Notas iniciais
Voltei para essa terra maravilhosa. Para começar bem, vou dedicar esse capítulo ao Lover Books, por ter me feito certa escritora soltar arco-íris pelos olhos. Esse capítulo (assim como todos os outros) estava previsto para ser postado na quinta, mas os bancos da minha cidade entraram em greve. Resumindo, não teve como pagar a conta. Só brasileiro, mesmo. Bem, espero realmente que gostem, pois a Charlotte é uma personagens que puxou a minha cabeça por uns seis meses. Boa leitura e até ali embaixo!

O tempo. Pensando por agora, os números podem ser muito impressionantes. Existe o 1, o 01 e uma infinidade de números depois dele. São números e mais números que não acabam, assim como o tempo. Uma vez, minha avó me disse que deveria viver a vida sabendo que nunca mais existirá uma segunda 11:00PM de 07 de agosto de 3023. Não que isso tenha me sido realmente útil. Duvido que tenha sido para ela, tampouco.
Mais impressionante ainda é o quão sua vida pode mudar em um minuto. É como quando você está correndo tranquilamente, ouvindo sua música favorita no último volume, quando, um minuto depois, você tropeça numa pedra em seu trajeto e cai em cheio no chão.
Ás vezes, achamos que estamos por cima. Eu diria que você não sabe de nada.
Muitas das melhores decisões de nossas vidas são tomadas em um minuto. Em um minuto, podemos nos apaixonar, podemos ajudar as pessoas, podemos fazer a diferença, como também podemos acabar com nossas próprias vidas. Sim, nós estamos por cima. Mas, em um minuto, tudo pode desmoronar.
Talvez, eu penso, as coisas acontecem por uma razão. Pessoas mudam e você aprende a deixa-las ir, coisas dão errado enquanto você aprende a aprecia-las quando estão certas. Você acredita em mentiras e eventualmente aprende em não confiar em ninguém além de você mesmo... E, ás vezes, você se perde apenas para que você possa encontrar seu caminho de volta. Mas como você pode encontra-lo, no escuro?
Outubro, 3023. Caminho a passos largos, sozinha, porque não importa o que aconteça, eu estou sempre sozinha. Os carros passam zunindo por mim. Uma senhora conversa preocupada ao telefone móvel. Um senhor aumenta a velocidade do ar condicionado, embora a temperatura seja sempre abaixo de zero. Ajeito os óculos e sopro a franja castanha para cima, tentando disfarçar o cansaço que emana de seu corpo, cuja graça é disfarçada por uma grande capa de chuva que me vai até as canelas. Mais do que isso, tento ocultar o abatimento, a resignação.
Não tinha conseguido dormir, apesar do que havia engolido para dominar não a falta de sono, mas o medo dele, os pesadelos, a solidão e para calar o silencio que dominava a minha volta, agarrara-me as ruas, a quem eu recorria tantas vezes quanto necessário.
Assobio, chamando um táxi que acaba de passar pelo asfalto. A rua emana luzes da branca ao marrom. Vida. A palavra vai e volta em minha mente, como em um jogo de ping-pong, mas não com o soar engraçado quando você reproduz a palavra de trás para frente.
– E-Eu... Não sei. P-P-Pode seguir...
O motorista me olha através do retrovisor, surpreso pelo meu pedido, ou, apenas talvez, com receio de estar ajudando uma adolescente fugitiva. Gaga, ainda por cima. Mas seu olhar se desvia para a estrada e ele não volta a fazer perguntas.
De um dos bolsos da capa de chuva, retiro a foto de jornal. Está um pouco manchada pela água da chuva, mas o rosto de um menino com ar aristocrata ainda está visível. Inclino o recorte um pouco para luz bege que inunda da janela. Uma menina loura, voz de passarinho, olhar de mistério, um sorriso fotogênico que brota do canto dos lábios brilha de volta. Quem poderia imaginar que aquela menina bonita, aquela que todas as pessoas tinham um pôster pendurado em suas paredes e a quem crianças e adultos enviavam cartas todos os dias, estaria saindo à francesa, não só para se livrar da louraça incendiária, da imprensa que explorava sua beleza e paciência, mas também para escapar do trono que inevitavelmente acabaria em suas mãos.
Guardo a foto no bolso e, coincidência ou não, minha mão embola-se em um objeto quadrado. PASSAPORTE, diz na capa em letras garrafais. Ele é claro, assim como as identidades. Holiday Katleen Gosling. Morena, uma espécie de cor de cabelo que era invenção dela própria. Deve estar entre os dezoito ou dezenove e tem um ar calculista.
A ideia viera quando menos esperava e aparecia com a mesma frequência com que se acorda ou escova os dentes. A luz se apagara e de repente a sensação de que tudo se tornara mais difícil tomou conta de meu corpo. O ar se tornara subitamente irrespirável e então eu tivera vontade de abandonar aquele tecido rosa que provocava inveja e amores a quem quer que o visse. Provar para mim mesma que eu era uma pessoa. Eu não sou melhor do que pensam que sou? Então, vestira uma peruca escura e roupas que não moldavam perfeitamente meu corpo e saia para rua. Queria ver o efeito produzido, a sensação de sair sem causar tumulto. Esse anonimato era bom. Livrar-me, mesmo que por algumas horas, da boneca vazia que se instalara em mim. Andar livremente, sem ter de empinar a cabeça na tentativa de ser elegante. Sem ter de rebolar, sem ter de parar a cada instante para abraçar alguém ou assinar seu livro. Um anonimato que poderia ser rompido a qualquer momento, era só retirar a peruca.
Recolho o telefone móvel. Abraço contra meu próprio corpo, tremendo, como um bicho de pelúcia. Disco. Qualquer pessoa, amigos, maquiadores, professores, namorados, massagistas, filhos, pais, vizinhos, colunistas, repórteres, jornalistas, atores, garçonetes, princesas, adivinhe quem é.
Você viu que horas são?
Não. Que diferença faria, quando você vive em outro mundo, em outro tempo. Assisto o ondular das ondas e sinto o vento quente por causa do sol. Eu voo, flutuo, lambuzo-me com o creme do cupcake, tomo champanhe à qualquer hora. Não sou princesa, sou sereia, sou Holly.

A capa de chuva está embolada no chão, ao lado da peruca castanha. Era tudo o que eu estava usando. Vagueara de táxi em táxi durante toda a noite e metade da madrugada. Alguns comentaram comigo sobre a morte do príncipe, mas, antes mesmo que pudesse pronunciar lamentável, o assunto já se transferira para Charlotte Schreave. Mais especificamente, para os seios de Charlotte Schreave.
Mal sabia ele que Charlotte Schreave não existia.
Olho para as pinturas abstratas espalhadas pelo meu quarto. Nunca tinha entendido por que tinha escolhido pinturas tão... Sem nome, sem forma, sem rosto. Agora, era como se eu visse tudo claramente. De alguma forma, eu permanecia de cabeça baixa na maior parte do tempo. Sim, sim, aquelas cores. Meus raios borbulhantes, permanecendo fortes como teias de aranha em uma tempestade. Ah, vida, eles traíram você.
Um espelho devolve-me a visão de Charlotte. A palha brilhante e desbotada cai sobre meus ombros, como fios de ouro, precioso, invejável, que eu não lavara nos últimos dias. Nele se agarra o loiro e deslizam as caricias. A boca é só uma linha escura, como o contorno na brisa de uma tempestade violenta. E os olhos. Azuis como o mar. Olhos que procuravam não demonstrar a menor expressão, mas, quando você mergulhava realmente neles – e eram poucos que conseguiam essa façanha – via bolas água marinha que dizem não me beije, não me magoem, sou uma dançarina que não sabe dançar. Charlotte faz de conta que não está chorando quando na verdade, embora de olhos secos, o coração esteja banhado pelas lágrimas não derramadas. Ela é a pequena morte. É, água quieta é água funda e em mundo onde só existam morenos, ser loiro era uma pequena vantagem. Mas, no mundo real, inteligência é poder.
Estou no meio do mato. Ao longe, uma sombra preta e lustrosa. Trata-se de um cavalo preto, selvagem, pois nunca pertencera a ninguém e ninguém pertencera a ele. Apesar disso, era doce, mas de uma doçura assustadora. O que ele quer não é apenas liberdade, é algo ainda não descoberto. Ele não sabe dizer quem é. Quer dizer, ele sabia, mas, com o medo crescente dentro de si, tinha medo de pronuncia-lo em voz alta porque ele esconde o que sente para proteger aos outros. Protege-los de si mesmo. Mas, quando menos se esperava, o que sentia transformava-se em palavras que corriam soltas, como dente-de-leão no vento. Que ninguém se engane, porque ele pode gritar, mas disso ele também tem medo. Seu grito é um dos poucos que começam e terminam no ar, sem meio, que o torna um ser determinado o suficiente para não se sentir sufocado.
Porque asfixia não é uma coisa com que você possa lutar frequentemente.

– Agora, sei que Charlotte deseja dizer algumas palavras.
A frase ecoou pela sala e me fez encher de pavor.
Demonstrei facilidade ao me levantar de meu pedestal, embora o vestido preto apertasse até o último de meus ossos. Os passos são confiantes, não trôpegos, fracos e cansados. O rebolado e a elegância são sua tatuagem, a doença incurável da qual eu não podia me livrar. Eu, ou essa estranha pessoa que habita em mim, não pode, mas Holly pode.
Eu não demonstro o que acontece com Holly. Nem Holly sabe. Talvez, a felicidade pela liberdade permanente, pela morte de Charlotte e subitamente, pelo esquecimento do irmão morto. Não, ele não estava esquecido, só estava morto.
Embora os olhos de mamãe estejam vermelhos pela tristeza, posso ver a expressão de desamor que eles emanam através do azul. Ninguém percebia aquele desenho estampado em seus olhos – estavam muito distraídos com a cor deles para reparar nisso – mas estava lá. A obrigação, o amor midiático. Tudo se transformara em a culpa é sua. O eu aceito se transformara abruptamente em não. O eu te amo vestira-se de eu te odeio. Papai procurava o que não existia nela e frequentemente desiludia-se. E eu, Rosalee e Edward, filhos mais do desamor do que do amor, assistíamos. Em momentos como um aquele, – e eles eram frequentes – um beijo, um beijo real, ou qualquer palavra que provasse que ao menos um pequeno resquício daquele amor arrebatador ainda existia seria um presente melhor do que qualquer colar de diamantes. Mas não adiantaria: Ela era a tempestade e ele era o mais brilhante dos sóis. Mesmo assim, você se sentia aliviado quando ambos saiam de cena.
Entretanto, não importava quem eu fosse, eles continuariam sendo meus pais.
– Boa noite, Illéa – disse, em alto e bom som – Hoje, venho aqui não só como princesa, mas também como pessoa.
Começo meu discurso cuidadosamente ensaiado. A maioria me passa despercebida. A vida de Charlotte e, abruptamente, de Holly, passa como um filme sendo exibido em uma tela de cinema. O quarto aniversário, entre brigas e luzes de baile, a solidão e logo após, o amor. E, como gran finalle, o esquecimento. O nascimento de Holly Gosling.
Apenas quatro palavras me trazem de volta a realidade, aquelas que talvez mudariam minha vida para sempre.
Renuncio a minha condição de herdeira e princesa do trono de Illéa.

Notas finais
Eai, gostaram? Esperando ansiosamente comentários.