Quando assim
1 Cinco vezes p.a. - Região Nordeste
Notas iniciais
Se tentasse remontar a primeira vez em que o viu, ela podia afirmar com a certeza de quem morou muito tempo em um único momento que o homem estava sentado em um banquinho na frente da praça, passando a faca despretensiosamente num toco de madeira, como se mal se desse conta de seus movimentos, mas pouco a pouco, à despeito de sua desafetação, um santinho bonito era esculpido.
A loira até tentou focar-se apenas no seu trabalho e, de fato, aquelas mãos eram mesmo muito hipnóticas, mas quando viu seus olhos... Ah, aí ela soube que estava perdida...
Foi um choque, no começo, e, embora não possa afirmar com certeza, ela até desconfia ter chegado inclusive a titubear um passo no meio da calçada. Logo ela, que viveu uma vida toda sem nunca ligar pra essas coisas de amor, súbita e inexplicavelmente presa nos gestos de um artesão que nunca nem tinha visto, como se, naquele instante, um pouco do que ele talhasse fosse sua própria alma.
— Valha, Atena! – A irmã mais velha, Deméter, exclamou. Segurava sua filha pequena nos braços e a garotinha piscava os olhos vagarosamente, como se recém-desperta de um cochilo e demasiado encantada pelas cores a sua volta. – Num me pare assim, do nada, que eu quase esbarro n’ocê! Aconteceu alguma coisa?
A segunda filha daquela longa lista de irmãos não é capaz de se recordar de uma resposta qualquer que tenha dito, então é razoável supor ter ficado em silêncio, ainda muito afetada por aquela impressão que lhe inundava de sentimento. Afrodite, entretanto, a jovem do meio, seguiu seu olhar, deu um sorriso quase tímido e tocou seu ombro com afeto, conduzindo-a pra dentro da venda repleta de linhas e tecidos.
O ambiente familiar atuou como uma espécie de bálsamo, clareando-lhe a mente e aquietando o coração acelerado com o conforto de quem rodeara-se de novelos, teares e agulhas praticamente desde que nasceu.
As cinco filhas de Métis não eram reconhecidas como algumas das melhores rendeiras de Fortaleza à toa. Aprenderam cedo o oficio com a mãe e, com o irmão mais novo sendo o único homem da casa, dependeram unicamente de seu artesanato para se sustentarem durante muitos anos. Agora Ares já estava crescido e ajudava em casa, mas a impetuosidade do caçula não passava despercebida pelas mulheres da família, que jamais deixaram esmorecer a produção de seu negócio, pois praticamente previam que aquele ali logo tentaria a sorte em outro lugar.
Talvez por sempre ter sido uma das mais talentosas, que produzia os mais intrincados trabalhos com uma naturalidade tremenda; por ter crescido numa casa cheia, sempre batalhando muito para pôr comida na mesa e oferecer conforto a todos os integrantes; ou ainda por ser a que mais levava jeito com a administração do pequeno comércio que possuíam, Atena jamais dedicou-se a coisa alguma que não fossem o trabalho ou a família. Somava já seus trinta e poucos anos e jamais se envolvera com ninguém. Também não parecia sentir falta disso de forma alguma, mas agora... num vislumbre tudo parecia ter se alterado.
Nunca foi uma decisão oficial e definitiva, claro, mas conforme passavam-se os anos e ela assumia funções de filha, irmã, amiga, rendeira, administradora, tia, madrinha... sempre pareceu que as coisas seguiriam assim: executando papéis independentes e quase que alheios aos seus próprios desejos. Era uma mulher prática, nunca perdeu-se em sonhos, preferindo contentar-se, lidar e fazer o melhor com os contextos que já tinha. Por isso tudo era deveras surpreendente que logo naquele momento algo tão banal quanto o mero vislumbre de um homem bonito a desestabilizasse totalmente.
Só posso ter abilolado de vez.
— Mana, o que tu acha deste novelo aqui?
As gêmeas, Héstia e Artemis, disseram quase que ao mesmo tempo, e então desataram a rir, porque era desconcertante as semelhanças em suas diferenças. A primeira, sempre muito alegre e viva, foi diretamente atraída por um marrom-avermelhado. Quente, como tudo nela parecia ser. Já Artie segurava resoluta um fio de tonalidade azul-acinzentado, quase prateado, que acompanhava perfeitamente sua tímida reserva.
Atena apenas sorriu, contente.
— São perfeitos, meninas. Podem escolher tuas linhas favoritas, mas não se esqueçam que Mainha já levou uns bons novelos semana passada e ainda não demos conta de tudo. Vamos ter que nos aperriar pra finalizar até a quermesse.
Depois dos sinais em confirmação de suas irmãs, a loira entrou em uma espécie de “modo automático”, conferindo as numerações indicadas nos retrós que acomodava em sua cesta, de modo a garantir que teriam exatamente a mesma cor, e imaginando quais deles combinariam mais com cada um dos modelos que iriam confeccionar.
Perdeu-se ali pelo que poderiam ser minutos ou horas. Gostava de concentrar-se em seus próprios pensamentos, comentando baixo e para si própria algumas observações sobre metragens ou ainda murmurando a letra de alguma canção que lhe viesse a mente.
Ela estava próxima à porta, perdida em seu mundo particular, quando ouviu o zum-zum-zum do outro lado da rua e direcionou o olhar para o trio que fazia o melhor para esticar o cordão de bandeirinhas coloridas sendo penduradas entre os postes da praça principal.
Nada diferente do comum, mas a imagem daquele ambiente tão conhecido e querido todo enfeitado lhe aquecia o coração.
— Oxi, mas eu tô é doida pra esse arrasta pé!
Afrodite só faltava dar pulinhos de excitação, enquanto parava a seu lado, contemplando a mesma cena.
— Mas tu não perde uma oportunidade, né, Dite?
— Nunquinha. – Confirmou, com um sorriso largo. – E nem tente mangar de eu porque tu sabe que não vai adiantar. Tô feliz demais pra ligar para esses teus papos.
A mais velha apenas riu, e estava quase deixando o assunto para lá quando a outra acrescentou, com uma piscadela:
— E além disso... quem sabe não é dessa vez que tu encontra um cabra bom pra ti.
Atena tinha um conjunto de agulhas de costura nas mãos quando inclinou a cabeça na direção do portão onde vira o belo desconhecido mais cedo e arfou um tiquinho quando notou que ele não só seguia ali, como também encarava-lhe diretamente com aquelas poças verdejantes que ele possuía no olhar.
— É... Quem sabe...
▼◊▼◊▼
Eu não sabia buscar
Foi quando apareceu
O que eu quis inventar
Pra preencher o meu mundo particular
O sol se punha, espalhando seus tons alaranjados pela superfície do mar tanto quanto embrenhavam-se pelas frestas de sua cortina, e Atena atingiu o ponto em que perdera a conta de quantas peças produzira.
Num primeiro instante optou pelo fio cru, naquele bege acinzentado claro que tanto gostava, e deixou que a memória e prática lhe guiassem nos padrões de blusas, vestidos, xales e caminhos de mesa. Costumava considerar aqueles produtos mais tradicionais muito versáteis e belos, elegantes até, mas chegou em um ponto que parecia-lhe faltar algo.
Levantou-se de sua cadeira de madeira clara repousada próxima à janela de modo a captar a brisa fresca e a iluminação natural e dirigiu-se para o armário de materiais no canto daquele seu quarto-ateliê. Abriu as portas ainda sem uma visão clara do que buscava, mas isso não a impediu de correr as pontas dos dedos pelos rolos de linhas multicoloridos que ali repousavam, aguardando sua vez de serem transformados em arte e cultura viva.
Organizados em um gradiente de cor crescente, a filha de Métis podia ter optado pela mescla que reproduziria o brilho do sol na paisagem lá fora ou ainda uma infinidade de azuis capazes de fazer jus a calmaria do céu tanto quanto à tempestade do mar, mas ainda não era isso que sua alma artista clamava.
Queria algo capaz de tirar o fôlego.
Algo que preenchesse os vazios que tão abruptamente iniciava a perceber em si.
Algo que brotasse daquela terra tão seca, mas tão pulsante de vida, sedenta por água, por poesia, por tudo. Por mais.
Foi então que interrompeu-se naquela linha verdejante e – sem refletir muito, já pensara por uma existência inteira – escolheu-a para começar algo novo e assim o fez.
Era, de fato, muito habilidosa, mas as mãos tremiam um pouco quando deu os primeiros pontos ainda na linha de tonalidade austera. Fez todo o início do bordado seguindo um padrão tão simples quanto agradável, contido como ela própria. Já tinha material para o busto e principiava o que seria o torso do vestido quando acrescentou o primeiro marrom. Ele cresceu, assim como os floreios das rendas, que ganhavam complexidade e encanto, ficando mais quente e mais escuro até se transformar no delicioso pigmento da esperança.
Não foi exatamente uma surpresa constatar que o exato tom dos olhos do artesão resplandecia no delicado barrado da roupa que acabara de tecer, mais essência que mulher naquela tarde solitária.
(Também foi ali que Atena soube que aquela peça não pertenceria a mais ninguém além de si.)
No peito que era seu
No seu mundo não há
Mais nada que não eu
Já sei dizer que o amor pode acordar
▼◊▼◊▼
Quando o São João chegou, as ruas de Fortaleza pareciam ter sido pintadas por um deus criança munido de guache nas cores primárias. A impressão era essa, porque era realmente desafiador conceber como todo aquele vibrante vermelho-amarelo-azul (e verde, porque mesmo sendo divindade, não creio que o pequeno saberia que essa tonalidade em particular não pertence às cores base, já que habitualmente está inclusa com as outras nos pacotinhos de tinta) harmonizava tão bem com o clima da cidade.
As bandeirinhas estendiam-se a perder de vista pelas ruas de paralelepípedos, tão infinitas quanto os habitantes locais e turistas que povoavam aquele início de tarde, amontoando-se em volta de alguma das muitas barraquinhas de quitutes juninos típicos ou apenas proseando na calçada com quem quer que lhes estivesse fazendo companhia.
As cinco irmãs rendeiras estavam posicionadas um pouco mais afastadas da área de alimentação, mas o delicioso cheiro de milho nas mais diversas formas inundava o local ainda assim. Haviam chegado cedo – só as mulheres mesmo, já que sua mãe dissera não ter mais idade para essas festanças – e pouco antes das cinco já tinham vendido quase tudo.
Em certa altura, sol ainda espreitando no horizonte, Atena avistou um moço loiro coçando a nuca, meio sem jeito, tomando fôlego antes de começar um caminhar decidido no que parecia ser aquela direção.
Artemis parou de dobrar a blusa que tinha nas mãos ao notar a movimentação e o rapaz pigarreou brevemente ao postar-se em frente a tenda delas, no meio da calçada.
— Oh meu povo, povo meu. Peço só um instante de silêncio e atenção. Sou só um repentista, um reles Romeu. Tentando falar à Julieta que roubou meu coração.
As bochechas de Artie tingiram-se de carmim e, vencendo qualquer timidez, o loiro prosseguiu sua rima encarando-lhe diretamente.
— Esses teus olhos, morena, São estrelas no céu, sem fim. A noite morreu de pena. Por não ter olhos assim.— Todos em volta sorriam, extasiados pela doce cena apaixonada. – Se a vida é isto: sofrer, Que a morte me dê guarida. Não me beijes se eu morrer, Que posso voltar à vida…
Os passantes bateram palmas, assim como as demais irmãs que acompanhavam a declaração de camarote. Usando-se dos resquícios finais de coragem que lhe corriam nas veias, o jovem prontamente estendeu um papel colorido de cordel, que exibia algum versinho igualmente romântico e uma xilogravura de um coração florindo em uma noite estrelada. No canto inferior esquerdo liam-se os nomes dos artistas: Apolo Araújo e Poseidon Cardoso.
— Eu, er... sou Apolo e, só queria lhe dar isso, visse...
A morena piscou uma vez, ainda meio estática. Vendo-o se afastar, entretanto, olhou ao redor como se buscasse aprovação e a mais velha fez-lhe um sinal afirmativo com a cabeça, no que ela prontamente estendeu-lhe o papel e a peça de roupa que ainda repousava em seus braços, saindo da loja improvisada para o alcançar.
— Espere! – Chegando a seu lado, depositou um beijo estalado em sua bochecha antes de continuar falando – Me chamo Artemis.
O rapaz parecia absolutamente encantado com sua presença ali e sorriu abertamente aliviado e feliz para algum rosto mais à frente na multidão antes de enlaçar seus dedos nos da garota e começarem a assuntar.
Atena não estava exatamente o buscando entre as pessoas do lugar (talvez só um pouco), mas, tendo estado acompanhando o desenrolar da cena de sua irmã, não pode evitar vê-lo.
Alguns metros à frente, ao lado de uma mesinha com cordéis, gravuras e figuras de madeira enfileiradas, lá estava ele, resplandecente em sua camisa branca com os primeiros botões abertos e uma calça azul escura de tecido leve, os cabelos notavelmente desalinhados como se não fizesse o menor esforço.
A loira encarou aqueles olhos verdes pela segunda vez na vida e eles, igualmente, pareciam decorá-la por inteiro.
Desviou a mirada apenas para fitar o papelzinho que parecia tão frágil entre seus dedos longos:
— Poseidon...
Não foi mais que um sussurro, mas soou à seus ouvidos como uma confissão.
▼◊▼◊▼
A lua já ia alta e cheia no céu índigo sem nuvens quando as mulheres concluíram a última venda e começaram a guardar todos os itens de seu negócio. Artemis não havia retornado ainda (o que indicava que talvez o tal Apolo efetivamente tivesse conquistado sua Julieta) e Deméter também não estava mais ali, tendo saído para dar uma volta com a pequena Perséfone.
Héstia até estava tranquila, mas Afrodite só faltava quebrar a tenda tamanha pressa e animação para poder ir logo à quermesse ocorrendo a poucos passos dali.
— Podem ir, manas. Eu finalizo aqui.
— Tem certeza?
— Claro. Parece estar arretado de bom e vocês merecem aproveitar. Já encontro vocês...
Dois beijos estalados depois e as duas já haviam se perdido naquele mar de pessoas. Atena abre um sorriso que titubeia só um tiquinho ao pensar em como vai carregar tudo aquilo sozinha.
— Quer uma ajuda aí?
Talvez soe inverossímil que ela soubesse quem era pela voz, mesmo que nunca a tivesse ouvido na vida, mas a mulher rendeira tinha certeza de que se tratava do tal Poseidon.
— Hein?
Tá. A situação era pior do que imaginava. Perdera totalmente sua capacidade verbal.
— Posso carregar as estacas pra ti. Elas devem de ser pesadas e te garanto que de madeira eu entendo.
Como que a provar seu ponto, ele exibe as mãos calejadas por farpas e anos de trabalho, mas tudo que Atena faz é encarar-lhe, perguntando-se se aquelas mesmas palmas seriam suaves caso envolvessem as suas, numa dança encantadora de rudeza e delicadeza.
— Ah, por favor. Ajudaria muito. A caminhonete tá logo ali...
O moreno assentiu e recolheu do chão os objetos que serviam de estrutura para a tenda, enquanto Atena levava a bolsa de crochê que atuara como caixa para os lucros da noite, assim como a lona de cobertura dobrada nos braços.
Mal haviam iniciado o caminho, entretanto, quando Ares aparece na esquina e se oferece para levar os itens no lugar de Poseidon.
— Arriégua, Atena. Podia ter mandado me chamar, bichinha teimosa da peste! – Seu irmão reclamou enquanto estendia os braços para pegar as coisas com o homem que não conhecia – ‘Gradecido pela ajuda, mas pode deixar que assumo daqui.
Sem ter muito como argumentar, o moreno apenas faz um sinal com a cabeça e retorna para onde a festa junina acontecia.
Meio aérea, ela não sabia se agradecia ou não pela inesperada aparição de Ares, embora ele tenha cumprido à risca apenas o que disse que faria: ajudou a carregar as madeiras até a caminhonete, guardou-as ali e então sumiu novamente entre os jovens de sua idade que curtiam a festa.
Quando Atena retorna, está claro que procura alguém na multidão. Se lhe perguntassem, podia facilmente dizer que buscava pelas irmãs, mas uma desculpa nem é precisa, pois é Poseidon quem novamente se aproxima.
— Achei que nunca teria chance de falar com você, loira.
— Loira?
— É, ou prefere “galega”? Não fui devidamente apresentado pra me dar a liberdade de te chamar de Atena.
O revirar dos olhos seguido por um riso suave é muito natural, ela se pergunta quantos encontros similares aquelas ruas já presenciaram e a natureza humana a faz sorrir ainda mais.
Escrevi seu nome na areia
O sangue que corre em mim sai da tua veia
Um xote tão conhecido como delicioso começa a tocar e, quando o homem lhe convida a acompanha-lo até a área em que os casais estão dançando, ela não nega.
Veja só, você é a única que não me dá valor
Então por que será que este valor é o que eu ainda quero ter
— Tu é uma moça difícil de impressionar, sabia? Até pensei em tentar alguma graça hoje mais cedo depois que te vi, mas tu ficou concentrada nas tuas vendas o tempo todo...
Concentrada em não transparecer o quanto queria mergulhar nos teus olhos, pensou em acrescentar, mas permaneceu calada.
— O que no fundo talvez tenha sido bom, afinal não sou bom com as palavras como Apolo e provavelmente ia me envergonhar.
Tenho tudo nas mãos, mas não tenho nada
Então melhor ter nada e lutar pelo que eu quiser
— Algo me diz que tu apenas tem um jeito diferente de as expressar...
Atena toma suas mãos nas dela e é ainda melhor do que havia imaginado. Parece certo, manso, como todo afeto verdadeiro deveria ser.
Ê, mas pera aê
Ouça o forró tocando e muita gente aê
Não é hora pra chorar
Porém não é pecado se eu falar de amor
Se eu canto sentimento seja ele qual for
Ele a encarava como se fosse a mais sublime obra de arte e, quando começaram a forrozear, não foi exatamente uma surpresa que se encaixassem tão bem.
Me leva onde eu quero ir
Se quiser também pode vir
Escuta o meu coração
Que bate no compasso da zabumba de paixão
Ê pra surdo ouvir, pra cego ver
Que este xote faz milagre acontecer
O vestido bonito que trajava e que ela mesma fizera, como a personificação dos próprios sentimentos, parecia resplandecer ainda mais vistoso quando ele lhe rodopiava pelo salão.
— Pois esse cabra tá certo. É mesmo um milagre te ter aqui nos meus braços, loira.
Atena corou pelo que deveria ser a milésima vez naquela noite e depois, quando estavam sentados juntos dividindo uma maçã do amor, sentiu-se como uma adolescente da melhor maneira possível.
O beijo que trocaram na sequência foi um misto de sanfona, fogueira e calor. A mulher se perguntava se Deus entalhava aqueles momentos perfeitos á mão, como xilogravura.
Olha pro céu, meu amor
Vê como ele está lindo
Olha pr'aquele balão multicor
Como no céu vai sumindo
▼◊▼◊▼
Foi numa noite igual a esta
Que tu me deste o coração
O céu estava assim em festa
Pois era noite de São João
— Oxente, mas essa música tocou quando a gente se conheceu, tu se lembra?
A senhora estava sentada do lado de fora de sua casa, aproveitando o ar fresco do início de noitinha, e o céu estava tão bonito que nem dava mesmo vontade de parar de olhar.
— Se bem que o São João não foi exatamente a primeira vez que botei os olhos em ti, num é mesmo? – Fez uma pequena pausa, mais para tomar fôlego e mergulhar naquelas lembranças tão vívidas e ardentes em si do que para esperar por uma resposta. – A primeira vez em que te vi, tu tava sentado em um banquinho na frente da praça, passando a faca despretensiosamente num toco de madeira, como se mal se desse conta de teus movimentos, mas pouco a pouco um santinho bonito era esculpido.
A divertia o fato de sorrir tanto com essa memória em particular, logo ela que aprendera a ser feliz sem medidas nos anos que se seguiram.
— Eu tentei me focar apenas no teu trabalho e, de fato, tuas mãos eram mesmo muito hipnóticas, mas quando vi teus olhos... Ah, ai eu soube que tava perdida...
Havia um traço suave de melancolia ali também, mas ela preferia focar-se no calor gostoso que a mera sugestão de Poseidon sempre causava em seu peito.
— Bom, pelo menos é assim que me lembro... – Completou com a voz já meio rouca pelo esforço.
Havia balões no ar
Xote, baião no salão
E no terreiro o teu olhar
Que incendiou meu coração
O moreno a seu lado nada disse. Desde o primeiro instante fora melhor com gestos mesmo, então quando este apenas abriu-lhe um sorriso, ajeitando seu xale com as mãos trêmulas, sua quietude a fez questionar se sequer tinha ouvido metade das lembranças.
Bem, pouco importava.
Ele as viveu consigo, não podia pedir muito mais.
— Em último caso, contei pra lua, pras estrelas e pro chão de terra batida desse nosso quintal... – Murmurou com uma voz de sabedoria, de quem entende neste segundo um pouco mais de como a vida funciona do que no instante anterior – Vem, meu véio. Vamo entrar pra casa...
Olha pro céu, meu amor
Vê como ele está lindo
Olha pr'aquele balão multicor
Como no céu vai sumindo
Fale com o autor