Quando Voltar a Te Ver

12 O Festival de Música


Um dia te encontrei, nasci

Um dia te amei, vivi

Um dia te perdi, morri

Um dia te encontrei, nasci

— Kuchiki Rukia


--- XXX ---


— Muito bem, pessoal. Isso é tudo por hoje. Vocês foram ótimos!


— Ah! Graças a Deus! Eu não estava aguentando mais de vergonha…


— É! Isso foi mesmo interessante: Kaien-kun de Romeu, a namorada dele de criada da Julieta e, o mais importante e hilário… você, de Julieta!


— Por favor, Rangiku, não me lembre. Isso tortura muito… Eu fico sem jeito só de lembrar daquilo…

É… como deu para perceber, eu continuo com um carma ruim sobre mim.

Bem que outra pessoa podia ter sido Romeu. Que crueldade.

E o pior de tudo é que Maiko, a namorada de Kaien-san, gostou muito de mim e, no grupo, vive grudada. Eu não sei o que fazer.

Toda vez que eu a vejo, tenho aquele friozinho na barriga… de vergonha.

É normal, né? Já que sou a perua que tentou pegar o homem dela.

Por enquanto, vou procurar Ichigo e dizer a ele como foi a primeira reunião.

Coitado… decidiu comer lámen com molho na cantina, mas a combinação era forte demais e acabou pondo ele de castigo no banheiro.

É o que dá bancar a Orihime sem estar preparado para isso. Agora ele está se recuperando na enfermaria. Me despedi do pessoal e fui até lá.

Chegando, ele já havia saído há cinco minutos, segundo a enfermeira.

Então voltei para a sala. Não queria me atrasar… pensando bem, era melhor me atrasar.

Agora que a cozinha havia sido consertada, eu estava com medo de destruí-la de novo.

Da última vez eu virei chacota de todo mundo: ficaram me chamando de Bombergirl.

Não quero que isso se repita. Se bem que eu já explodi o laboratório de Física depois disso… então acho que esse apelido vai acabar colando.

E não é tão ruim quanto o que se costuma ser por essas bandas.

Quando cheguei na sala, Ichigo já estava lá. Sentei no meu canto e perguntei se ele estava melhor. Ele ficou vermelho e assentiu. Avisei que ele seria contrarregra na peça.

— Sim! Eu já sabia — ele respondeu seco.

— Pensei que você atuasse alguma coisa pelo menos, mas pelo que vejo…

— Foi mal aí, futura vencedora do Oscar, mas eu sei atuar, ok? Eu pedi pra ser contrarregra.

— Mas por quê? Se você pode atuar, por que não atua?

— Não te interessa, nanica. De todo jeito seria esquisito se eu e o retardado do Kaien fizéssemos a mesma peça, não acha? E eu sou o novato. É melhor que ele faça.

— Você não vai atuar porque o Kaien-san vai? Qual é, Ichigo… essa intriguinha devia ser coisa do passado.

— Fala a garota que passou duas semanas intrigada porque eu viajei “supostamente” sem avisar.

— Ah! Bem que você podia ter se despedido melhor, bakorange… me passa o sazon.

— Desculpa se eu não percebi que a Bombergirl, que supostamente é minha melhor amiga, não saberia que eu deixaria uma mensagem.

— Então você já sabe, é? E é EX-melhor amiga, Moranguinho! Sempre que te vejo eu lembro daquela música: (cantando) mo mo mo moranguinho, mo mo mo moranguinho, chegou… (fim do canto)

— Sabe, Rukia… eu cresci. Isso já não me irrita mais. Principalmente agora que eu sei o que meu nome significa de verdade — falou, orgulhoso.

Era mentira. Sua sobrancelha não me enganava.

— Além disso, você devia estar mais animada… já que eu te dei uma oportunidade de ter um momento romântico com o Kaien, não acha?

Acidentalmente, eu joguei todo o pote de pimenta malagueta no feijão antes de tampar a panela de pressão.

— C-como assim? — falei, extremamente irritada. — Explique-se?

— Bem… você ainda gosta dele, não é? E da outra vez eu acho que estraguei um momento importante. Então achei que deveria me redimir, dando a oportunidade de você beijá-lo com gosto, mesmo sendo numa peça.

Fiquei ainda mais furiosa

“Me dando a oportunidade de beijá-lo”?

“Estragou um momento importante”?

Quem ele pensa que eu sou? Uma piranha que persegue o namorado de uma amiga?

Ou uma vadia que não se importa com o que os outros falam?

Quem disse que ele pode fazer essas coisas? Quem disse que ele tem a ver com quem eu gosto ou deixo de gostar?

Resumi toda a minha fúria em duas palavras muito bem ditas:

— KU-RO-SAKI I-CHI-GO!

— Ru-Rukia? — ele falou, a voz tremendo.

Acho que eu o assustei, porque os olhos dele estavam arregalados.

Mas o que ele fez logo em seguida me deixou muito mais irritada: ele simplesmente correu e me abraçou!

— CUIDADO!

Escutei um boom e o grito da turma.

Fiquei confusa por um tempo, sentindo o peso do corpo de Ichigo sobre o meu.

Passado um tempo, ele levantou o rosto e me encarou, preocupado.

— Você tá bem?

— A-acho que sim…

Eu não tinha entendido nada ainda.

Tudo ao meu redor estava em branco.

Eu só conseguia ver o rosto de Ichigo perto do meu e sentir a respiração apressada dele, como se tivesse corrido quilômetros.

— Poxa, Rukia… você não tem jeito. Agora entendo o porquê de “Bombergirl”, sinceramente… — falou Ichigo, enquanto me ajudava a levantar.


— O quê? Como é que é? Isso é culpa sua, morango atômico mutante!


— Então é assim que você fala com seu salvador? Mulheres são mesmo ingratas!


— E quem te pediu pra me salvar, seu metido?! ACHA QUE SÓ PORQUE SOU GAROTA VOU FICAR DEPENDENDO DE VOCÊ, É?! ACHA MESMO QUE EU VOU FICAR TODA AGRADECIDA E DENGOSA POR ISSO?! POIS FIQUE SAB—


— CALA A BOCA! NÃO É PRA VOCÊ FAZER NADA! TUDO QUE VOCÊ PRECISA FAZER É FICAR NO CANTINHO GRITANDO — (imitando voz manhosa) — “ME SALVE! ME SALVE!” ENQUANTO EU TE PROTEJO!


— SILÊNCIO! VOCÊS DOIS! VÃO JÁ PRA ENFERMARIA VER SE NÃO ESTÃO MACHUCADOS E FIQUEM POR LÁ O RESTANTE DO DIA! NEM OUSEM MOSTRAR A CARA DE VOCÊS AQUI DE NOVO OU ESTARÃO SUSPENSOS!

Nós dois nos calamos e olhamos para o professor.

Se você nunca viu um homem que é só músculos com raiva… nunca queira ver.

Os músculos dele incham e o monstro fica ainda mais assustador. Ou só acontece com ele, sei lá… mas não é bom de ver. Jamais irritem alguém assim. Garanto que é treta.

Na saída, ouvi alguém comentar — não lembro quem disse: “realmente não sei se eles se amam ou se odeiam”. Imediatamente virei o rosto e respondi:

— NOS ODIAMOS!

Olhei para o lado e vi que Ichigo tinha falado junto comigo.

Exatamente a mesma frase.

Nos encaramos, viramos o rosto para o outro lado e saímos em direções opostas… depois ele voltou, porque a enfermaria era pelo caminho que eu segui.

Mas ele manteve distância.

Ficamos um pouco mais de meia hora na enfermaria, levando bronca do diretor por eu ter explodido a cozinha de novo e que, assim, eu iria levar a escola à falência.

Ele lembrou que eu deveria vencer o festival de música; senão, a reforma seria descontada do salário do meu irmão.

Isso me lembrou que eu ainda não tinha conseguido um segundo vocalista, mesmo pondo um anúncio no jornal dois dias atrás.

Acho que ninguém mais lê jornal — principalmente o da escola. E nem nas redes sociais eu tive resposta.

O pior de tudo é que faltam dez dias para o festival. Eu não sei mais o que fazer. Acho que isso está me deixando mais estressada.

— Não sei não… o que vai acontecer se não conseguirmos o segundo vocalista? — perguntou Hitsugaya no intervalo do dia seguinte.


— Poderíamos pedir ao Ichi pra fazer isso — falou Rangiku. — Ele canta muito bem… e toca também.

Lembrei de relance quando eu cantava e ele tocava nas aulas de música no ensino fundamental. Eu nem sequer tinha lembrado disso antes.

— Não! De jeito nenhum! Qualquer um, menos aquele morango estragado!

— Ah! Qual é, Kia… não temos opção alguma, então para de capricho e vai falar com ele! — disse Rangiku.


— Por que tem que ser eu? — lamentei.


— Porque você é a melhor amiga dele, Kuchiki-san — falou Orihime.


— EX-melhor amiga. Não somos mais tão próximos assim, Orihime…


— Sério… mesmo eu não sendo tão fã do Kurosaki, vejo uma intimidade bem grande entre vocês, Kuchiki-san — falou Ishida, ajeitando os óculos. — Achei mesmo que vocês fossem mais que amigos… porque até compartilharam o almoço embaixo de uma árvore atrás da escola…


— QUEM TE FALOU ESSA MENTIRA, ISHIDA?!


— Não falaram. Eu vi. Eu estava lá. Não me diga que não me viu?

Aposto que minha cabeça fumegou nesse momento.

Como alguém pode revelar o passado podre de alguém de forma tão cruel?

E não acredito que ele pensou uma besteira dessas!

Como se fosse possível eu e aquele cabeça de cenoura… só de pensar nisso eu fico furiosa.

Tão furiosa que não consigo dizer uma palavra sequer…

— Então está resolvido — falou Rangiku, me trazendo de volta à realidade. — Kuchiki Rukia, como futura Kurosaki Rukia e líder desse grupo, é seu dever ir e chamar Kurosaki Ichigo. E se não fizer, farei com que o resto da sua semana seja um inferno, começando por hoje.


— E por que você não vai?


— Porque eu sou a empresária e tenho coisas mais importantes para fazer.

Só me faltava essa.

Já não bastava ter de aturar ele sentado ao meu lado nas aulas… agora eu tinha que procurar ele para fazer dele meu parceiro na banda.

Céus, por que eu tenho que passar por tudo isso?

Encontrei ele falando com Kyouraku-sensei sobre a peça.

Fiquei distante e esperei terminarem. Infelizmente, não foi suficiente para eu não ouvir o restante da conversa:

— Tem certeza de que está bem? Soube que você feriu um pouco a cabeça quando protegeu a Kuchiki-san ontem…


— Não se preocupe. Eu estou bem. Não foi algo grande a ponto de preocupar.


— Sabe, Kurosaki-kun, eu queria você no palco, não nos bastidores. E você não teria problemas em atuar como Romeu. Mesmo Kaien disse isso, perguntando se eu tinha certeza de que ele deveria ser mesmo Romeu.


— Já falei, sensei. Não é bom nós dois no palco. Ia confundir a plateia. E eu não posso tomar o lugar de um senpai. Não é certo.


— Ok, eu entendo. Não se preocupe com isso.

Depois discutiram outras coisas sobre palco e iluminação e se despediram.

Mas eu não estava ligando para isso. Eu não ouvi mais nada depois que o professor falou que ele dera o lugar de Romeu para Kaien-san.

Não me diga que ele fez isso por causa daquilo mesmo? Aquele desgraçado…

Vou matá-lo. Estraçalhá-lo. Esquartejá-lo até ele implorar para eu parar.

Começarei arrancando a cabeça dele fora… mas…

Pelo que eu ouvi, ele se machucou na explosão de antes, quando pulou por cima de mim.

Mais uma vez por minha culpa…

Acho que eu devia me desculpar antes de matá-lo.

Assim eu posso acabar com a vida dele de consciência limpa.

Sim… assim é melhor.

Passei o resto do dia tentando falar com ele sobre a banda, mas toda vez que eu ia começar e tentava me desculpar, eu gaguejava.

Definitivamente pedir desculpas não é meu forte.

Quando eu decidia falar normalmente, a gente acabava brigando pelas coisas mais ridículas e sempre chamávamos atenção da escola toda.

De alguma forma, nos tornamos o 1º lugar nos assuntos comentados das redes sociais na cidade. Não havia ninguém na escola que não soubesse nada sobre Kurosaki Ichigo e Kuchiki Rukia, o que tornava ainda mais difícil a aproximação: toda vez que ficávamos juntos, cochichos rolavam por toda a escola… a ponto de meu irmão ficar me vigiando pela sala de segurança.

Isso me fez brigar com Ichigo, dizendo que a culpa era dele.

Ele respondeu que quem estava sofrendo mais era ele por ter a reputação manchada pelo meu nome: nenhuma garota dava mais em cima dele por ser “propriedade” de KUCHIKI RUKIA.

— Como se eu me interessasse por criancinhas! — resmungou ele, me deixando muito furiosa.

Para piorar tudo, Rangiku piorou ainda mais os boatos fazendo o inferno que prometera. Além de pôr no meu armário fotos que nunca existiram de Ichigo e eu juntos, ela criou uma página sobre nós dois que, apenas hoje, conseguiu nada mais nada menos que 262 mil seguidores. De onde nos conheciam é um mistério. Parece que ou eu ou ele é realmente muito popular… ou simplesmente são os contatos da Rangiku.

De todo jeito, faltando dez dias para o festival e o prazo de apresentação dos nomes sendo hoje, eu tentei de novo durante a Educação Física.

— O que você tá fazendo aí, parada feito uma idiota?


— O quê? O único idiota que eu vejo parado é você, morango estragado! Tenho uma coisa pra falar. Pode ser?


— Olha, Rukia, eu tô ocupado agora. Não tenho tempo pra perder contigo.


— COMO É QUE É?! NÃO TEM TEMPO PRA MIM?! EU É QUE DEVIA DIZER ISSO, SEU MUTANTE!

Ele não respondeu. Apenas continuou andando, como se não fosse com ele. Isso me deixou extremamente furiosa. Como ele pode me ignorar?

— LARANJA ESTRAGADO! MUTANTE ESPACIAL! MORANGO ATÔMICO DO PLANETA JÚPITER! ACHA QUE EU TOU FAZENDO ISSO PORQUE QUERO?! ACHA QUE EU QUERIA TÁ AQUI ENCARANDO TUA CARA AZEDA, IMBECIL?! OLHA PRA MIM, SEU DESGRAÇADO! FALA ALGUMA COISA, IMBECIL! AINDA SE ACHA HOMEM IGNORANDO UMA MULHER ASSIM?!

Ele se virou e veio na minha direção. O rosto estava inexpressivo. Ele estava ficando irritado, mas não queria mostrar… só que esse morango cresceu na minha horta: ele não me engana.

Ele se aproximou depressa, tanto que eu não tive tempo de recuar. Ficamos face a face. Nos encaramos numa fúria contida que, a qualquer momento, podia explodir…

— Quer tanto assim falar comigo, é? É tão importante assim? — falou com um sorriso zombeteiro que me deixou ainda mais furiosa.

No entanto, assim como ele, contive a fúria para falar calmamente:

— Nós precisamos que você nos ajude em algo. Eu tô aqui porque é o meu último recurso. Não tive escolha…

— Então eu sou só um quebra-galho que você usa quando não tem escolha?

— Não foi isso que eu quis dizer. E você sabe disso.

Nós nos encaramos ainda mais de perto, tão perto que eu me via nitidamente nos olhos castanhos dele.

— Não foi? O que foi então? Porque foi isso que eu entendi.

Usei toda a minha força para não acertar um soco naquela cabeça dura.

Isso consumiu toda a minha energia. Então eu não falei nada.

Parecia que ele estava esperando isso.

— Como pensei… Sabe, da próxima vez que quiser algo de mim, é melhor falar mais abertamente. Sem enrolações, nanica estúpida e sem noção que acha que tudo gira em torno dela. Eu não sou seu irmão. Não tenho o dever de estar disponível sempre que você quiser. Agora eu tenho que ir… porque teu irmão verdadeiro tá me esperando. Sayounara.

Fiquei uma eternidade sem reação.

As palavras ecoaram o resto do dia.

Não nos olhamos mais.

Rangiku me enviou um bilhete: “pelo jeito você não conseguiu chamá-lo”. Respondi contando nossa briga. Ela disse que estava contando as horas para fazermos as pazes. Eu respondi que não ia rolar nunca se dependesse de mim.

É isso. Eu não vou mais dirigir uma palavra a ele. Afinal… por que eu iria querer um amigo que me acha mimada? E pensar que ainda fui pedir ajuda a ele.

A principal coisa que eu não suporto é me chamarem de patricinha. E vem um morango com cabelo de cenoura do Brasil me chamar disso?

Não posso aceitar. Simplesmente não posso.

Os últimos dez dias foram tensos.

Finalmente chegou o dia da apresentação. Acordei desesperada. Não só eu não consegui o segundo vocalista, como também não consegui dormir bem.

O pior de tudo é que eu simplesmente tenho que vencer esse concurso para salvar minha família da falência iminente.

Ensaiamos bastante… para nada. E foi difícil conseguir um repertório como a competição exigiu. Nunca vi algo assim antes: você tem que ter três músicas — duas cantadas pelos vocalistas separadamente e uma cantada em dueto. Tirando a do dueto, as outras não podem ser cantadas pelos dois. Então ensaiamos apenas duas músicas por causa disso… e eu não sei o que fazer.

Não consegui prestar atenção nas aulas. Estava pensando numa forma de dizer aos meninos a situação e, principalmente, ao diretor.

O pior de tudo é que eu aposto que até meu irmão — inexpressivo e frio — vai mostrar alguma reação quando souber que não vai ter salário esse mês.

O intervalo tocou rápido e eu fui puxada pela banda para nosso canto de reunião de sempre: o telhado da escola.

— Poxa vida… o que eu faço? Meu irmão hoje morre! E com certeza me leva junto! Ou então me mata primeiro! O que faço? O que faço?!


— Calma, Kia. Eu já resolvi o problema.

Eu nem dei atenção, perdida nos devaneios. Não queria morrer, não queria falir meu irmão e, pior ainda, não queria que meu irmão morresse. Tinha que fazer alguma coisa.

Senti algo duro acertar minha cabeça a ponto de eu cair no chão. Olhei para cima e vi Rangiku com o caderno na mão.

— Eu já disse que resolvi o problema. Dá pra você me escutar?

Me aquietei, com lágrimas nos olhos, e concordei com a cabeça.

— Então como você resolveu o problema? Arrumou alguém? — falei, chorosa.


— Sim, mas claro. Eu não vou perder a chance de nos tornar famosos assim tão fácil.

Quando Rangiku falou, eu juro que podia ver o brilho nos olhos dela.

— Quem? A gente conhece? — perguntou Uryuu. — Tem as medidas dele?

— Desculpa, Matsumoto… mas ele não ensaiou conosco. Como você acha que vai dar certo? — perguntou Hitsugaya, e todos concordaram.

— Não se preocupe com isso. Ele vai pegar as músicas fácil. Afinal, ele é muito bom nisso!

— Mas quem ele é, afinal? — perguntei.

— Isso é um segredo, Kia-chan… mas acredite: você vai gostar.

Sinceramente, eu não gostava nadinha disso.

— Aqui está a música que você vai cantar com ele. Você tem até a hora do show pra praticar. E pra vocês, meninos… a cifra da música que ele vai cantar sozinho.

— Onde você arrumou isso? — perguntei, nervosa.

Quando olhei para a música na minha mão, congelei.

Não era uma música qualquer. Era uma que eu tinha cantado fazia muito tempo no festival de música da escola… eu tinha feito aquela música.

Não tinha como ela conhecer. E, como eu tinha apenas nove anos quando aconteceu, muito menos era boa o suficiente para um festival desse tipo.

— Por que essa cara, Kia? É uma música muito boa. Eu ainda não acredito que você compôs isso. E vai ser melhor porque vocês já conhecem… o que torna fácil, não acha?


— Mas, Rangiku… ela é muito in—


— Por favor, Rukia. Não diga que é infantil. É linda. Nem a letra nem o título são infantis. Posso te garantir. Não se subestime, garota. Você tem talento. Assunto encerrado, então? Mais alguma dúvida?


— Qual o nome da banda? — Orihime soltou tão de repente que todos olharam para Matsumoto com a mesma pergunta nos olhos.

Matsumoto ficou vermelha, surpresa:

— B-bem… va-vamos deixar pra hora, ok? Não quero estragar surpresas…

Hitsugaya fez um olhar de “o que será que ela aprontou”… e o pior é que eu tinha certeza: ela fez alguma coisa estúpida.

Isso começou a me encucar. Mas agora não é hora de pensar nisso. É melhor eu ensaiar um pouco e deixar essas coisas pra depois.

O dia passou rápido. Graças ao meu irmão, conseguimos um furgão para carregar o material. E se você pensa que era um festival pequenininho, você cometeu o mesmo erro que eu.

Fiquei chocada ao saber que o palco seria num estádio de futebol oficial na próxima cidade. Levamos três horas para chegar. E deve ficar mais surpreso ainda: os jurados eram a banda Mihimaru GT e a cantora Hatsune Miku. Simplesmente a banda e a cantora que eu mais amo.

Isso me deixou muito nervosa. Eu não ia ver eles diretamente, mas seria o mais perto que eu chegaria… e isso me deixava bem nervosa.

O tempo parecia câmera lenta. Tudo que eu sentia era um friozinho na barriga… até que eu vi um rosto familiar acenando. Era Karin e, bem do lado, Yuzu. Retribuí o aceno e fui até elas.

Só quando cheguei perto o suficiente percebi que elas estavam com a pessoa que eu menos queria ver agora: Kurosaki Ichigo.

— Oi, meninas! Cadê os pais de vocês? — não dei a mínima pra ele.

— Bem ali com seu irmão — observei, e vi Masaki e Kurosaki-san conversando com meu irmão ao longe.

— E quem tá falando com você, Moranguinho?

— Ah! É você, Rukia? Foi mal. Achei que fosse uma das amiguinhas da Yuzu. Se bem que… a diferença não é tanta… tem certeza que é do Ensino Médio?

— Bakorange!

— Chibi Rukia!

— Morango estragado!

Ficamos um bom tempo trocando insultos e nos encarando rudemente, até que ele olhou para trás e falou:

— Shiiiiiiiiii! Lá vem problema.

Olhei para trás e percebi que Kurosaki-san me viu e estava correndo até nós. Quando chegou, me puxou para um abraço que tirou meus pés do chão, me deixando bem vermelha.

— Kuchiki Rukia, você não mudou nada! É muito bom te ver. Como está indo na escola? Comendo bem? Ainda continua amiga do Ichigo? Isso não é bom pra saúde de uma menina tão bela… devia parar…

— Esse irritante só sabe me estressar — falei.

— Até parece que é minha culpa se você—

— Hahahaha! Pelo que eu vejo, vocês continuam bem amigos como antes, hahahaha.

Fiquei vermelha com o comentário e soltei, sem querer:

— De jeito nenhum.

— Não precisa ficar vermelha, pequena. Sempre achei que, se ele não fosse gay, era você que iria tirar a virgindade dele. Ainda tenho esperança disso acontecer. Conto com você.

Ele falou isso com uma cara tão séria — do tipo que eu só via no meu irmão — que eu demorei pra processar. Quando entendi… explodi de vergonha.

Só despertei quando cheguei, de alguma forma, perto dos meninos. E então percebi: Hitsugaya estava furioso, gritando com uma Rangiku encolhida e vermelha como eu nunca tinha visto antes.

— O que foi que houve aqui? O que aconteceu?

Quando Rangiku me viu, correu e me abraçou chorando, me chamando pelo nome. Eu tentei confortá-la.

— Sabe que nome ela pôs na banda? SABE DO QUE ESSA IDIOTA NOS CHAMOU?! — gritou Hitsugaya.

— Calma, Hitsugaya-kun. Tenho certeza que não foi algo ruim. Qual foi o nome?

Rangiku me olhou e falou, baixinho, chorosa:

— Bl…

— Como?

— Bleach.

— Bleach? Sério?

Ela assentiu timidamente.

Veja bem: Bleach é a marca mais popular de alvejante usado na nossa cidade. Como ela chegou nesse nome foi o que me deixou curiosa. Perguntei a ela sobre.

— No dia que fui fazer a inscrição da banda, minha tia tinha mandado eu passar no mercado e comprar um alvejante. Bleach é o preferido dela, então não saiu da minha cabeça. E por ser papel eletrônico eu não pude trocar o formulário por um novo. Então só completei e coloquei Soul Society logo depois.

— Bleach Soul Society… ah! Hitsugaya-kun, não precisa ficar com tanta raiva.

— Como assim? Não vê o nome ridículo que ela pôs na banda?

— Bem… Bleach em inglês tem algo a ver com pureza, e Soul Society é Sociedade das Almas. Então nosso nome seria algo como Sociedade das Almas Puras ou Purificadas. Não fica tão ruim. Ou podemos nos chamar simplesmente BSS.

— Certo. BSS não soa mal. Devia agradecer a Rukia, Matsumoto: ela acaba de te salvar de uma morte cruel.

— Além disso, onde está o segundo vocalista? Ainda não chegou? Preciso dar um retoque na roupa dele… — disse Ishida.

— Ah! Não se preocupe com isso, Ishida-kun. Pode me dar as roupas que eu levo até ele. Ele já está aqui. Vão se aprontar também; eu volto já-já — falou Rangiku, ainda mais animada.

Eu estava muito curiosa sobre o segundo vocalista… mas Rangiku não falou nada.

Bom, o festival começou. Era só a primeira fase do teste, que duraria quatro dias, com vinte bandas competindo para passar para a próxima etapa.

Só cinco bandas passariam. Nós seríamos os últimos da noite, o que me deixou bastante nervosa. Os resultados sairiam no dia após as apresentações.

O estádio estava lotado. As bandas até agora estavam de altíssimo nível: grandes figurinos, e muitas levavam a plateia ao delírio. Era incrível.

Bom… se o assunto for figurino, nós com certeza não perderíamos. Ishida caprichou nas roupas.

Eu estava com um estilo meio gótico que, acho, deu muito certo comigo: uma saia preta de babado que chegava à metade da perna, uma blusa baby look com caveirinhas rosas espalhadas, e — pra terminar — uma bota até o joelho, completada por uma meia-calça. Eu estava me sentindo um arraso total.

Orihime estava num estilo Lolita que combinou muito com o rosto dela: uma blusa amarela que caía nos ombros, uma calça jeans azul tão colada que dava pra ver todo o corpo escultural sem escapar detalhe, um tênis rosa com estrelinhas, uma pequena chiquinha de lado no cabelo e, pra terminar, um pirulito na boca. Isso… mesmo eu pude ver… deixou ela extremamente sensual (o que Ishida estava pensando?).

Keigo e Tatsuki ficaram com visuais gêmeos: jaqueta preta, calça preta e tênis preto. A essencial diferença era que Tatsuki usava uma camiseta que mostrava o umbigo.

Hitsugaya-kun usava uma camiseta preta jeans com a bainha das mangas desfiadas, calça jeans azul com rasgos desfiados perto dos joelhos e um Nike maneiríssimo que eu nunca tinha visto ele usar antes.

Nosso segundo vocalista ainda não tinha chegado. Rangiku não parecia preocupada… mas a nossa vez já estava chegando.

Todo mundo estava desesperado. O coordenador dos grupos já tinha cobrado o segundo cantor. Nesse momento, Rangiku conversava com ele e parecia — pelo menos daqui — que, se ela pedisse pra ele manipular o resultado, ele nos anunciaria vencedores naquela noite mesmo… mesmo que ele nem tivesse acesso direto a isso, claro. (Vejam como uma mulher bonita tem uma magia forte sobre os homens.)

Meu nervosismo estava a mil. Pensei no nome da banda… eu realmente não devia ter deixado isso com Rangiku. Mesmo que fique BSS, o significado ainda é meio sem noção — principalmente pra um bando de adolescentes que de puro não têm nada.

Se bem que a maioria das bandas hoje não tem sentido no nome mesmo…

— Agora, por último, mas não menos importantes: os garotos da Karakura High! Eles podem parecer jovens, mas tenham certeza que arrasam… com vocês, BSS!

As cortinas abriram. A quantidade de gente olhando para mim deixou minha mente em branco. Eu tinha esquecido o que fazer. Quem era eu mesmo?

Então ouvi uma guitarra a quilômetros no espaço além, bem distante dali. Era uma melodia que eu conhecia… e, quase como reação, comecei a cantar:

“Sempre pensei que sempre te teria, mas aí você partiu…”

Como que em resposta, todo o espaço em branco foi preenchido por lembranças: quando eu tinha nove anos e tive que partir, me mudar de cidade. Eu me lembro de Renji chorando enquanto me abraçava, me prometendo que, quando nos víssemos de novo, a gente se casaria. Ouvi Kira dizer que seria meu padrinho.

“Sempre achei que o que eu tinha perdido, contigo tinha reencontrado…”

Me lembrei do parque, onde tudo começou. Eu não tinha conseguido me enturmar. Eu sempre tinha sido do tipo que fazia amigos fácil, mas naquele momento — acho que por causa da perda — eu não conseguia mais.

Então ele chegou. Puxou conversa comigo. Era Páscoa. Quase nos matamos no dia seguinte, simplesmente porque eu achava que coelhos botavam ovos de chocolate. Foi nesse mesmo dia que vi o sorriso dele pela primeira vez. Naquele momento, senti um calor enorme subindo pelo meu corpo. Eu nunca me esqueci disso.

“Fomos melhores amigos, irmãos de coração e muito mais que amantes,

Realmente achei que sempre te teria, mas aí você partiu…”

A música fluía por mim. Meus sentimentos reprimidos, as lembranças… me fizeram chorar.

Voltei ao momento em que ele lutou contra cinco meninos bem maiores do que ele, na época, só porque trombaram comigo e me xingaram. Eu me lembro do rosto dele todo ensanguentado, e do pai correndo de um lado para o outro, gritando que não esperava que ele se tornasse um yakuza tão cedo; que ainda não estava preparado para ser pai de um mafioso.

Depois de um tempo sumido, ele voltou para o quarto todo de terno e paletó, dizendo que agora estava pronto — deixando Ichigo totalmente furioso. Depois, quando ficamos sozinhos, ele me viu preocupada… e sorriu.

Foi aí que eu percebi que era somente eu que via aquele sorriso. Não importava se eram amigos, a garota que ele amava ou mesmo a família… Kurosaki Ichigo só exibia aquele tesouro pra mim. Desde esse dia, aquilo tornou-se também meu único sol.

“Quando você foi, perdi meu sol, minha razão de existência

Meu mundo ficou escuro, meu ser perdeu a essência

Meu coração não sente mais dor

Quando você partiu, ficou tudo escuro…”

A música saiu de dentro de mim, como se fosse minha alma derramando naquele palco. Mas eu não estava no palco… eu estava em outro lugar.

Quando foquei na plateia, percebi que eu já estava terminando a música, cantando uma prova de amor. Cantei perguntando:

“O que você poderia fazer para provar? Nada… porque já acabou…”

Senti lágrimas no rosto. Percebi a última nota da guitarra. Olhei pra frente: uma multidão me encarava. Mais incrível ainda… em silêncio.

Acho que a plateia estava tão chocada quanto eu. O silêncio durou vários minutos. Eu olhava a plateia. A plateia me olhava. Ninguém sabia o que fazer… ou ninguém percebeu que a música tinha acabado.

— N-nossa! — ouvi o apresentador dizer.

Quando olhei para ele, estava com o rosto cheio de lágrimas. Surpreendida, olhei para os meninos: eles me encaravam chocados, com os olhos brilhando de água contida, mas não derramada. As meninas estavam com a maquiagem meio borrada e, rápida e sutilmente, corrigiam o problema.

— Você canta demais, menina!

A multidão ainda perdida finalmente aplaudiu. E quando os aplausos cresceram, pareciam um trovão no céu. Não houve vozes… só palmas. Eu nunca tinha visto isso acontecer.

O show tinha de continuar. Agora era a vez do nosso segundo cantor. O problema: ele ainda não tinha aparecido.

A plateia pareceu perceber isso também. Como resposta à expectativa, o palco escureceu. Imediatamente, a multidão silenciou.

Uma luz fraca focou atrás, em uma pessoa, de forma que apenas sua sombra apareceu.

Um violão começou a ritmar.

“O amor pode machucar.

Às vezes o amor machuca…”

Imediatamente olhei para trás — não porque eu não soubesse a quem aquela voz pertencia, mas pela surpresa de ele estar ali.

A voz estava mais grave. Mais firme. Mais bonita do que antes — pelo menos para mim.

Conforme ele cantava, se aproximava devagar.

Eu conseguia sentir a tensão da multidão acompanhando cada passo que ele dava.

Era como se estivesse cantando para todos…

mas falando apenas comigo.

“E nós colocamos em fotografia,

Guardando essa memória nós mesmos…”

Memórias me inundaram novamente.

Seu retorno estranho com aquele nome ridículo.

Os sonhos cansativos.

As lembranças que me sufocaram de saudade durante esses dois anos.

Nossas brigas constantes.

“O amor pode curar.

O amor conserta a alma.”

Tenho de admitir… é como os outros disseram: eu fiquei diferente com a volta dele.

Não.

Eu não fiquei diferente.

Eu voltei a ser eu mesma.

Ichigo ainda é o meu sol. Isso é fato.

Tenho que aceitar que só me sinto completa perto dele — e de ninguém mais.

“Eu não vou deixar você partir.

Espere por mim em casa.”

Ele terminou quando já estava diante de mim.

Olho no olho.

Então ele sorriu.

Não um sorriso qualquer.

Era o sorriso.

O sorriso que só eu vejo.

Aquele em que não existe expressão dura, não existe máscara.

Aquele brilho que ilumina e acalma até a última ponta da minha alma.

Eu não resisti.

O abracei.

O chapéu dele caiu no chão.

— O que te fez mudar de ideia e me ajudar, morango atômico?

— Você irrita, nanica rabugenta, mas não sei te deixar na mão.

— E essa música?

— Gostou? — respondeu, sorrindo.

Fiquei de frente para ele, olhando nos seus olhos. Ele também me olhava.

Eu sabia o que estava por vir.

Sabia que seria extremamente vergonhoso.

Mas o olhar dele me trazia conforto.

Paz.

Tranquilidade.

Ali… éramos só nós dois.

Assim como naquele ano em que nos conhecemos.

Quando ele escolheu essa música para cantarmos.

E, desde então…

Nos tornamos inseparáveis.

Notas finais
A música cantada por Ichigo é uma tradução livre de Phoograph de Ed Sheeran. Aproveitem o capítulo.