Quando a Chuva Cai - II

1 Chegada das Nuvens Negras - Parte I


Eram aproximadamente três e quarenta da manhã, eu olhava para o meu celular que emitia uma luz forte ao ponto de fazer meus olhos arderem meio àquele breu que estava no ônibus, as únicas luzes que via eram as das saídas de emergências postas nas janelas, além do led central no início do corredor do ônibus que indicava se o banheiro estava sendo usado. Apesar de ser um ônibus convencional para mais de 30 pessoas, haviam apenas 17 (contando com uma professora e o motorista), o que pra mim – e acho que para o motorista também — dava um enorme prejuízo, mas desde que pagamos essa excursão, não havia mais volta, visto que muitas pessoas desistiram depois de terem dado seus nomes, o preço não foi nada barato, R$500,00 para passar 3 dias em um hotel fazenda em Campos do Jordão, mesmo com uma cidade desse ‘status’, aposto que há preços e pacotes mais em conta em épocas do ano como maio, onde não vão tantas pessoas, mas eu não queria reclamar, com 17 anos eu estava parecendo um velho de 70 que ficava resmungando sobre tudo e todos, minha mãe dizia que eu ficaria doente se visse problema em tudo, então, eu tentava relaxar, mas era realmente muito difícil observar as coisas positivas da vida, ainda mais se morando em um país onde não se há muitas coisas promissoras.

— Cara, desliga o celular, por favor. – Ligia Ferreira, 18 anos, a aluna mais velha do 3º C, ela estava sentada atrás de mim, eu peguei dois bancos vazios porque gostava de espaço, a garota fez o mesmo, até porque ela não tinha muitos amigos por ser um tanto... peculiar. Eu digo peculiar porque ela não age como as outras garotas, ela gosta de praticar esportes, de jogar games online e também tem uma aparência distinta em comparação com as outras meninas da classe, seu cabelo é quase raspado, as pontas eram arrepiadas e ela pintava de ruivo laranja, não usava brincos, mas tinha um piercing na sobrancelha direita, seu estilo de se vestir era bem largado, gostava de usar camisas de banda e bermudas masculinas, apesar disso, ela não era lésbica, e falando assim me sinto um tanto preconceituoso.

— Estamos no ônibus e aqui pelo que sei não há regras pra se manter os celulares desligados, quer que eu faça o que se não estou com sono? – Respondi um pouco alto que era pra tentar acordar todos os outros que estavam na viagem, não aguentava mais aquele tédio, eu havia dormido a tarde anterior toda, sempre faço isso antes de viajar, gosto de aproveitar a viagem animado, pensava que faríamos jogos de cartas, contaríamos piadas e até cantaríamos, ok que pode parecer um pensamento brega, mas é pra isso que viagens escolares servem! E esse era nosso último ano.

— Tome um dramin, ou uns 10, eu tenho aqui se quiser. – Dois bancos na minha frente estava Carmen Lopes, uma garota com menos de 1,50 de altura, ela parecia uma criança de 10 anos com seu cabelo loiro claro curto e sua pele branca e delicada, em contraste com isso seu comportamento era bem explosivo, ela estava sempre irritada e brigando com todos, mas isso é o que chamam de tsunderes nos mangás, acho que ela se encaixaria perfeitamente nesse padrão dadas todas suas características.

— Esse cara não dorme nem com dramin, lembro da nossa viagem da oitava série, o filho da puta, na volta, com todo mundo morrendo de cansaço, foi cantando músicas de anime e depois jogando PSP no último volume, ele deve ter alguma doença que não o deixa com sono. – O turno para falar agora foi dado à Raul Crisaldino, um garoto de pele morena com cabelos cacheados que iam quase até seu ombro e cobriam todo redor de sua cabeça, ele tinha a mesma idade que eu, era amigo de infância, daquele tipo de pessoa mais conservadora que gosta de tudo certinho e padronizado, ele não tinha o meu ritmo de vida e por isso não éramos de sair muito.

— Parece que eu consegui o que queria, acordei todos vocês, e sabem do que é hora? Agora é hora de perder o sono e jogarmos conversa fora até chegarmos em Campos do Jordão. – Me levantei e ergui a voz, não estava nem aí se nossa professora Kátia e o motorista falassem algo, mas foi só eu realizar tal ação que esta veio até o meio do ônibus.

— Ele tem razão hein, que desânimo, vamos animar! – Era isso que eu esperava de Kátia Alencar! Ela era nossa professora de História e representante dos professores para nossa sala de aula, era uma pessoa animada, até mais do que eu, mas em certos momentos eu tinha medo do seu pique, seus cabelos dourados e curtos a faziam parecer bem mais jovem do que era.

— Até você professora? Com sua idade deveria estar no terceiro sono. – Ishimura Koki sorriu e fez outros ao seu redor sorrirem, esse era o ‘idiota’ da classe, sempre fazia piadas em todo momento, não era uma má pessoa mas também não queria nada da vida, por ser filhos de pais ricos apenas curtia, e ele sabia que todos o achavam um vagabundo.

— Com minha idade você vai estar com o saco no chão e careca, além da barriga não deixar você ver o seu pinto, então, eu lamento – Kátia era realmente minha ídolo, a cada frase dela sentia que não queria que o colegial acabasse, ela sempre dava essas tiradas na sala de aula.

— Mas japonês já não tem pinto pequeno? Então ele vai acabar virando uma garota. – Jeferson Soares tomou um tapa na cabeça de Ishimura quando fez essa piada que junto à da Kátia, se tornou um combo explosivo que fez até Juliana Meire rir.

— Vocês não prestam. – Ela, por sua vez, estava do lado de Ronaldo Grespi, seu namorado, um rapaz sério e calmo, ele não era de muitas palavras, por outro lado, Juliana era o tipo de garota que todos queriam cuidar, cabelos negros e longos, magra, usava um óculos grande e era bem inteligente e delicada, eu confesso que sentia inveja de Ronaldo.

— Concordo, eu sou o único que presta aqui, agora, quem quer jogar truco? – Peguei meu baralho de dentro da bolsa mas todos pareciam desanimados e com cara de sono, eram realmente uns fracos

— Nós três vamos, tira no reis os parceiros. – Para minha surpresa, Carlão, Wilson e Renan saíram do fundo do ônibus e foram até o meu acento dispostos a jogarem truco, eles sempre andavam juntos, eram rapazes que gostavam de sair e azarar as garotas, diferente de mim, Jeferson e Raul que eram mais nerds, eles podiam ser vistos como nosso oposto, mas eram boas pessoas.

— E a gente tá de próxima, o povo da frente é muito parado, credo, você não era o único acordado fofo. – Como eu pensei, Brunna Bertolani também não poderia dormir, ela era uma das patricinhas da classe, vivia sempre bem arrumada e tentando conquistar todos os garotos, apesar disso eu não a achava uma vadia, acho que por ser amigo de infância dela também, com seus cabelos curtos em chanel de cor preta, ela realmente seduzia qualquer um por ali, mas nunca dava bola realmente.

— Eu não sei jogar... já disse... – Maria Izaqui era uma garota tímida e bem ‘bobinha’ na vista da maioria das pessoas, mas era a mais inteligente da classe, suas notas variam de 9 a 10 e nada além disso, se tirasse 8 era raridade, apesar de ter a aparência de uma evangélica com longos cabelos castanhos, pele morena e sem muitos acessórios, ela jurava não ter religião alguma.

— Eu ensino, já falei! Para de ser chata vai, vamos mostrar pros homens o poder feminino, tsc. – Helaine Parma era uma garota bem estranha, isso porque todos sabiam que ela era bipolar, tinha um comportamento simpático na maior parte do tempo, mas às vezes chegava na sala de aula com o rosto fechado e não dizia uma palavra se quer, seus cabelos ruivos e longos em contraste com sua pele quase albina faziam ela ser admirada por todos na escola, eu agradecia por na minha classe ter muitas garotas bonitas, mas nenhuma delas havia dado bola pra mim infelizmente, apesar de estar de olho na Carmen a algum tempo já, mas duvido que alguém percebia isso, sou bom em disfarçar meus sentimentos.

Começamos a jogar truco, e quando pegamos o embalo, todos queriam jogar, ficamos até às cinco jogando truco e poker, até Kátia entrou no meio, só Ronaldo e Juliana que não se misturaram, eu havia conseguido animar um pouco aquela viagem, fiquei feliz por ser útil, esperava que aquele fosse um fim de semana inesquecível, eu adorava o clima das montanhas, as pessoas que estavam no ônibus não eram ruins e não dariam trabalho, eu só queria mesmo estar com uma garota como namorada em ocasiões como essa, por isso eu decidi para mim mesmo que iria investir em Carmen, poder ficar com ela em um lugar como esse seria um sonho realizado, mas não me iludiria demais, eu não era um garoto tão alto e nem tão musculoso, tinha a aparência normal de um jovem comum, cabelos curtos e castanhos, pele não tão branca nem tão morena, ou seja, não tinha nada de atraente.

Enquanto estava acordado desde às 01:00 até o momento em que acordei todos, vi e ouvi algumas coisas que me chamaram atenção no ônibus, primeiro, o fato do Ronaldo ter ido ‘buscar’ água no fundo do ônibus, mas ele demorou mais do que uma pessoa demoraria, visto que estamos em um ônibus, e ouvi, naquele mesmo instante, a voz da Helaine que até então eu pensava estar dormindo. Também percebi que Kátia se sentou do lado de Raul, eu não sei porque mas imaginei que podia rolar um aluno x professora, outra coisa estranha foi que ouvi a Carmen falando com alguém, mas não creio que era no celular, pois eu olhei para o meu e estava sem sinal, quando se fica acordada em ‘torno’ de várias pessoas, se ‘vê’ muitas coisas.

O tempo passou, já eram 5:15 da manhã, os primeiros raios de sol começavam a surgir no horizonte, faltava uma hora para chegarmos, eu estava ansioso, todos os outros voltaram a dormir exceto por Jeferson que fazia palavras cruzadas e por Kátia que conversava com o motorista, foi quando ouvi um barulho e senti o ônibus balançar.

— O que diabos? – Raul se levantou assustado, ele provavelmente devia estar dormindo.

— Por que estamos parando? Carmen estava com a cara de sono, mesmo assim, ela ainda era fofa. E o ônibus realmente estava parando, o motorista o encostou perto do que parecia ser um hotel, estava a alguns metros de distância, ele parou o ônibus no acostamento mas ainda o deixou ligado.

— Que tá havendo hein? – Carlão era um tanto vida louca, ele foi até a frente questionar o motorista.

— Pessoal, escutem, tivemos um probleminha no ônibus, o motorista vai dar uma olhada e logo voltaremos pra estrada. – Kátia tomou voz e foi até o corredor avisar todos.

— Puts, justo agora que eu tava tendo um sonho tão bom com umas gurias holandesas. – Ishimura estralou seus dedos enquanto disse isso olhando para Kátia.

— E como sabe que as garotas eram holandesas? Elas falavam holandês? – Questionou Ligia rindo de canto.

— Ele devia é estar sonhando com um negão e fala isso aí. – Raul falava isso sem se dar conta que ele era em si um negão.

Todos descemos do ônibus para respirarmos o ar do fim da madrugada, a vista já era bonita de lá, várias montanhas, um relevo ótimo, me sentia vivo ao respirar aquele ar puro, não dava pra ver nenhuma cidade, só montanha, neblina e os pequenos raios de sol penetrando o horizonte.

— E então, o motorista já arrumou? – Perguntou Helaine enquanto bocejava na frente de Kátia.

— Pessoal, eu acho que infelizmente, vamos ter que chamar um mecânico. Eu tenho conhecimento mas não faço ideia do que aconteceu, o motor parece que está ‘travado’, não sei mesmo. – O Motorista se chamava Elgenor Irneu, era um homem de meia idade calvo com uma magreza que me fazia me sentir gordo, ele era humilde e gostava de conversar, não tinha como não vê-lo como má pessoa.

— Isso é zoeira né? Porra! – Carlão chutou o pneu do ônibus irritado, todos pareciam aborrecidos com isso.

— E agora, ficamos aqui na beira da estrada até aparecer o tal mecânico? – Mirela Parilla deu as caras, era uma garota de óculos com cabelo enrolado e uma aparência um tanto indiana, ela vivia falando sozinha e por isso todos mantinham certa distância dela, de vez em quando eu trocava umas ideias com ela no fundo da classe, era uma pessoa boa e ela gostava das mesmas séries que eu.

— Pelo visto, sim... – Ronaldo olhava para aquele hotel que estava em nossa frente, quando repentinamente Helaine começou a gritar.

— O que houve pelo amor de Deus!? – Kátia olhou assustada para a garota, ela se contorcia no chão, parecia com extrema dor no abdômen.

— Qual o problema Helaine? Está com cólica? – Perguntou Kátia se abaixando para falar com a garota que havia se sentado no chão enquanto ainda gemia de dor.

— Eu não sei, eu to com muita dor no estômago, não desceu ainda, não é cólica, mas parece que tem algo querendo sair de mim. – Todos ficaram assustado pois a garota parecia mesmo doente, ela começou a chorar de dor. Brunna e Kátia a ajudaram a se levantar.

— Precisamos ir naquele hotel com ela, pra ela tomar uma água e se sentar, na beira da estrada que ela não vai ficar.

— Caralho, justo agora dá isso? Parece que a bruxa foi solta. – Renan falou isso meio baixo só para poucos ouvirem, mas realmente era uma coincidência. A professora e Brunna levaram Helaine para aquele hotel, Ronaldo, Juliana e Ishimura os acompanharam, o motorista tentava contatar pelo celular algum mecânico, mas ele precisaria ir até o hotel também.

— Pessoal, vamos todos pra lá, o motorista aproveita e chama o mecânico, e vocês sei lá, ficam na sala de espera, eles vão entender que é uma emergência! – Kátia nos obrigou a segui-la até aquele hotel com uma aparência bem antiga, parecia que nem estava funcionando, tinha uns quatro andares e a tinta branca já estava descascando. Entramos no hotel e para nossa surpresa, não havia recepcionista. Tudo estava bem arrumado, na entrada tinha um balcão, um computador, uma cadeira, telefone e vários sofás, uns quatro pelo que contei, depois havia um corredor que dava para os quatros, era bem largo, mas parecia mesmo não haver ninguém ali.

— Olá? Alguém? Por favor, tem uma pessoa passando mal! – Kátia gritou no corredor mas ninguém apareceu.

— Isso é estranho, quem deixaria o hotel ‘sozinho’ assim? – Ronaldo foi até o fim do corredor junto de Juliana.

— Não tem ninguém? – Juliana perguntou enquanto eu e outros o seguíamos.

— Cara, tá falando sério? Não tem nenhum hóspede? Nenhum funcionário? – Wilson ria enquanto abria a porta de um dos quartos naquele primeiro corredor.

— Mano você tá maluco? – Ligia puxou o rapaz com tudo, mas em seguida viu que não tinha ninguém naquele quarto cuja porta estava aberta.

— Viu, não tem ninguém! – Wilson Nabuco era ‘temido’ por todos por ser uma pessoa cara de pau e sem noção, ele então resolveu falar bem alto pedindo por ajuda. – TEM ALGUÉM NESSE HOTEL? SE SIM RESPONDA LOGO!

— Meu Deus Wilson.. – Renan balançava a cabeça negativamente repreendendo a atitude do rapaz, mas ninguém apareceu, ninguém.

— Ok isso já está começando a me dar um pouco de medo. – Brunna dizia enquanto continuava carregando Helaine que parecia cada vez mais com dor, ela respirava ofegante, Kátia a levou até um dos sofás na recepção.

— Tá, se ninguém nos atende vamos ficar aqui até alguém chegar! – Disse Kátia enquanto se aproximava de mim. – Michel, separe grupos de pessoas pra subirem no hotel e procurar ajuda, a Helaine não tá bem mesmo. – Antes que eu pudesse subir, o motorista nos interrompeu.

— Pessoal, eu achei aqui uma lista telefônica, a atendente daqui que me desculpe mas peguei do balcão dela, mas meu celular tá sem sinal, eu testei o telefone aqui do hotel também mas tá completamente mudo! Que loucura. Alguém pode vir me ajudar? Eu só tenho celular da TIM, se alguém tiver mais chips, pode vir pra tentarmos conseguir sinal... – O telefone não estava pegando? Ok, aquilo tudo começou a me soar bem suspeito já.

— Eu vou com você, Carlão, você tem celular da oi né? Vem também. – Renan chamou Carlão que se irritou por ter que ‘ajudar’.

— Então.. tem três corredores, vão 3 pessoas pro da esquerda, 3 pro do meio, e 3 pro da direita, 4 pessoas procurem ao redor do hotel, talvez a pessoa da recepção tenha ido lá pra trás. – Dito isso, nos separamos da seguinte forma:

Eu, Raul e Ligia fomos para o corredor do meio até seu final;

Jeferson, Wilson e Mirela foram pro corredor esquerdo subindo as escadas;

Maria, Ronaldo e Juliana foram para o corredor direito, porém, Maria foi em direção à cozinha;

Kátia e Helaine ficaram na recepção;

O motorista, Renan e Carlão foram para fora à procura de sinal ;

Brunna, Ishimura e Carmen foram atrás do hotel procurar por alguém;