Quando ela volta
1 Mantenha as portas fechadas
Notas iniciais
O texto pode ser sensível à alguns, não sei ao certo.
Boa leitura.
Quando ela volta
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Ela me encarra do outro lado do quarto, sentada confortavelmente de pernas cruzadas, as mãos repousando sobre os joelhos. Não abri a porta para que entrasse, ela sabe o caminho e vem quando bem deseja.
Seu olhar não desvia um instante sequer de mim, é um desafio: Irei levantar da cama? Quanto tempo posso aguentar o peso em meu peito sem que verta dor por meus olhos? Ou a culpa tomar-me por completo para desejar desaparecer ou nunca ter existido? Ela aposta silenciosamente, não diferindo muito para si qual venha a acontecer primeiro, a confiança que sua presença exerce é muito maior. Ela não passa de uma puta convencida e esnobe, desejosa que seu poder seja evidente, mas não nega o deleite de me ver agonizar sozinha entre quatro paredes.
O teto branco agiganta sobre mim, escuto o som do seus saltos tocarem o piso liso quando descruza e cruza novamente as pernas e aguarda, paciente, que eu ceda. O ar entra lascivamente em meus pulmões quando fecho os olhos e respiro profundamente, como se meu tórax fosse frágil e o oxigênio pesasse toneladas, porém, é apenas ela e sua atmosfera opressora. E quando o primeiro pensamento de morte pinta tons escuros em minha mente, sei que ela sorri.
Cravo as unhas nas palmas de minhas mãos ao cerrar os punhos, a saliva desce como ferro quente quando engulo o pranto. Em um movimento rápido ergo o corpo da espuma que me puxa, busco os sapatos e os calço, um pé de cada vez, certificando-me de estarem bem amarrados. Endireito a coluna e passo por ela, em uma pisada firme, batendo estrondosamente a porta atrás de mim. Sei que minha rebeldia não a abala, mas ao tomar distância dela me fortaleço.
— Até a próxima, vadia!
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