Quando A Caça Vira O Caçador
10 Nove - Jenny
Notas iniciais
Boa leitura!
As batidas na porta me acordaram.
De súbito, ergui-me da cama, como se tivesse acordado de um pesadelo. Não, eu não me lembrava no que havia sonhado naquela noite de sono turbulento, mas não acho que tenha sido um pesadelo.
Eu tenho o péssimo hábito de lembrar todos os meus pesadelos.
Mesmo assim, algo ainda me incomodava. Eu não sabia exatamente o que, mas me deixava com uma sensação ruim na boca do estômago. As batidas recomeçaram, dessa vez mais forte do que antes. Sentei em minha cama e joguei o cabelo para trás.
Um vento frio me atingiu, mas quando olhei para a janela, ela permanecia fechada.
Foi quando virei para o outro lado, ainda procurando a causa do vento, que eu o vi.
Beliscão, o grande e azul falcão, que estava empoleirado ao meu lado, agitando as asas freneticamente. Até ele parecia saber mais das coisas do que eu, e isso era irritante.
– Olá, grandão. – Cumprimentei, bocejando.
"Toc, toc, toc", mais uma vez em minha porta. Mamãe parecia estar com pressa, e estressada.
Eu conheço as batidas dela.
Levantei-me e ri quando Beliscão me bicou o mindinho de leve, como se ele realmente quisesse me ver sorrindo, e não confusa, então, com um rápido movimento, Beliscão subiu pela minha mão e parou no meu ombro. Ele era mais pesado do que parecia.
Mesmo me sentindo ridícula, como uma pirata ou algo assim, comecei a andar rumo à porta com Beliscão ao meu lado. Ele bicava a minha testa de modo impaciente, como se eu tivesse que atender a porta antes de qualquer coisa.
Mais uma vez a sensação de ele saber mais do que eu.
Abri a porta, sentindo a dor leve que meu pulso emanou por baixo das gazes. Embora o ferimento ainda estivesse doendo, eu me sentia bem melhor que antes. Do outro lado da porta, minha estressada mãe se encontrava, seu semblante estava sombrio, seus olhos com profundas olheiras abaixo dos olhos, seu cabelo bagunçado. Mas, quando seus olhos pousaram em mim, ela riu. Ela gargalhou, aliás.
Eu até entendi o porquê – um falcão ao meu lado, meu cabelo desgrenhado, um pijama folgado e minha cara de sono –, mas o fato de ela rir de mim me deixou irritada.
– Mãe! – Reclamei.
Pelo menos, o riso melhorou seu semblante, e isso me fez sorrir também. Seu rosto era o melhor de todos quando ela ria. Feliz, sem preocupações – o rosto que eu conhecia.
– Desculpe, eu... Eu não pude evitar. – E então riu novamente, mas tentou segurar. Ficou parecendo uma espécie de espirro misturado com tosse.
Tudo bem. Eu gosto do sorriso dela, e tudo mais. Mas aquilo estava começando a sair do limite. Ela parecia... Infantil.
– Deve ser umas cinco da manhã, mamãe. – Tentei não me importar com seu semblante zombeteiro. – O que a senhora pode querer comigo às cinco da manhã?
– Não, não. São sete e meia da manhã. – Ela disse, calmamente.
– Ah, meu Deus! – Gritei. – Estou atrasada!
– Não, não está. – Ela disse, mais uma vez calma. – Hoje você não vai para a escola.
– O quê?
– Você passou por muita coisa, filha. Tanto mental quando fisicamente. – Ela disse, com ternura. – E não deve ter dormido bem, também. Você não tem condição nenhuma de ir para a escola.
Digamos que eu estava em estado de estupor quando abri a porta, mas quando minha mãe disse que eu não iria para a escola, eu fiz a coisa mais idiota que uma adolescente que odeia escola poderia fazer.
Eu peguei minha mochila.
Minha mãe estava me olhando de maneira cômica, e parecia estar fazendo uma força hercúlea para não gargalhar novamente. Eu estava de pijamas e pantufas, com um falcão brilhante empoleirado feito um papagaio em meu ombro.
E estava pronta para ir à escola.
– Na verdade, eu dormi muito bem. Esplendorosamente bem. – Menti, sorrindo. – E... Nossa, olha meu pulso! – Apertei-o, ignorando a dor poderosa que ser formou. – Nem dói mais...
Minha mãe apenas sorriu e pegou a mochila de minhas mãos.
– Não, você não é boa com mentiras. – Ela sorriu mais uma vez. – E você está horrível.
– Puxa, valeu mãe.
– Além do mais, temos muito que fazer hoje – Ela disse. – Ou você acha que é simplesmente saber a verdade e tudo acaba?
Pisquei forte. A vontade de ir para escola foi abalada.
– Espera aí... O que você quer dizer com isso? – Recuperei o fôlego. – O que nós temos que fazer hoje?
De repente, tudo o que havia acontecido ontem pareceu me atingir com força total. Todas aquelas estranhezas, loucuras e toda a verdade que eu havia ouvido ontem eram parte da minha vida. Fora por isso que eu havia perdido o sono. Mas meu último momento de sono havia sido tão conturbado que eu tinha me esquecido daquilo tudo. Se eu pudesse me lembrar de o que tinha sonhado...
– Coisas. – Minha mãe disse, avançando o corredor. – Mas antes de descobrir o que são você precisa tomar café. Precisa de energia!
Dizendo isso minha mãe virou o corredor, desaparecendo de vista, em direção a cozinha.
Olhei meio torta para Beliscão e bufei. É, por mais que as líderes de torcida estivessem precisando, eu teria que ficar em casa. Por amor à minha sanidade.
– “Coisas”, hein? – Murmurei. – Até parece que todo mundo nessa casa sabe mais que eu.
Segui o caminho de minha mãe com o falcão ainda grudado em mim, como um pássaro de brinquedo. Ele parecia não querer sair de perto de mim, por mais que eu balançasse enquanto descia as escadas. Aquilo era mais um indício de que ele não era só um bichinho de estimação.
Comecei a divagar sobre sua existência, uma coisa que mamãe não me explicara até agora. Havia alguma coisa especial nele, eu podia sentir. Mas, levando em conta o restante das coisas que ela teria que me contar ainda, isso poderia ficar em segundo plano por algum tempo.
Só por algum tempo.
Encontrei minha mãe sentada em uma das cadeiras da mesa da cozinha, que hoje estava com uma toalha de mesa bordada de corações e flores, fazia muito tempo que eu não via a mesa com uma toalha de mesa.
Isso só significava uma coisa.
Mamãe estava tentando me agradar. Fazer o que estava por vir ficar mais... Suave. Ou seja, seria mais um dia complicado para mim. Mais informações, mais dor de cabeça. Eu só gostaria que fosse mais fácil de acreditar.
Sentei-me, meio desconfiada. Aquela situação estava muito estranha, considerando o provável teor daquela conversa. Minha mente ainda estava meio confusa, e cerca de vinte por cento dela ainda não estava sintonizado naquilo tudo, mas eu já estava pronta para mais. Quanto mais eu soubesse, melhor eu iria me sentir. Se eu não surtasse no processo.
Mamãe passou os dedos pelos sedosos cabelos e sorriu para mim, visivelmente nervosa. Seus olhos carregavam nostagia, dor. Era como se ela não quisesse essa situação.
Era estranho vê-la assim. Ela parecia tão... frágil.
– Mãe? – Chamei. Beliscão me beliscou na cabeça, como se eu não devesse dizer alguma coisa.
Eu o ignorei.
– Sim? – Ela disse, me oferecendo ovos e bacons.
Mordi o lábio e continuei olhando para ela. De repente, Megan parecia a mãe que eu tinha antes da minha festa de quinze anos. A inocente, que não me escondia nada. Que parecia não entender a situação.
– Hã... – Tentei manter a paciência. – Explicações? Loucura? Lembra?
Minha mãe sorriu para mim com doçura, o que me fez juntas as sobrancelhas em uma visível desconfiança.
– Ah, é claro querida. Bom, vamos lá... – E então ela desviou o olhar, como se sua coragem estivesse se esvaindo. –... Filha, você não queria ganhar aqueles sapatos da Gucci? Eu lhe dou eles. – E sorriu.
Eram sapatos Gucci.
G-U-C-C-I.
Aquilo fora tão absurdo que eu nem ao menos consegui formar uma resposta. O modo como ela mudou de assunto... Parecia que ela estava com medo. Medo de me contar a verdade.
– Hã... Como quiser. – Sorri. O sorriso mais forçado que já tinha feito.
– Bem, já que você já decidiu o que quer ganhar... – Pisquei quando ouvi isso. O que houve com o "economizar para a faculdade"? – Como vai o grupo das líderes de torcida?
– Mãe... – Tentei não parecer que estava forçando a barra. – Que tal conversarmos sobre outra coisa?
– Outra coisa...? – Ela se fez de desentendida.
Eu a olhei como se não pudesse acreditar no que os meus ouvidos estavam ouvindo, e de fato não podia. Minha mãe era horrível em fingir, fato. Mas vê-la assim, tentando mudar de assunto... Era deprimente.
Mesmo assim, sorri pacientemente e disse:
– Ah, nada muito importante. – Pensei no modo mais educado de dizer. – Só... sabe? Garotos do meu colégio querendo me matar... Coisas desse tipo. – Terminei a frase o mais séria que eu podia no momento.
Mesmo com esse tom meu, minha mãe ainda não pareceu entender. Ela simplesmente abaixou a cabeça e começou a mordiscar suas unhas, como se isso fosse a coisa mais interessante no momento. E aquela fora a gota d’água.
– Mãe! – Gritei, me levantando. – Pára com isso!
Ela arregalou os olhos. Por um momento, me senti culpada por estar gritando com ela, algo que eu nunca havia feito antes. Mas então percebi que era necessário. Minha mãe estava tentando esconder algo que não podia mais. Talvez estivesse arrependida por ter me contado aquelas coisas antes, mas isso não importava. Ela já havia feito. E agora teria que terminar.
Além disso, eu precisava. Não iria fazer pesquisas independentes, ou especulações, ou ficar no escuro. Mesmo que esse... Lance de caçador fosse perigoso. Ou que fosse mexer com a minha cabeça.
– Por acaso a senhora se esqueceu do que houve ontem? – Baixei o tom de voz, mas ainda estava com raiva. – Do que eu passei por saber de menos?!
Vi lágrimas correrem pelo rosto dela, e então eu percebi o quão grossa eu havia sido. Tudo bem, ela estava escondendo coisas de mim, e já tinha escondido muitas coisas antes. Mas... Não era culpa dela. Ela só estava tentando me proteger. Eu podia ver nos seus olhos marejados. E era a segunda vez que eu fazia alguém chorar desde que essa loucura começar.
Sim, eu me sentia culpada o suficiente agora.
– Mãe... – Engoli a vontade de chorar. – Desculpa, eu... Eu não sabia que era tão difícil para senhora...
– Não, você está certa. – Ela disse, limpando as lágrimas, um semblante abatido no rosto. – Eu... Eu fui muito egoísta tentando esconder a verdade antes, e mais ainda agora. Quer dizer, mesmo sabendo que você poderia morrer ao virar a esquina, eu não disse o que estava acontecendo... Só para deixar você longe disso.
Ela pausou, enquanto me olhava de um jeito meigo que eu não via a séculos e alisava meus cabelos.
– Mas, filha, você tem que entender. – Ela continuou. – Ser um caçador é o pior trabalho do mundo. Embora seja o mais necessário, também. Eu... Seria como te entregar nas mãos da própria morte. Te perder.
Embora eu não estivesse entendendo nada, senti que minha mãe estava sofrendo. Sofrendo muito. Era como da vez em que ela me deixou ir ao um acampamento de veraneio, depois de muita insistência, mas acabou fazendo eu me sentir culpada. Não, era muito pior. Eu me sentia muito mais culpada por estar fazendo aquilo.
De repente, eu não queria mais respostas. Só a minha mãe alegre e feliz de volta. A mãe que veio antes dessa loucura toda. A mãe despreocupada, sem maiores pretensões, que não se preocupava com o perigo eminente. Apenas minha mãe.
Abracei-a, sem emitir som algum. Eu queria chorar por estar fazendo minha mãe sofrer, mas seu terno abraço me impedia. Ela sorria agora.
– Mas... – Minha mãe disse, depois do abraço. – É o seu destino. E eu não vou impedir o destino.
– Mãe... – Minha voz falhava. – A senhora não precisa mais dizer nada pra mim. Eu... Eu entendo.
– Está tudo bem, Jenny. – O modo como ela disse meu nome... Era como uma despedida. – Eu... Eu já deveria ter aceitado isso a muito tempo. Está além do meu alcance. Tudo o que eu posso fazer agora é te preparar. – Seu rosto ganhou a tranqüilidade de sempre. – O que você quer saber?
***
O vento que corria o gramado e esvoaçava nossos cabelos estava morno.
O céu estava limpo, salpicado de nuvens. Tudo parecia tão bonito, tão alegre... Não era à toa que minha mãe nos levou para o meio do quintal para termos nossa conversa. A probabilidade de eu enlouquecer ouvindo o que ela estava para dizer era mínima. Eu acho.
Minha mãe ainda sorria, melhorando as coisas bastante. Eu apenas sorria de volta, não entendendo muita coisa. Só sabia que finalmente receberia minhas respostas, e que estava bem com a minha mãe.
Isso era tudo o que eu precisava agora, além das respostas.
– Bem... – Minha mãe disse, sentindo uma lufada de ar quente no rosto. – Existem tantas coisa que você precisa saber... Eu não faço idéia de por onde começar, de novo...
– Ok... – Eu estava tão sem jeito quanto ela estava. – Será que dá para dizer apenas tudo o que eu precise saber?
– Só? – Ela perguntou,
– É. – Sorri. – Pulando as partes chatas.
– Certo. – Ela sorriu de volta, a atmosfera se suavizando. – Vamos começar por... Não sei... Ah, é. Pelo que fazemos. Provavelmente isso é uma das suas dúvidas.
Assenti, pensando no que viria a seguir.
– Bem, como você já deve ter sacado, caçadores... Caçam. – Ela riu um pouco. – É, eu sei. “Que idiotice!”, você deve estar pensando agora. Mas esse é o nosso trabalho. Caçar. Caçar coisas de que a maioria das pessoas fugiria. Monstros.
Eu apenas a encarei, matando sua tentativa de ser engraçada. Ela estava tentando fugir de novo.
– Tudo bem. – Ela se recompôs. – Vamos ao que interessa. “E o que eu tenho a ver com isso?”. Bem, eu vou ter que voltar a Idade Média para responder a essa pergunta. Foi lá que a Caçada começou.
– Caçada? – Por mais que eu soubesse o que era só pelo nome, eu perguntei. Queria incentivá-la.
– O início da perseguição em grande escala contra os monstros. – Ela explicou, ficando entusiasmada. – Começou quando a necessidade de sobrevivência humana foi suprimida pelos monstros. Aquilo tinha que parar. Foi quando aconteceu a revolta. Liderada pelos caçadores, é claro. Aqueles que sabiam das fraquezas específicas dos monstros. E que tinha coragem suficiente para enfrentá-los.
Eu estava tão imersa naquele discurso que nem ao menos percebi a pausa de minha mãe.
– Bem, aí chegamos a parte mais confusa. Que talvez eu devesse pular...
– Nada disso. – Cortei. – Eu preciso saber de tudo, lembra?
– Tudo bem! – Minha mãe disse, um tom sarcástico em sua voz. – Não me bata por isso!
Dessa vez, eu não pude segurar a risada. E rimos ali, sentadas no gramado, o vento espalhando nossas ruidosas gargalhadas pelo ar.
– Ok, ok, agora é sério. – Ela suprimiu mais uma gargalhada. – Vamos entrar na parte dos poderes.
Parei de rir instantaneamente.
– O que?! – Quase gritei.
– É, eu tentei avisar. – Ela suspirou. – Mas, tudo bem. Eu vou te explicar. Você deve estar sentindo seu corpo diferente, não é? Mais forte, resistente,... Como se sua energia estivesse longe de acabar... Isso tudo faz parte da Transição.
Transição. Aquela palavra fora tão impactante, e eu nem ao menos sabia porque. Eu me lembrava de já tê-la ouvido num dos meus pesadelos, mas ela não fazia sentido algum. Pelo menos até agora.
– Seu silêncio deveria ser encarado como um aviso prévio? – Minha mãe perguntou, arrebatando-me dos meus pensamentos.
– Não. – Respondi, rapidamente. – Eu... Só estava pensando.
– Hmmm... – Minha mãe me encarou, desconfiada. Mas, por fim, deu de ombros. – A Transição, antes que você me pergunte, é a passagem dos poderes de pais para filho, ou no nosso caso, de mãe para filha. O que me lembra...
– Que você não explicou os poderes. – Completei, orgulhosa por finalmente estar acompanhando minha mãe.
– Ah, é. – Ela piscou um olho para mim. – Bem lembrado. Os poderes, que ninguém sabe exatamente como surgiram, são hereditários. Assim como sua origem, o porquê de eles passagem de pai para filho é um mistério. Aliás, a única coisa que sabemos sobre eles é que se mudam para o corpo de um descendente de caçador quando este atinge a idade corporal perfeita, ou seja...
– Quinze anos. – Completei novamente, sem ter que pensar muito dessa vez.
Agora finalmente tudo aquilo fazia sentido. O porquê de tudo isso estar sincronizado com meu aniversário de quinze anos. Por mais que aquilo tudo fosse loucura, era reconfortante sentir que alguma coisa estava fazendo sentido. Pelo menos inicialmente.
– Muito bem! – Minha mãe disse, abraçando-me. Havia animação extra na sua voz. – É tão bom saber que você está aceitando isso tudo!
Apenas sorri, afundando-me no seu abraço.
– Mas... Temos que terminar, certo? – Ela tentou assumir o tom sério novamente, mas continuou sorrindo. – Os poderes... Eles estão na nossa família há séculos, passando de um para outro, de geração em geração. E, agora... Eles chegaram a você. E, junto com eles, essa missão. Você agora é uma caçadora, Jenny.
Fiquei sem ar. A solenidade presente ali era desconcertante. Eu sentia como se o peso do mundo tivesse sido posto sobre meus ombros. Eu sentia uma responsabilidade que eu não tinha nas minhas mãos, e não sabia porque.
Mas, por outro lado, eu sentia outro peso sendo retirado de mim. O peso da ignorância. Eu sabia de tudo, e, acima disso, eu estava naquilo tudo. Eu era parte de algo importante. Não me sentia mais fútil como as líderes de torcida me faziam sentir. E aquilo era a melhor sensação do mundo.
– Hey, filha, não fique assim. – Minha mãe tocou meu ombro. – Você suportou melhor do que eu pensava que suportaria. Melhor do que suportei. – Seus olhos viajaram para longe. – Sabe, meus pais também tentaram adiar o inadiável. Tentaram em proteger. Por amor, como eu fiz. Mas... Isso não foi saudável. Ou construtivo. E, embora, eu tenha feito isso também, saiba que eu te amo.
Aquilo me deixou sem palavras. Minha mãe não dizia aquilo com muita freqüência.
– Mãe... – Abracei-a, mais forte do que eu pensei que conseguia. – Eu também te amo!
E, naquele abraço, eu senti algo que já fazia tempo que não sentia, desde que isso tudo havia começado. E não era o afeto, que também estava em falta. Ou uma conversa, que eu também não tinha muito com minha mãe.
Era sentir que tudo aquilo que já tinha acontecido comigo fazia parte da minha vida.
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