Havia se passado dez dias desde nossa chegada a pitoresca Cambridge.

Nossos pais estavam em Londres ocupados com o Conselho, quanto a nós ficávamos a nos divertir com passeios pela propriedade, isto fora o que Jack tinha conseguido de liberdade para mim, pois outrora eu nem poderia sair dos meus aposentos e ficaria apenas a observar os outros pela janela.

Durante estes dias havia chegado um convite para o aniversário do filho de uma das famílias mais influentes da cidade. Jack fora pessoalmente até Londres a fim de pedir permissão aos meus pais para que eu os representasse na festa, e por algum milagre papai havia consentido minha saída, mas na condição de que Jack, Jamie e Laura fossem também além de eu ter que levar uma das minhas Damas de Companhia.

Estava ansiosa para o baile de hoje à noite, não porque iria à uma festa e sim por que finalmente sairia um pouco do castelo. Laura sugeriu que eu tocasse no baile então no período da tarde conduzi-me até a sala anexa ao meu aposento onde existia um piano, algumas poltronas e mesinhas.

Sentei-me em frente ao piano, vasculhando em minha mente algo como inspiração e logo me veio a imagem do belo rapaz comprando flores há alguns dias. Sorri com a recordação e quando dei por mim estava com meus dedos a mover-se sobre as teclas produzindo uma linda canção.

★ ★ ★ ★ ★

MANSÃO TREVELYAN

CAMBRIDGE, INGLATERRA, 1816

A família Trevelyan também morava nos arredores da cidade de Cambridge e a viagem até a propriedade deles havia sido tranquila e agradável. Na primeira carruagem encontravam-se eu, Jack e Lady McRose que trazia em seu colo uma caixa contendo meu outro vestido, logo atrás na segunda diligência estavam Laura e Jamie.

O cocheiro parou a carruagem e veio abrir a porta apressando-se para ajudar Marina a descer. Jack desceu depois então dei a mão para ele enquanto que com a outra tentava segurar as vastas saias do meu vestido. Eu trajava um vestido amarelo com branco, adornado de detalhes em ouro, o mesmo possuía mangas um pouco bufantes e minha tiara era de ouro com pequenas pérolas.

Laura usava um vestido dourado com pequenas rosas vermelhas estampadas, brincos e colar em rubi. Lady McRose usava brincos de pérolas e vestido amarelo claro com o brasão da família Alucard bordado na parte superior, pois era a vestimenta das Damas de Companhia quando estas me acompanhavam em alguma festa.

Já os homens encontravam-se impecáveis em seus trajes de Conde e de Visconde.

Dei uma olhada na mansão que se erguia a nossa frente. A mesma era toda branca com molduras verde-escuras em todas as janelas. Jack me ofereceu seu braço que o enlacei e subimos o pequeno lance de escadas que estavam iluminadas com diversas lanternas à vela.

No alto da escadaria, um homem já nos vossos quarenta anos nos esperava, deveria ser o mordomo do casal pelo que deduzi das vestimentas.

— Bem vinda, Vossa Alteza – o mordomo disse curvando-se um pouco para frente – Perdoe os meus senhores que neste momento estão recebendo os convidados no salão de festa e não puderam vir recepcionar Vossa Alteza e toda a vossa corte.

— Comunique aos vossos senhores que estão perdoados – falei com um leve sorriso na face.

Lady McRose prontamente tratou de dizer-lhe os nossos títulos então o homem nos conduziu para dentro da enorme residência e me comunicou que dentro do salão jazia uma poltrona em pequeno palco posta para que me sentasse.

Uma empregada apareceu e Marina entregou a ela a caixa informando de que eu necessitava de um aposento para fazer a troca de vestido mais tarde, a empregada assentiu fazendo uma mesura e saiu rapidamente. O mordomo entrou no salão de festa juntamente com Marina e escutei ele pigarrear anunciando logo em seguida.

— Apresentando Vossa Alteza Real, a Princesa de Yorkshire! Vossa Graça, o Visconde de Gaulle! Vossa Graça, o Conde de Preston! Vossa Graça, a Viscondessa de Gaulle!

Neste momento a grande porta dupla de mogno fora aberta então eu, Jack, Jamie e Laura adentramos o salão. O mesmo estava decorado e iluminado por inúmeros candelabros, alguns divãs e cadeiras para os convidados e em uns dos cantos estavam localizados os músicos.

Enquanto caminhávamos pelo vasto salão, nenhum dos convidados ousou se mexer, só apenas quando paramos em frente da poltrona e viramos para olhá-los foram que todos fizeram uma rápida mesura.

Lady McRose e Jack estavam posicionados ao meu lado direito e do meu outro lado Jamie e Laura se faziam presente, imediatamente encaixei as mãos em frente ao meu corpo bem na altura de minha cintura. Um casal já aparentando sinais de idade se pôs à minha frente, o senhor me cumprimentou curvando-se um pouco a cabeça para frente e a senhora fez uma mesura quase até o chão.

— Seja bem vinda a nossa humilde residência, Vossa Alteza. Estamos muito contentes em conhecê-la. Me chamo Carrick e esta é minha adorável esposa Grace.

— Obrigada pela hospitalidade e pela honra em convidar-me para o aniversário de vosso filho. Infelizmente não pude trazer algo para ele, pois fui informada desse baile recentemente, mas mandarei um presente nos próximos dias.

— Não se preocupe, Vossa Alteza, vossa presença aqui já és o suficiente – disse Grace e eu apenas sorri em resposta.

— Falando em vosso filho, Senhora Trevelyan, onde ele se encontra? – indaguei passando meu olhar pelo recinto.

— Perdoe o atraso de meu filho, Vossa Alteza.

— Ele deveras ter vossos motivos – disse escutando passos rápidos próximos à porta do salão.

Agucei ainda mais minha audição de híbrida e pude ouvir uma voz forte perguntar: “A princesa já se encontra no salão?”, o mordomo sussurrou um: “Sim, meu senhor” e perguntou em seguida: “Devo anunciá-lo?”, o outro respondeu ligeiramente enraivecido com a pergunta do empregado: “É claro, homem. Ande logo”

Neste momento o mordomo entrou, pigarreou chamando atenção de todos e disse em um tom de voz elevado.

— Anunciando o Senhor Christian Trevelyan!

A porta foi aberta e por ela passou um rapaz, o mesmo estava vestido em trajes com tons em branco e dourado parecido com os dos príncipes de antigamente e o cabelo em tons de castanho escuro estava meramente bagunçado denunciando-lhe que correra para chegar até o salão.

Meus lábios se entreabriram quando o reconheci. Era ele, o belo rapaz que vira na banca de flores, o qual me inspirou a linda melodia.