Notas iniciais
"Pode ser que um dia nos afastemos... Mas, se formos amigos de verdade, A amizade nos reaproximará." Albert Einstein Olha ai mais um capitulo, espero que gostem!

Fogo.

É a primeira coisa que vejo em meus sonhos.

Caos. Pessoas correndo alarmadas nos corredores, enquanto minha ama me carrega ao lado de meu pai para um lugar seguro.

Olho ao redor procurando minha mãe no meio daquela espessa fumaça, mas naquele momento, ela já estava morta.

Acordo com a testa úmida de suor, com meus cabelos grudados no rosto.

Outra vez.

Não consigo entender porque tenho esses pesadelos. Tecnicamente eu nem deveria lembrar esse dia fatídico, mas foi tanta coisa que esse momento ficou marcado em mim.

— Bom dia alteza. – cumprimentou Liliana minha secretária entrando no quarto sorrateiramente. – Dormiu bem?

— Não, nem um pouco.

— Pesadelo outra vez?

— Sim. Parece que quanto mais perto chega o noivado, pior fica para dormir

— Só está nervosa. Quem não ficaria? – disse colocando a mão na cintura – Casar com o nosso inimigo não é pra qualquer um.

— Ainda mais quando não o conheço... Mas, não vamos começar o dia falando de coisas desagradáveis! – digo me levantando tentando tirar aquela história da cabeça. Qualquer oportunidade de aliviar a tensão que eu sentia era muito bem vinda – Quero aproveitar ao máximo...

— Parece que Madame Miressa pensa diferente de você.

Liliana aparentava estar muito chateada. Algo devia ter acontecido fora horário de trabalho.

— Como é? Por quê?

— Olhe – falou mostrando sua prancheta.

Nela estavam preenchidos todos os horários do meu dia. Quem visse, acharia impossível fazer tudo aquilo.

— Só pode estar brincando. – Resmunguei de braços cruzados.

— Não e amanhã não estará melhor. – comentou virando a folha.

Não dava pra acreditar!

— Me diga a necessidade de outra aula na minha vida? O objetivo de tudo isso não era conseguir um bom casamento? Já aconteceu...

— Acho que ela quer impressionar seu noivo.

— Pensei que só eu devesse me preocupar com isso.

— Pelo visto não... Mas se conversasse com seu pai, talvez ele ceda um pouco.

— Do jeito que ele é, duvido!

— Mas você é a princesa!

— E dai? – eu não tinha poder em absolutamente nada.

— Tem de negociar com ele, já que está se casando de boa vontade.

— Olhe pra mim, tenho cara de que estou de boa vontade? –pergunto com uma expressão de total desagrado.

— Não está reagindo muito bem, mas ao menos não fez escândalo.

— ainda. – acrescento erguendo uma sobrancelha. Poderia muito bem fazer uma cena quando a família viesse para conseguir desmarcar o casamento.

— Use isso á seu favor. – aconselhou antes de sair. – Volto logo se não conseguir convencê-lo.

— Está bem. – falei antes de enfim sair da cama.

Tirei rapidamente minha camisola de seda branca e corri até o roupeiro de madeira maciça, localizado no fundo do quarto, tentando encontrar um vestido sem muitos botões e fácil de colocar. Desde que soube que me casaria, Madame Miressa tem mandado todos os dias algumas criadas para cuidar de mim – contra minha vontade é claro – era como se ela não quisesse me ver sozinha com meus pensamentos pessimistas em relação ao futuro.

Antes de estar comprometida, Miressa vivia dizendo para não fantasiar tanto e ser mais realista em relação a qualquer relacionamento que eu viesse a ter. E agora não queria que eu lamentasse? Muito atencioso da parte dela.

Coloquei meu vestido azul de renda com mangas transparentes e flores que começavam no busto e terminavam na cintura – o favorito e o que eu mais utilizava -, calcei sapatilhas pretas e sai porta a fora tentando manter a calma.

Pensei um pouco no que ela me disse e Liliana tinha razão.

A única que podia fazer a diferença na minha vida era eu mesma. Mas a ideia de tentar confrontar o rei intimidava um pouco, ele vinha me evitando durante as ultimas semanas e exigir alguma coisa, não melhoraria seu humor.

Sai andando pelos corredores largos do segundo andar, apenas guardas se encontravam em prontidão em seus postos, até chegar à escada de mármore e dar de cara com Daniel. No calor do momento tropecei na barra do vestido e jurei que teria uma queda terrível na escada, mas ele foi rápido e me segurou pelo braço.

− Você está bem? – Perguntou me posicionando no alto dos degraus novamente – Pensei que tivesse desistido de usar salto alto.

Daniel era duas vezes mais alto que eu e tinha cabelos castanhos enroladinhos. Seus olhos eram azuis e sua cara demonstrava nada mais que simpatia. Não sabia como ele estava sempre com um sorriso no rosto quando o via, era admirável.

− E desisti – admiti erguendo um pouco a barra do vestido para mostrar as sapatilhas — Estava indo procurar você.

− O que ouve? Parece preocupada...

Fico calada tentando organizar meus pensamentos.

Como explicaria o motivo de tentar barganhar com meu pai? Será que contava agora?

Não. É melhor ocultar enquanto der.

− Anna! – chamou me cutucando – O que está acontecendo?

− Me desculpe... – murmuro receosa – estou com a cabeça cheia!

Ele era meu melhor amigo. Por que estou escondendo isso? Uma hora todos saberão e com toda certeza Daniel ficaria chateado.

− Preciso de sua ajuda para falar com o rei. Não sei se consigo ir lá sozinha com aquele conselheiro intrometido me olhando como se fosse um estorvo.

− E o que é tão importante, a ponto de te deixar nervosa desse jeito? – questionou pegando minhas mãos – está tremendo.

− T- tremendo? – sim eu estava. Uma voz não parava de dizer em minha mente “vamos logo, conte pra ele”. Pra mim, mentir é tão complicado — Na verdade não tive tempo de comer ainda, acordei agora.

Pus as mãos na cintura largando da sua, me esforçando ao máximo para manter contato visual com um sorriso.

− Então tá... – disse franzindo a testa e cruzando os braços — Qual é o assunto?

− Bem... – começo respirando fundo – Ando com a agenda muito lotada. Ultimamente não tive tempo nem de dizer o quanto a vida é injusta.

− Acabou de falar. – disse dando um sorriso bobo.

− Você entendeu!

− Claro, mas Anna. Conhece o rei e sabe o que vai dizer.

− Talvez hoje seja diferente. – gesticulei apontando para ele – Cadê aquela pessoa positiva que está sempre vendo o lado bom?

Daniel se encostou com as costas na parede. Parecia cansado de ficar parado ali.

− Esse é o lado bom. Ele dizer “não tenho tempo, faça o que quiser...”. Não tem sido sua resposta nos últimos anos?

É, mas agora as coisas mudaram – quis dizer a Daniel.

− Acho que foi por isso que fui tão mimada quando pequena. – comentei pensativa.

− Foi? Tem certeza? – questionou brincalhão.

− Ah ultimamente tenho amadurecido...

− Claro que sim. – concordou cheio de ironia – é tão responsável...

− Você vai me ajudar ou não? – perguntei por fim cortando a brincadeira.

Ele fez uma pose pensativa tentando ser dramático e finalmente respondeu:

− O que eu não faço por você? – disse sorridente — Só não garanto nada, vou apenas tentar.

Fui até sua frente e lhe dei um abraço.

− Muito obrigado, de verdade! — agradeci entusiasmada.

− Eu disse “tentar”! – esclareceu me afastando levemente com o braço.

− Sei disso, vamos logo antes que comece a reunião diária! – falei pegando sua mão e puxando na direção da escadaria.

− Agora? – questionou receoso parando no lugar.

− Sim. – confirmei balançando a cabeça. — Algum problema?

− Hum... Não, vamos. – respondeu voltando a andar.

Daniel era meu amigo desde que comecei a andar. Sua mãe praticamente me criou e educou, então por causa disso convivemos muito, o que tornou nossa amizade sólida com o passar dos anos. Mesmo depois de ter começado seu trabalho de administrador do palácio, sempre reservava um tempo pra me ver.

Só de pensar que não o veria mais com frequência dali a alguns meses, fazia meu coração doer, mas eu tentava deixar pra lá e não sofrer antecipadamente.

Estava focada em diminuir minhas tarefas. Se me restava pouco tempo antes de ser infeliz, devia aproveitar ao máximo.

Talvez meu pai concorde comigo, se me escutar.

Notas finais
Até a próxima semana! Comentem e digam o que acharam, sua opinião é muito importante. Beijos ♥