Quando Chove
1 Se chove lá fora...
Você se foi e nada te fará voltar, o que a gente foi não existe mais, é até engraçado como tudo parecia tão intenso e hoje se parece um sonho bom. Guardo lembranças doces daquele tempo onde estar junto era um vício e nosso amor uma droga: doce demais, quente demais, necessária demais. Não tem dia que não pense em nós, mas quando chove é tão pior.
Será que eu errei tanto assim? Imagino que esteja feliz onde está, não me ligou mais, nem uma vezinha sequer, nem mesmo pra marcar de buscar o que ainda resta seu aqui em casa, que triste é olhar pras suas coisas e não conseguir me livrar delas, nem mesmo da sua espuma de barbear, já pela metade, mas que ainda me lembra seu cheiro e seus hábitos.
Na sexta saí com um colega do trabalho, fomos num barzinho, bebi até muito pros meus padrões, fiquei meio altinho, e só falava de você, devo ter chateado bem o rapaz que há algumas semanas estava com investidas pra cima de mim, mal olhei o rosto dele, perdido no passado que ainda me prende. Ele me trouxe em casa, preocupado com meu ar de bêbado, nos beijamos na porta do prédio, eu vomitei e pedi desculpas, ele nem deve querer olhar na minha cara mais e o pior é que não me importo. Chegando em casa, nem tirei o tênis, me joguei na cama como estava e chorei até adormecer, agarrado ao seu travesseiro, sentindo seu cheiro na fronha que me recuso a lavar.
Estou me destruindo de dentro pra fora com esse amor, por mais que tente eu não consigo te esquecer, cometi a loucura de te ligar na segunda, só pra ser atendido pela Cecília, me perguntando quem era, o que desejava, nem tive forças pra responder. Você nem se deu ao trabalho de trocar de número, eu quem troquei de chip pra você não suspeitar quando te ligo, realmente não significo tanto, não é? Minhas ligações não te assustam e não teme que eu atrapalhe sua nova relação, na certa que ela te ama tanto quanto eu e vai aceitar tudo, assim como eu também aceitei.
Te liguei de novo hoje, a chuva caindo e deixando tudo cinza foi minha inspiração, dessa vez você atendeu e diferente das outras ocasiões, não me disse pra te esquecer e parar de ligar, pelo contrário, me perguntou como ando, se ainda vou pro cursinho, falou de marcarmos qualquer dia pra um chopp, nossa, me tremi inteiro, viu que eu mal conseguia balbuciar uma resposta? Eu queria ser forte e nem me lembrar que você existe, mas não dá, por isso fui insistente, perguntei quando podíamos sair, você ficou reticente, mas acabou marcando um dia.
Acabamos bebendo aqui no meu apê mesmo, que você já conhece tão bem, foi bom, não é? Ouvi com atenção você falar da Cecília, da gravidez, da chatice dela e da ciumeira, eu até ri, mas por dentro me tremia de nervoso, não tinha forças pra falar nada, você me disse pra superar, dar a volta por cima já que sou tão jovem, tão bonito, com a vida toda pela frente. Deu uma volta pelo apê, falou que emagreci, mexeu na geladeira e disse pra abastecer com mais fruta, legumes e verduras e menos danoninho, refrigerante e hambúrguer, eu só assenti, pensando que esse cuidado comigo é o que me faz não superar você e tudo que passamos. Em dado momento, talvez efeito do álcool, despejei o quanto estava sofrendo pela sua ausência, já tinha me humilhado antes, pedido que voltasse, que pelo menos continuássemos amigos e só lembrar disso fazia meu estômago revirar, mas por você eu faria e falaria tudo que meu coração pedisse. Você não devia ter acariciado meu rosto daquele jeito, nem beijado minha boca ou me conduzido até o quarto, quando dei por mim estávamos fazendo amor, enquanto eu me enchia num misto de felicidade e apreensão, um medo louco que estivesse sonhando, me enchia também de você se despejando dentro de mim, tão quente quanto meus sentimentos.
Depois do amor, me aninhei ao seu corpo, cheirando seu peito e feliz por sua essência estar tomando conta de tudo de novo, você acariciou meus cabelos e minhas costas e não muito tempo depois se levantava, saiu pela casa catando suas coisas, me pediu uma sacola e eu dei, vi você guardar o pouco seu que ainda preenchia minha casa. Quando entrou no banheiro, desabei em choro, vi você com a espuma de barbear na mão, dizendo que eu devia por pro lixo, mas não deixei, pelo menos isso eu merecia ter. Você me deu um beijinho na testa e me pediu pra não ligar mais ou trocaria de número, você logo seria pai e amava Cecília e a vida que levavam, ainda que ela tivesse aqueles defeitinhos que me relatara antes. Não me agarrei a você como da primeira vez que me deixou, apenas chorei e ainda choro com a lembrança, fiquei quieto no quarto enquanto você partia, ouvindo a porta da sala bater.
Um estrondo alto me fez sobressaltar, olhei pela janela do quinto andar e lá fora uma chuva começava, formando uma parede cinzenta e aquosa na minha visão, adormeci chorando com a certeza de que nunca mais te teria comigo e de fato, você se foi pra sempre, com ligações não atendidas, sem recaídas, pra sempre.
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