que estava cheia de gente; Três pessoas no caso, contando com o Diretor, mas para Snape, isso já era uma multidão povoada demais para seu gosto.

— Severo!— Anunciou Dumbledore, levantando-se de sua escrivaninha. Hoje ele não usava seus óculos meia-lua, e vestia um longo robe de veludo azul. Snape viu o homem e a mulher que estavam ali se virarem em sua direção e logo reconheceu Edward e, ao seu lado, uma bela mulher, alta, de cabelos loiros quase transparentes, olhos castanhos escuros e belas feições faciais. — Edward e Margot, aqui está ele.

Severrro Snape, muito prrrazer em o conhecer. Meu marrrido falou de sua pessoa parrrra mi.- Disse a mulher, mantendo suas mãos juntas na altura de sua cintura, observando Snape atentamente e em um tom de voz suave com palavras carregadas pelo sotaque francês. Snape sentiu um cheiro forte de perfume floral vindo do local onde Margot estava.

— Bom dia, Severo! — Cumprimentou Edward, sorrindo exageradamente para Snape, como sempre parecendo querer o agradar a qualquer custo. O homem titubeou ao estender a mão para cumprimentar Snape, mas logo desistiu de o fazer, retraindo o braço e fingindo pentear os fios de cabelo que caíam sobre a testa. Snape abriu um sorriso fraco no rosto e acenou com a cabeça; aquele sorriso era o máximo que conseguia esboçar em seu rosto.

— Severo, Edward e Margot estão aqui para deixar a filha em nossas mãos. O chamei aqui para que a encaminhe para sua Sala Comunal e para que explique o que precisar ser explicado. — Disse Dumbledore, calmamente. Snape apenas se mantinha em silêncio, parado diante do topo da escadaria espiral, sentindo os olhos de Edward e Margot o percorrendo por inteiro, o observando com uma certa curiosidade, como se fosse um animal enjaulado em exposição.

— E onde está a menina? — Perguntou Snape, crispando os lábios e mantendo sua postura enrijecida feito uma muralha impenetrável, ignorando os olhares de Edward e Margot. Mas logo Snape reparou que o casal fez um gesto em sua direção, chamando sua atenção; então, notou que seus olhos não estavam sobre ele, e sim, direcionados para algo ao seu lado esquerdo, exatamente onde se localizava a Sala de Estar de Dumbledore. Snape não demorou em se virar para a direção dos olhos de Edward, Margot e Dumbledore. E quando o fez, sentiu o chão desaparecer debaixo de seus pés.

Levantando-se de uma das poltronas de tecido vermelho, feito uma visão de suas memórias mais secretas tomando forma física em sua frente, Snape viu Lily. Piscou seus olhos uma, duas e três vezes; ainda via ali, em sua frente, parada e o observando com olhos doces e verdes, Lily. Mais uma vez, Snape piscou, pela quarta vez. Não conseguia esboçar reação alguma, nem mesmo falar algo ou compreender o que Edward e Margot diziam naquele momento; Era como se estivesse surdo, debaixo da água, flutuando em águas turvas, sentindo tudo ao seu redor rodopiar turbulentamente, enquanto seus olhos passeavam pelos cabelos cor de fogo daquela imagem de mulher em sua frente. Snape piscou pela quinta vez, sendo o movimento dos olhos o único que conseguia fazer. Agora, era nítido que ali não era Lily, mas sim, uma imagem impressionantemente semelhante a aquela que, um dia, fora a mais bela visão já admirada por ele. Ouviu agora, ao fundo, Dumbledore dizer algo, mas seus sentidos ainda não estavam unidos e funcionando normalmente para que pudesse compreender qualquer palavra dita. O Diretor dissera algo semelhante a ''Lysse'', ou ''Ísiê'', mas nem mesmo prestou atenção. Apenas tinha seus olhos — que mais pareciam duas pedras ônix banhadas por uma noite escura — focados naquela em sua frente. Causando uma onda fria que o atacou de seu estômago até seu coração, preenchendo todo o seu peito, aquela garota esboçou um sorriso tímido, iluminando ainda mais seu rosto de feições quase milimetricamente perfeitas.

Severo? — A voz de Dumbledore pareceu puxar Snape de volta para o momento onde seu corpo estava totalmente separado de sua mente, alma e emoções. Snape virou-se para o Diretor, abandonando a imagem daquela que o prendera para fora de seu eixo e o assombrara em questão de segundos.

— Eu... — Snape sentia como se tivesse feito uma longa viagem para longe de seu corpo, por muito tempo, e que agora finalmente havia retornado. — É a menina?

Delyssie, venha cumprimentar o seu Professor! — Pediu Edward, extremamente preocupado em agradar Snape, nervoso e esfregando os dedos das mãos uns nos outros. Snape não se virou para encarar aquela que estava ali atrás, mas sentiu no ar e em tudo em sua volta que ela se aproximava. Logo viu os cabelos longos e cor de fogo passarem por diante de seus olhos e parando em sua frente. Novamente, Snape sentiu que saíra de seu eixo. — É ele, querida! — E Edward apontou Snape com o seu dedo indicador. Snape desejou por alguns segundos, desesperadamente, que a garota não se virasse. Mas ela se virou.

Os cabelos cor de fogo flutuaram pelo ar, como se dançassem espalhando labaredas, enquanto o rosto daquela garota se virava novamente para Snape. O tempo pareceu se comprimir naquele momento, e os olhos verdes daquela chamada Delyssie encontraram os olhos de Snape. Agora, não havia mais como fugir. Snape condenou seus próprios olhos por estarem ali, sobre aquela jovem, tão pequena, mas ainda assim de braços e pernas longas; por um breve momento, olhou para Dumbledore buscando refúgio, procurando fugir das memórias de seu passado, mas reparou que o Diretor o olhava com seus olhos azuis que podiam ler além da alma. Snape fora descoberto, e sabia muito bem que Dumbledore podia ler seus pensamentos naquele exato momento, a medida em que procurava qualquer ponto na sala para ser olhado, todos, menos a garota em sua frente. Edward se aproximou da filha junto de Margot, e a envolveu em seus braços.

— Ele também é o diretor de sua casa Sonserina!- Vibrou Edward, apontando para a gravata usada pela filha. Snape não conteve em baixar os olhos e viu que Delyssie já vestia seu uniforme da Sonserina. O verde se acomodava perfeitamente bem junto de sua pele extremamente pálida e de seus cabelos ruivos que caíam em seus ombros, formando pequenas ondas em suas pontas. Por alguns segundos, Snape jurou ver como seria se Lily tivesse o acompanhado para a Sonserina. Tudo teria sido diferente.

Bom dia, Professor Snape.— Disse Delyssie, acanhada pela postura impenetrável e dura de Snape, que tentava controlar ao máximo todas as ondas violentas de emoções que sentia naquele momento. Quando a jovem falou, Snape absorveu o tom de sua voz com cuidado em sua mente; Era macia, tímida, mas profunda, como se fosse tocada por notas médias de um piano. Em um terrível descontrole e deslize, Snape deixou seus olhos passearem até o rosto da garota, e agora não poderia mais negar que os pousara ali; Delyssie era dona de um rosto muito parecido com o da mãe, mas que era desenhado com lábios marcantes e olhos grandes, cheios de cílios; seu nariz era tão pequeno que Snape se fez a boba pergunta sobre como ela deveria conseguir respirar, já que aquele nariz parecia ter sido desenhado em delicados traços em uma folha de papel. Os olhos verdes de Delyssie encontraram os de Snape, mas ambos fizeram questão de os desviar; Delyssie, por timidez, e Snape, por culpa.

Bom dia— Respondeu Snape em um tom frio, curto e direto, calando suas emoções e controlando a si mesmo. O que a vida queria? Por acaso era mais uma tentativa de a vida debochar de sua dor? Por que colocar alguém que o remetia de seu passado bem em sua frente? Por que um Oclumente como ele permitia que sua mente fosse atacada por todas as emoções que um dia procurara matar, uma por uma?— Senhorita Dubois.- Completou Snape, após uma breve pausa, como se falasse em câmera lenta, sentindo-se amortecido. Para o terror de Snape, Delyssie sorriu, mas aquele sorriso não era parecido com o de Lily; existia dor ali, ele podia enxergar aquilo muito bem nas entrelinhas.

— Você irá ficar bem aqui, pequenina. — Disse Edward, não tirando os olhos da filha, e a apertando em seus braços. — Professor Dumbledore é meu velho amigo. Cuidou de mim em todos os meus anos aqui.

— Você estará segura em Hogwarts. — Dumbledore complementou, abrindo um sorriso cheio de afeto em seu rosto coberto pela barba cheia e prateada. — Hogwarts abre seus braços e acolhe qualquer um que a procurar com o coração em mãos.

— E Prrrrofessor Snape lhe ajudarrrá com suas questões, minha filhê.- Sussurrou Margot, passando seus dedos finos e longos pelos fios de cabelo de Delyssie. Snape notou que os cabelos de Lily eram de uma cor mais opaca que os da jovem ali, talvez mais escuros. Delyssie era dona de fios cor de cobre, onde parecia ter sido derramada uma bacia com uma quantidade considerável de sangue.

— Muito obrigada. — Agradeceu Delyssie, virando-se novamente para olhar para Snape, e o encarando com seus olhos grandes e verdes, ainda com timidez. Snape condenou aqueles olhos pela milésima vez naqueles poucos minutos em que estava ali, sempre sucumbindo em emoções ao pousar sobre eles, sentindo como se o fantasma de Lily estivesse ali para o lembrar de tudo o que causara um dia. Snape não respondeu, apenas direcionou seus olhos para Dumbledore, buscando uma fuga.

— Devemos ir agora, Diretor? — Perguntou Snape, procurando manter sua postura ainda inatingível, deixando sua postura ereta e o peito projetado para frente, como se procurasse ali construir uma barreira invisível entre ele e a jovem Delyssie. — Hoje terei um dia extenso e gostaria de estar em minha sala de aula para a preparar para as eventuais aulas. Se for possível...Eu não gostaria de atrasar meus horários...

— Ah, sim. Me desculpe, Severo. — Dumbledore aproximou-se de Edward, Delyssie e Margot, ainda com seu sorriso cheio de afeto estampado no rosto. — Senhorita Dubois, acredito que seja bom para você acompanhar seu Diretor e conhecer sua casa e rotina em Hogwarts. Agora.

Delyssie apenas afirmou com a cabeça, em silêncio, e logo olhou para o pai, e então depois, para a mãe, como se dissesse ''adeus'' através de seu olhar, agora preenchido por uma saudade precoce. E como se fosse um pássaro pego em uma gaiola por um caçador, Snape notou os olhos de Dumbledore ali, o observando, mas fazendo muito mais do que somente um olhar, mas sim, lhe dizendo algo. Snape entendeu muito bem o olhar do Diretor. Ali, era dito, ''Seja paciente...'', e também, ''Não seja tão duro, Severo'', e mais uma fala que estava ali, visível nos olhos azuis de Dumbledore, mas que Snape preferiria ignorar. Angustiado por estar tão exposto e transparente, Snape se precipitou na ponta do topo da escada, ansiando por as descer rapidamente e sair logo dali e de toda aquela obrigação. Por cima dos ombros, espiou Delyssie se despedir dos pais entre abraços e beijos demorados. Quando terminou, notou a jovem se aproximando e indagando se deveria ir com Snape.

Vamos. — Disparou Snape, sem olhar para trás, como se desejasse cortar a jovem em mil pedacinhos com seu tom de voz. E zarpou em sua descida pela escadaria espiral, rapidamente. Escutava o som dos saltos dos sapatos de Delyssie se apressarem conforme tentava acompanhar os passos rápidos de Snape. — Vamos para as masmorras, Senhorita Dubois. É onde fica sua casa. Aprenda o caminho. — Anunciou Snape assim que atingiram o último degrau da escadaria espiral.

Snape não ousava olhar para trás, mas sentia a presença de Delyssie, como uma aura densa feita de pétalas de rosa e tons de vermelho. Escutava o barulho dos pés da jovem, os saltos dos sapatos batendo contra o chão de pedra do largo corredor, já iluminado pela claridade da manhã. Mesmo diante de um dia cheio beijado por raios do sol que agraciavam Hogwarts, Snape sentia frio, muito frio; talvez fosse o éter de seus fantasmas internos que rodopiavam ao seu redor, o assombrando e berrando inúmeras palavras que já não queira mais ouvir. Snape apertou ainda mais seus passos, e também escutou os de Delyssie se apressarem. Ao fim do corredor, viraram para a esquerda para poder acessar as escadarias que desciam para as masmorras. O silêncio era a trilha sonora daquela caminhada que mais parecia uma maratona, onde o vencedor deveria ser Snape.

Descendo a escadaria feita de pedras escuras, o sol e seus raios desapareceram, e a escuridão tomou conta de todo o ambiente. Agora, Snape já estava no corredor principal da masmorra, escuro como sempre, somente iluminado por poucas arandelas de fogo. O frio grudado nas paredes e solo de pedras cor de petróleo atingia os corpos de Snape e Delyssie; A jovem imediatamente pareceu ser impactada pelo inverno que ali fazia, abraçando a si mesma em uma tentativa de se aquecer. Snape fora atingido por uma breve lembrança de Lily reclamando sobre o quanto estar nas masmorras lhe era desagradável; também lembrou todas as vezes que a levou ali e lhe contou todas as histórias de Salazar Sonserina, assim como também lembrou de todas as vezes em que expressou o quanto estava desgostoso por Lily ter sido selecionada para a Grifinória. ''Ela é sangue-ruim'', lhe dizia Avery, seu muito amigo nas épocas de estudante em Hogwarts; ''Uma sangue-ruim nunca seria selecionada para a nossa casa'', explicava. E Snape não deixava deslizar que era mestiço de um trouxa com uma bruxa.

Ali ao fundo, é a entrada para sua casa, Sonserina.- Disse Snape, fazendo sua voz forte e densa ricochetear entre as paredes de pedra, cortando o silêncio e até mesmo assustando Delyssie. Apontava com o dedo indicador para uma larga parede de rocha em um tom mais claro, onde podia ser visto o brasão talhado e decorado com uma serpente em pedras esverdeadas ali. — Sua casa será sua família durante sua permanência em Hogwarts. E também será sua responsabilidade. Qualquer desvio em suas virtudes e ações irão prejudicar consideravelmente a pontuação de sua casa e de seus colegas. Não queira me desapontar. — Snape sentia-se melhor despejando frieza naquela jovem, sentindo que assim, a manteria longe o bastante para que não perturbasse seus fantasmas inteiros. — Sou o Diretor de sua casa, e não seu fiel amigo. Não irei deixar passar despercebido qualquer deslize seu.- Snape fez questão de falar suas últimas palavras em uma velocidade extremamente vagarosa, frisando e pontuando cada uma muito bem.

— C-certo...- Gaguejou Delyssie, com a voz fraca e baixa, como se tivesse acabado de ser atingida por um punhal bem em sua garganta, a impedindo de produzir qualquer som. Snape respirou fundo e expirou, aliviado, sentindo que deixara bem claro que não era um amigo conselheiro e sim, alguém a ser respeitado.

— Quanto mais triunfo trazer para sua casa, mais as chances de ganharmos a Taça das Casas no final do ano. Sonserina sempre esteve à frente de todas as outras, o que não é uma novidade. Os selecionados para a Sonserina não são escolhidos por peitos cheios de ego inflado, arrogância, ou falsos mártires que pensam que na juventude podem ser os bruxos mais poderosos de todos os tempos, heróis de falsas odisseias.- E Snape sentiu o fantasma de James Potter surgir em sua mente, e logo o derrubou com todas as suas palavras cheias de amargura. — A Senhorita fora selecionada para a Sonserina por um especial motivo, suponho. Mas o Chapéu Seletor também erra, muitas vezes errou. Não me decepcione. Dê orgulho para sua casa. Honre a escolha que lhe foi feita.— E o peito de Snape se encheu de prazer por poder impor sua autoridade contra aquela frágil jovem. Não via nela motivos para ser uma Sonserina, mas talvez sim uma Lufa-Lufa. — Aqui, nesta parede, está a entrada.

— Certo...- Delyssie parou seus passos assim como Snape também parou os seus, olhando cada detalhe da parede em sua frente. Snape conseguiu sentir o medo da garota preencher o ar, assim como também percebeu sua respiração ofegante alta o bastante para ser ouvida.

Puro-sangue. — Disse Snape, quase em um sussurro. E a serpente feita de pedras verdes foi afundada na parede através de um mecanismo mágico, como uma alavanca; Ali, uma porta em formato retangular surgiu, também feita de pedra, e ela se abriu vagarosamente, revelando uma sala funda e repleta de tons esverdeados por todo o canto. — Entre.

Delyssie adentrou a Sala Comunal da Sonserina com receio e passos curtos, mas observando tudo ao seu redor. Snape colocou seus olhos sobre a garota, como se fosse permitido a olhar naquele momento em que ela estava em sua frente, sem ter sua atenção focada dele. Era como se visse Lily ali, deslumbrada com toda a magnetude Sonserina, passeando seus olhos por cada detalhe das paredes, tapeçarias e janelas. Snape também permitiu a si mesmo, por alguns segundos, contemplar a Sala Comunal, mais uma vez sendo arrebatado por memórias vindas do fundo de sua mente; sua primeira vez ali naquela sala lhe trouxera a sensação de finalmente pertencer a algo e algum lugar. Hogwarts e Sonserina eram os únicos lugares que realmente poderia chamar de casa.

— Eu...- Delyssie tinha medo de falar, talvez por timidez, ou talvez por estar intimidade com a presença imponente de Snape. — Eu sempre precisarei dizer a senha para entrar aqui, certo?

— Exatamente, Senhorita Dubois. A senha muda a cada quinze dias. Não deve ser compartilhada com nenhum outro aluno de nenhuma outra casa, e caso qualquer espertinho tente adentrar os aposentos da Sonserina, será devidamente castigado.— Pontuou Snape, voltando seus olhos para Delyssie, que agora concentrava sua atenção nas janelas que deixavam a mostra o tom azul-esverdeado do Lago Negro, onde as masmorras se localizavam em suas profundezas. — Acredito que suas bagagens logo estarão aqui. Antes, temos mais alguns assuntos pendentes para tratar. — Snape agora fora arrebatado pelos olhos verdes de Delyssie que se voltaram para os seus, quando a garota se virou repentinamente, o pegando com todas as suas guardas abaixadas. — Me siga até meu escritório. — E como se fugisse de um demônio, Snape voltou a caminhar em passos largos e apressados até seu escritório, ao lado da entrada para a Sala Comunal da Sonserina. Delyssie seguiu o professor, afobada.

Snape sentou-se em sua cadeira de couro preto, diante de sua mesa de madeira circular. Delyssie entrou em seu escritório ainda em passos delicados e vagarosos, quase silenciosa feito uma fada. Snape indicou para a jovem uma cadeira em sua frente, sem a olhar no rosto, apenas procurando manter sua concentração no que deveria ser feito. Delyssie se sentou, visivelmente acanhada, juntando suas pernas uma na outra e pousando suas delicadas mãos brancas feito neve em seu colo. Snape lutava para que seus olhos não fossem ao encontro daquele clone fantasmagórico de Lily que era Delyssie.

— Senhorita Delyssie, acredito que já saiba das regras de Hogwarts. — Disse Snape, procurando nas gavetas de sua mesa onde havia deixado os manuais de Hogwarts, presentes nas mãos de todos os professores ali na escola.

— Sim. Dumbledore já me deixou a parte de cada uma. — Respondeu Delyssie, agora fazendo sua voz soar um bocado mais forte, querendo assegurar ao Professor Snape de que não iria falhar ou o decepcionar, de maneira alguma. Snape finalmente encontrou os manuais, e pegou um, o dando para Delyssie.

— Aqui estão os horários de suas aulas, localização das salas e regras e condutas a serem seguidas. — Snape fixava seus olhos no manual feito de pergaminho amarelado pois assim, não precisaria olhar para a jovem. Ainda assim, o cobre dos cabelos de Delyssie gritavam para serem admirados. — Como eu lhe disse, não pense em desobedecer a nenhuma regra. Sou o Diretor de sua casa, e todas devem ser respeitadas. Não me importa se é uma Sonserina, não irei deixar de a castigar caso infrinja qualquer coisa que deve ser respeitada.

— Estou ciente, Professor. — Afirmou Delyssie. Snape sentiu os olhos da jovem o olhar com medo, e novamente, fraquejando, pousou os seus sobre os dela, sentindo faíscas de uma estranha emoção explodirem por todo o seu eu. Observou, ali nos olhos verdes de Delyssie, uma profunda tristeza, como se ela também carregasse os mesmos fantasmas que também carregava dentro de si, mas dentro dela. Imediatamente lembrou-se das sessões de Oclumência.

— A Senhorita sabe que irei lhe ensinar Oclumência.- Snape disse, procurando controlar a rispidez em sua voz. Algo nos olhos de Delyssie o fez retirar sua guarda de campo totalmente. — Acredito que saiba do que se trata?

— Sim. Papai e mamãe me explicaram. Dumbledore também. — Respondeu Delyssie. Uma aparente preocupação agora tomou conta de seu belo e delicado rosto, que recebeu a sombra de uma dor que provavelmente vinha de dentro de sua alma jovial. Snape reconhecia muito bem o carrasco frio que era o sofrimento, e ele estava ali, presente naquela jovem. Delyssie abriu seus lábios como se fosse dizer algo, mas não disse.

— Sim? — Indagou Snape, percebendo o som baixinho que saiu da boca de Delyssie, mas que logo foi silenciado por seu aparente receio de dizer qualquer coisa. A jovem respirou fundo, parecendo extremamente tensa, nem mesmo mover seu corpo na cadeira de couro preto.

— Professor — Os ombros de Delyssie subiram em um movimento de extrema tensão. Snape não conseguia descolar seus olhos dos dela, lendo cada movimento de suas bolinhas verdes cor de esmeralda. — Acha que...Acha que a Oclumência poderá me curar?— E Snape notou um desespero quase mortal escondido detrás de uma delicadeza falsa na voz de Delyssie. Existia muito medo e sofrimento ali, naquele corpo tão pequeno, e detrás daquela beleza tão etérea. Uma doçura invisível, acompanhada por uma onda de calor, vez acender uma pequena chama dentro do peito de Snape, impossível de ser apagada.

— Claro. — Respondeu Snape, suavemente. Surpreendeu-se com aquele calor que esquentava toda a frieza dentro de seu corpo rígido. Realmente não era Lily ali em sua frente, mas sim, Delyssie Dubois, alguém que poderia ser Lily após toda a dor que vira com seus próprios olhos no massacre em Godric's Hollow. Um pensamento breve voou pela mente de Snape feito um pássaro rápido; O pensamento de que, talvez, se Lily tivesse sobrevivido, teria de encarar uma vida preenchida de traumas e memórias torturantes. Talvez, a morte era o descanso e a paz que Lily tivera, pois não precisaria estar viva para viver com a dor do assassinato de seu filho.

— Está bem...- Suspirou Delyssie, agora pousando seus olhos no manual em suas mãos. — Nos encontraremos nas quartas e sextas?

— Sim. — Respondeu Snape, mais uma vez surpreso com a suavidade de sua voz. Não conseguia lutar contra a chama acesa dentro de seu peito. Delyssie escondia feridas profundas, isso lhe era muito claro. — A Oclumência irá recuperar sua mente, Senhorita Dubois. Mas irá precisar ser extremamente disciplinada e forte se quer ser realmente curada.

— Quero. — Delyssie disparou, atropelando imediatamente as últimas palavras de Snape. — Agora...Devo voltar para minha casa? — Perguntou, pegando Snape de surpresa.

Não. — Snape nem mesmo sabe poque respondeu aquilo. A garota já poderia voltar. Travou em seus sentidos por alguns segundos, mas logo os retomou e voltou para seu eixo. — Digo, sim. Você pode voltar.

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— Eu lhe agradeço, Professor Snape.- Agradeceu Delyssie, com um sorriso fraco no rosto. E rapidamente, como se quisesse fugir daquele escritório, a jovem saiu pela porta e a fechou delicadamente, quase sem fazer barulho. E Snape ficou contemplando o espaço vazio naquela cadeira de couro a sua frente, mas ainda sentindo um estranho calor percorrer por todo o seu escritório, e penetrando sua alma.

Já não fazia mais frio naquela terça-feira de manhã, nas profundezas do Lago Negro, e nem mesmo dentro de Severo Snape.

Notas finais
Continua!