Quando A Caça Vira O Caçador
14 Treze - Jenny
Notas iniciais
Eu voltei com força total aqui na história, entao espero ganhar comentários, mesmo que vocês me xinguem u.u
Entao eu continuo sendo Jenny e o Sammy é o May, e fim u.u
Enjoy
~Paah
Certo.
Uma armadilha.
Saquei.
O que provavelmente queria dizer que algum monstro idiota estava querendo que mamãe e Rob estivessem ocupados o bastante para que pudessem nos defender. Queria que estivéssemos indefesos, queria que estivéssemos mortos.
Realmente odeio quando monstros querem me matar ou me ver morta, acho ofensivo.
Mas decidi não pensar muito nisso, afinal eu havia acabado de ser atacada por uma cobra do mal, sem falar que Mason havia lançado aquela sua maldita flecha explosiva que me fez voar pelos ares. Eu realmente estava muito perto da cobra, era um milagre não ter acontecido nada comigo.
Acho melhor lhe contar o que aconteceu depois do ataque da cobra, antes que venha mais alguns trilhões de perguntas na minha cabeça e eu tenha um colapso mental.
Mamãe preparou um café para nós, enquanto estávamos sentados na sala com Rob. Ele estava estranhamente quieto, como se estivesse sentindo vergonha ou algo assim. A mesma coisa se passava com Rigle, aquele cão gigante que mais parecia um urso. O olhar dele... era quase humano. Apesar de agora ser o cão de Mason, seus olhos azuis-celeste estavam na mesma sintonia que os olhos de Robert.
Eu estava sentada ao lado de Mason, com Beliscão pousado em um de meus ombros. Mason bebericava uma xícara de café enquanto alisava os pelos de Rigle, que estava deitado na típica posição “eu não quero fazer nada” que os cachorros fazem.
- Então, — Comecei, deixando a xícara intocada de café na mesinha de centro. – sabemos que tem alguma coisa por ai que realmente não quer ver eu e Mason respirando. – Suspirei, esperando que Rob ou mamãe dissessem alguma coisa. Como não o fizeram, prossegui. – Quero dizer, a gente não tinha que ser treinado para não parecermos com um grande cartaz em neon de “Comida Grátis” para os monstros?
Mason reprimiu uma risadinha.
- Suas analogias são louváveis, Jens. – Disse ele, me olhando com aqueles seus olhos azuis penetrantes.
Por um momento me senti hipnotizada ao olhar para ele, coisa que nunca – em hipótese alguma – havia acontecido antes. De repente, meu cérebro teve consciência da proximidade excessiva entre nós dois, e senti meus dedos das mãos formigarem por alguns segundos.
Por sorte, Robert conseguiu desviar minha atenção para ele.
- O que quer dizer com isso, Jenny? – Perguntou.
Mamãe revirou os olhos e deu dois tapinhas no ombro largo do colega.
- Não é óbvio, Hyles? Ela quer aprender.
Robert não parecia estar ali, conosco. Pelo menos não mentalmente. Por isso ele demorou alguns segundos para compreender o que minha mãe acabara de dizer. Quando finalmente passou a entender o que eu realmente estava querendo, ele sorriu para mim e para o filho.
- E acharam que não iriam aprender? Estamos aqui para isso. Somos os mentores de vocês.
Fiz uma tentativa de me entreolhar com Mason, mas ele estava ocupado o bastante fuzilando seu pai com os olhos, então resolvi deixar para lá.
- É mais do que querer. – Eu disse. – Se tornou uma necessidade maior do que antes, afinal estamos correndo risco de vida agora, não?
Mason arqueou as sobrancelhas e olhou para mim.
- E quando é que não estamos correndo risco de vida?
- Agora é diferente. – Falei, encarando-o. – Agora eles estão trabalhando juntos. – Lancei um olhar para mamãe. – Não é isso?
Megan deu de ombros, parecendo indiferente. Mas ela não conseguia me enganar, eu sabia que ela estava nervosa... e morrendo de medo. Até mais do que eu, que, covenhamos, seria o prato principal da coisa toda.
- Ainda não podemos ter certeza. – Disse minha mãe, se entreolhando com Rob.
- Exato. – Concordou ele. Então bateu palmas e se levantou, limpando as migalhas de pão do cós da calça com a mão. – Por enquanto, não se preocupem com isso. Amanhã vocês dois irão para a escola, e agirão de um jeito normal. Deixem os monstros conosco. – Dizendo isso, saiu em direção à cozinha, deixando a mim e a Mason boquiabertos.
- Hã... – Fez minha mãe, um tanto desconfortável, enquanto pegava as xícaras. – Acho melhor eu ir lavar isso aqui. – E seguiu em direção à cozinha também, parecendo meio nervosa.
Bufei.
- “Deixem os monstros conosco.” – Imitei Rob com voz de falsete enquanto cruzava os braços no peito. – Como se ele ainda fosse dono da porcaria dos poderes.
Beliscão beliscou de leve minha orelha e pulou de meu ombro para a mesinha de centro, aproveitando para comer as migalhas de pão que ainda permaneciam lá. Quanto a Rigle, o enorme Husky Siberiano apenas bocejou e se deitou entre os pés de Mason. Este último ainda estava boquiaberto, mas agora olhava para seu cão.
- Sinistro. – Murmurou Mason baixinho. Então virou seu corpo em direção ao meu e suspirou, olhando para as próprias mãos. – Jenny, eles são os adultos, os mentores. Sabem o que é melhor para nós. Se ainda não chegou a hora de treinarmos... paciência.
- Paciência? – Soltei uma risadinha de escárnio. – Por algum acaso já passou por essa sua cabeça gigante que talvez eles estejam evitando isso? Que talvez eles estejam evitando o nosso destino?
Eu já sabia que resposta ele daria muito antes de ele dá-la. Não sei se era porque nos conhecíamos desde pequenos, ou porque esse negócio de Clãs, poderes e caçadores de monstros nos aproximava com uma espécie de elo empático, mas eu acabara de descobrir o quanto conhecia Mason. Seu semblante agora era um misto de maturidade com surpresa, o que queria dizer que ele não aceitaria minha ideia tão facilmente, embora acreditasse nela.
- Não, não passou. – Ele disse, me olhando nos olhos novamente. Tive que prender a respiração por alguns segundos para não acabar sendo hipnotizada uma segunda vez. – Mas que negócio é esse de destino? Não tem esse negócio de destino. Escute, Jens...
- Escute você. – Falei, apontando para a cozinha. – Use seu super-tímpano e escute a conversa daqueles dois.
Mason fez uma careta.
- Super-tímpano?
Como permaneci em silêncio, Mason respirou fundo e focalizou seu olhar na porta entreaberta da cozinha. Robert e Megan estavam falando muito baixo, pois mesmo a porta estando entreaberta, eu não podia escutar uma única palavra da conversa dos dois.
Mason passou alguns minutos concentrado, e então se voltou para mim com os olhos um pouco assustados.
- O quê? – Perguntei, exasperada. – Anda, fala. – Ele apenas me olhava. – Mason!
Ele engoliu em seco e coçou um dos olhos.
- Hã... pelo que eu consegui entender, os monstros podem estar querendo que morramos para acabar com toda a linhagem Arrow e Blade...
- Me diga uma novidade. – Zombei.
- ... E nossos pais estão com medo de nos treinar porque, quanto mais conhecemos os poderes, mais forte eles ficam. – Mason parou para escutar mais um pouco. Ele mordia o lábio inferior... e, embora eu não quisesse estar admitindo isso, era, de algum modo, sexy. – E quanto mais forte eles ficam, mais monstros o sentem. E quanto mais monstros os sentem...
- Mais perigo corremos. – Terminamos em uníssono, ao mesmo tempo em que mamãe e Robert irromperam pela porta da cozinha.
Megan sorriu gentilmente para mim quando me levantei.
- Você tem escola amanhã, e tem o treinamento da torcida. – Ela suspirou. – Afinal, parece que alguém aqui passou na Buffalo Bills.
- Buffalo Bills é só nas férias de verão mãe. – Falei.
Ela deu de ombros.
- Mesmo assim. Ainda temos as nacionais, hein? – Ela alargou o sorriso e começou a me direcionar para a porta. – E vocês passaram por muita coisa para apenas uma só noite, precisam de uma boa noite de sono.
Robert abriu a porta com cuidado, e me lançou um olhar zombeteiro.
- Jenny, da próxima vez que quiser fazer uma visitinha ao meu filho, seja mais delicada. – Então arrancou a porta. Exatamente. Ele arrancou a porta e a colocou encostada na parede. O vento frio do inicio da madrugada era cortante para uma garota que usava um top e shorts caquí folgados.
Megan sorriu graciosamente para Robert e me guiou para fora da casa.
- Ora Hyles, sabe que será impossível.
Robert soltou uma risadinha e lançou uma piscadela pra minha mãe, como se eles estivessem compartilhando uma piada particular. E provavelmente estavam.
- Boa noite Clein. – Disse ele para minha mãe, e em seguida olhou para mim. – Jenny.
- Boa noite. – Falei enquanto minha mãe se virava e seguia pacientemente para nossa casa. Tirei meus olhos de Rob e os focalizei em Mason. – Até amanhã May.
Ele sorriu.
- Até amanhã Jenny.
***
O som doce e perigoso da flauta se fez presente na noite fria, e mais uma vez eu me encontrava na floresta. Ainda era de madrugada, e falei um palavrão baixinho quando percebi que ainda usava apenas o top e o shorts.
O vento que soprava nas árvores parecia estar acompanhando a melodia que enchia aquela clareira. E não se podia ouvir o som dos outros animais que habitavam aquela floresta, era quase como... era quase come se eles estivessem em silêncio de propósito. Como se o som daquela flauta fosse hipnotizante.
No centro da clareira havia um homem robusto em vestes pretas e cafonas. Lembrei-me vagamente dele e, na mesma hora, me escondi atrás de uma árvore.
- Podem aparecer. – Disse o homem. Sua voz era gélida e tão cortante quanto o vento que se abatia em minha pele. Magicamente, a melodia que ele criara com sua flauta permanecia no ar. – Vamos, rapazes. Não se acanhem.
Cerca de três criaturas apareceram. Uma mais horrenda que a outra.
A primeira era muito pálida, tinha cabelos negros brilhantes e sedosos que chegavam até seus ombros e usava um sobretudo preto. Ele tinha presas e seus olhos eram de um vermelho escarlate.
Era um vampiro.
A segunda criatura era familiar para mim. Era quase invisível, com olhos vermelhos brilhantes e uma foice prateada que brilhava com o lustroso brilho da lua lá em cima. Era um ghoul.
Como se eu já não estivesse assustada demais por estar revendo aquela coisa, a terceira criatura que se vez ver na clareira me fez ter vontade de cavar um buraco na terra, colocar minha cabeça lá dentro e não sair nunca mais.
Tinha uma forma humana, mas sua pele era cinzenta e macilenta demais para um humano normal. Seus dois olhos eram alaranjados e brilhavam como fogo vivo. Possuía apenas três fios de cabelo negro e seco no topo da cabeça. Mas o que mais chamou minha atenção foi sua boca: havia sangue seco em seus lábios, e quando ele a abriu, dezenas de dentes afiados apareceram, me fazendo tremer na base. Seus braços e suas pernas eram muito longas e desproporcionais ao corpo, suas unhas eram sujas e pareciam lâminas amareladas.
O homem da flauta sorriu – um sorriso macabro – para as três criaturas por um instante, então seus olhos ficaram negros e a lua parecia não querer mais iluminá-lo.
- Onde eles estão?
Duas das criaturas se entreolharam, nervosas. O vampiro deu um passo à frente e encarou o homem com ar superior.
- Os dois adultos. – Sua voz era áspera. – Não conseguimos enganá-los por muito tempo. Eles conseguiram salvar as crianças.
O homem, que um segundo antes estava acariciando sua flauta mágica, a quebrou no meio num piscar de olhos. A melodia parou, e a floresta voltou a ser o que sempre foi. O vento seguia seu próprio ritmo, e os animais noturnos estavam voltando à ativa.
- Como disse? – A vos do homem estava perigosamente calma, mas o brilho sanguinário e assassino em seus olhos estavam o oposto. – Vocês. – Ele falava por pausa ágoras. E a cada pausa dava um passo para cima dos monstros. – Deixaram. — Mais um passo. – Minha. – Outro passo. – Cobrinha. – Ele já estava bem próximo do vampiro. – Morrer?
- Na verdade... – Começou o ghoul. – Nós estávamos indo muito bem com os caçadores. Conseguimos confundi-los com o cheiro de Vlad, e estávamos prestes a matá-los. – Ele respirou fundo, o que me surpreendeu, pois achei que ele não possuía cavidade nasal alguma. – Mas eles viram o Wendigo. – O ghoul lançou um olhar de desprezo para a criatura ao seu lado.
- Exatamente. – Concordou o vampiro. – Meu cheiro foi suficiente forte para atrair os dois para a floresta. Então me escondi, armando a emboscada. – Ele deu um olhar por sob o ombro para o Wendigo. – Mas essa coisa estragou tudo, é claro.
O Wendigo apenas olhava para todos e batia palmas. Para falar a verdade, me lembrava muito um Orangotango. Ele não parecia estar entendendo uma palavra daquela conversa.
- Está bem, chega dessa ladainha. – Disse o homem, já inquieto novamente. Ele colocou o indicador sobre o queixo e começou a andar de um lado para o outro. Parando de quando em quando para lançar olhares assassinos para os monstros. – O plano “B” também não deu certo. Bom, ainda temos 24 letras para tentar. Hm, vejamos. – Ele aumentou a rapidez dos passos.
As três criaturas permaneceram caladas. Até que o homem se virou novamente para elas com um sorriso.
Quando abri meus olhos à primeira coisa que vi foi o bico de Beliscão. Gritando, me joguei para o lado e cai da cama. Os berros e chiados de meu falcão e os gritos de meu despertador já estavam me enlouquecendo.
Como se eu já não estivesse me sentindo louca o bastante.
Consegui me levantar e firmar as pernas no chão. Foi então que a lembrança surreal de meu pesadelo tomou conta de mim e soltei um arquejo assustado.
O homem... ele já estivera presente em outros pesadelos meus. Assim como a melodia mágica que saia de sua flauta.
“Toc, toc, toc” ritmados se alastraram pela porta do meu quarto, se juntando a confusão de sons que havia dentro dele. Consegui chutar o despertador, que havia caído de meu criado mudo, para de baixo da cama, calando-o e, com um pulo, fechei o bico de Beliscão com ambas das mãos.
- Nem adianta tentar. – Falei para ele, quando senti que ele estava tentando sair do aperto. – Seu negócio é super visão e super audição, força física é comigo. – Então suspirei. – Está aberta, mãe.
Minha mãe entrou cautelosamente em meu quarto, com um sorriso meigo estampado no rosto. Já vestia o seu uniforme de professora da Weston High School, e havia feito um coque nos cabelos.
- Tem certeza que está bem filha? Você teve um sono muito inquieto esta noite. – Sua voz era quase ronronada, como a de um felino. Ela passou as mãos em meus cabelos suados e me beijou a testa molhada.
Fazia um tempão que ela não era carinhosa assim comigo. Não que eu esteja reclamando, afinal adorava o fato de ser uma das poucas garotas da escola que tinha uma mãe que não pegava no pé. Não que a minha também não pegasse, mas era só em questões mais importantes como notas escolares. Eu me lembrava vagamente da época em que ela realmente transmitia certo afeto por mim, mas fora antes de papai desaparecer. E agora ela quase parecia a mesma Megan de antes.
Entretanto, não me senti... segura o bastante para lhe contar meu pesadelo. Talvez a preguiça de ter que contar todos os outros antes desse também estivesse ajudando a manter minha boca calada, mas também havia o fato de que se minha mãe tinha seus segredos de caçadora... eu também teria que ter os meus.
- Hã... tive uma noite normal mãe. – Menti, rezando para que ela pudesse acreditar em mim.
- Tem certeza? – Uma de suas sobrancelhas estava arqueada. – E filha, você vai matar seu falcão desse jeito.
Enquanto assentia, confirmando minha mentira de que havia dormido bem, percebi que, na verdade, eu estava asfixiando meu pobre Beliscão. Soltei ambas as mãos de seu bico e não reclamei quando ele bicou uma delas com força exagerada.
- Desculpe. – Falei, sorrindo. Então voltei a olhar para minha mãe. – Acho que preciso começar a me arrumar.
Megan assentiu e fez menção de fazer um cafuné em Beliscão, mas no meio do caminho sua mão se desviou de meu falcão e pousou no pé da cama.
- Enquanto isso eu vou preparar os muffins... Mason vai conosco hoje.
Uou. Aquilo havia me surpreendido.
Fazia anos que Mason e eu havíamos parado de ir juntos para a escola. É claro... as circunstâncias eram bem diferentes das atuais...
- Posso perguntar o motivo ou seria burrice demais?
Minha mãe reprimiu uma risada.
- Não seja tola Jenny. Vocês dois precisam ser unha e carne agora, principalmente com tudo que esta acontecendo. E essa aliança inovadora e iminente dos monstros.
Assenti lentamente, tentando assimilar tudo aquilo sem pirar. Não que fosse muito difícil, afinal achei minha realidade nova tão incrível, que simplesmente não queria mais voltar a ser a Jennyfer normal de antigamente.
- Tudo bem mãe. – Falei, suspirando e finalmente me levantando do jeito certo. Fui até o guarda-roupa e peguei o uniforme de torcida de Weston. – Tudo bem.
- E tomei a liberdade de colocar um par de adagas de longo alcance na sua mochila. Sabe? Para o caso de alguma coisa acontecer.
Arregalei meus olhos. Levar duas facas bastante ameaçadoras para a escola? Claro, por que não?
- Ceeeeeerto.
Minha mãe se retirou de meu quarto e pude escutá-la descendo as escadas, degrau por degrau.
Comecei a me encaminhar em direção ao banheiro, mas fui impedida por um chiado estridente de Beliscão. Seus olhos brilhantes me olhavam com indignação, e ele batia as asas freneticamente.
- Com fome? – Perguntei sorrindo, enquanto deixava minhas roupas na cama e afastava as persianas. Beliscão entrou em um frenesi ansioso e começou a bicar o cadeado de minha janela. Bufei. – Beliscão, seu falcão idiota, como é que eu vou abrir a porcaria da janela se você fica bicando ela?
Com um guincho que poderia ser muito bem um palavrão ou um xingamento na língua dos falcões, ele se afastou e permitiu que eu abrisse a janela. Quando o fiz, Beliscão beliscou de leve um de meus pulsos e alçou voo janela afora.
Peguei minhas roupas novamente e fui até o chuveiro, esperando a água ficar quente o bastante para que eu me banhasse. Hoje era uma manhã fria em Weston, mas estranhamente eu não sentia frio.
Depois de uma ducha quente e rápida, me troquei e fiz a higiene matinal. Em seguida, depois de voltar ao meu quarto e constatar que Beliscão ainda não havia voltado, fui até a cozinha, onde Megan estava servindo muffins de chocolate à Mason.
Seus olhos azuis límpidos e vivos me olharam dos pés a cabeça, e seus lábios se contrariaram num sorriso torto.
- Bom dia Jens. – Sua voz estava rouca. Exatamente como eu me lembrava da época em que ele vinha tomar café da manhã em casa. – Dormiu bem?
Eu estava paralisada, e se não fosse à gota gelada que pingou de meu cabelo molhado até minhas costas parcialmente expostas, eu teria ficado ali, parada, durante um bom tempo.
- Sim. – Falei num murmuro baixo, enquanto me sentava a sua frente e esperava minha mãe servir minha porção. Enquanto esperava, beberiquei meu suco de laranja. – E você?
Ele deu de ombros e suspirou.
- Como uma pedra. – E sorriu. Porém, seus olhos haviam adquirido um brilho um tanto sombrio, o que me fazia crer que ele estava mentindo tanto quanto eu.
Mamãe terminou de me servir e se sentou ao me lado, servindo a si própria. Ela parecia não caber em si de tanta felicidade por ter eu e Mason na mesa novamente, juntos. O que, para falar a verdade, eu já estava achando chato e esquisito.
- Andem rápido vocês dois. – Disse ela. – Vou dar uma carona para vocês.
Ficamos todos em silêncio depois disso. Não era um silêncio ruim, mas também não era um silêncio bom. Era normal. Como se aquilo já houvesse se tornado rotina.
Depois que terminamos, mamãe pediu para que já ficássemos no carro, enquanto ela trancava a casa. Rezei para que Beliscão já tivesse voltado... mas, pensando bem, ele iria me seguir de qualquer jeito. Não que eu tivesse certeza que ele o faria, mas eu sentia... deve ser coisa da tal ligação que haviam me falado.
Sentei no banco de trás ao lado de Mason. Não me pergunte porque fiz isso, não irei saber te responder. Mas... eu começava a me sentir mais segura perto dele.
Mason soltou uma risadinha depois de alguns segundos esperando minha mãe chegar.
- Que foi? – Perguntei, virando-me para ele.
Ele deu de ombros.
- Isso. – Disse, apontando para o que havia ao seu redor. – Me lembra da época em que éramos amigos.
Suspirei.
- Nunca vamos deixar de ser amigos May.
Ele me encarou, e por um segundo senti meu coração falhar numa batida.
- Não foi isso que você disse no meu aniversário.
Abaixei meus olhos, com vergonha, e fitei minhas próprias mãos. Tinha consciência de seus olhos ainda sobre mim, mas me recusei a olhá-lo.
- Desculpa, Mason. Eu não fazia ideia do que estava fazendo. – Tomei coragem e olhei para ele, mais precisamente para sua testa, pois ainda não conseguia olhar em seus olhos. – Mas nós nunca vamos deixar de ser amigos.
Ele sorriu.
- Promete?
Sorri de volta.
- Prometo.
***
No decorrer da manhã, a única coisa estranha que havia de fato acontecido fora os olhares da turma dos populares para mim quando cheguei ao lado de Mason.
Fiz questão de ignorá-los.
Nas aulas, os professores já haviam sido alertados que tanto eu quanto Mason havíamos ficado doentes e por isso faltamos nas aulas do dia anterior, então nenhum deles fez menção alguma de nos perguntar alguma coisa sobre o ocorrido.
No intervalo, me juntei com as garotas da torcida. Muitas delas vieram me perguntar por que eu chegara com o “esquisito” do Mason, mas muitas delas também deixaram escapar que ele estava ficando realmente muito atraente. Tratei de responder muito vagamente à suas perguntas, até que uma delas – Brenda, para ser exata. – me perguntou sobre Oliver.
- Ele ainda está totalmente desaparecido, mas acharam partes de sua roupa na floresta ontem à noite. Será que ele esta vivo, Jenny?
Apesar de ainda não haver noticia sobre isso no jornal, eu sabia que Brenda falava a verdade. Seus pais eram editores do jornal local, e recebiam todas as noticias importantes de antemão. E, pelo visto, Brenda tinha acesso a algumas delas.
Estávamos sentadas no gramado do campus, onde todas as gerações de líderes de torcida ficavam. Havia uma árvore, e fui até ela. Sentei-me na grama sombreada pela árvore e encostei-me a uma de suas raízes grossas.
- Capitã? – Perguntou Debby, que agora estava ao lado de Brenda, cautelosa. – Você está bem?
- Ele era o namorado dela, idiota. É óbvio que ela não está bem. – Retrucou Brenda, revirando os olhos.
- Bom, se eu tivesse recebido uma carta dos Buffalos, eu estaria bem. – Tornou Debby, colocando as mãos na cintura.
- Se você fosse tão boa quanto ela, talvez tivesse recebido uma. – Disse Brenda com veemência.
As outras meninas estavam fazendo pose para os jogadores de futebol no sol – que, covenhamos, só servia para iluminar e não para esquentar –, para que além deles todo mundo as visse e sentisse inveja. Eu tinha nojo dessa gente, e tinha muito mais nojo de ter que fazer parte dessa gente.
- Estou ótima. – Falei depois de alguns segundos. O que, até certo ponto, era verdade. Podia ainda estar me sentindo mal por causa de Oliver, mas sabia que matá-lo fora a melhor opção. Lembrar-se daquela segunda-feira me fazia sentir pontadas de dor no pulso onde Oliver apertara, mas tentei ignorar isso. – Vamos. – Falei em meio ao soar do sinal que declarava o fim do intervalo.
As seguintes aulas foram tão tediosas quanto as primeiras, inclusive a aula de minha mãe. Apesar dos constantes olhares dela, que ignorei, tudo fora exatamente como sempre fora. A única coisa estranha que eu sentia era o fato de não estar sentindo frio como todos os outros. Quer dizer, até as próprias lideres de torcida estavam com jaquetas e meias calças, mas eu não.
A aula de Megan era a última, por isso o soar do sinal de término da aula foi motivo de comemoração para todos. Logo as meninas da torcida que faziam a ultima aula comigo se juntaram a mim.
Acenei para minha mãe e segui Debby, Charlote e Meredith até o ginásio. Lá, toda a torcida já se encontrava. Alguns conversavam, outros se alongavam. E duas garotas falavam com seus namorados – jogadores de futebol – e lhes davam beijinhos.
Várias cabeças se viraram para me cumprimentar quando cheguei. Acenei para algumas delas e fui em direção ao fim do ginásio, pegando um dos CD’s a minha disposição e colocando-o no rádio.
Assim que “Beauty And The A Beat” começou a tocar, os murmurinhos cessaram e eu finalmente pude respirar.
- Certo. – Suspirei. – Nós precisamos treinar alguns passos e alguns saltos. Infelizmente eu não tive tempo para elaborar alguma coisa pra gente, então acho que vai ser tudo na base do improviso. – Sorri fracamente para todos, esperando que alguém dissesse alguma coisa. Como ninguém o fez, prossegui. – Bases, peguem suas Flyers. – Alarguei meu sorriso quando vi Matt se aproximando de mim e envolvendo minha cintura com um de seus braços musculosos. – Quanto ao restante, treinem os passos de “I Love Rock ‘N Roll”... acho que pode funcionar nessa música também.
Enquanto as dançarinas faziam o que pedi, me juntei ao time de bases e flyers.
- Me copiem. – Vir-me-ei para Matt e pedi que ele me erguesse. – Matt?
- Com todo o prazer. – Sorriu, ajudando-me a subir em seus ombros.
Já com os pés firmados nos ombros de Matt e com suas mãos fortes segurando meus tornozelos, me senti uma verdadeira giganta. Olhei para baixo e sorri para os que me olhavam.
- Vamos fazer uma cambalhota no ar meninas. E aterrissaremos com a leveza de uma pena no chão. – Respirei fundo e me preparei para o salto. – Assim.
Agora eu gostaria de dizer que fui uma boa capitã e fiz o melhor salto de todos os tempos. Mas, na verdade, o que aconteceu foi muito o contrário disso.
Até a parte de pular e fazer a cambalhota, foi perfeito. Mas tudo começou a dar errado quando tive que “aterrissar com a leveza de uma pena no chão”. Para mim, eu havia feito tudo certo, e tivera tido uma aterrissagem perfeita... Mas comecei a mudar tragicamente de ideia quando senti o primeiro tremor.
De inicio, ninguém sabia o que estava acontecendo. Até que Matt se afastou de onde eu estava com um pulo e apontou para o chão.
Havia nada mais nada menos do que uma cratera ao meu redor. Eu me sentia como o verdadeiro Goku naquela situação... Como? Quero dizer, eu não poderia ter feito aquilo no tatame, poderia? Seria possível?
Tomada pela vergonha de ter acabado de destruir o tatame do ginásio com meu peso, coloquei o rosto entre as mãos e sai correndo para fora daquele lugar.
- Jenny! – Era a voz de Matt. Foi à última coisa que eu ouvi saindo lá de dentro, fora as exclamações exasperadas das outras pessoas.
Eu não conseguia guiar meus passos muito bem e sentia meu rosto quente, como se minha cabeça fosse explodir ou algo do tipo. Quando finalmente comecei a tomar consciência para onde estava indo, me tranquilizei.
Não havia para onde ir senão a casa dele.
***
– Jenny, se acalme – Mason disse, pela terceira vez, enquanto me entregava uma xícara de café.
Peguei a xícara de café com as mãos trêmulas. Beberiquei um gole. O café estava bom, mas assim que descia por minha garganta, parecia ter gosto de areia. Não queria mais isso para me preocupar.
– Certo – Mason sentou ao meu lado, cautelosamente. Eu devia estar parecendo uma maluca. – Agora, respira.
Respirei fundo, seis vezes. Comecei a relaxar.
– Ótimo – a voz de Mason era acalentadora – Agora, com calma, me diga... O que aconteceu?
Respirei fundo e contei a ele, fazendo pausas quando minha respiração falhava. Eu parecia prestes a chorar humilhantemente na frente de meu melhor amigo. Quando minha vida ficou assim?
– Uau – Mason disse, depois de um tempo – Isso é... Estranho.
– Você acha? – Apalpei minha barriga. – Eu não estou tão gorda assim, estou?
Ele olhou para a minha barriga por muito tempo. Então desviou o olhar, o rosto corado.
– Não, não. Você está... Perfeita. – Ele se levantou do sofá, desconcertado. – Acho que são... Seus poderes.
Ele falou aquilo de um modo cauteloso, como se eu pudesse chamá-lo de louco a qualquer momento. Mas eu apenas assenti.
– Faz sentido. – Me lembrei da noite anterior, do meu cabo de guerra com a cobra das sombras. – Então eu quebrei o chão... Com minha força?
Mason assentiu.
Houve um silêncio pesado depois disso. Mason ainda parecia desconfortável perto de mim, então ficou andando pela casa. Eu fiquei no sofá, tomando cuidado para não me mexer muito. E se eu quebrasse o sofá?
Ah, meu Deus. O que eu diria quando me vissem amanhã, na escola?
Decidi não pensar nisso. Pensaria em algo na hora. Minha mãe era professora, podia me ajudar. Tarde demais eu percebi o erro que havia cometido ao pensar na minha mãe. E de minha mãe para a noite passada. Aquela conversa sobre “proteção” não me cheirava bem.
Eu tinha super poderes. Eu podia quebrar assoalhos de madeira com meu peso. Podia lutar contra cobras gigantes. Por que eu não podia simplesmente aprender como matar as coisas que vinham me atacando?
Senti as idéias chegando. Talvez fosse o café extra forte de Mason, ou talvez eu só estivesse revoltada. Eu queria fazer alguma coisa com aqueles poderes. Controlá-los. Usar eles para alguma coisa construtiva e não destrutiva.
E então, de repente, eu sabia como.
– Mason? – Chamei.
– Sim? – Ele estava do meu lado do segundo seguinte.
– Vamos à minha casa. – Falei. – Vamos provar que somos caçadores.
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