Eu aproveitava o passeio cego por minha casa, tocando com os pés descalços o chão, se orientando só pela minha memória e lembrando de situações que colocavam fracos sorrisos em meu rosto . A calça que eu usava como única vestimenta caía incomodamente, por ser larga demais. Isso não me incomodava realmente, era só um detalhe, sempre fui detalhista.

Respirei profundamente inalando o ar com gosto, e tateando em uma parede a procura da porta, que eu sabia que estava ali. Quando meus dedos tocaram a maçaneta eu a girei sem pressa, estava só, no meu ninho de doces lembranças. Quando um imperceptível rangido de porta se abrindo foi ouvido, também abri meus olhos, os correndo longamente por todo o quarto, para entrar perdidamente no cômodo. Era aconchegante e familiar.

Outro estranho sorriso então brotou dos meus lábios, um sorriso nostálgico, como o de um ancião, porém esse sorriso que refletia minha alma antiga estava em um rosto jovem. Jovem demais para pensar na doce vontade de reviver um cálido momento, ou a vontade de controlar as areias do tempo. Todos os dois desejos tão deslocados e impossíveis, mas desejos antigos de todos os homens do mundo.

Mesmo lutando contra, faíscas de esperança surgiram e fizeram um borbulho leve no meu coração. O mesmo coração que bateu levemente fora do compasso ao ser bombardeado por mais uma tenra lembrança. Beijos, abraços, declarações, tudo tão real para mim.

De tal forma real que fez que eu soltasse o inicio de uma risada. Mesmo que não fossem lembranças engraçadas eram lembranças felizes.

Me deitei com a sensação que a cada momento dessa sensação de lembranças degustáveis, algo dentro do meu coração era suavizado, como uma revolta mal resolvida. Curiosamente todas essas lembranças não eram de uma paixão avassaladora ou corpos que se tocavam com ardor, era somente lembranças de um profundo amor, tão profundo que transformara meu ser.

Que havia transformado meu coração, que dentre melancolia e pessimismo, só possuía aquele profundo amor para se manter inteiro, para me manter são. Sentimento esse que aquecia meu coração mais pesado do que uma pedra. Mesmo que o obscuro da minha mente quisesse se colocar contra minhas memórias e minhas tolices, e a separei de mim.

Aquele momento era só para cicatrizar minhas feridas, dedicar-me a minha felicidade egoísta.

Quando minha mente já afundava na inconsciência, meu coração batia num ritmo calmo, quase que deixando claro que era isso que devia ser feito, que era esse sentimento que devia ser lembrado. Era como se eu pudesse sentir seu gracioso corpo sobre o meu. Fechei os olhos pela segunda vez, tentando sentir o calor inexistente do nosso “abraço”, relaxando todo o corpo.

Minha mente perdia o prumo lentamente, entrando no meu mundo de sonhos, transformando minha imaginação numa realidade temporária, satisfatória o suficiente para me obrigar a sorrir mais uma vez.

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