Quando A Morte Se Apaixona
1 O fim pode ser um novo começo
A menina de cabelos escuros encarava seu reflexo no espelho. Encarava suas olheiras roxas e escuras, seu cabelo despenteado, seu lábios tremendo. Tudo gritava socorro e medo. Nunca falou para ninguém sobre o que estava acontecendo. Tua mãe dizia que era anemia, teu pai concordava, seu irmão a olhava desconfiada.
Estudava de manhã e a tarde ficava sozinha — seu pai, sua mãe e seu irmão trabalhavam no período após o almoço todo. Desde que completara seus quinze anos vem sofrido esses "ataques" á tarde. Lágrimas botaram do seu rosto quando viu, no reflexo de espelho, uma criatura grande surgindo. No início, era como fumaça, uma fumaça densa e preta, como a praga da escuridão no Egito durante o Êxodo. A criatura foi se formando e apareceu atrás dela um homem que usava roupas esquisitas pretas e com asas negras. Suas asas se esticaram e se movimentaram, fazendo uma brisa forte de ar vir a encontro ao cabelo da menina. Ela soluçou e já sentia as lágrimas caindo.
Era uma criatura bonita e aterrorizadora ao mesmo tempo. Seus cabelos negros banguçados caindo sobre o rosto perfeito como saído de uma escultura grega; seus olhos azuis claros e penetrantes — capazes de lerem sua alma. Tinha marcas pelo braço inteiro e a parte de cima de seu traje era como tiras negras. Ussava um sobretudo que, mesmo com as asas, continuava cobrindo suas costas.
A menina olhou a lâmina em cima da pia e soluçou novamente. A mão da criatura pegou a mão da menina de dezesseis anos. O anjo negro levou a mão da menina até a lâmina e a apertou sob a mão da doçe moça. Como uma boneca, a criatura foi guiando seus atos. A lâmina já rasgava a carne do braço da garota.
Lágrimas caiam do seu rosto. Não adiantava lutar, seu corpo agia aos comandos daquela criatura. Vários cortes ainda eram feitos — com a criatura guiando praticamente tudo: a direção do corte, a profundidade, o lugar. Novamente, seu braço estava cheio de riscos vermelho escarlate. O sangue pingava e pingava e cada gota prendia o olhar da garota.
A criatura rodeu os braços ao redor da menina, enquanto esta chorava. Ele se abaixou e encaixou sua cabeça na curva do pescoço dela. A menina sentiu os lábios frios da criatura e o coração dela disparou. Suspirou fundo e a escuridão tomou conta dela.
------------- x -------------- x-------------- x -------------
Ouviu o barulho de um carro entrando e abriu os olhos. Estava deitada no chão do banheiro, com o chão com pingos de sangue e teu braço manchado de sangue seco. Levantou-se depressa, mesmo sentindo um pouco de tontura logo após. Ligou o chuveiro rapidamente, tirou a roupa e tomou um banho.
- Filha? — Ouviu a voz de sua mãe atrás da porta do banheiro.
— Oi, mãe. Tô tomando banho. — A menina disse esfregando a mão no braço cortado e dolorido. As manchas vermelhas já sumiam.
— Que mania, ein? Tomar banho de noite. Cuidado para não ficar gripada, filha.
- Está bem, mãe.
A menina, depois de lavar as manchas vermelhas do braço, encostou a cabeça na parede fria do banheiro. Seria assim para sempre? Não teria uma chance de recomeçar a vida, Meu Deus? Porque era movida sem vontade própria por aquela criatura?
Lágrimas caiam e se misturavam com a água do chuveiro. Por mais que estivesse se cortando, tinha medo também de outra coisa: de estar ficando louca. De ter criado uma criatura bela com aquela só como desculpa pelo que tinha feito consigo mesma. Do que fazia com teu corpo, não só por fora, mas por dentro. Cada hora que se cortava sentia, não só sua pele, mas sua alma se rasgando em pedaços e estraçalhando.
Tinha medo de morrer por fora, por dentro e de estar ficando louca. Fechou o chuveiro. Tinha que limpar chão ensanguentado.
------------- x -------------- x-------------- x -------------
Estava dormindo, sonhando algo envolvendo campos floridos e cabana de madeira, quando sentiu a mão fria e familiar a tocando. Abriu os olhos mais que rapidamente e encarou o anjo de asas negras à sua frente. Seu coração começou a bater forte e não sabia se era de medo ou...Outra emoção. Talvez fosse loucura.
Como uma marionete, a criatura a pegou pela mão e a fez levantar-se. O coração da pobre menina começou a entrar em pânico e ela se prepara — tanto fisicamente quanto mentalmente — para ir, pelo trajeto tão bem conhecido, até o banheiro, pegar lâmina e se mutilar. Bem, não se mutilar, pois era comandada por uma espécie de criatura sombria; mas não podia afirmar que tal ser era real, então não tinha conclusões bem feitas a respeito de tudo isso. Só consentia e ia junto com o belo ser.
Estava em estador de torpor, nem olhava por onde andava. Só então que percebeu que a criatura a guiava para fora de sua casa. O coração dela começou a bater mais forte ainda. Desespero, pânico, um alerta de socorro, tudo via num turbilhão de sentimentos e pensamentos dentro de si. Não era possível que ela estivesse indo para lá por boa vontade, era? Uma confirmação doentia via na mente dela nesse momento: A criatura era real.
Como um brilho de uma estrela cadente, ela começou a se mexer tentando livrar-se das garras daquele ser, mas ele olhou para ela. Aqueles olhos azuis. Oh, aqueles olhos. Mais lágrimas caíam: umas por medo, outras por medo do que estava prestes a fazer.
Deixou levar pela criatura. Ele a levou para fora da casa, passaram pela auto estrada que tinha perto do quarteirão e tudo parecia meticulosamente calculado, pois nenhum carro sequer chegou perto dela ou na mesma faixa enquanto passava. Atravessaram a auto estrada e entraram no grande mato que vinha no outro lado da pista.
Ao andar por raízes e galhos caídos, os pés da menina se machucaram, porém ela não sentia tanta dor após ter se acostumado com ela. Andaram um bom pedaço de terra, grama e árvores até chegarem a uma pequena e acabada cabana de madeira desconhecida. Entraram lá e tudo que tinha dentro da desconhecida casa era um tapete sujo de terra.
A criatura largou a mão da menina e afastou-se, indo até o tapete. O ser misterioso encarou-a com os olhos que a garota não sabia se a amendrotava ou a enfeitiçava. Ela pôs-se a chorar. Derramou-se, derretou por completo em frente daquele maldosa criatura. Ajoelhou e sentia as lágrimas caindo em suas mãos. Encarou os braços todos cortados, não por sua vontade, mas por vontade daquela inescrepulosa e maldosa criatura.
— Porque comigo? EXPLIQUE-ME! O que eu fiz? — A menina chorava e se desesperava.
A criatura, com suas asas negras, e seus olhos azuis ajoelhou-se em frente dela e olhou para o fundo daqueles olhos castanhos.
- Você ainda não entende? — Pela primeira vez a menina ouvia a voz daquele ser. Era como um sopro gélido, mas agradável, quase como uma fria brisa de primavera. — Não entende que, quando a Morte se apaixona, ela faz de tudo para ficar perto de quem ama?
A menina encarava aqueles olhos entendendo tudo. Tudo o que ocorria, tudo que ele fazia, o que ela fazia, o que ela sentia e..Tudo que ele sentia.
Os lábios, que antes eram proibidos de se encostarem, encontraram-se pela primeira vez. Um beijo apaixonado e proibido selava o destino do casal. Vários cortes, feitos misteriosamente, surgiam na pele da moça e na do anjo. Enquanto beijavam-se, os cortes eram feitos e lágrimas se misturavam. O ar foi embora dos pulmões da moça de cabelos castanhos e tudo ficou negro, escuro.
Dizem que a vida após a morte não existe.
Para ela, também não existia.
O que realmente ocorria era a vida COM a Morte.
Ela morrera feliz.
E agora "vivia" mais feliz ainda.
Fale com o autor