Notas iniciais
Ressurgindo do submundo, aqui estou eu. Depois de... cinco meses? Okay né, fazer o que. Dedicado para Flower, que deu aquela pressionadinha básica pra eu postar.

Não pude evitar ir á escola no dia seguinte. Por mais que eu quisesse passar o resto dia em baixo das cobertas pensando sobre as cartas de Gabriel, e o resto da tarde procurando a mensagem seguinte, o ano estava no final, eu ainda precisa ao menos aparecer nas aulas.

Os professores se fazem de compreensivos sob a questão das minhas tarefas atrasadas, e todos os alunos parecem ter decidido que vão se tornar meus melhores amigos, e é como se houvesse um consenso geral de que meu irmão era a melhor pessoa que já havia pisado naquela escola. Um mês atrás, 96% daquelas pessoas nem se lembrava dos nossos nomes.

Na verdade eu não me importo muito com isso, mais ainda chega a me incomodar. Numa cidade pequena como aquele, os jovens anseiam por qualquer coisa que abale — ao menos um pouco — suas rotinas imutáveis, seja isso uma fofoca boba ou um acontecimento raro, como um suicídio. Isso dá a eles – a nós, para dizer a verdade — um assunto diferente para ser discutido nas mesas das lanchonetes. Mas um dia ou outro aquela notícia acaba ficando velha, e tudo o que tinha a ser dito já foi falado e todas as teorias já foram repetidas diversas vezes. Por fim os jovens se agarram ao máximo a essa coisa fora de sua normalidade entediante, com medo que uma nova perturbação demore a chegar.

Meu corpo vagou pelo colégio enquanto minha mente viajava por lugares desconhecidos, mais ou menos a partir de duas horas que eu estava ali eu me desliguei, ignorando completamente qualquer palavra dirigida a mim e agindo automaticamente até o horário da saída. Eu já havia decifrado a pista de Gabriel, apenas não conseguia imaginar como pegaria a próxima carta. No portão de saída, algumas pessoas do meu círculo de amigos se ofereceram para acompanhar-me até em casa, mas eu recusei. Talvez eu tenha soado rude em minhas palavras, mas eles foram educados o suficiente para fingir que não ouviram a ansiedade em meu tom.

Fiz meu caminho até a praia andando rápido e respirando pesadamente. Depois do que ouvi até agora, o que devo esperar de meu irmão? O que esperar de Gabriel? Isso sempre foi uma questão para mim, mesmo quando ele ainda estava vivo. Sempre tão distante, nunca falando de si mesmo. O que se passa em sua mente, Gabriel? Sempre ouvi que gêmeos tinham algum tipo de ligação psíquica, podendo saber o que o outro estava pensando. Bem, conosco nunca foi assim.

Ás vezes sinto como se Gabriel conhecesse cada pedaço de minha alma, e eu nem chegava a conhecê-lo em todas as camadas da pele.

A última carta dele havia me atingido como um soco. Gabriel carregara o segredo de Alice com ele, mesmo que ele quisesse, não procurou ajuda para ela. Sim, eu entendo que a situação não era assim tão simples, mas ele hesitou por tempo demais, e agora uma garota inocente estava morta. Não sei o que pensar sobre meu irmão agora, sobre suas atitudes, sobre seu caráter, e não posso evitar me sentir culpado também. Pensei mais de uma vez que seu eu tivesse olhado para Alice com mais atenção, talvez percebesse que havia algo acontecendo a ela.

Parei de pé na areia. O mar estava completamente liso, como uma superfície de vidro azul esverdeada, algo belo e raro, que por algum só aumentava a sensação de angustia que comprimia meu peito. Era como se algo estivesse errado, o som das ondas quebrando na arei não estava ali comigo. Gabriel não estava ali comigo e eu não estava indo para a grande pedra onde sempre nos sentávamos. Na verdade eu me dirigia para o lado oposto da grande praia, até a velha pequena cabana de madeira de um pescador.

Passei por um casal que se abraçava na areia, e por um menininho passeando com um cachorro na areia. Nenhum deles olhou para mim, nem mesmo de relance, mas eu sentia olhos presos em mim a cada passo que eu dava. Lentamente, a minha sensação de angústia se transformou em culpa. Mas culpa pelo que? Eu nem ao menos sabia o motivo.

Encontre o homem que eu procurava recostado na parede de madeira da cabana, remendando uma rede de pesca. Era o pescador que guardava seus instrumentos ali, um senhor humilde e simpático, que uma vez nos alugar um barco, para que pudéssemos ver a queima de fogos do ano novo em alto mar. Isso fora idéia de meu irmão.

Sr. Francisco me laçou um sorriso triste ao ver minha aproximação, e se levantou. Tinha a pele curtida pelo Sol, as mãos calejadas, cabelos brancos e olhos bondosos, O tipo de pessoa que seria o avô favorito de qualquer criança.

–Olá, criança. Seu irmão me disse que você viria, mais cedo ou mais tarde.

Estanquei e olhei para ele, com os olhos arregalados.

–Ah, ele veio me procurar antes de... Você sabe. – Ele completou, sem graça, ao ver meu espanto. Senti minhas bochechas corarem pela estupidez dos pensamentos que passaram por mim.

– Eu sinto muito pelo que aconteceu com ele, rapaz. Jovem do jeito que era...

O velho pescador era tímido, qualquer um veria, mas as condolências dele eram sinceras como nenhuma outra.

–Isso pode parecer estranho... – Comecei. – Mas meu irmão deixou com o senhor algum tipo de...

– Carta? – Completou ele. – Sim. Ele apareceu aqui e me entregou um envelope, pediu que eu guardasse para ele, antes de... Bem, ele disse que você viria buscar. Só um minuto.

O pescador entrou na cabana e voltou momento depois com um envelope em mãos, idênticos aos que eu vira anteriormente. O senhor entregou-me a carta e pareceu não saber mais o que falar. Esforcei-me para dar-lhe um sorriso sincero e agradeci. Já estava me virando para ir embora quando vi pelo canto do olho o pequeno barco a remo que ele alugara pra mim e para meu irmão alguns meses atrás.

– Senhor Francisco. – Chamei. – O senhor ainda aluga barcos?

(...)

Remei até meus ombros começarem a doer, e a cabana do velho pescador parecer pequena o suficiente para ser feita de Lego. Por causa da minha inexperiência, eu não me arriscaria a ir tão longe, mas o mar estava calmo como nunca antes, as únicas ondulações existentes partindo dos remos do pequeno barco. O Sol estava se pondo, mas eu tinha uma lanterna na mochila para o caso de ficar escuro demais para ler.

O alaranjado do pôr do Sol banhava o horizonte, colorindo a água abaixo de si em um tom de dourado. O envelope pousado em meio joelho me encarava como se dissesse que eu não tinha para onde fugir. Qualquer coisa sobre meu irmão que estivesse lá dentro, eu iria ler, mesmo que isso mudasse completamente a imagem que eu tinha dele.

Lentamente, abri o envelope e tirei de dentro as folhas que compunham a carta.

“Gabriel.

Se você está lendo essa carta, saiba que fico feliz por você ter seguido até aqui, mesmo depois do que leu na minha última mensagem. Eu não vou pedir que não pense mal de mim depois do que descobriu, pois eu mesmo me odiava por causa disso. Só peço que termine essa carta, que é a última que lhe deixei.

Não posso dizer quando isso começou. Eu poderia pensar que isso era meu fardo, por causa do que aconteceu à Alice, se não soubesse que começou muito, muito antes.

Você acredita em coincidência, irmão? Tipo destino? Eu sim.

Gêmeos idênticos. Não poderia haver coincidência maior do que essa. Aquelas crianças irão crescer olhando para seu irmão e vendo seu reflexo, como num espelho, mesmo que suas personalidades fossem completamente diferentes. Eu li em algum lugar que gêmeos são destinados a ter sentimentos fortes entre si, sejam eles bons ou ruins.

Veja Ian, como somos diferentes apesar das aparências físicas. Eu sou apenas mais um jovem melancólico vagando no limbo do século XXI, mais um clichê tentando se diferenciar. Mas você não é assim, nem de longe. Eu passei a vida inteira observando você, e o que vi foi uma pessoa incrível.

Como um perfeito contraste de mim, você era otimista. O que as pessoas diziam nem parecia chegar aos seus ouvidos. Você é humilde demais e não vai admitir isso, mas assim como Alice, você brilha. Talvez esse seja um dos motivos pelos quais ela me atraiu, no começo, a mesma luz que estava nela, estava em você.

E o mais importante: Você não julgava. Nunca ouvi uma palavra sair de sua boca com a intenção de ofender ou machucar alguém, pelo contrário, você é o tipo de pessoa que se levanta contra coisas assim, diferente de mim, que me mantinha nas sombras com medo de que esse julgamento recaísse sobre meus ombros.

Como eu poderia não me apaixonar por uma pessoa assim?

Logo eu, fraco por amor, desesperado para sentir alguma coisa, implorando por alguém que não julgasse minhas cicatrizes.

Mas que grande ironia é a vida, não é mesmo? Eu estava fadado a conviver com uma pessoa que eu não poderia deixar de amar, e essa pessoa era meu irmão gêmeo.

Tudo a minha volta gritava que isso era errado. Era um pecado. Era sujo. E mais importante: uma pessoa comum como eu nunca seria digna da sua luz. Por isso eu tentava me afastar. Fechava-me para você, ouvindo seus pensamentos, mas nunca dizendo os meus, te observando, sem nunca te tocar. Bom, pelo menos eu tentei, mas era como se você sempre me puxasse de volta, cada vez mais fundo, cada vez mais afogado no oceano que era você.

Então passava o tempo todo ao seu lado, querendo absorver seus pensamentos, sentir um pouco do toque de sua alma, ouvir seus planos para mudar o mundo e me juntar a você quando uma risada despreocupada saia de seus lábios. Ah, o que eu não daria para tocá-lo, irmão. Quantas vezes eu não tive que reprimir meus instintos para me inclinar sobre seus lábios, Quantas vezes não desejei que sua luz iluminasse o canto escuro onde eu me escondia.

Por um tempo, amar você foi bom. Estar perto de você apaziguava as vozes gritando na minha cabeça, mas então de repente não era o suficiente. Eu sentia uma necessidade esmagadora de me abrir com você, mas isso era perigoso, sempre perto demais de lhe contar meus sentimentos, sempre muito próximo de fazer algo que mudaria para sempre a nossa relação.

Então eu tentei procurar alguém que acalmasse o furacão que se escondia no meu peito, mas nunca era o suficiente, nunca era você. Foi então que eu percebi que nunca poderia amar outra pessoa, não do jeito que eu amei você. Mesmo que houvesse alguém que me preenchesse um pouco, que me fizesse feliz por um tempo, aquela pessoa ainda não seria você. Ainda seria sua voz que eu ouviria nos meus sonhos.

Eu pensava o tempo inteiro em falar com você sobre isso, mas eu sabia que mesmo se magicamente você aceitasse isso, mesmo que se de alguma forma você se apaixonasse por mim também, ainda seria algo sujo e pecaminoso, para ser escondido, vergonhoso. E eu não posso te levar a viver dessa maneira. Mas também não poderia suportar essa paixão consumindo-me por dentro.

Depois da morte de Alice, essa melancolia se agravou. Eu já não tinha mais vontade de viver. Eu tentava, me agarrava a qualquer centelha de esperança de felicidade que eu pudesse ter, mas chega uma hora que simplesmente não dá mais. Eu tentei, juro que tentei, tentei por você, pela mamãe e pelo papai, tentei pelos planos que fazíamos para o futuro, mas a vida batia em mim como o bar bate numa rocha, e como a rocha, eu foi me desgastando até não restar nada além de areia.

Ian, eu não quero que você se culpe por isso. Nada do que aconteceu foi sua culpa. Gosto de pensar que tudo isso foi apenas uma diversão sádica de deuses entediados e eu foi apenas o tolo que ganhou o papel principal. Não quero que a nuvem escura de melancolia que rondava sobre a minha cabeça passa para você, porque você é a forma que eu tenho de continuar vivendo. Você ainda pode andar por aí, sentir o cheiro do mar e o Sol no seu rosto. Você ainda poder sentir amor, você ainda pode sentir esperança. E desde que você se lembre de mim, eu sentirei também.

No final dessa última carta, irmão, só te peço que não desista da vida. Vai ficar difícil ás vezes. Vão te machucar, vão fazer você se sentir como um lixo, mas se lembre que você é maior do que isso. Você é forte, você tem a sua luz, e não pode deixar ninguém apagá-la.

E quando você se sentir sozinho, ou quando se sentir invadido pela maravilhosa sensação de ser amado,

Lembre-se de mim.

Com amor, Gabriel.”

Notas finais
Então. Não, não vai ter um ponto de vista do Ian depois dessa carta, pq eu acho que ia estragar um pouco o clima do final. E sim, esse é o último capítulo. Foi bonito, foi Foi intenso, foi verdadeiro. Gostei muito de escrever essa história, espero que vocês tenham gostado de lê-la tanto quanto. Até a próxima, seus coisados!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!