Notas iniciais
No último capítulo:
"O dia correu sem nenhum outro transtorno. Hyoga foi para casa e passou mais um dia ao lado de sua família."

A semana passou bem rápido. Kamus e Hyoga tentavam de todo o jeito deixar Natássia feliz. Hyoga não conseguiu dormir quase nada durante a semana, por fim desistiu de tentar dormir. A semana foi alegre. Conversaram muito e até saíram para passear. Foram à Torre Eifel, saíram para jantar, foram a um museu de arte, foram a um parque de diversões e em muitos outros lugares. Foram dias agradáveis.

Enfim, o último dia chegou. Natássia parecia péssima, sentia dores fortes no peito e respirava com dificuldade. Hyoga chorava cada vez mais, Kamus também não conseguia segurar suas lágrimas. Natássia ficava cada vez pior.

- Meu... filho... não... chore... — Natássia falava pausadamente.

- Não posso! Não quero que morra! Não me deixe!

- Meu... filho... — Natássia segurou na mão de Hyoga, que estava sentado ao lado da cama. — Eu... sempre... estarei... com... você... nunca... se... esqueça... disso.

Depois de falar, fechou os olhos.

-Mãe? Mãe? MÃE!! MÃE ACORDA!!! NÃO MORRA!! NÃO... morra.

Natássia havia morrido. Hyoga chorava muito, como se tivesse perdido sua alma. Kamus abraçou o filho e também chorou. Sua amada esposa havia partido. Hyoga sentia seu peito se apertar cada vez mais. Ainda não acreditava que sua mãe havia mesmo morrido. Ela estava a poucos dias feliz, saudável. Maldita doença traiçoeira! Hyoga não conseguia soltar a mão de sua mãe. Kamus tentou afastar o filho da cama, mas ele relutou e ficou lá. Passou o dia inteiro ao lado da cama chorando. Não comeu nada, não fez nada. Kamus também estava chateado, mas tinha que ser forte por Hyoga. Se fosse fraco, quem ampararia Hyoga?

Foi um dia chuvoso. Na hora do velório, Hyoga ficou o tempo inteiro ao lado do caixão. Queria ficar com Natássia. Não queria esquece-Ia, era sua lembrança mais valiosa. E se com o tempo esquecesse o rosto dela? E se não conseguisse mais lembrar os momentos que passou ao lado dela? Chorou ainda mais. Eiri se aproximou e o abraçou. Hyoga chorou tanto que quase encharcou a blusa da namorada. Não conseguia parar de chorar. Nem mesmo Kamus conseguiu consolá-lo. Ele passou a noite toda ao lado do caixão de sua mãe, não comeu, não dormiu, não fazia nada além de chorar.

Pela manhã eles foram para o enterro. Depois de um tempo começou a chover, e Hyoga e Kamus ficaram encharcados, pois não levaram guarda-chuva. Depois que o enterro acabou Hyoga ainda ficou agachado na frente do túmulo. Ele não expressava nenhuma emoção. Suas lágrimas quentes se misturavam com as gostas frias da chuva. Kamus achou melhor irem embora, pois Hyoga poderia ficar doente. Kamus estava preocupado, Hyoga estava muito diferente.

- Hyoga! Vamos embora. Você vai acabar ficando doente debaixo dessa chuva.

- Deixe-me em paz. — A voz de Hyoga estava impassível, fria, distante.

- Hyoga, você não pode ficar aqui para sempre. Precisamos ir embora!

- Eu quero ficar aqui mais um pouco.

Kamus estava preocupado.

- Hyoga, é uma ordem! Vamos embora agora! Isso não fará bem a você! — Hyoga ficou em silêncio, parecia que ele não estava nem ouvindo o que Kamus dizia.

- Hyoga, sua mãe não gostaria de lhe ver assim.

Hyoga paralisou diante daquelas palavras, só o mencionar de sua mãe já lhe deixava inquieto. Levantou-se e saiu cabisbaixo. Kamus o seguiu até o carro. Durante a volta eles não trocaram uma palavra. Kamus não sabia o que falar para consolar o filho. Chegaram e Hyoga passou direto para o quarto e deitou-se. Kamus o seguiu.

- Hyoga, tire essas roupas molhadas antes que pegue uma gripe.

Hyoga continuou imóvel. Kamus estava começando a perder a paciência. Sabia que Hyoga estava triste, mas não precisava desobedecê-lo. Hyoga estava frio, seu olhar estava completamente vazio. Era como se tivesse perdido sua alma, sua vontade de viver. Seus olhos perderam todo o brilho, estavam opacos. Parecia um morto vivo. A única coisa que fazia era chorar. Ele não sentia nada, mas de seus olhos saíam lágrimas quase que automaticamente. Kamus achou esse comportamento muito estranho. Aproximou-se e colocou a mão na testa de Hyoga, estava quente. Provavelmente havia pegado uma gripe.

- Hyoga, você está com febre. Porfavor, tire essas roupas e tome um banho. Não quero que adoeça.

Hyoga olhou para seu pai. Kamus teve calafrios, nunca tinha visto um olhar como aquele. Só com o olhar Hyoga transmitiu todoo sofrimento que estava sentindo. Kamus gelou diante daquele olhar. Hyoga sempre teve um brilho diferente nos olhos. Sempre foi um garoto alegre e sentimental, e aquele olhar era triste e completamente frio. Kamus não tinha idéia do quanto Hyoga estava sofrendo, mas acreditava em seu filho.

Hyoga levantou-se e foi para o banheiro. Kamus foi para a sala e caiu no sofá. Estava cansado, tinha que ser forte para consolar Hyoga. Mais cedo ou mais tarde Hyoga ia superar aquilo, então tinha que agüentar pelo menos durante aquele tempo. Kamus estava muito cansado, dormiu.

Hyoga tomava banho sem vontade nenhuma. Deixava a água escorrer pelo seu corpo. Não pensava em nada, não sentia nada, só lágrimas descendo pelo seu rosto. Saiu do banho e voltou para o quarto. Deitou-se e tentou dormir. Mas a imagem de sua mãe no caixão não lhe saía da memória. Isso o estava incomodando. Colocou o travesseiro na cabeça, queria esquecer aquela cena. Pegou um livro e começou a ler, não funcionou. A imagem voltava-lhe à mente comoum bumerangue. Sentou-se na cadeira de seu criado, ligou o computador, também não funcionou. Por fim desistiu. Acordado não conseguiria tirar a imagem da cabeça. Começou a bater a cabeça na mesa. Batia cada vez mais forte, até saiu um filete de sangue que escorreu por sua testa. Não parou.

Kamus estava dormindo, porém acordou assustado. Ouviu uma batida forte. Levou algum tempo para sair do estado de sonolência e perceber que algo estava errado. Levantou-se e foi até o quarto de Hyoga. Abriu a porta bruscamente. Viu o filho batendo a cabeça e desesperou-se. Segurou-o e o abraçou. Hyoga derramou-se em lágrimas. Kamus estava pasmo com o que Hyoga fazia.

- O que deu em você? Poracaso quer se matar?

- Tira! Porfavor, tira! Tira a imagem da minha mãe da minha cabeça! Não agüento mais vê-la em um caixão, morta!

Kamus ficou surpreso. Quando viu o machucado de Hyoga, saiu do quarto e foi buscar alguns curativos. Voltou e se sentou ao lado de Hyoga na cama.

- Hyoga, meu filho, eu sei que está triste, mas não pode fazer essas coisas! Você poderia ter se machucado mais.

- Dói! Dói muito pai!

- Eu sei que dói, mas isso passa. Vai passar meu filho.

Kamus abraçou Hyoga. Estava com um mau pressentimento. Kamus sabia que uma ferida como essa só cicatrizava com o tempo. E parecia que essa ia demorar um bom tempo para fechar. Mas o problema é que Kamus não sabia o que faria enquanto a dor da ferida não passasse. Hyoga poderia fazer muitas coisas quando Kamus voltasse a trabalhar. Kamus não veria o filho durante o dia todo por causa do trabalho. Achou melhor confiar em Hyoga. Colocou a mão em sua testa e viu que ele ainda estava com febre.

- É melhor te levar ao médico, você vai acabar piorando.

- Não precisa se preocupar pai, eu vou ficar bem.

- Mas Hyoga...

- Não quero que se preocupe comigo sem necessidade. Sei que hoje foi difícil para você também. É melhor preocupar-se consigo.

- Não até você estar bem.

- Você é teimoso.

- Digo o mesmo.

Os dois se entreolharam e começaram a rir. Realmente os dois eram muito teimosos.

- É a primeira vez que lhe vejo sorrir desde que Natássia morreu. E é assim que eu gosto de lhe ver, feliz e sorrindo.

Hyoga abraçou o pai, sabia que podia contar com ele para tudo. Só que não gostava de ver Kamus preocupado consigo. Não suportava ver as pessoas preocupadas por sua causa, sentia-se culpado, pois elas começavam a ficar tristes. Hyoga gostava de ver as pessoas que amava felizes.

Kamus o soltou e levantou-se, já havia terminado o curativo.

- Vou preparar o almoço. Descanse um pouco, quando terminar eu lhe chamo. — Não quero comer, estou sem fome.

- Mas você precisa se alimentar, vai ficar doente se não comer.

- Eu como depois, não se preocupe.

- Você só sabe falar para não me preocupar, mas você sempre me dá motivos.

- Se eu disse para não se preocupar é porque estou bem. Não estou dando motivos.

Kamus suspirou, era melhor deixar quieto. Saiu do quarto. Hyoga despencou na cama. Estava tão cansado, sua cabeça latejava de dor. Precisava dormir um pouco. Fechou os olhos e dormiu logo.

Acordou depois de umas três horas. Sua cabeça ainda latejava. Seu corpo estava todo mole e sentia muito frio. Provavelmente ainda estava com febre. Foi até a sala, onde encontrou seu pai dormindo no sofá. Como estava fazendo frio, pegou um cobertor e cobriu Kamus. Sorriu, Kamus ficava muito fofo dormindo. Riu ainda mais de seus pensamentos. Resolveu sair um pouco. Pegou seu casaco e saiu. Andava lentamente pelas ruas da cidade. Resolveu ir até o parque, no lugar onde sempre gostava de ir. Correu para chegar ao lugar, entrou na mata e logo avistou a nascente. Sentou-se na grama, que ainda estava molhada por causa da chuva. Passou a observar o céu. Estava nublado, o sol nem aparecia. Amava esse tipo de clima, não era muito fã de calor. Desde pequeno gostava de clima frio. Isso porque sempre era embalado pelos braços calorosos de sua mãe. Lembrou-se novamente dela. Não adiantava, não tinha nenhum momento de sua vida que sua mãe não tinha participado. Até para respirar ele lembrava-se dela. Assim seria impossível não sofrer. Sentiu seus olhos ficarem molhados. Sentiu as lágrimas quentes molhando seu rosto novamente. Olhou para o lago, estava quase congelado, estava muito frio. Sentiu uma coisa gelada e molhada no seu nariz. Olhou para o céu e percebeu que estava começando a nevar. Adorava neve, sempre patinava no gelo com... sua mãe. Não podia esquece-Ia. Então o que podia fazer para parar de sofrer? Não tinha resposta, era melhor esperar o tempo passar e ver no que dava. Passaram-se algumas horas. Hyoga continuava sentado naquele lugar. Até que ouviu passos atrás de si. Era Kamus. Mas o que ele fazia ali? Como sabia daquele lugar?

- Sabia que estaria aqui.

- Como sabia desse lugar?

- Eu vinha aqui quando era jovem. Acredite! Você não foi o único que descobriu esse lugar. Quando eu era jovem, apesar de ser tímido, eu era bem revoltado. Toda vez que fugia eu vinha aqui, pois era o único lugar onde meu pai não me incomodaria. Acho que isso não será possível com você. — Kamus sorriu.

-É.

- Você estava chorando de novo, não é?

Hyoga ficou em silêncio.

- Não precisa ter vergonha de falar isso, homens também choram.

- Não consigo tirá-la da mente.

- Mas você quer esquecê-la?

- Não, mas é muito doloroso sempre me lembrar dela.

- Sei que é. Mas você não deve esquecê-la, mesmo que seja doloroso. Ela foi sua mãe, cuidou de você com muito carinho e te amou muito. Não esqueça esse sentimento que ela lhe deixou. Não sei se já lhe contei, mas minha mãe nunca me amou daquele jeito.

- Sério?

- Sim. Meu pai a abandonou quando eu estava mais ou menos na sua idade. Ela achou que tinha sido por minha causa e nunca mais me deu amor ou carinho. Concluí que ela não me amava o suficiente. Tornei-me revoltado, frio e fechado. Só com sua mãe eu me sentia bem e podia agir do jeito que eu verdadeiramente era.

- Nossa! Não sabia disso. Você amava mesmo a mamãe, não é?

- Sim. Ela foi a única que me apoiou, me deu esperança e amor. Ela foi a única pessoa em que realmente confiei. Depois que nos casamos, passei a amá-la ainda mais. Pois ela me deu o que tenho de mais precioso hoje, você. Se você não existisse, não sei como eu estaria agora. Sem ela me sinto perdido, afinal, passei os 38 anos de minha vida ao lado dela. Mas como você está aqui, não me sinto perdido. Você é a prova viva de que eu amei alguém! É o fruto do meu amor com Natássia. Sempre que te vejo, lembro-me dos momentos felizes que passei com ela e isso me deixa contente. — Kamus estava com os olhos marejados.

Hyoga sorriu, abraçou o pai, que retribuiu o abraço.

- Eu amo você pai.

- Também te amo meu filho. Vamos seguir nossas vidas juntos. Prometo que não vou lhe deixar sozinho. Sempre que precisar pode confiar em mim.

- Obrigado pai.

Hyoga acreditava em Kamus e queria poder sempre contar com ele. Mas sua mente nunca permitiu isso. Sempre ficava se martirizando, pensando que Kamus não tinha tempo para ouvir suas tristezas e problemas. Sempre admirou Kamus, era um homem correto, justo e trabalhador. Às vezes achava que era um peso para ele. Kamus poderia estar bem melhor se não tivesse despesas e perda de tempo com Hyoga. Hyoga tinha esse problema, estava sempre travando uma batalha interior, mente x coração. Ele até queria que o coração ganhasse, mas no final a razão sempre falava mais alto. Não fazia isso de propósito. Só queria pensar no que era melhor para as pessoas que amava, mesmo que isso não fosse o melhor para si. Sabia que esse defeito poderia lhe custar muito no futuro, mas era mais forte do que ele.

Ainda nevava, Kamus levantou-se e bateu a neve de seu casaco.

- Vamos! Pode esfriar mais e você não pode ficar aqui.

- Tudo bem.

Foram para casa. Já estava escuro. Chegaram e nada de especial aconteceu, uma noite como todas as outras. Hyoga não conseguiu dormir de novo. Isso estava acabando consigo. Queria dormir, mas não conseguia. Era sempre a mesma coisa, fechava os olhos, cochilava, tinha um pesadelo com sua mãe, acordava assustado e não conseguia dormir mais. Estava ficando irritado com isso. Desde que sua mãe morreu, não tinha mais sono, não tinha mais fome, não tinha vontade de fazer nada. Talvez fosse por causa da gripe, mas não acreditava muito nisso. Revirou-se na cama, queria parar de pensar e descansar, mas não conseguia. Ficou acordado até amanhecer. Levantou-se e arrumou-se para o colégio. Saiu sem comer nada, estava péssimo. Parecia mais fraco. Durante as aulas, não conseguia prestar atenção. Ficava de cabeça baixa, pensando em outras coisas. Os professores estavam ficando preocupados. Hyoga sempre foi um bom aluno. Mas acharam melhor esperar para ver o que estava acontecendo.

Eiri saiu correndo, tinha que ir logo para o orfanato. Recebeu o chamado do diretor dizendo que precisava dela urgente. Eiri sempre voltava para casa com Hyoga, mas ela acabou saindo mais cedo. Corria para chegar, acabou tropeçando e caindo. Deixou tudo cair no chão. Agachou-se e começou a pegar suas coisas. Viu outra mão ajudando. Olhou e viu um belo garoto, se fosse mais velho seria somente um ano. Ele parecia um pouco com Hyoga, talvez porque fosse loiro e tinha olhos azuis profundos. Era um pouco mais forte que Hyoga se fosse observar seu porte físico. Era também um pouco mais alto.

- Toma.

O garoto lhe estendeu os objetos que havia pegado.

- O... obrigada.

- Você é muito bonita, sabia? Que tal me dar um beijo como forma de gratidão por eu ter lhe ajudado?

- Sinto muito, mas eu tenho namorado. Agora, se me der licença, estou com pressa.

- Ele não vai saber se você não contar.

O garoto segurou o braço de Eiri e a pressionou no muro. Eiri tentava se soltar, mas ele era muito mais forte.

- Solte-me! Não quero nada com...

Eiri foi calada com um beijo. Ela se debatia com todas as suas forças, mas de nada adiantava. Sentiu-se ainda mais pressionada. Até que ouviu passos, até então a rua estava deserta. O garoto parou de beijá-la. Eles se viraram para a pessoa.

- O que pensa que está fazendo com minha namorada seu idiota?

- HYOGA!

Eiri se livrou dos braços do garoto e correu para abraçar o namorado.

- Você está bem, Eiri?

- Estou. Ainda bem que você chegou. Esse garoto é doido, me beijou do nada.

- Você é bonita, o que você quer? — Disse o garoto.

- Mas ela já tem um namorado! Então pode ir tirando o olho! Tá achando o que? Que pode sair beijando a namorada dos outros assim? Se você faz isso com outras não pense que com ela será igual! — Hyoga já estava ficando irritado.

- Você é que é burro! Deixa uma garota linda dessas, sair por aí sozinha.

Foi a gota d\'água, Hyoga perdeu completamente e paciência. Avançou no garoto e lhe deu um soco no rosto. Começaram a brigar. Hyoga não era de brigar, mas era muito ciumento. Amava Eiri e não permitiria que ninguém se engraçasse com ela. Hyoga estava fraco, por isso apanhou bastante, mas mesmo assim conseguiu causar um bom estrago no garoto, que saiu de lá correndo. Hyoga caiu no chão de joelhos, todo machucado. Eiri correu até ele.

- Você está bem? Vem! Eu vou te levar até sua casa!

- Não precisa. — Disse Hyoga limpando o sangue que escorria por sua boca. — ­Você não tinha que ir ao orfanato?

- É mesmo! Venha comigo, tenho certeza que o diretor não vai se importar.

- É melhor eu ir para casa cuidar desses machucados.

-Mas...

- Eu vou ficar bem. Agora vá antes que o diretor fique preocupado.

- Obrigada.

Eiri deu um beijo em Hyoga e saiu correndo. Se não estivesse com tanta pressa teria ficado com Hyoga, mas o diretor já estava começando a se aborrecer com a sua ausência no orfanato. Hyoga levantou-se com muita dificuldade. Estava todo arranhado e machucado, seu machucado da testa abriu-se novamente. Caminhava devagar até chegar a sua casa. Caiu no sofá, estava fraco e, agora, machucado. Não deu nem cinco minutos e já estava dormindo. ­

Acordou de repente, não conseguia dormir em paz. Só conseguia cochilar e, mesmo assim, só quando estava morto de cansaço. Talvez isso fosse psicológico. Pelo menos agora estava melhor. Mexeu-se e sentiu seu corpo todo dolorido. Sentou-se e viu que o sofá ficou um pouco sujo de sangue, já que tinha cor azul claro. Depois limparia aquilo, ficou com fome de repente. Foi para a cozinha procurar alguma coisa para comer. Pegou um pacote de biscoito recheado e suco. Sentou-se no sofá e ligou a TV. Não estava passando nada de interessante. Achou melhor assistir um DVD. Procurou na coleção de seu pai, mas não achou nenhum que o interessasse. Viu que um não tinha capa e estava sem nome. Resolveu ver o que era. Quando viu a primeira cena desatou a chorar. Era um DVD de uma apresentação de ballet de sua mãe quando era mais jovem. Lembrava-se perfeitamente daquele dia. Viu tudo de camarote com seu pai. Naquela época tinha cinco anos, ficava com os olhos brilhantes de ver sua mãe tão linda dançando com tanta habilidade e graciosidade. Tinha vezes que Kamus até brigava com ele porque ele se pendurava na beirada do camarote só para ver sua mãe mais de perto. Hyoga chorava cada vez mais, nunca mais veria sua mãe dançar. Será que não existia nada naquela casa que não lembrasse Natássia?! Não, era possível vê-la em todos os cantos da casa. Assim não conseguiria ficar sem chorar nem um dia sequer. Limpou as lágrimas, mas elas insistiam em cair. Queria ser forte, mas estava sendo difícil. Sua mãe disse que queria vê-lo feliz, mas não ia conseguir fazer aquilo sem ela.

Ouviu a campainha tocar. Limpou novamente as lágrimas e atendeu. Era Eiri e um garotinho de mais ou menos uns seis anos. Era pequeno, batia na cintura de Eiri. Tinha olhos verdes e cabelos ruivos bem rebeldes.

- Oi Hyoga! Eu passei aqui para ver como você estava. Tive que levar o Kitamura ao hospital, ele estava passando mal. De lá eu vim para cá e trouxe-o comigo, espero que não se importe.

- Não, tudo bem. Entrem.

Eiri deu um beijo em Hyoga e entrou junto com Kitamura. Sentou-se no sofá e viu as manchas de sangue. Só então percebeu que Hyoga nem havia tocado nos machucados, alguns ainda sangravam.

- Hyoga! Seu descuidado, ainda não cuidou dos machucados! Onde tem curativo aqui?

- Na prateleira do banheiro.

Eiri saiu e foi até o banheiro. Voltou com alguns curativos e com remédio.

- Vem, senta aqui! Eu vou cuidar disso. E nem adianta falar que não precisa!

- Tudo bem, não ousaria desobedecer você senhora Eiri.

- Engraçadinho.

Hyoga sentou-se ao lado de Eiri e, ela começou a desinfetar os machucados com o remédio. Hyoga fazia caretas, estava ardendo. Kitamura riu muito da cara de Hyoga.

- Ei! Isso não tem graça!

- Tem sim, você parece uma criancinha fazendo essas caretas. — Disse Kitamura que começou a rir.

- Pronto, agora está bom.

- Obrigado Eiri.

- Isso é o mínimo que eu posso fazer por você, já que eu fui a causa desses machucados.

Hyoga acariciou o rosto da namorada.

- Eu posso até morrer, mas não deixarei que ninguém roube você de mim.

Beijaram-se. Eiri olhou no relógio, já estava tarde. Tinha que ir embora ou o diretor ficaria bravo.

- Tenho que ir.

- Espera! Eu tenho que te dar uma coisa. Vem!

Hyoga puxou a garota até o quarto.

- Senta aí, eu preciso achar.

Eiri sentou-se na cama e ficou observando o quarto. Hyoga era bem organizado. O único lugar bagunçado era sua mesa de computador. Era uma mesa grande que tinha o computador numa ponta e depois um bom espaço livre com uma luminária em cima. Provavelmente era onde Hyoga fazia suas atividades escolares. Tinha um monte de desenhos em cima da mesma. Lembrou-se que Hyoga amava desenhar e ele era muito bom. Fazia caricaturas quase perfeitas, paisagens lindas, desenhos comuns e muito mais. Olhou para o criado ao lado da cama de Hyoga, estava cheio de remédios.

- Hyoga, para que são esses remédios?

- O que? — Hyoga, que estava procurando por algo no guarda-roupa, virou-se bruscamente. — Não é nada.

Pegou todos e colocou dentro da gaveta. Eiri achou estranho, mas deixou quieto. Hyoga voltou a procurar.

- Achei!

Deu um pedaço de papel para Eiri. Nele tinha um desenho dela. Estava seu rosto e em volta um grande coração. Eiri ficou maravilhada, estava lindo! Amava quando Hyoga fazia desenhos para ela. Abraçou Hyoga.

- Obrigada!

- Eu sei como você gosta dos meus desenhos, por isso fiz esse para você! Ainda não consegui descobrir o que você vê nessas coisas que eu faço. São muito ruins.

- Ou você é muito modesto ou está fazendo isso para que eu te elogie.

- Verdade, eu vejo desenhistas por aí que fazem um trabalho quase real aos olhos, são perfeitos! Evocê fica apreciando esses rabiscos que eu faço. Não tem a menor lógica.

- Mas nenhum deles é meu namorado.

Hyoga sorriu. Aquela garota não tinha jeito mesmo.

- Tenho que ir agora, a gente se vê.

Eiri saiu. Hyoga ficou sozinho de novo. Pensou em tomar um banho, mas estava com pena de tirar os curativos que Eiri teve tanto cuidado em fazer. Sentou-se na frente do computador e começou a mexer. Passou algumas horas mexendo. Quando já estava de noite resolveu tomar banho. Seus machucados ainda ardiam um pouco, mas nada demais. Resolveu estudar um pouco. Ficou completamente concentrado.

Kamus chegou a sua casa, mas estava morto de cansaço. Tudo que queria era um bom banho, comida e cair na cama. Caiu no sofá e se espreguiçou. Só então notou as manchas de sangue nele. Logo pensou em Hyoga. Foi até o quarto com o coração apertado em pensar que Hyoga poderia ter feito alguma besteira. Abriu a porta lentamente e viu Hyoga debruçado nos livros que estavam em sua mesa. Aliviou-se. Acariciou a cabeça de Hyoga e o chamou baixinho. Hyoga acordou assustado e bateu a cabeça na luminária novamente.

- Ai ai ai ai!! — Hyoga passava a mão na cabeça. — Lembre-me de tirar essa luminária daqui! É a segunda vez que bato a cabeça aqui, já está virando rotina.

Kamus caiu na gargalhada.

- Você acha engraçado porque não acontece com você.

Kamus beijou a testa do filho.

- Vamos, vá deitar na cama.

- Perdi o sono.

- Desculpe te acordar.

- Não tem problema. Você chegou agora, não foi? Por que não toma um bom banho enquanto eu preparo alguma coisa para você comer, que tal?

- Obrigado meu filho, vou aceitar sua proposta.

Hyoga saiu do quarto e foi para a cozinha. Kamus tomou o banho e esperou algum tempo, até que Hyoga avisou que o jantar já estava pronto. Kamus serviu-se e sentou-se no sofá para ver TV. Hyoga sentou-se ao seu lado.

- Ei! O que são essas marcas de sangue no sofá?

- AH! Eu me esqueci de limpar, desculpa.

- Mas o que foi que aconteceu?

- Eu briguei com um cara aí, acabei todo machucado. Cheguei aqui em casa e caí no sono.

- Mas por que você estava brigando? Você nunca foi disso.

- Um palhaço se engraçando com a Eiri. -Hyoga falou isso num tom revoltado e um pouco corado.

Kamus sorriu, sabia que seu filho estava realmente apaixonado.

- É melhor você ir dormir, amanhã você tem aula.

Hyoga pensou em dizer sobre seu problema de insônia com Kamus, mas achou melhor deixar quieto. Aqueles remédios que estava tomando eram para isso. Tomava cinco remédios diferentes, um para aumentar seu apetite, um para tirar aquela depressão toda e os outros três era para ajudá-lo a dormir. Não estava funcionando muito. Queria saber por quê. Passava a noite inteira pensando em sua mãe. Chorava até amanhecer. Talvez estivesse sentindo falta dela mais do que pensara. Não tinha uma noite sequer que não pensara nela. Isso o deixava deprimido. Estava parando sua vida por ela. Quando esse sofrimento ia parar?

Continua...

Notas finais
Yoooo ^^/

Tadinho do meu Hyoguinha!! Eu o amo, mas ele sofre tanto nas minhas mãos ^^"!! Mas tá aí outro capítulo cheio de drama *o*~~!!! Mandem reviews, quero a opinião de vocês; se eu devo continuar escrevendo fanfics, se devo parar. Qualquer comentário me deixará contente ^^/!! Espero que tenham gostado do capítulo!!

^^v