CASTELO HOWARD

YORKSHIRE, INGLATERRA, 1816

UM MÊS DEPOIS

— Por que viemos até o mausoléu da propriedade? – perguntou-me Jack.

— Por que aqui és afastado o suficiente do castelo. Preciso contar-lhe uma coisa e estarás em vosso direito se quiseres repudiar-me após ouvir o que tenho a dizer.

— Fale logo, Anastasia. Estás a preocupar-me.

— Estou grávida – comuniquei com a cabeça abaixada e fechei os olhos esperando as palavras de fúria dele, mas elas não vieram então o olhei e deparei-me com Jack sorrindo amavelmente – Não vais repudiar-me? – ousei perguntar.

— Por que faria tal coisa? – ele se aproximou enlaçando-me num abraço – Não estou com raiva por tu estás a esperar um filho daquele humano. Quando me casei contigo sabias que isso poderia vir a acontecer. Olhe para mim, Ana. Por mais que estejamos casados, ainda sou teu amigo e poderás contar comigo sempre.

— Agradecida, Jack. E ficaria mais agradecida se tu fizestes um favor para mim – falei e desvencilhei-me dele – Tu podes mandar uma carta para vossa irmã?

— Porque tenho a impressão de que esta carta não és para Laura? Anastasia, por favor, tentes esquecer esse rapaz.

— Não consigo, Jack. Juro para ti que tentei, mas com a descoberta desta gravidez inesperada, os momentos felizes que vivi com Christian retornaram em minha mente – murmurei sentando-me aos degraus da escadaria do mausoléu – Acredito que nunca chegarei a esquecê-lo – Jack sentou-se ao meu lado e eu recostei minha cabeça em seu ombro – Queria tanto ser uma humana para poder ser feliz, construir uma família com Christian, ver aquele sorriso que tanto me encanta ao saber que ele terás um herdeiro... mas sou um monstro, e monstros não tens finais felizes.

— Tu não és um monstro. Nós não somos monstros, Ana, e felicidade és momentâneo. Viva o momento atual intensamente e sempre serás feliz. Agora, com relação a esta carta que sei que não és para minha irmã, farei o possível para ajudar-te.

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Devido eu ter sido a primeira híbrida, agora nosso povo sabe como a gestação de híbridos ocorrem. O tempo gestacional és o mesmo que os das mulheres humanas, pois, teoricamente falando, nós nascemos humanos e só quando atingimos a maioridade és que viemos a despertar todo o nosso poder de híbridos.

Meu pai só voltou a tratar-me com carinho quando recebeu a notícia que eu havia tido um menino. O primeiro varão da nossa família como falaste ele assim que pegou meu filho no colo.

Papai como Rei fostes quem veio a escolher o nome do neto e ele optou por homenagear meu avô. Meu filho fora apresentado ao reino como Príncipe Charles Henrique de Howard, Conde de Swansea, 1º na linha de sucessão ao trono de Yorkshire.

Meses depois do nascimento de Charles recebi uma carta de Laura onde ela informava que em Cambridge uma peste se assolava e que muitas família já haviam perecido para a doença.

Temendo pela vida da família Trevelyan mandei Jack viajar até a cidade a fim de trazer-me informação sobre o estado da família de Christian, mas quando ele retornou trouxe-me a pior notícia que poderia ouvir. Grace e Carrick jaziam mortos e a morte espreitava o filho que a cada dia encontrava-se mais fraco.

— Preciso vê-lo, Jack. Preciso despedir-me dele – comentei recostando-me ao um dos pilares do mausoléu até uma ideia surgir como um raio de esperança – Tens como tu abrir um portal de Cambridge até Wexford? Assim poderemos mandar Christian para os Faes e pedir-lhes que o transforme em um híbrido para que não morra.

— Agora tu passaste dos limites, Anastasia! Meus portais não chegas atingir outro país e essa vossa obsessão por esse humano tens que acabar. Ele não conseguirá resistir por muito tempo. Posso levar-te até ele para que tenhas a chance de despedir-se, mas esta loucura que queres fazer eu não te apoiarei. E se para impedir-te for preciso denunciar-te, assim o farei.

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MANSÃO TREVELYAN

CAMBRIDGE, INGLATERRA, 1817

— Não deverias ter trazido o nosso filho – Jack se pronunciou após ter passado toda a viagem do castelo Gaulledrew até a propriedade dos Trevelyan em silêncio.

— Charles é filho do Christian – salientei secamente enquanto a nossa carruagem se aproximava da mansão e notei que meu marido ficou ressentido – Perdoe-me pelo o que ousei pronunciar, Jack. Eu não desejavas...

— Faça o que tu vieres fazer e não te demores – ele falou sem olhar para mim quando a carruagem parou.

O cocheiro abriu a porta e me ajudou a descer, pois encontrava-me com meu filho no colo. A mansão que outrora eu me lembrava iluminada e cheia de vida em comemoração ao aniversário de Christian, agora estava mergulhada em uma profunda melancolia e um silêncio fúnebre.

Laura havia informado-me de que boa parte dos serviçais da região foram embora quando o surto da peste se alastrou para fora do centro de Cambridge, chegando as ricas propriedades mais afastadas e com os Trevelyan não fora diferente.

Apenas uma jovem enfermeira contratada pelo médico da família permanecia na mansão cuidando do único Trevelyan ainda com vida e fora ela que atendeu a porta para mim, trajando uma camisola e empunhando um castiçal.

— Boa noite.

— Boa noite. O que a senhora desejas?

— Recebi notícias de meus tios jaziam mortos e que meu querido primo encontra-se doente também. Então aluguei a primeira carruagem e vim visitá-lo.

— Desculpe senhora, mesmo sendo vosso familiar, o Sr. Trevelyan estás bem fraco e não tens condições de receber visitas a essa hora da noite.

Não tive muito escolha e acabei por usar meu poder de Majestade sobre ela.

— A senhorita irá me deixar entrar, depois voltarás a dormir e isso não passarás de um sonho – pronunciei calmamente e a mesma assentiu meio em transe.

Como outrora já havia visitado a propriedade diversas vezes antes de nossa separação forçada ocorrer, eu sabia perfeitamente o caminho até os aposentos de Christian. Charles, mesmo tendo dormido durante o trajeto todo, começou a ficar um pouco impaciente, porém se acalmou quando adentrei o quarto e me aproximei da cama onde Christian jazia pálido e muito abatido, como se esperasse a visita da morte a qualquer instante.

— Olivia? – ele perguntou com uma voz trêmula e cansada, esforçando-se para abrir os olhos que, mesmo em meio a pouca penumbra, focalizaram em mim – O que tu fazes aqui?... Vá embora.

— Sei que estás com ódio de minha pessoa, mas arrisquei-me a vir até aqui para que tu chegastes a conhecer vosso filho – falei sentando-me à beirada da cama, ajeitando Charles em pé sobre colo para que ele pudesse vê-lo.

— Além de brincares... com meus sentimentos, tu... não respeitas nem... o meu leito de morte.

— Perdoe-me por ter-lhe magoado tanto. Não tive escolha, Christian. Pertencemos a mundos distintos. Eu sou uma hí...

Assustei-me com a porta abrindo num baque, fazendo Charles começar a chorar.

— O que tu pensas que estás a fazer? – indagou Jack visivelmente com raiva – Sabes muito bem que és contra as nossas regras os humanos saberem de nossa existência.

— Ele estás à morrer, Jack, que importância isso tens agora – o questionei entregando Charles para ele – Deixe-me a sós com Christian. Agora, Jack – o vi hesitar inflamando-se como um macho que desejas afrontar e subjugar o alfa da matilha então não hesitei em complementar – Posso ser vossa esposa e amiga, mas ainda sou a princesa do clã principal e tu deves obediência a mim. Agora vá, senhor meu marido e espere-me na carruagem.

Assim que me encontrei a sós com Christian, encaminhei-me até o criado-mundo onde jazia uma bandeja contendo uma jarra de água e dois copos. Quebrei um dos copos e de um dos pedaços cortei meu pulso esquerdo, despejando o sangue no outro copo.

— Christian – chamei-o sentando novamente na cama.

— Olivia?

— Não, meu amor. Sou eu, vossa Ana.

— O que fazes aqui?... Morri e estou no inferno... Saia de minha cabeça... Deixe-me em paz...

Era um sofrimento para mim vê-lo num estado delirante como aquele.

— Tu não irás morrer. Beba isso, meu amor. Necessito esclarecer algumas coisas.

Com muito esforço, consegui fazer com ele bebesse o sangue e não tardou para que Christian voltasse a ter uma cor mais viva então contei-lhe toda a verdade. Sabia perfeitamente que o quê estava a fazer ia contra as nossas regras, todavia eu necessitava tranquilizar minha consciência.

Quando terminei de contar sobre mim, quebrei meu próprio juramento ao usar meu poder nele, fazendo-o acreditar que tudo o que vivemos juntos fora apenas um sonho, despedindo-me dele com um leve roçar dos meus lábios sobre os dele enquanto lágrimas turvavam minha vistas.

— O que tu fizestes, Ana? – inquiriu-me Jack assim que adentrei a carruagem.

— O salvei. Christian não merece a morte e sim a vida para que venha a ser feliz. Não passarei apenas de um sonho para ele. Vamos, antes que meus pais sintam nossa ausência.