Quando Nossos Caminhos se Cruzaram
9 Entre Notas e Confissões
A entrega do trabalho chegou antes do que esperavam. Com a ajuda de Ruan, o projeto ficou impecável — cada detalhe técnico, cada solução aplicada, tudo estava acima da média. Quando o professor avaliou, não hesitou em elogiar a apresentação e dar a nota máxima. Era um feito raro.
Ruan, concentrado em outra tarefa em sua sala, nem percebeu quando a porta se abriu com rapidez. Suellen entrou, segurando uma cópia da nota, os olhos brilhando com um misto de surpresa e empolgação.
— Ruan! — chamou, quase sem fôlego.
Ele se virou, e antes que pudesse dizer algo, ela já estava perto, o papel da nota amassado em uma das mãos e os braços ao redor dele, em um abraço apertado.
— Você salvou minha vida! A gente tirou a nota máxima! — disse com a voz embargada de emoção.
Ruan sorriu, um pouco surpreso, mas feliz. Retribuiu o abraço, sentindo a ternura no gesto.
— Fico muito feliz por você... — ele começou a dizer, mas foi interrompido por uma risada abafada no canto da sala.
Lucas estava ali o tempo todo, deitado em uma cadeira, fingindo que lia algo. Ao ver a cena, não se conteve:
— Olha só quem tá podendo, hein? Tá colhendo os frutos da mentoria personalizada? — brincou, arqueando uma sobrancelha com malícia.
Suellen se afastou de Ruan num pulo, o rosto avermelhando. Só então percebeu a presença de Lucas. Baixou a cabeça, completamente envergonhada, e saiu quase correndo da sala, murmurando algo que ninguém entendeu.
Ruan apenas riu, olhando para Lucas.
— Cara, você não presta — Ruan disse, balançando a cabeça.
— Ah, irmão, tô só observando. Mas ó, se continuar assim, cê vai ter que me chamar de padrinho nesse romance aí.
Ruan sorriu, mas por dentro, algo se movia. Não era só brincadeira — aquela proximidade com Suellen havia acendido algo real.
Do outro lado da cidade, Suellen chegou em casa ainda ofegante. Subiu direto para seu quarto, mas antes de fechar a porta, ouviu a voz grave de seu pai.
— Muito bem, Suellen. Fiquei sabendo que tirou a melhor nota da turma. Assim que se faz — disse o pai de Suellen, todo orgulhoso, com um sorriso de leve no rosto. O que deixava tudo muito estranho, porque não era costume isso acontecer.
Ela congelou. Aquilo era raro — elogios vindos dele pareciam sempre ter segundas intenções. Ainda assim, ela assentiu com um sorriso tímido, sentindo por um breve momento que talvez estivesse fazendo algo certo.
Já no quarto, sentou-se à beira da cama, o coração ainda acelerado. Tocou o papel da nota e sorriu sozinha. Um sorriso breve, mas genuíno. Até que alguém bateu à porta com leveza.
— Posso entrar, filha? — era sua mãe, Suênia.
— Pode, mãe — disse Suellen, ajeitando-se.
Suênia entrou com seu jeito calmo e doce. Sentou-se ao lado da filha, observando seu rosto com carinho.
— Você parece diferente ultimamente. Tem sorrido mais... tem andado mais leve. Aconteceu alguma coisa?
Suellen hesitou, mas sabia que podia confiar na mãe. Suênia sempre foi seu porto seguro, seu equilíbrio diante das pressões do pai.
— Talvez esteja acontecendo algo... — começou, e seus olhos brilharam de emoção contida.
Suênia sorriu de lado.
— Você está conhecendo um garoto, não é?
Suellen abriu a boca, surpresa com a precisão da pergunta.
— Mãe! Como você...?
— Instinto de mãe — respondeu Suênia, rindo suavemente. — Mas não se preocupe. Eu só quero que você seja feliz. Sei que seu pai é rígido, mas no fundo ele só quer te proteger... ainda que nem sempre do jeito certo.
Suellen respirou fundo e se encostou na mãe.
— Eu conheço o Ruan desde pequena... acho que nunca esqueci o jeito como ele me tratou quando mais ninguém parecia se importar. E agora ele voltou... como se o universo estivesse me dando uma segunda chance.
— E você gosta dele?
— Eu acho que gosto. Mas não sei o que fazer com isso. Tenho medo do que o papai vai dizer. Medo de tudo desmoronar. Só que, ao mesmo tempo, quando estou com o Ruan... eu sinto que tudo pode dar certo, mesmo que só por um instante.
Suênia segurou a mão da filha com delicadeza.
— Então talvez esteja na hora de você começar a escolher o que te faz feliz, e não apenas o que esperam de você. Às vezes, a coragem vem exatamente desses sentimentos que a gente tenta esconder.
Ela fez uma breve pausa, olhando firme para Suellen.
— Mas, filha... você sabe que não pode se aproximar demais dele ou aprontar algo sem o consentimento do seu pai. Fernando tem o temperamento difícil, e você conhece os limites que ele impôs. Eu sei que parece injusto às vezes, mas é preciso cautela. Tudo tem seu tempo.
Suellen abaixou a cabeça, pensativa. As palavras da mãe traziam conforto, mas também a lembrança das barreiras que ainda existiam.
— Eu entendo, mãe. Só não quero mais viver com medo de sentir.
Suênia a abraçou com ternura.
— E você não precisa. Mas vamos fazer tudo com calma, certo? Eu estou do seu lado, sempre.
Suellen assentiu, com lágrimas nos olhos.
— Obrigada, mãe…
Ela sabia que a estrada ainda seria longa. Mas, naquele momento, o apoio da mãe e o abraço de Ruan pareciam sinais de que, talvez, pela primeira vez... ela pudesse seguir o coração.
(continua...)
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