Quando O Mar Fala Conosco
2 Um jogo apenas um pouco doentio
Notas iniciais
É a primeira vez que eu venho á praia desde que meu irmão se matou. Na verdade eu deveria estar na escola, mas não consegui me obrigar a andar até lá, dar sorrisos e falsos e receber condolências vazias e olhares cheios de pena.
Agora estou aqui, sentado no mesmo lugar de sempre, mas agora o espaço ao meu lado está vazio. É estranho estar aqui sem ele. Aliás, é estranho estar aqui antes do pôr-do-sol. Eu sinto como se estivesse quebrando nosso ritual, mas isso não é pior do que o que Gabriel fez quando deslizou aquela lâmina pelos pulsos.
Sim, eu estou com raiva. Acho que tenho esse direito. Eu costumava pensar que eu e meu irmão éramos próximos o suficiente para que falássemos sobre qualquer coisa, mas parece que me enganei. Na verdade, eu sempre contei tudo para Gabriel, apesar de eu não conseguir me lembrar de nenhum segredo dele. Ele sempre estava lá pra me apoiar, não importava o que estava acontecendo. Ele era meu porto seguro. Mas não se importou o suficiente nem pra deixar um bilhete, nem uma nota em que dissesse adeus.
Neste momento estou pegando pequenas pedrinhas e jogando-as na água. Não sei por que faço isso, não é como acontece em um lago, quando as pedrinhas quicam algumas vezes antes de afundar, não, o mar é instável demais para isso. Mas eu continuo, simplesmente porque preciso manter minhas mãos ocupadas.
Logo acabam as pedrinhas perto do lugar onde estou sentado, e finalmente noto os arranhões nas palmas das minhas mãos sujas. Na verdade eu não me importo com isso, mas é uma boa desculpa para descer da pedra e lavar as mãos, então quem sabe ir a outro lugar. Esse me trás lembranças com as quais eu ainda não estou pronto para lidar.
Enquanto estou descendo, uma coisa captura minha atenção. Um olhar mais distraído e eu não teria reparado no envelope embaixo de outra pedra pequena. Estava meio escondido, num canto com sombra, mas foi fácil alcançá-lo, e quando o fiz quase me desequilibrei. No pequeno envelope, com a caligrafia de meu irmão, estava escrito: "Para Ian"
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A carta está bem segura em minha mão quando abro a porta de casa, mas guardo-a no bolso antes de entrar, para evitar perguntas de meus pais. Não foi preciso, na verdade, pois minha mãe estava dormindo no sofá e meu pai ainda não tinha chegado. Só quando chego ao meu quarto eu olho a carta de novo.
O envelope é simples, não há nada escrito senão aquelas palavras. Sem dúvida nenhuma é a caligrafia do meu irmão. Largo a carta em cima da cama, como se ela pudesse explodir a qualquer momento e começo a andar pelo quarto. Uma parte de mim quer pedir ajuda, chamar meus pais e mostrar-lhes isso, porque essa parte está em pânico. A outra parte quer ler sozinha e não pode espera pra isso. Eu quero que essas partes me deixem pensar claramente.
Depois de muito dar voltas pelo quarto, meus olhos se fixam num porta-retratos abaixado. Nele, há uma fotografia recente minha e de meu irmão, sorrindo em um jantar de família. Eu o abaixei ontem à noite, pois não conseguia dormir com os olhos cinzentos de meu irmão olhando para mim — não funcionou, passei a noite em claro do mesmo jeito. Levantei o porta-retratos de novo para observar a foto. Gabriel era um pouco mais alto e mais forte do que eu, mas afora isso, éramos idênticos: Os mesmos cabelos escuros e cacheados, os mesmos olhos cinzentos e covinhas nas bochechas. Pelo menos eu nunca vou me esquecer do sorriso dele, e isso me conforta um pouco, eu só preciso me olhar num espelho.
Algo na fotografia de meu irmão me instigou a abrir a carta. Talvez o fato de que ele escreveu diretamente para mim, apenas para mim. Talvez tenha se despedido, no final das contas. Minhas mãos estão trêmulas quando abro o envelope, e sem perceber, prendi a respiração enquanto desdobrava a carta.
“Querido irmão.
Espero que seja realmente você quem encontrou essa carta. Por isso escondi-a no nosso lugar especial, pois sei que quase ninguém vai lá. Eu não vou dizer muito nessa carta, apenas o suficiente.
Conheço você o suficiente para dizer que está com raiva de mim agora, e tem todo o direito de estar. Não vou te pedir desculpas (pelo menos não nessa carta) nem pedir que não me odeie, só quero que você entenda que tudo o que fiz teve uma razão.
Não, eu nunca iria embora sem me despedir de você, muito menos sem me explicar, por isso te deixei essa carta e as outras. Mas é uma decisão sua continuar e descobrir isso, por isso escrevi mais de uma mensagem.
Nós costumávamos jogar muitos jogos, você se lembra? Quero que jogue comigo mais uma vez.
No final dessa carta tem uma dica, que vai te levar até a próxima, que também tem uma dica no final. Como uma caça ao tesouro. Um jogo meio doentio, não acha?
Como eu disse, a mensagem era curta, e você só precisa procurar as outras se quiser. Mas eu te conheço o suficiente para saber que vai.
De qualquer jeito, saiba que eu te amo, irmão. Mais do que você pode imaginar.
Assinado: Gabriel.”
No verso da folha, estava a dica:
“Poderíamos chamar de casa na árvore, mas não tínhamos uma casa.
Por isso chamamos de castelo de areia, e reinamos lado a lado.”
Meu irmão sempre me conheceu muito bem. Está certo, Gabriel, vou jogar seu jogo.
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