Quando A Caça Vira Caçador
4 O Presente de Sadie
Naquela noite, depois do aniversário. .. esquisito de Mason, eu não consegui dormir.
Primeiro porque eu me sentia diferente, algo em meu corpo estava estranho, formigante, e não fora como na primeira noite após meu maravilhoso aniversário de quinze anos. Agora estava mais forte, mais perceptível.
Depois que aquela festa torturante acabou e mamãe finalmente resolveu me levar para casa, ela estava diferente. Quero dizer, mais diferente do que naquela manhã. Minha mãe, antes alegre e entusiasmada, estava parecendo um pouco deprimida. Ela estava totalmente abatida, e mais branca do que o normal.
Mas eu não perguntaria nada a ela. Em parte porque ela provavelmente me responderia com evasivas, em parte porque, se ela de fato respondesse, eu não tinha certeza se gostaria da resposta.
Quando chegamos em casa, eu subi para o quarto, dizendo um rápido boa noite para minha progenitora.
Megan provavelmente acha que é muito discreta, mas, como eu disse antes, eu estava diferente, meus sentidos estavam muito mais aguçados. Talvez fosse coisa da puberdade ou algo parecido, mas sinceramente, acho que não era. Mesmo assim, enquanto colocava meu pijama, pude escutar os passos apressados de minha mãe lá embaixo.
Por incrível que pareça, eu consegui distinguir o quanto ela estava nervosa.
Mamãe parecia andar de um lado para o outro, como se estivesse pensando em algo terrível. Aquilo me dava nos nervos. Afinal, ela não poderia ser minha mãe. Talvez um extraterrestre com síndrome das pernas inquietas, mas não minha mãe.
Já vestida em meus pijamas de linho branco que ganhara de minha falecida avó Grace, me joguei na cama e liguei o notebook. Enquanto estivesse conversando com meus amigos, eu poderia dar uma “olhadinha” na página de imagens que o Google me ofereceria. Enquanto o navegador abria, fui até minha escrivaninha e peguei meu CD de rock favorito, colocando-o no rádio logo depois.
Comecei a balançar os pés freneticamente, como sempre faço quando estou nervosa ou ansiosa. Infelizmente, um deles bateu com tudo em minha prateleira de livros.
Aproveitei a dor que sentia e gritei um xingamento para a internet, que era extremamente ruim em Weston.
Depois que a dor inicial passou, eu olhei para todos aqueles livros espalhados por minha cama, alguns deles haviam caído no chão também, e um havia acertado a cabeça de Sadie.
Quem é Sadie?
A mascote da família. Não que se possa chamar um falcão preto fêmea enorme e assustadora de mascote, mas você me entendeu. Ela é da minha mãe, que recebeu de presente do meu avô, que recebeu um falcão parecido de presente de meu bisavô, e assim por diante. Era meio como uma “herança de família”, que eu esperava não receber.
Por quê? Bem, porque ela me odiava. Não que fosse diferente com qualquer outra pessoa, mas era como se houvesse certa aversão maior a mim.
Então por que, eu me pergunto, ela está no meu quarto?
Atualmente Sadie estava ficando velha. E ela estava envelhecendo de uma maneira extremamente rápida nessa última semana. Teve seu primeiro problema cardiovascular em meu aniversário de quinze anos.
Comecei a arrumar os livros na estante. Enquanto os arrumava, a música que mais gosto no mundo começou a tocar no rádio — Cherry Bomb — e eu comecei a cantá-la.
Agora só faltava o livro que atingira Sadie na cabeça. Desci de minha cama e me abaixei para pegá-lo. Ironicamente, era o único livro da minha coleção que serviria para alguma coisa.
Hesitei ao pegar o livro. Ali, na minha cama, Sadie tinha altura suficiente para chegar ao meu abdômen. A essa distância, ela poderia tirar suas garras negras do colchão e enfiá-las em mim antes que eu pudesse sequer gritar.
Estranhamente, ela não fez nenhuma menção de me atacar. Ela simplesmente me deu um olhar penetrante… e saiu voando corredor adentro.
Peguei o livro, ainda sem entender aquilo.
Ela não estava pra me cortar? Que estranho.
Depois de arrumar tudo, ajeitei-me na cama e coloquei o notebook sobre as coxas. Em minha mesa de cabeceira, peguei o bloco de notas e a caneta, deixei-os de lado e peguei o livro. Eu poderia procurar alguma coisa nele enquanto a página não carregasse.
No final, minha pesquisa durou três horas exatas, não que eu tenha tido sucesso em alguma coisa. A única coisa que eu de fato tivera sucesso fora em ter Oliver me convidando para sair no sábado à tarde.
Joguei o livro com força no chão, e logo fiz a mesma coisa com o bloco de notas e a caneta. Já com o notebook, eu apenas o coloquei cuidadosamente sobre minha escrivaninha e lhe dei um tapinha carinhoso em uma das laterais. Desliguei o rádio, guardei o CD e me joguei na cama.
***
Eu estava no topo da pirâmide de flyers.
O estádio estava abarrotado de gente gritando elogios e ofensas para nós. De relance, enquanto sorria, meus olhos pousaram em Mason. Ele olhou para mim com os olhos azuis arregalados, depois apontou para um ponto atrás de mim e sufocou um grito.
Eu acabei me esquecendo — se é que era possível — de que estava a mais de dez metros de altura e me virei para olhar o que era.
Uma criatura quase invisível que segurava uma foice olhava para mim com olhos famintos. Tive a impressão de vê-la passar a língua esbranquiçada nos dentes afiados e pontiagudos.
Eu gritei e com isso toda a pirâmide foi abaixo.
Acordei com o despertador berrando uma música em alemão.
Os primeiros raios de sol adentravam em meu quarto pelas frestas da janela. Fui saltitando até o banheiro. Joguei uma boa quantidade de água fria em meu rosto amassado e gargalhei.
Ok. Isso definitivamente estava esquisito.
Tive uma alegria imensa ao vestir meu uniforme de torcida. Era como naquele dia em que eu ia torcer pela primeira vez para os Westoncats, mas sabia que íamos vencer.
Da última vez que eu ficara tão animada assim com coisas simples fora em meu aniversário de quinze anos. Eu ficara acordada a noite toda, assistindo toda a minha coleção de Sexta-feira 13 — o dia em que caíra meu aniversário — e gargalhava imensamente quando Jason voltava à vida e matava mais um monte de gente.
Desci as escadas pulando de dois em dois degraus. Não havia cheiro de comida, de modo que eu estranhei e fui direto para a sala ao invés da cozinha.
Lá encontrei minha mãe — ainda com as roupas verde-oliva da festa de ontem — apagada no sofá.
Um pouco receosa, me aproximei dela e a cutuquei na barriga.
Não houve resposta.
— Mãe. .. ? — minha voz estava trêmula.
Certo. Sem resposta mais uma vez. Minha mente começou a processar dezenas de mortes criativas que minha mãe poderia ter. Tomar todo o nosso estoque de remédio para gripe, por exemplo.
Ou então ter realmente sido abduzida por extraterrestres e largado um corpo falso no nosso sofá.
Por sorte, todas as minhas alternativas de morte ou abdução morreram quando minha mãe gemeu.
— Mãe? — chamei mais uma vez, sorrindo aliviada ao vê-la abrindo os olhos acinzentados. — Mãe!
— Hein? — ela perguntou com os olhos vermelhos.
— Mãe, você tem sorte de não ter aula com ninguém hoje, não é? Continue dormindo que eu vou. .. — o restante de minha frase foi abafado pelo ronco de minha mãe. Ela voltara a dormir. — Ah, valeu — eu disse baixinho.
Balancei a cabeça e saí de perto dela, indo em direção à cozinha. Peguei uma caixinha de leite e outra caixinha de Lucky Charms, meu cereal favorito que sempre estava ao meu alcance para o caso de emergências como aquela.
Comi meu simples café da manhã e olhei novamente na direção em que minha mãe se encontrava. Ela ainda estava totalmente apagada.
Enquanto fazia a higiene pessoal e a maquiagem de chefe de torcida, comecei a pensar no porquê de minha mãe estar naquele estado.
Ela havia ficado acordada a noite inteira? Se sim, por quê? Minha mãe não estava com bafo de bebida, o que excluía todas as possibilidades dela ter se embebedado. A outra vez que minha mãe ficara assim fora. .. fora em meu aniversário de quinze anos.
Por que tudo de estranho que estava me acontecendo me levava até meu aniversário? E aquela criatura semi-invisível dos olhinhos vermelhos? Por que ela parecia tão interessada em Mason?
Eu até podia fingir não tê-la visto ou ignorá-la, como eu fiz com meus pesadelos, mas isso não queria dizer que meu cérebro concordava em fingir também. Por que eu tinha tantos pesadelos com a floresta Mighan e a maldita criatura? Por que eu sentia que estava sendo observada sendo que não havia nada me observando?
Minha mente se encontrava em um turbilhão de perguntas. Era uma mais maluca que a outra.
Enquanto saía de casa em direção à minha bicicleta, comecei a ponderar se não seria prudente eu ligar para o hospício para ver se eles tinham uma vaga sobrando.
Dois pneus da minha bicicleta estouraram no meio do caminho, o que me fez ficar super atrasada para a aula de biologia. O Prof. Patterson iria me matar e provavelmente me mandar para a detenção. Isso se eu tivesse sorte.
As aulas foram chatas, eu fui parar na diretoria por causa do atraso, mas pelo menos não ganhei uma detenção.
Hoje era sexta-feira, de modo que eu teria de preparar uma nova dança com a torcida para torcermos na segunda para o time da escola.
Segui com Debby e Brenda para o ginásio, onde o restante da torcida já se encontrava pronta para receber minhas ordens.
Cumprimentei todos os meus “amigos” animados e retribuí o olhar malicioso que Oliver lançara para mim. Liguei o rádio e sorri ao ver que meu CD da Joan Jett and The Blackhearts não havia sido tirado de lá, de modo que eu apenas coloquei na música cinco e bati palmas para os jovens que estavam em minha frente.
Comecei a dançar conforme o ritmo animado da música. Era incrível como meus movimentos fluíam naturalmente quando eu escutava uma música da qual gostava. Eu realmente me sentia muito conectada com todos os membros de meu corpo quando dançava.
Começou o refrão e eu chamei Debby e Brenda para pegarem meu ritmo, e elas o fizeram rapidamente.
Logo todos nós estávamos dançando ao som de I Love Rock and Roll com muita intensidade. A parte da dança era muito fácil de fazer quando se tratava da modalidade All-Star, levando em conta também que nós éramos da categoria sênior, o que deixava muito fácil para eu comandá-los.
O problema seriam as acrobacias, mas isso nós só inventariamos mais tarde.
O “mais tarde” chegou alguns minutos depois. Como nós pegávamos rapidamente a coreografia, tudo ficava mais rápido. Coloquei no refrão novamente e começamos com as acrobacias. Demoramos uma boa hora e meia para que ficasse tudo pronto, mas conseguimos.
Quando estávamos saindo do ginásio que eu estremeci. Fora um tremor potente, mais forte do que um arrepio. Uma sensação avassaladora de estar sendo observada me possuiu. Eu virei para trás, instintivamente.
Não havia nada na quadra além do rádio abandonado.
— Jess? Algum problema? — perguntou-me Brenda.
Olhei para minhas amigas, sorri, e fiz que não com a cabeça, mas mesmo assim continuei parada onde a sensação me levara. Debby me olhou de um jeito estranho.
— Ei, futura namorada do Oliver Miller, nós vamos ou você pretende ficar parada aí para sempre?
Eu não poderia ir com elas, não depois do que senti. Aquilo. .. aquela sensação realmente me perturbara. Eu estava tendo essas sensações desde o meu aniversário de quinze anos, para variar.
No início eram fracas, mas, conforme eu tinha mais percepção de tudo ao meu redor, elas iam ficando tão fortes que eu realmente achava que havia algo ali, exatamente como agora, só que com uma diferença: dessa vez eu tinha certeza que havia alguma coisa ali.
Um pensamento cruzou meu cérebro. Mason. Ele também vira aquela coisa. E não parecia querer disfarçar. Ele poderia me ajudar, não é? Eu poderia pedir desculpas a ele de sobra.
— Hã. .. vão vocês, eu preciso falar com o Patterson sobre. .. uma coisa da matéria. — Oh meu Deus, que desculpa idiota.
Debby e Brenda se entreolharam, depois deram de ombros e seguiram para o portão de saída.
Esperei que elas fossem embora e corri até o portão. Eu não poderia chegar tarde demais. Corri como uma louca. Eu nunca havia corrido tão rápido assim, e o mais estranho era que eu nem estava suada quando parei.
— Mason! — gritei para chamar sua atenção. — Ah, que bom que achei você.
Ele fez menção de tentar sair, mas é claro que não conseguiu.
— Nós precisamos conversar.
— Não, você já disse tudo ontem. — Ele tinha a voz firme. A postura confiante e ereta. Havia algo de diferente nele, algo óbvio, mas que eu não conseguia identificar. E não era a falta do óculos. — O que você quer, estragar meu dia duas vezes seguidas?
Aquilo me pegou de surpresa. Eu nunca vira Mason tão bravo daquele jeito.
— Eu. .. eu só queria pedir desculpas. — Minha voz estava decepcionantemente fraca.
Mason me encarou e eu a ele.
— Desculpas por mentir? Por ser falsa? Por me tratar como um idiota? Não, obrigado. Mas, se você quiser me deixar feliz, fica longe de mim.
Antes que eu conseguisse assimilar tudo aquilo e lhe dar uma resposta à altura, ele foi embora. Fiquei uns cinco minutos perplexa demais para fazer alguma coisa que não fosse uma careta de surpresa.
— Ei gata, tá confirmado o cinema sábado às cinco? — Oliver perguntou me tirando de meus devaneios.
Ele se aproximou de mim com um olhar maroto. Sorri para ele e confirmei com a cabeça.
— Hã. .. eu preciso ir agora. Tchau. — Eu disse a ele, que pareceu um tanto surpreso, mas não contestou.
Fui até minha bicicleta incapacitada e comecei minha caminhada até minha casa, onde eu esperava que minha mãe já se encontrasse acordada. A surpresa e a raiva que sentia não esconderam a familiar sensação de estar sendo observada.
Em casa, o único sinal de que minha mãe acordara era a “cartinha” que ela depositara na caixa de correio para mim.
“Tive que sair. Não saia de casa em hipótese alguma. Sadie morreu, infelizmente, mas olhe embaixo de sua cama. Ela deixou um presente. Não me espere.”
Franzi meu cenho enquanto amassava o comunicado e o jogava no lixo da cozinha. Aonde minha mãe iria em seu dia de folga?
Geralmente ela ficava limpando a casa feito uma fanática e não saía por aí. E por que ela estava tão rígida com a regra de “não sair de casa”? E para onde ela iria que eu não podia esperá-la?
Espere. .. Sadie havia morrido?
Como um falcão daquele tamanho morre assim, de repente? Aquilo era a pergunta mais fácil de se responder no momento, então resolvi investigar.
Quando cheguei a sua cama — que ficava numa gaiola ao lado da cama de minha mãe — nada vi. Somente o paninho rosa e sua vasilha de água vazia. Foi aqui que uma ideia me ocorreu: olhe embaixo de sua cama.
Segui correndo para o meu quarto, quase tropeçando em meus próprios pés. Eu não conseguia entender porque estava tão ansiosa para olhar embaixo de minha cama.
Eu era mesmo muito estranha. E louca.
A loucura só aumentou quando eu achei um ovo azul perolado embaixo de minha cama.
Um ovo.
Azul perolado.
Embaixo da minha cama.
Eu precisava ligar para um psiquiatra logo.
Falcões põem ovos azuis perolados? Não creio que a resposta seja sim. E. .. Sadie tinha um parceiro? Eu não me lembrava disso.
Toquei o ovo cuidadosamente. Quando minhas duas mãos tocaram-no, senti um calor extremo que se instalou nelas.
Soltei o ovo e percebi que saía fumaça de minhas mãos, mas elas não estavam queimadas.
Algo me fez pegar no ovo novamente, talvez curiosidade, talvez outra coisa, e dessa vez ele estava frio. O levantei com extremo cuidado e o coloquei em minha escrivaninha. Quando fiz menção de sair do quarto, mas, ele começou a vibrar.
— Oh, Deus, o que está havendo comigo? — sussurrei enquanto olhava o ovo despencando de minha escrivaninha.
Surpreendentemente ele não se quebrou, muito menos se rachou. Apenas ficou lá, parado, me. .. me intimidando? Oh, céus, um ovo me intimidando. A mim!
Com cautela em demasia, coloquei o ovo novamente embaixo de minha cama. Ele não começou a vibrar, o que me fez acreditar que o que quer que estivesse ali gostava do lugar.
Ir parar na diretoria, ter uma sensação estranha, ser chutada pelo maior nerd da cidade e encontrar um ovo, no mínimo, esquisito, que gostava de ficar embaixo de minha cama me deixou muito cansada.
Pedi comida chinesa pelo telefone e, enquanto esperava chegar, fui tomar um banho.
Quando a comida chegou, eu atendi o entregador apenas com um roupão rosa e pantufas de coelhinhos. Ele me olhou risonho, mas quando viu meu olhar faminto, acabou me entregando a comida e pegando o dinheiro.
— Nossa, eu gostaria de saber se nós não. .. — Fechei a porta na cara dele, abafando o resto de sua frase.
Comi o que pedira para mim rapidamente e guardei a parte de minha mãe na geladeira, aproveitando para pegar o pote de sorvete.
Sim, eu devo ser a única pessoa que gosta de tomar sorvete com comida chinesa em Weston, mas não me importo muito com isso. Liguei o rádio da sala e sintonizei numa rádio que tocava The Runaways. Fiquei dançando com meu pote de sorvete.
Até que alguém apertou a campainha.
Fui correndo atender a porta, pensando ser minha mãe, afinal, ela sempre perdia suas chaves. Mas não era ela, era Mason.
Era bom ele estar ali. Agora eu teria minha chance de responder à altura. Mas antes que eu abrisse a boca, ele já começou a falar.
— Sua mãe está em casa? — Eu fiz que não, tomando impulso para falar novamente, mas ele continuou. — Olha, eu sei o que você vai dizer. E eu sei que eu mereço isso tanto quanto você mereceu o que eu te disse. E eu estou tão feliz em estar aqui quanto você por me receber. — Mason estava tão confiante que não gaguejara uma única vez. — Mas é importante. Eu sei que você viu aquela… coisa, ontem. Isso quer dizer que eu não me iludi. Mas eu quero descobrir o que é. E você tem livros aí que podem me ajudar.
— E por que eu te ajudaria? — perguntei, a curiosidade tomando conta de mim e vencendo a enxurrada de ofensas que eu queria dizer a ele.
— Porque você está tão curiosa quanto eu. — Ele falou simplesmente. O que me dava mais raiva era que ele estava absolutamente certo.
Dei um passo para o lado para que ele pudesse entrar em casa, fechei a porta, e desliguei o rádio.
— Mesmo que você esteja certo sobre eu estar curiosa e tudo o mais, onde estão esses livros? Que eu saiba, aqui nessa casa não existem livros desse tipo.
— Sua mãe fez alguma mudança no galpão?
Ele me olhara de um jeito que dizia claramente “Ei, vamos invadi-lo mais uma vez, Jess!”. Eu bati em minha própria testa.
— Como não pensei nisso antes? Você sabe o quão perto da loucura eu fiquei, pensando sobre aquela coisa ontem? Eu tentei pesquisar sobre ela na internet, mas não achei nada.
— Somos dois. — Ele sorriu.
Retribui o sorriso, mas logo voltei a ficar séria. Nós não éramos mais amigos.
— Vamos.
Fui com Mason até os fundos de minha casa, onde um grande galpão avermelhado se erguia do gramado verde. Me lembrava vagamente de uma vez ter ido ali com ele quando criança.
Foi fácil de abrir a “tranca” que minha mãe colocara. Era apenas um pedaço de madeira. Eu abri uma das portas e encarei meu ex-melhor amigo.
O galpão estava exatamente como eu me lembrara. As colunas de madeira repletas de livros que iam de encontro ao teto e pareciam não ter fim, o cheiro de poeira que emanava dos livros mais velhos e dos livros mais novos, a escada prateada gigante, mas dobrável, que usávamos para chegar aos lugares mais altos. A antiga mesa de jantar de madeira africana que agora era usada para se sentar e ler. O tapete persa que vovô Henrie havia dado à mamãe quando ela se casara, a antiga cama de Leroy — o falcão negro como o breu de meu pai, que desaparecera junto com ele e nunca mais voltara — ignore esse assunto, não vamos falar nele —, o armário trancafiado a sete chaves na extremidade da direita…
E, um pouco escondidas atrás de uma das estantes, as antigas fotografias de meu pai.
Enquanto Mason se dirigia freneticamente para os livros mais próximos de sua mão e ia se sentar na mesa, eu peguei um dos retratos velhos e empoeirados de meu pai. Na foto ele deveria ter a minha idade ou um pouco mais, segurava uma adaga de prata e a apontava para a grande lua cheia que se erguia atrás dele.
— Jessica, isso aqui é incrível! — disse Mason olhando para um dos livros.
Quanto a mim, eu ainda permanecia imóvel olhando para uma segunda foto de meu pai. Parecia uma imagem normal: as montanhas salpicadas de neve, o riacho congelado, a neve que ia até os joelhos de meu pai…
Mas algo me chamou a atenção.
Eu reconheceria aquela criatura em qualquer lugar.
— Mason. — chamei, mas não obtive resposta. — Mason!
Ele se assustou e acabou derrubando a preciosa pilha de livros. Ao se levantar, teve a proeza de tropeçar nos próprios pés e caiu de cara no tapete persa cheio de poeira. Ele se levantou com uma careta — que até o deixava bonitinho, tenho que admitir — limpou a poeira das roupas e veio tossindo até mim.
— O que — tossida — você — tossida — achou aí?
Mason me encarou de uma maneira estranha e foi só aí que percebi que eu sorria para ele como não sorria há muito tempo. Eu tinha que admitir, ter Mason ali me fazia sentir que eu realmente existia, que eu estava ali. Era como se ele fosse alguma parte essencial da minha vida.
Por que eu dissera tudo aquilo para ele?
Ah, sim. Por causa de uma popularidade idiota que me levaria aos Buffalo Bills. Parabéns, Jessica, parabéns mesmo, você perdeu o único amigo que sempre teve.
Balancei minha cabeça para clarear as ideias e entreguei o porta-retratos ao garoto ao meu lado. Mason olhou atentamente para a imagem, até que seus olhos se arregalaram e eu pude perceber que ele a vira também.
— É a coisa do seu aniversário, não é? — perguntei.
Mason assentiu, com descrença, e recomeçou seu percurso até a mesa e aos livros espalhados pelo chão. Ele estava absolutamente sério agora. Eu o segui e o ajudei a empilhar os livros novamente.
Nós nos sentamos um à frente do outro, Mason pegara um livro e eu imitei seu gesto. A foto do papai com a criatura semi-invisível ao fundo ficara entre ambos.
O silêncio se fez presente entre nós, mas era um silêncio agradável, daqueles que dá medo de interromper. Mas, infelizmente, eu precisaria interromper.
— Mason?
— Sim? — ele continuara com os olhos azuis nas páginas dos livros.
— Desculpa. Por… por tudo.
Ele demorou um pouco para responder, na verdade, demorou tanto que eu pensei que ele iria me ignorar por completo. Até que seus olhos pousaram nos meus e Mason me olhou com tanta profundidade que tive a impressão de que minha alma estava sofrendo um raio-X.
— Você sabe que me magoou muito, não sabe? Era a minha única amiga em Weston Ville inteira e disse que me odiava, no dia do meu aniversário. Não posso perdoar uma coisa dessas, Jessica, ainda não. — E voltou para o livro que estava lendo.
Puxa, seria melhor ele ter me ignorado, não?
Senti a pressão em meus olhos aumentarem e, em uma fração de segundo, abaixei minha cabeça para o livro e joguei meus cabelos à minha frente, como uma cortina. Mason não precisava saber que eu estava chorando.
Eu não estava lendo o livro, toda a minha concentração estava em chorar o mais baixo que eu podia. Até que percebi que Mason havia terminado de ler todos os livros que havia pegado e olhava para o meu rosto com uma cara de “paciência zero”.
Discretamente, limpei meus olhos e voltei à atenção para a página de meu livro.
— Achei. — disse simplesmente.
— Achou? Você nem pesquisou! — Mason parecia revoltado.
Dei de ombros e comecei a ler a página. Era assustador. E olha que não era um adjetivo que eu usava com frequência.
Logo de cara, havia um desenho em preto-e-branco de algo. Era uma forma encapuzada escura, segurando uma foice, vista de perfil.
Mas essa não era a parte assustadora.
A parte assustadora apareceu quando eu li esse trecho:
“Essa criatura pode ser encontrada em qualquer lugar onde haja sombras em todos os momentos, tanto no dia quanto à noite, como florestas ou cidades chuvosas, já que sua camuflagem é mais poderosa nas sombras. Não se alimenta. Ao invés disso, extrai as almas de suas vítimas, tomando o lugar delas em seus próprios corpos. Troca de corpo quando o que tomou começa a se decompor. Acima, sua imagem geral entre um corpo e outro. Seus poderes físicos são nulos, e quase assim são seus poderes mentais. Mas a foice com metal Spirutus compensa suas habilidades, por ser um metal para imortais, utilizado em muitas vezes para extrair almas sem muitos esforços. Sem esta poderosa arma, esta criatura não pode causar danos físicos sérios. Pode ser morto por qualquer arma, desde que pego de surpresa.”
Então, para terminar de me matar, havia a palavra no topo da página:
Ghoul
Terminei de ler e olhei para Mason. Ele estava imóvel.
— Então… então é verdade, não é? — perguntei, sentindo meus olhos um pouco inchados por causa do choro de alguns minutos atrás. — Nós realmente vimos esse… esse ghoul, não é? Nós não estamos loucos.
Mason pegou o livro bruscamente de minha mão e pareceu não dar a mínima para o meu “Ei, me devolva!” irritadiço.
Ele pegou com cuidado a foto de meu pai e pareceu comparar o ghoul do livro com a figura translúcida da foto.
— É mesmo muito parecido — disse ele.
— É a mesma criatura, Mason — eu disse revirando os olhos.
Ele me devolveu o livro e a foto de papai, que retirei do porta-retrato e coloquei no bolso do roupão. Nós começamos a guardar os livros.
— Nós não estamos loucos, estamos?
— Bom… — ele ainda parecia atordoado — só posso dizer que, se aquela coisa não for real, nossa sanidade está quase se esvaindo de nossos corpos.
— Poxa, obrigada.
O olhar de Mason pousou no armário trancado que era de meu pai e que eu fora proibida de abrir.
— O que é que tem ali? — perguntou ele.
Dei de ombros.
— Sou proibida de saber.
Mason sorriu e se levantou. Começou a caminhar para o armário.
Levantei-me de supetão quando percebi o que ele queria fazer.
— Ah, não. Não, não, não e não.
— Você nunca teve vontade de saber o que tem aqui? Sua mãe não está em casa agora, é uma oportunidade única.
Nós nos encaramos por alguns instantes, aquela atmosfera amigável se estabelecendo no ambiente ao nosso redor outra vez, até que Mason tomou o ar duro novamente e esperou pela minha resposta.
Bom, a resposta era óbvia. Eu sempre, desde que me entendo por gente, quis abrir aquele armário e ver o que tinha lá dentro. Eu me sentia atraída por ele, por esse segredo, e essa atração estava muito mais forte hoje.
— Ah, faça o que tem que fazer.
Mason usou seus dotes de “abridor de cadeados” e destrancou os oito em menos de oito minutos. Eu não sabia se ficava surpresa com sua proeza ou com o que eu via diante de mim.
Era um arsenal.
Um arsenal de adagas. Pelo que eu podia ver, havia todo tipo de adaga e de espadas ali, assim como facas de caça e facas de arremesso. Adagas e facas de prata iluminavam fracamente o armário bolorento.
— Uau. — disse Mason admirando o arsenal de meu pai. Seus olhos estavam muito mais brilhantes do que o normal. — E eu pensava que o arsenal do meu pai que era estranho.
Franzi o cenho para o que ele dissera, mas então me lembrei de uma vez ele ter comentado sobre o arsenal de flechas que Robert mantinha em casa.
Quando dei por mim, minha mão havia pousado inconscientemente no punho de uma adaga vermelho-sangue. E parecia mesmo haver sangue dentro dela, como se aquilo fosse uma injeção ou coisa parecida.
Infelizmente, não pude aproveitar minha descoberta por muito tempo.
Mason ficou imóvel de repente.
— Mason?
— Shhhh. — Ele fez e inclinou a cabeça para o lado esquerdo, como se estivesse captando alguma coisa, como uma antena de rádio. — Sua mãe. — Ele olhou para mim. — Ela chegou.
Nós nem esperamos por mais nada. Fechamos o armário e trancamos os cadeados apressadamente, como se a qualquer instante minha mãe pudesse aparecer, o que, é claro, podia acontecer.
Logo depois fiz um gesto com as mãos para que Mason pulasse a janela enquanto eu saía pela porta dupla do galpão e o trancava com a madeira novamente. Estranhamente, ele o fez sem tropeçar.
Depois que tranquei tudo, corri ao encontro de Mason, que voltara para dentro de minha casa.
— Hã… então acho melhor eu já ir indo mesmo… — disse ele olhando para minhas pantufas.
Eu apenas assenti. Em parte porque estava arfante demais para dizer alguma coisa, em parte porque eu não sabia o que dizer.
O levei até a porta e nós nos encaramos brevemente. Foi quando vi o carro de minha mãe virando a esquina. Franzi o cenho para Mason.
— Como foi que a escutou? Ela estava a quilômetros de distância!
Ele pareceu tão surpreso quanto eu ao constatar isso, mas apenas deu de ombros.
— Eu… eu preciso ir. — Virou-me as costas e seguiu para sua casa. Ele parecia perturbado.
Deixei a porta entreaberta para minha mãe e subi correndo para meu quarto. Abaixei-me para pegar o ovo azulado e me deitei na cama, admirando-o.
— Ficou tudo tão louco que eu nem pude mostrá-lo a Mason.
De fato eu vira o ghoul, e a minha sensação de estar sendo observada tinha fundamento. Aquelas coisas escritas nos livros me pareciam tão reais, mesmo que não fizessem o menor sentido…
Eu não podia estar ficando louca.
Não podia porque… porque, diferentemente do Mason, eu sabia que era tudo verdade.
E o pior era: o ovo, quietinho embaixo da cama, não parecia “só um ovo”.
Parecia… esperar por mim.

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