Notas iniciais
Então, pessoas. Aqui é o Sam. Sei que demoramos, e sei que provavelmente ninguém estará lendo isso (pelo menos dos antigos leitores). Só avisando que estamos pegando o jeito novamente, e provavelmente voltaremos a postar regularmente (ou não). A Pah não pôde postar por falta de sorte, então estarei fazendo isso por ela. Sem mais. Enjoy.

Certo.

Tentarei explicar como diabos é ser metade lobisomem em transformação:

É uma grande droga.

Eu não conseguia dormir, não conseguia sentir fome, muito menos sede. Meus ossos estavam parecendo geléia e meus caninos doíam tanto que pareciam querer explodir em mil pedacinhos.

Luccas, em sua ideia de brincadeira saudável, me saudou naquela manhã com um grande pote cheio de biscoito para cachorro.

— Não sei por que está rindo. – Comentei com desdém, ignorando seus biscoitos e levantando-me da cama. Eu não havia dormido, é claro, mas ficara pensando e tentando controlar os surtos que havia tido de pular a janela e correr livremente pela floresta.

— Você precisa ver sua cara. – Disse Luccas, mas ele não parecia tão risonho. – É sério. Tipo, literalmente.

Arqueei as sobrancelhas, desconfiada. Entretanto, me encaminhei para o espelho mais próximo e soltei um grito... alto demais.

Eu não era eu.

Definitivamente não.

Eu já havia me acostumado com a carga de transformações discretas da Transição, mas acho que infelizmente subestimei a discretibilidade da transformação.

Minhas orelhas estavam tão pontudas que apareciam por entre meus cabelos. Meus olhos estavam puxados como os de uma coreana, estavam da cor do fogo e as íris emitiam um brilho alaranjado asqueroso e esquisito. Mas acho que o que mais me chamou a atenção foi o fato de minha pele estar áspera e coberta de pelos marrons claros, e meu nariz estar preto e molhado na ponta, como o de um cachorro. Meu queixo havia se alongado demais e meus caninos já começavam a aparecer, mesmo se eu mantivesse a boca fechada.

Bufei.

— Quando é que isso vai terminar? Não vai me dizer que amanhã, quando for tomar banho, poderei notar sem querer que tenho um rabo!

Luccas lançou-me um sorriso cínico.

—Olha, seria muito mais engraçado do que eu posso imaginar. – Disse ele com uma das sobrancelhas levantada.

Eu revirei os olhos e me afastei o máximo que podia do espelho. Sentei-me em minha cama e coloquei a cabeça entre as mãos.

Foi quando percebi que tinha garras.

Grandes garras afiadas e negras.

—Ah, fala sério! – Exclamei perplexa.

Ele riu, mas parecia tão perplexo quanto eu. Ou talvez apenas curioso.

—E isso não vai sumir nunca? Como é que eu vou poder ser da torcida? – Eu estava realmente começando a ficar desesperada.

Luccas deu de ombros, desdenhoso.

—Você poderia ser a mascote, assim não precisaria nem de fantasia...

Antes que eu se quer pudesse perceber, eu já estava em cima dele. E pior...eu estava rosnando. Podia sentir os caninos aflorando, e o modo como minha boca havia se fundido para dar lugar a eles, me atribuindo um semblante extremamente feroz.

Abaixo se encontrava um Luccas um pouco assustado, mas totalmente satisfeito.

— Ei, calma... amiga, amiga... – Ele disse entre dentes, tentando me controlar com os braços musculosos. Mas sem sucesso, eu era muito mais forte do que ele. – Não me obrigue a... – Antes que ele pudesse terminar a frase, estreei minhas garras em seu rosto, deixando um grande arranhão vermelho e inchado. Entretanto, Luccas se curou em menos de dois segundos, e não parecia nada feliz. Ele me olhou no fundo de meus olhos. – JENNYFER.

Sua voz retumbou dentro de meu ser, me fazendo tremer e recuar, ganindo.

Era como se eu precisasse obedecê-lo, como se caso não o fizesse, morreria. Eu realmente não queria obedecer, e havia uma parte de mim insistindo para que eu não o fizesse, mas a outra parte era maior e mais medrosa, e mais instintiva.

—Boa garota! – Exclamou Luccas, arrumando o cabelo desgrenhado. – Você deve estar se perguntando por que me obedeceu... Bom, eu lhe mordi, então, é óbvio, sua parte lobisomem sente que eu sou seu mestre, ou seja, vai me obedecer nem que eu lhe mande morrer. É claro que sua parte caçadora poderia vencer a batalha, mas por enquanto a Transformação está num estágio muito mais forte que a Transição, de modo que a caçadora dentro de você não teria nenhuma chance.

Suspirei.

—Quanto à sua pergunta, isso tudo vai sumir sim, assim que a Lua cheia sumir lá de cima. E, antes que me venha com mais uma pergunta imbecil: não. Não vai ser sempre assim. Com o tempo você vai conseguir controlar de um modo que não se transformará nem mesmo no auge da lua cheia, que é sempre a primeira noite.

Luccas sentou-se ao meu lado e pousou uma de suas mãos delicadamente em meu ombro.

—Pense pelo lado bom: seis dias sem escola!

—Quatro. Sábado e domingo não contam. – Falei secamente, afastando-me dele de modo brusco. – Onde está minha mãe em pleno sábado de manhã?

Luccas deu de ombros.

—Não a vejo desde ontem à noite.

Pensando bem, eu também não a havia visto. Ela resolvera passar a madrugada no sofá da sala, para ficar viajando Luccas, mas não me lembrava dela ter entrado em meu quarto depois ou algo assim, o que, convenhamos, era muito estranho. Mason também não havia entrado em contato comigo, depois de tudo aquilo, o que me preocupava demais devido ao fato de a última notícia de eu ter tido dele envolvia o pobre coitado sozinho na floresta atrás de algo que havia caído em sua armadilha.

Poderia ser só um esquilo.

Mas, bem, estávamos falando da floresta Michigan.

Escolhi um conjunto de roupas e olhei para Luccas.

—Quê? – Perguntou ele.

—Eu vou tomar banho. Ou quer me ver nua?

Ele deu um de seus sorrisos cínicos novamente.

—Nem pense em responder. – Falei, entrando no banheiro e me certificando de que a porta estivesse bem trancada.

***

De banho tomado e bem vestida, prendi o cabelo molhado em um coque – quanto aos pelos, boa parte deles já estava sumindo, e minhas orelhas também haviam voltado ao normal. As garras também haviam desaparecido. – e disquei o número de minha mãe no celular.

Ela atendeu no terceiro toque.

—Filha? Aconteceu alguma coisa?

—Isso sou eu quem pergunta mamãe. Onde a senhora se meteu?

Ela suspirou e pareceu se movimentar rapidamente.

—Nada, minha querida. Só estou com Robert na floresta...

De repente, senti um aperto no peito e um nó na garganta.

—Onde está Mason?

Minha mãe ficou muda, deixando que eu ouvisse a voz de Robert ao fundo enquanto falava com o filho.

—EU ACHEI QUE VOCÊ ERA RESPONSÁVEL, MASON! Meu filho, você poderia ter ligado, dito algo a respeito, mas não! QUASE ME FEZ INFARTAR DE PREOCUPAÇÃO!

Pelo menos ele estava vivo, pensei. Não por muito tempo, caso Robert continuasse daquele jeito, mas vivo.

—Está tudo bem. – Disse minha mãe, tentando abafar os gritos estridentes de seu parceiro de caça, porém sem sucesso algum. – Nós já estamos voltando.

—Certo. – Falei, a voz trêmula. – Só... hã... não quero que Mason me veja, ok?

Pude visualizar minha mãe franzindo o cenho e logo em seguida sorrindo.

—Ok! – E desligou.

Terminada a ligação, resolvi que já estava mais do que na hora de descer as escadas e tentar comer algo mais nutritivo do que biscoito para cachorro.

Luccas estava saboreando um pequeno esquilo na mesa de jantar.

Reprimi a vontade de vomitar e fiz questão de ignorá-lo. Fui até a cozinha, ignorando seus chamados, e comecei a abrir os armários. Estava prestes a retirar um pacote de batatinhas de um deles quando Luccas me impediu ao virar-me pela cintura em sua direção.

Ele estava muito perto, e o sangue de seu petisco estava escorrendo de seus lábios lentamente. Os caninos estavam avermelhados e o cheiro de sangue estava me dando vertigem.

Entretanto, o fato de observar seu corpo tão colado ao meu me fez sentir algo que nunca havia sentido antes.

Desejo.

E não era um desejo comum, eu estava ansiando pelo corpo de Lucas, estava ansiando por seus lábios. E não havia sentimento algum, eu não gostava nem um pouco dele. Ele era metido e insuportável demais para que eu gostasse.

Aquilo era puramente sexual. Ou melhor...

Puramente animal.

Eu esqueci totalmente do pacote de batatinhas quando Luccas me beijou.

Suas mãos começaram a passar por meu corpo tão rapidamente quanto sua língua caçava a minha.

Nós começamos a fazer uma espécie de dança do acasalamento. E não era como se eu quisesse estar fazendo o que fazia. Naquele momento, uma batalha estava sendo travada dentro de meu cérebro, onde duas vozes bastante convincentes berravam comigo.

JENNY! Dizia a voz número 1, com uma tonalidade mais grave e segura. Ele é a caça. Nós não namoramos a caça.

Há!Há!Há! Debochou a voz número 2, que falava num ronronar de gato. Não tente disputar contra o desejo, queridinha. Ele sempre vence. E, além do mais, o que é que tem? Você é metade lobisomem agora, precisa fazer o que eles fazem.

NÃO! Você é uma caçadora antes de lobisomem, seja forte! Disse a voz número 1, aumentando o tom e me causando dor de cabeça.

Ah, francamente! Em que século estamos? XIX? Creio que ela está bem grandinha para saber o que quer.

Ah, não está não, não quando se trata de uma metade lobisomem idiota que quer comandá-la e...

—CALEM A BOCA. – Berrei sem querer, assustando Luccas consideravelmente. Sua mão já havia ultrapassado limites que nem eu mesma havia ultrapassado comigo mesma, o que me deixava assustada ao mesmo tempo em que deixava excitada. Ele parou de repente e se afastou de mim.

Luccas estava corando?

Bom, pelo menos as vozes se silenciaram.

—Desculpe, eu... – Começou Luccas, e então soltou um riso nervoso. – É o seu cheiro, ele... – E ao encará-lo eu percebi o quão injetados estavam seus olhos. As pupilas estavam extremamente dilatadas e o tom de amarelo de seus olhos estava adquirindo uma boa quantidade de vermelho sangue. – está irresistível.

Eu ia responder algo como: Mas eu nem espirrei perfume..., porém o cheiro que emanava de Luccas atingiu em cheio minhas narinas sensíveis. Era exótico e afrodisíaco. E bom. E me fazia perder a noção do que eu estava tentando não fazer.

Quando dei conta, eu o havia agarrado novamente, mas dessa vez o impulso fora totalmente animalesco. Minhas garras haviam reaparecido e agora arranhavam de bom grado aquele corpo definido. Pude sentir as orelhas crescendo novamente, e o aparecimento de pêlos, o que não pareceu me deixar nada encabulada.

Luccas me prensou contra a parede e começou a beijar todos os lugares expostos de meu corpo enquanto – obviamente – tentava achar um jeito nada sutil de deixar outros lugares expostos para poder beijar também.

E então eu perdi a noção do tempo.

FORÇA, RESISTA! Retomou voz número 1.

VAI! SE ENTREGUE! Bradou voz número 2.

E começaram a discutir entre si dentro de minha cabeça.

Ela não vai ser tão fraca a ponto de deixá-lo... ora, de deixar uma mera caça como ele...

Ah, vai sim! Olhe para ela... nem parece mais a garotinha que era. Nem sequer lembra-se do seu amiguinho.

ISSO! JENNY! MASON! LEMBRE-SE DE MASON!

A menção do nome de meu melhor amigo me fez parar. E me fez ter consciência de que Luccas estava beijando uma trilha até a minha virilha vorazmente. E de que eu estava totalmente largada no chão da cozinha, e num ângulo bem estranho.

E embora eu tenha tomado parte de voz número 1, meu corpo não queria seguir os comandos que eu enviava desesperadamente para meu cérebro. Deus, eu mal conseguia falar. E quando tentei o que saiu foram uma sequência de gemidos e estralos que fizeram Luccas manter contato visual comigo durante um tempo.

E mesmo sendo do clã dos fortões, e ainda por cima com a força adicional que recebera com a mordida, eu não tinha força alguma para retirar Luccas dali. Ou até mesmo para sair dali.

A única coisa que eu podia fazer era fechar os olhos me concentrar em algo que acabasse com o meu foco supremo nas sensações que Luccas estava me proporcionando.

Tentei absolutamente tudo.

Mas nada, absolutamente nada, retirara o foco do meu corpo no que estava acontecendo. Nem mesmo quando Luccas abaixou o que havia para abaixar abaixo de sua cintura.

Foi quando processei que eu estava sendo tratada como uma caça. Estava indefesa, como se o caçador em questão houvesse me atingido com dardos tranquilizantes. E o fato de me sentir indefesa daquele jeito me fez ter o controle de pelo menos um de meus braços.

—AI! – Gritou Luccas, tampando o nariz com ambas das mãos. Eu o havia quebrado, mas rapidamente ele o colocou no lugar e se curou. Então me olhou como se eu houvesse acabado de sair de um hospício. – Qual o problema com você, sua lunática?

Minhas roupas haviam sumido sem que eu tivesse percebido, e grande parte do meu corpo ainda estava inerte. Por isso, a única coisa que consegui fazer foi ameaçá—lo com o punho do braço disponível cerrado e corar constrangedoramente.

—Nunca. Faça. Isso. Novamente. – Falei entre pausas, controlando minha respiração acelerada. – Nunca. – Repeti com a voz falhada.

Luccas se vestiu novamente e revirou os olhos, oferecendo—me a mão, que recusei.

—Eu? – Ele estava perplexo. – Não foi eu que arranhou o corpo inteirinho de alguém por livre e espontânea vontade, queridinha.

Eu desejei que minhas pernas estivessem funcionando para que eu lhe acertasse um belo chute no meio das pernas.

Depois de alguns segundos observando Luccas me olhar com um misto de desejo e frustração em demasia, consegui recuperar meus movimentos e recoloquei minha roupa. Eu me sentia estranha... Era como se eu precisava terminar aquilo que havíamos começado.

— Você é um pervertido. – Falei, olhando—o emburrada.

Ele apenas sorriu e colocou uma mecha de meu cabelo atrás da orelha, a qual retirei rapidamente assim que ele o fez.

— A culpa, tecnicamente falando, não foi nossa. Foi dos animais dentro de nós. – E piscou. – Vamos ver por quanto tempo você aguenta Jennyzinha.

E antes que eu pudesse ter qualquer reação, ele saiu de meu campo de visão.

Respirei fundo e então suspirei.

Ouvi, ao longe, o carro de minha mãe chegando.

Precisava saber o que acontecera com Mason.