Quando A Vida Te Dá Limões
1 O Começo de Algo Novo
Notas iniciais
O toque irritante do despertador acordou Joana do sono dos justos. Abriu lentamente os olhos verdes e desligou o aparelho. A luz do sol iluminava a habitação decorada a amarelo, a sua cor favorita, o que dava uma certa luminosidade à divisão. A mobília era constituída por uma estante, um guarda-vestidos, uma secretária onde estava o computador portátil e uma fotografia de Joana com a sua falecida mãe e uma velha cadeira de baloiço. O chilrear dos pássaros, a flauta do amolador, o motor dos automóveis e os passos e as conversas das pessoas serviam de banda sonora. Levantou-se com relutância e arranjou-se para mais um dia de trabalho.
Joana Valente, era uma jovem de vinte e sete anos, alta e franzina, de pele leitosa, rosto oval, cabelos negros e compridos, olhos castanhos, grandes e brilhantes e lábios rosados em forma de coração. Morava em Lisboa, mais precisamente no bairro de Alfama, onde crescera e fora criada, tal como os pais. Era um prédio já com mais de um século de existência e Joana morava no segundo andar. O espaço era exíguo, mas confortável com um quarto, uma sala onde estava o sofá, a televisão e a mesa onde tomava as refeições e uma pequena cozinha com uma porta que dava para a casa de banho. Não era uma vivenda ou uma mansão, mas era a sua casa. Trabalhava como bibliotecária, função que exercia com a maior eficácia, apesar da sua tendência para o desastre, e com muita paixão pois adorava livros. Eram os seus amigos, a sua porta para outros mundos, o seu refúgio. Já nos seus tempos de escola odiava Educação Física, pois acabava sempre por magoar alguém ou ela própria devido à sua péssima coordenação motora, como se não bastasse a sua falta de jeito para o desporto. Ela não era propriamente do tipo atlético.
Pegou na sua mala e saiu. Como era normal em bairros como aquele, Joana encontrava sempre alguém conhecido como a dona Maria, a sua vizinha, quem encontrava à janela todas as manhãs a regar as suas sardinheiras enquanto cantava canções dos seus tempos de juventude, o Sr. Horácio do café, a dona Rosa da peixaria ou o Rafael, a quem chamavam Rafa, o seu amigo de infância com quem frequentara o infantário e a escola e brincara na rua com os outros rapazes e raparigas do seu círculo de amigos até as mães lhes chamarem para jantar.
Era costume de Joana apanhar o autocarro para o trabalho. Assim podia admirar as ruas da cidade através da janela. Era uma manhã de fevereiro e o frio fazia-se sentir. Para aquele dia, Joana escolhera uma camisola azul estampada com capuz e umas calças de ganga. Quanto ao calçado, não dispensou os seus ténis que preferia mil vezes a sapatos, especialmente os de salto. Se já era um perigo ambulante de ténis, decerto não se arriscaria a usar salto de agulha. Um casaco cinzento comprido, um chapéu azul e um cachecol a condizer completavam o visual.
Chegada do seu destino, Joana saiu do autocarro e caminhou em direção à biblioteca, esbarrando de repente com um jovem aparentemente da sua idade e talvez uns vinte centímetros mais alto que ela, de cabelo cor de trigo e rebelde e olhos azuis claros e profundos como o mar depois de uma tempestade. O impacto fez com que o livro que trazia na mão caísse ao chão. O estranho apanhou no livro e entregou-lho educadamente.
— Obrigada — balbuciou.
Ele retribuiu com um meio sorriso e seguiu o seu caminho enquanto o via afastar-se. Era estranho, mas não conseguia desviar olhos dele. Bem, ele até era bonito, isso não podia negar. Abanou a cabeça, tentando afastar o incidente dos seus pensamentos.
O resto do dia passou-se sem novidade de maior. As tarefas incluíam receber, indicar os locais dos livros pedidos, tratar das requisições, encomendar e arrumar. Não sem tropeçar, deixar cair algo ou derrubar alguma coisa ou alguém, o que resultava em risinhos abafados dos colegas e visitantes ali presentes. Foi um alívio para Joana quando chegou a hora de sair. Pelo menos até ter começado a chover, precisamente quando Joana se tinha esquecido de trazer um chapéu-de-chuva e um carro cujo condutor devia ser daltónico, mau por natureza ou apenas estúpido quase a ter atropelado quando ia atravessar a passadeira para chegar à paragem do autocarro. Depois de um dia daqueles, mal podia esperar por chegar a casa, sentar-se no sofá e beber um chá com leite enquanto via televisão, mas mudou de ideias depois de uma mensagem de Vera, a sua melhor amiga, convidando-a para beber um café assim que chegasse.
Era incrível como duas pessoas tão diferentes podiam dar-se bem. A espontânea e destravada Vera nada tinha a ver com a tímida e trapalhona Joana. Vera tinha um corpo escultural, cabelos castanhos-claros ondulados que lhe iam até aos ombros e olhos cor de avelã. Era jornalista de profissão, muito observadora e estava sempre a par de tudo. Nada escapava ao seu radar. As duas amigas eram inseparáveis, tendo apenas uns meses de diferença, além de morarem a duas ruas de distância uma da outra. Tinham frequentado o mesmo infantário, a mesma escola e a mesma universidade. Podemos mesmo considerar que eram mais irmãs do que amigas.
Com um sorriso, enviou-lhe uma resposta afirmativa e assim que chegou à sua paragem, caminhou até ao café onde Vera a esperava. Cumprimentou-a e pediu uma bica ao simpático senhor Horácio que a atendeu com todo o gosto, pois já as conhecia desde pequenas, assim como a maior parte dos jovens do bairro. Sabia tudo sobre todos. Não por coscuvilhice, mas porque o estimavam e era impossível não confiar nele.
— Já vi que hoje não é o teu dia, Joana — notou Vera.
— Podes crer que não — respondeu Joana dando um gole no café. — É matemático. Faz parte de ser uma tonta desastrada.
— Mas é exatamente por isso que aqui a tua querida amiga te adora.
— Só mesmo tu para me animares, Vera.
— Tudo para ver um sorriso nessa cara — declarou a jornalista — E tens de admitir que não há melhor terapia que beber um café comigo.
E Joana sabia que era verdade, que podia contar sempre com Vera para o que desse e viesse e o sentimento era recíproco. Eram unha com carne. Joana lembrou-se de uma vez quando era adolescente e fora para o hospital com uma apendicite. Assim que Vera soube, saíra disparada da escola, deixando para trás o material escolar e correra para lá o mais depressa que pôde.
— É verdade.
Estavam tão entretidas na conversa que perderam a noção do tempo. Assim, cada uma foi para a sua casa. Joana preparou os douradinhos e o arroz para o seu jantar. Depois de comer e lavar a louça, pegou no seu antigo e precioso exemplar de Os Três Mosqueteiros de Alexandre Dumas que pertencera à mãe foi para o quarto ler, como costumava fazer antes de dormir. Ouviu passos a subir a escada do prédio e uma chave a abrir a porta da do andar de cima. Alguém se mudara para lá há pouco tempo, pois os seus anteriores vizinhos já não moravam ali havia alguns meses. Joana deduziu que o BMW preto que vira estacionada na sua rua pertencia essa pessoa. Pousou o livro na mesa-de-cabeceira, apagou a luz do candeeiro e adormeceu.
Mal Joana sabia que o jovem com quem se cruzara naquela manhã na paragem estava a fazer exatamente a mesma coisa no andar acima do seu. Alexandre Rocha lia Ensaio sobre a Lucidez de José Saramago. Para o jovem advogado, era difícil pregar olho em dias longos como o que tivera, especialmente quando trabalhava em casos como aquele. Aliás, era-lhe difícil pregar olho todos os dias.
Alexandre gostava de viver no bairro de Alfama, da arquitetura antiga, da gente boa e genuína daquela zona. Aqueles últimos três dias tinham sido uma roda viva com a mudança e o início de uma nova etapa da sua vida na capital. Ainda não tivera tempo para visitar a cidade e conhece-la melhor. Até aquele momento, apenas saíra de casa para ir para o trabalho, mas iria faze-lo no dia seguinte, pois estava de folga. E finalmente conseguiu adormecer.
Era sábado e, portanto, Joana não iria trabalhar, uma vez que a biblioteca encerrava aos fins de semana. Estava um sol radioso, comparado com o dia anterior. Decidiu aproveitar o bom tempo para sair. Iria tomar o pequeno-almoço no café do Sr. Horácio e talvez dar uma volta até à Baixa.
Ao descer as escadas, deparou-se com o seu novo vizinho que era nada mais, nada menos que ele, o homem com quem esbarrara no dia anterior. Como o mundo era pequeno! Joana nunca iria adivinhar que aquele estranho iria ser o novo inquilino naquele prédio.
— Olá, vizinho — balbuciou Joana. Lamentou ter aberto a boca depois de um cumprimento tão foleiro.
— Olá, vizinha — brincou ele — Então, encontramo-nos de novo. Quem diria?
— Pois, quem diria?
Joana já não sabia o que dizer para quebrar aquele silêncio insuportável. As suas bochechas começavam a ficar vermelhas, o que a irritava. Era sempre assim quando estava nervosa ou envergonhada. Umas vezes falava pelos cotovelos até perder o fio à meada, outras ficava tão atrapalhada que nem conseguia dizer o que queria. Odiava quando isso acontecia. Já agora, por que estaria assim? Só por estar frente a frente com aquele tipo? Aquele tipo ridiculamente lindo?
— Sou a Joana — apresentou-se ela estendendo-lhe a mão polidamente.
— Sou o Alexandre — respondeu-lhe ele apertando-a.
— Então, bem-vindo a Alfama. — disse Joana com um sorriso.
— Obrigado. Gosto daqui. É um bairro simpático. Estava a pensar em tomar o pequeno-almoço ali no café e depois dar uma volta por aí para conhecer melhor a zona.
— Bem, tem graça, por que eu também. Refiro-me à parte de tomar o pequeno-almoço no café, é claro.
— Tive uma ideia: Por que não me acompanhas? — convidou ele.
Joana, para sua grande surpresa, não hesitou quando disse “Por que não?”.
Entraram no café. Ela não sabia explicar, mas nunca se sentira tão bem em toda a sua vida. Talvez fosse do céu azul, sem uma única nuvem, ou da companhia. Joana pediu um donut juntamente com o café habitual. Já Alexandre preferiu uma torrada. Sentaram-se e a timidez de Joana foi desaparecendo pouco a pouco à medida que iam falando.
— Vieste do Porto? Eu já lá estive uma vez com a minha prima festejar o de São João. Foi a melhor noite das nossas vidas. É uma cidade linda.
— Eu já tinha vindo a Lisboa uma vez, numa visita de estudo, quando era miúdo. Já foi há muito tempo. Agora tive uma proposta de trabalho e aqui estou eu.
— O que fazes, se for indiscrição? – inquiriu Joana.
— Sou advogado. E tu?
— Sou uma bibliotecária.
— Ah, sim?
— O que posso eu dizer? Adoro livros. Ponto. São como amigos que posso levar para todo o lado. E eles também me levam para outros lugares, outros mundos… Até para outras épocas. Como Os Três Mosqueteiros, por exemplo, que estou a ler agora. Ou melhor, a reler, porque eu nunca me canso de ler esse. É o meu favorito. O Alexandre Dumas era um génio. Ele conseguiu juntar aventura, comédia, romance, drama, tudo isso num só livro. Já leste O Conde de Monte Cristo? E… já estou a falar demais — desculpou-se Joana corando ainda mais.
Alexandre riu. — Não há problema. Gosto de gente que goste de ler, para variar. É raro hoje em dia.
— Isso é verdade — Joana assentiu.
— Chegaste a ir à livraria Lello quando foste ao Porto?
— Claro! Não iria perder a oportunidade de visitar uma das livrarias mais bonitas do mundo. Foi o que mais gostei de visitar. E tu, o que mais gostaste de Lisboa?
— Ainda não tive tempo de visitar a cidade como deve ser — disse Alexandre. — Há tanta coisa para ver aqui: o Castelo de São Jorge, o Mosteiro dos Jerónimos, os miradouros…
— Quando tiveres tempo, eu posso fazer de guia. Vais gostar daqui. Estás a falar com uma alfacinha de gema — declarou Joana.
— E eu agradeço. Visitar a capital com uma guia tão simpática seria excecional.
Desta era vez, era a vez de ele corar, o que surpreendeu Joana. Ficara tão embaraçado com o elogio que ele próprio dera como ela. Como se tivesse dito algo que não devia.
— Ora essa… — Joana não sabia o que dizer.
— Estou a falar a sério. Desculpa, estou a deixar-te desconfortável?
— Não. De todo — Joana garantiu com um sorriso. Ele deu um suspiro de alívio.
— Ótimo.
— E ainda não estamos em junho. É a melhor época do ano aqui em Lisboa. Vais adorar as festas de Santo António — garantiu Joana.
— Ninguém no seu perfeito juízo iria perder as festas populares, certo? — disse ele.
— Obviamente. Ah, e tens de ir ao restaurante da tia Fátima. Eu sou suspeita, mas a comida feita por ela é uma maravilha.
— Obrigada pela sugestão.
— Especialmente o arroz de pato. É especialidade dela.
Teriam conversado por mais tempo se Vera não tivesse ligado a Joana insistindo para que fosse com ela ao Vasco da Gama comprar um vestido para sair com André, o namorado de longa data. Típico da sua querida prima. Como era uma ocasião especial pois faziam cinco anos de namoro, Vera queria usar algo novo e que chamasse à atenção. Assim Joana despediu-se do seu novo vizinho e correu para apanhar o autocarro.
Foi com muita pena sua que se despediu de Alexandre. Nenhum homem, ou melhor, nenhuma pessoa, tivera tanto interesse no que ela tinha para dizer. Quando Joana era uma miúda, os seus colegas de turma só lhe ligavam quando precisavam de ajuda na matéria escolar. Depois, viraram-lhe as costas. Voltava a ser a tontinha sabichona de que falavam pelas costas. Isso se não contarmos com a sua querida amiga e prima Vera, claro. Ela era única que a levava sério.
Alexandre gostara de conhecer Joana. Era bom ter uma nova amiga numa cidade estranha com pessoas que não conhecia. Pelos menos, era o que ele pensava que se estavam a tornar. Pela primeira vez na sua vida, não se sentia um estranho.
Talvez fosse o começo de algo novo. Uma linda amizade.
Pegou no caderno de desenho e tentou concentrar-se. Desde pequeno que gostava de desenhar ajudava-o a relaxar. Era como uma terapia. Ajudava-o a não pensar. E o local que escolhera visitar ajudava.
A Sé de Lisboa era uma bela catedral de estilo românico com transformações do gótico e do barroco nos séculos seguintes. Fora construída após a reconquista de Lisboa aos mouros por D. Afonso Henriques.
Começou a desenhar, aproveitando aqueles momentos de paz.
Fale com o autor