Quando o Ano Não Queria Virar
1 Dezembro Não Pediu Permissão
Dezembro nunca pedia licença antes de entrar. Ele simplesmente chegava, como alguém que conhece a casa, que já sabe onde fica o interruptor da sala e não precisa perguntar se pode sentar. Lúcia sentiu isso no dia 20, ao empurrar o portão com o joelho, equilibrando as sacolas de mercado enquanto o metal rangia num som mais alto do que deveria. Não era um barulho novo, mas naquele fim de tarde pareceu ecoar por mais tempo, como se a casa quisesse avisá-la de que estava ali, de que nada havia mudado tanto quanto ela fingia.
O calor grudava na pele, mas dentro da casa havia um frescor estranho, quase artificial. Tudo estava limpo demais, organizado demais. Não havia roupas largadas sobre a cadeira, nem copos esquecidos pela pia. A sala parecia maior sem a árvore de Natal montada, e isso incomodou Lúcia mais do que gostaria de admitir. A caixa permanecia encostada no canto, fechada desde o ano anterior, como um objeto que exigia mais coragem do que força física. O espaço vazio onde a árvore costumava ficar tinha um contorno quase visível no chão, um círculo levemente mais claro, marcado por anos de repetição.
Ela largou as chaves no aparador e ficou parada por alguns segundos, observando aquele vazio como quem encara uma pergunta que já conhece a resposta, mas ainda assim espera outra. Dezembro tinha esse efeito. Não trazia novidades. Apenas escancarava o que já estava ali.
Depois, pensou.
Depois era uma palavra confortável. Ampla. Elástica. Servia para tudo o que não queria fazer naquele momento. Depois montar a árvore. Depois responder a mensagem da mãe. Depois decidir se haveria Natal naquele ano. A palavra repousava na mente de Lúcia como um acordo silencioso consigo mesma, um adiamento que não precisava de data.
Na cozinha, a geladeira guardava apenas o essencial. Arroz, ovos, alguns legumes, uma garrafa de água quase vazia. Nada que lembrasse celebração. Nada que pedisse preparo demorado ou intenção. Comer havia se tornado algo funcional, um gesto automático entre uma coisa e outra. Lúcia abriu uma embalagem qualquer, comeu em pé, sem prestar atenção ao gosto, olhando para a parede branca como se ela pudesse oferecer algum tipo de distração.
No quarto, o calendário pendurado atrás da porta marcava o dia 24 com um círculo vermelho feito meses antes. A caneta usada já não existia, mas a marca permanecia ali, firme, como uma promessa que ninguém mais lembrava de ter feito. Lúcia encarou aquele círculo por tempo demais. Aquela decisão fora tomada no começo do ano, quando Clara ainda estava ali, quando planejar parecia um gesto possível, quase natural.
Fechou a porta com força e se arrependeu no instante seguinte. O barulho seco ecoou pela casa vazia, denunciando um incômodo que ela vinha tentando manter contido desde o início do mês.
O celular vibrou em cima da mesa da cozinha. Lúcia reconheceu o nome antes mesmo de desbloquear a tela.
Mãe: Você vem para a ceia?
Ela leu a mensagem uma vez, depois outra. Virou o telefone com a tela para baixo e deixou ali, como se o gesto encerrasse o assunto. Não responder era mais fácil do que admitir que não sabia. O Natal sempre fora importante naquela família, não por causa de exageros ou grandes expectativas, mas pela insistência. Mesmo nos anos difíceis, havia mesa posta, comida simples e a sensação de que, por algumas horas, tudo se mantinha de pé.
Agora, só de pensar nisso, algo apertava dentro dela.
Lúcia passou o resto do dia se ocupando com tarefas pequenas, quase inúteis. Limpou superfícies que já estavam limpas, reorganizou livros que não precisavam de ordem nova. Era uma forma de gastar energia sem gastar pensamento. Quando o sol começou a baixar, tingindo a sala de um laranja suave, ela sentou no sofá e ficou ali, sem fazer nada, ouvindo o som distante da rua, os carros passando, crianças rindo em algum lugar que não conseguia identificar.
Clara costumava dizer que dezembro tinha um som próprio. Que não era o mesmo barulho do resto do ano. Lúcia nunca soubera explicar por quê, mas agora entendia. Havia uma expectativa no ar, uma espécie de ansiedade coletiva que se infiltrava até nas casas mais silenciosas.
No dia seguinte, cansada do próprio adiamento, Lúcia abriu a caixa da árvore. Não foi uma decisão tomada com convicção, mas com cansaço. Os galhos artificiais estavam tortos, cheirando a papelão antigo e poeira. As bolas vermelhas e douradas permaneciam embrulhadas em jornais velhos, manchetes falando de crises que já tinham sido substituídas por outras, nomes de políticos que não estavam mais em evidência.
Ela montou a árvore devagar, sem música, sem pressa. Encaixou galho por galho, ajeitou os fios do pisca-pisca com cuidado quase excessivo. Cada gesto parecia carregar mais peso do que deveria. Não era apenas uma árvore. Era um marcador de tempo. Um sinal de que o ano estava, de fato, acabando.
Havia três ausências naquela casa, e Lúcia as sentia com clareza quase dolorosa. A do pai, morto cinco anos antes, atropelado na madrugada do dia 31 quando saiu para comprar gelo e nunca voltou. A do irmão André, afastado depois de uma briga que ninguém soube consertar, uma ausência que se estendia há dois Natais. E a de Clara.
A ausência de Clara era diferente. Não tinha bordas definidas. Não se limitava a um cômodo ou a uma data específica. Estava em tudo. Na forma como a luz entrava pela janela, no espaço vazio do sofá, no silêncio que se instalava depois das oito da noite. Clara não fora embora de uma vez. Fora se afastando aos poucos, como alguém que apaga uma lâmpada por cômodo, até deixar a casa inteira na penumbra.
A árvore foi colocada em frente à janela, como Clara gostava. “Assim quem passa pensa que aqui mora gente feliz”, ela dizia, meio brincando, meio acreditando. Lúcia lembrava do jeito específico com que Clara ajeitava as luzes, da implicância com os fios aparentes, da insistência em colocar o enfeite torto sempre no mesmo galho.
Quando ligou o pisca-pisca, as luzes demoraram alguns segundos para acender por completo. Esse intervalo fez o coração de Lúcia acelerar sem motivo aparente. Quando finalmente acenderam, algo se moveu dentro dela. Não era alegria. Não era exatamente tristeza. Era memória. E memória, ela aprendera, podia doer mais do que a própria ausência.
Lúcia sentou no chão da sala e ficou ali por um tempo indeterminado, observando a árvore acesa, como se esperasse que ela dissesse alguma coisa. Dezembro não pedia licença, não oferecia respostas, não aliviava dores antigas. Apenas chegava, ocupava espaço e obrigava as pessoas a encarar aquilo que vinha sendo empurrado para depois.
E ainda era apenas o começo.
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