Quando Voltar a Te Ver
10 By Ichigo
E aí, baixinha invocada.
Nanica dos infernos.
Se você está lendo isso, é porque já não estou entre vocês.
Se não estiver lendo, então você é burra mesmo e perdeu a carta. O que não seria novidade.
Você deve estar se perguntando por que eu escrevi isso em vez de falar na sua cara. Porque você é dramática demais. Se eu falasse, você ia começar com aquela cara de “a culpa é minha” e eu não ia conseguir terminar. Então lê até o fim e não interrompe, tá?
Sobre aquela pancada na piscina… deu problema. Parece que ficou sangue parado na minha cabeça ou sei lá direito. Os médicos falaram um monte de coisa difícil. Resumindo: eu tenho que ir pro Brasil fazer tratamento. E rápido. Se eu não for, pode dar muito ruim. Tipo… morrer ruim. Ou pior ainda, ficar que nem você, falando sozinha com coelho de pelúcia.
Falando nisso, você gostou daquele dia no parque? Porque aquilo foi tipo… nossa despedida. Não oficialmente. Só… foi. Eu não queria que fosse estranho. Então fiz normal. Quer dizer, quase normal.
E se você não tiver gostado (o que é impossível, porque eu sou incrível), eu deixei outra coisa no seu urso. Mas duvido que você consiga achar. Seus ursos são maiores que você. Ridículo.
Ah. Outra coisa.
Eu me declarei pra Inoue.
É. Eu fiz isso mesmo. E ela me deu um fora. Então pode rir. Eu deixo. Mas eu precisava fazer isso antes de ir embora. Não queria ficar pensando nisso durante o tratamento. Agora já foi.
E agora é sua vez.
Vai lá e fala com o Kaien. Para de fingir que não sente nada. Se ele disser não, dá um soco nele. Se ele disser sim… dá um soco também. Mas fala que foi por minha causa. Só pra ele lembrar que eu existo.
O tratamento deve durar tipo um ano e meio. Eu não sei direito. E não fica se preocupando comigo. Eu odeio quando você faz isso. Fica com aquela cara de enterro.
Eu não falei pessoalmente porque eu não queria parecer que era um “adeus”. Eu não gosto de despedidas. São idiotas.
Então faz assim: finge que eu só faltei aula. E continua vivendo. E não fica chorando. Se eu voltar e você estiver com aquela cara emburrada, eu vou embora de novo.
Rukia… a gente é melhor amigo. Mesmo você sendo insuportável. Então confia em mim.
Guarda suas lágrimas pra quando eu voltar. E que seja pra rir de mim, não pra ficar triste.
Ah — minha mãe e minhas irmãs provavelmente vão morar aí. Tenta não assustar elas. E não deixa ninguém mexer no meu quarto. Sério. NÃO deixa. Tem coisas lá que não são pra olhos humanos.
É isso.
Eu volto.
Ichigo
PS: Fala pra Tats que aquele recorde é meu e vai continuar sendo. Ela que aceite.
--- XXX ---
Meus olhos estavam cheios de lágrimas. Não porque a carta fosse triste… mas porque aquele idiota escreveu exatamente do jeito que eu imaginei que escreveria.
Sarcasmo. Provocação. “Baixinha invocada”.
Era a coisa mais Ichigo de treze anos possível.
Anos de raiva levados por um simples pedaço de papel, com frases mal explicadas e orgulho mal disfarçado do início ao fim.
Ele tinha mesmo se declarado pra Orihime.
Claro que tinha. Ele é idiota o suficiente pra fazer isso antes de viajar pro outro lado do mundo.
E ela deu um fora nele.
Eu devia estar rindo. Ele praticamente me autorizou a rir.
Mas não consegui.
Ele resolveu isso antes de ir embora… enquanto eu nem tinha coragem de admitir o que sentia.
E eu, de alguma forma, fiz o que ele mandou.
Com exceção da parte do soco.
Mas só porque eu sou mais civilizada do que ele.
Me pergunto se eu teria ficado com raiva dele se tivesse lido essa carta antes.
Com certeza não. Minha reação seria a mesma de agora.
Vocês devem entender: apesar de tudo… ele ainda é — talvez sempre tenha sido — a pessoa que eu mais adoro no mundo.
Droga. Parece até que eu tenho treze anos de novo.
Agora eu entendo tudo. No final, de alguma forma eu sabia desde o começo. Foi assim que me senti.
Mas eu devia saber desde que Rangiku falou do seu amigo brasileiro… pensando bem, ela nunca disse que ele era brasileiro.
Ele disse que só era pra eu procurar se eu “não tivesse gostado do dia”.
Como se ele realmente acreditasse que eu não tinha gostado.
Idiota convencido.
“E se você não tiver gostado (o que é impossível, porque eu sou incrível), eu deixei outra coisa no seu urso. Mas duvido que você consiga achar. Seus ursos são maiores que você. Ridículo.”
Tinha que ser muito idiota pra escrever isso.
E tinha que ser ainda mais idiota pra eu entender exatamente o que ele quis dizer.
Não sei mais se consigo ficar com raiva.
Lembranças de nossas travessuras passavam pela minha mente o tempo todo: a vez que pichamos a escola porque perdemos uma aposta; e quando fizemos Uryuu bordar a mensagem “Poderoso Chefão” nas costas do terno do meu irmão.
Fiquei uma semana de castigo por causa disso.
“Finge que eu só faltei aula.”
Como se fosse simples assim.
Como se desse pra fingir que metade da minha vida só… faltou.
Ele disse que não gostava de despedidas.
Claro que não gostava. Ele nunca soube lidar com elas.
Sempre fugia antes do momento ficar sério demais.
Voltando ao assunto: não era difícil entender. Meus ursos… todos eles cabiam nos meus braços.
Todos, menos um: aquele que ganhei dele dois anos atrás, que era muito grande e realmente maior do que eu. Pelo menos agora ele já cabia nos meus braços, mas ainda era muito alto.
Ele disse que só era pra eu procurar se eu não tivesse gostado do dia… mas ele sabe que eu sou curiosa demais pra ignorar isso.
Deitei o urso e procurei por todo o corpo, até notar que na cabeça havia um pequeno lugar descosturado.
Abri mais um pouco e senti um envelope. Seria outra carta?
Puxei. Era metade do tamanho de um envelope comum. Na frente estava escrito: by Ichigo.
Descolei a aba e abri. Quando puxei o conteúdo para fora, encontrei um medalhão brilhante, em forma de coração. Era pesado. Provavelmente de ouro.
Eu o abri…
E dentro do medalhão havia duas fotografias…
Fale com o autor