Capítulo sete

Ela tinha cabelo preto e comprido, uma pele bem pálida, olhos cinza e trajava um vestido branco meio acinzentado.

Seu olhar era assustado.

Parecia estar procurando ajuda.

_ Quem... Quem é você?

A garota continuou me olhando.

Dei alguns passos para trás e, sem querer, esbarrei com a mesinha de canto e derrubei algumas canetas. Me agachei para apanhá-las e, quando levantei, a moça havia sumido.

Vasculhei a casa inteira, mas ela realmente havia sumido.

Estranho.

Cruzei os braços, sentindo frio de repente.

O que estava acontecendo comigo?

Mais tarde naquele dia, Chris foi até a minha casa e levou – imagina só – o meu sobrinho.

_ Tiaaaaaaaa!!!! – o garotinho entrou correndo e me abraçou tão forte que eu até fiquei sem jeito.

_ Gustavo, olha os modos! – Chris advertiu.

_ Eu to com saudades da tia Lil! – ele justificou, me abraçando mais ainda.

_ Er... Eu também estava com saudades sua... Er... Gustavo.

Ele sorriu para mim.

Tinha cabelos loiros iguais aos meus e aos da Chris, e olhos azuis, bem azuis.

Meu sobrinho.

Céus, ele deve ter uns oito aninhos...

_ Lil, posso te pedir um favor?

_ Claro.

_ Hoje vai lá em casa você-sabe-quem, daí... – ela mordeu o lábio, tentando falar o mais baixo possível – Daí o Gustavo não pode ficar em casa... Ele pode dormir aqui? Eu trago as coisas da escola depois...

_ Ah...

Eu, cuidando de crianças?

Não me parece uma idéia muito boa...

_ Por favor, Lil?

_ Ah... Ta bom, mas...

Christina alargou o sorriso.

_ Obrigada, Lil! Sabia que você não ia me deixar na mão numa hora dessas. E você e o Gustavinho de dão tão bem! Ah, obrigada por ficar com ele hoje!

Olhei para Gustavo.

Isso vai ser estranho.

Já era de noite.

Gustavo já havia jantado e agora estava vendo televisão.

Encostei-me à porta e o observei.

Ele tinha muitos traços da Chris, mas lembrava o Ray um pouquinho também. Oito anos... Tenho quase certeza que essa é a idade dele. Em que ano eu deveria estar? Ai, Lilly, não seja burra... 2009.

Quem será que vai à casa da Chris hoje?

O Ray? Ou algum novo casinho dela? Vindo da Christina, nada pode me surpreender... Até que não estou surpresa pelo fato do Gustavo existir.

Só que eu nunca imaginei que um dia teria um sobrinho.

_ Tia?

_ Sim?

_ Vem assistir TV comigo, não quero ficar sozinho...

Não sou muito de assistir TV, mas ele fez uma carinha tão fofa que eu simplesmente não consegui dizer “não”.

Ele devia estar assistindo um filme, pois as cenas eram de um casamento digno de filme.

Casamento...

Scotty veio a minha mente.

Ele estava noivo da promotora... Ou melhor, havia rompido há um dia... Por que ele se casaria com ela? Os dois não têm nada em comum... E ela quase acabou com a carreira dele quando o entregou a Assuntos Internos.

Como, depois de tudo isso, ele ainda se casaria com ela? Ainda bem que ele terminou tudo. E o Scotty não sente falta dela. Ele me disse isso.

Eu sei, parece coisa de louco... Mas estou com essa sensação de que realmente perdi uma parte de mim, e esta parte não é Alex... Não sei explicar...

Ele ainda não encontrou a pessoa certa, é isso. Eu realmente queria ajudá-lo, mas não sei... Como eu queria que tudo fosse mais claro! Por mais estranho que pareça... O jeito que o Scotty falou... Sei lá... Parece até que ele sente a minha falta, sem me conhecer.

Eu estou sorrindo?

Lilly Rush, pára de sonhar!

_ Tia Lil, nós vamos dormir aqui na sala como sempre?

_ Como sempre...?

_ É... A gente fica até de madrugada vendo desenhos e filmes de comédia, até nós dois cairmos no sono e faltar só algumas horas para você ir trabalhar e me levar para a escola...

_ Não sei...

_ Por favor, tia... Só você me dá atenção... Minha mãe vive em outro planeta e se esquece de mim... É como se eu não tivesse importância para ela.

Eu poderia estar ficando louca, mas os olhos dele estavam marejados. E vê-lo a beira de lágrimas despertou um impulso involuntário em mim, como um instinto materno.

_ Tudo bem, Gustavo.

Gustavo respirou fundo e assentiu.

_ Tá! – ele afastou as lágrimas e tentou sorrir.

É por isso que eu não tenho filhos... Além do trabalho ocupar muito tempo, eu realmente não tenho jeito com crianças. Estou há três horas com o menino, e já quase o fiz chorar.

_ Tia, acho que eu já decidi qual vai ser a minha carreira! Depois de muito pensar, já decidi! – ele me contou, orgulhoso.

_ Hum, mas você não é meio novo para já estar pensando o que vai querer ser?

Gustavo me repreendeu com o olhar, como se eu tivesse dito algo absurdo.

_ Me conte então o que você quer ser.

_ Depois de muito pensar – ele começou, dando um tom importante à fala e desviando o olhar da TV – Eu não quero trabalhar com você e com a mamãe... Eu gosto muito de seriados policiais e acho que quero ser... – ele fez uma pausa para manter o suspense – Detetive.

_ Detetive? – eu sorri. Pelo jeito, isso é de família – Mais que legal!

_ Você achou?

_ Claro, por que eu não acharia?

_ É que você já me disse que acha essa profissão um pouco perigosa, e que eu deveria seguir uma carreira que arriscasse menos a minha vida, igual a sua e a da mamãe.

Olhei para ele, emudecida.

Não sabia qual informação digerir primeiro.

_ Você tá bem, tia?

_ Sim... Eu... Vou até meu quarto buscar uns travesseiros pra gente... Já venho... Er... Não saia daí...

Eu me levantei e fui para o meu quarto.

Não estava com a mínima vontade de analisar as últimas falas do Gustavo... Alguma coisa está me dizendo que eu não vou gosta da resposta.

Respirei fundo e fui até o guarda-roupa, onde costumo guardar os travesseiros e cobertores. Quando abri a porta, tomei o maior susto da minha vida.

Havia duas pessoas, um homem e uma mulher, mortos, apodrecendo, lá dentro.

_ Meu Deus!

Eu pulei para trás e fechei a porta com força, encostando-me a ela. Cobri o rosto com as mãos, tentando apagar aquela cena da minha cabeça.

_ Tia! Tia! – Gustavo entrou correndo no meu quarto, bastante preocupado – Aconteceu alguma coisa?

Olhei para ele, sem saber o que dizer.

Eu estava tremendo.

_ Eu... Eu acho que vi um bicho aqui dentro... E... E levei um susto... Foi isso...

A expressão dele suavizou-se.

_ Ah, deixa que eu tiro para você.

_ Não! – eu gritei.

Gustavo me ignorou e abriu a porta do guarda-roupa. Tenho que tirá-lo daqui... Preciso chamar a polícia e...

_ Acho que o bicho foi embora, tia.

_ O quê?

_ Não tem nada, só travesseiros e roupa.

Incrédula, o afastei e olhei para dentro do guarda-roupa. Os corpos não estavam mais lá. Tudo estava... Normal.

_ Vamos continuar vendo o filme, tia?

_ Sim... Sim... Vamos...

Antes de sairmos do quarto, lancei um olhar para o armário. Não estou ficando louca. Eu podia jurar que tinha visto aquilo. Havia dois corpos ali... Eu posso jurar... Eu... Eu não sei acontecendo comigo.

Notas finais
Obrigada pelos comentários!!!
Tentarei att com mais frequencia ^^