Quando

1 Pássaros


Notas iniciais
Tia Kalhens, se, por algum motivo, a senhorita acabou aqui... isso é para você.

O céu e as arvores tinham certa graça no verão.

Um era todinho azul, recortado vez ou outra por nuvens ralas que não faziam uma sombra satisfatória.

Alguns pássaros passavam voando.

Eram apenas riscos minúsculos e pretos na imensidão.

Algumas vezes tremeluziam na fumaça.

É, eu estava fumando.

Como se isso fosse novidade.

Desta vez, ali na sombra da mesma árvore, estava uma companhia um tanto... inusitada, eu diria.

Desviei os olhos rapidamente para o garoto ao meu lado; estava com sua costumeira camisa branca. Comprida e fechada. Dava agonia só de olhar.

Havia dois ou três bonequinhos jogados em frente ao seu joelho esquerdo que repousava na grama. O outro estava em baixo do queixo, naturalmente.

Perguntei-me se ele não sentia calor. Provavelmente sim. Não tinha como meramente não sentir...

Existia uma simplicidade calma no modo como seus dedos buscavam por um bonequinho ou por outro.

Era tão simples que por muitas vezes eu não entendia.

Não que ainda tentasse entender.

Não.

Desisti desses dois há muito tempo. Se bem que, de vez em quando... era interessante.

E ele chegou brutamente, jogando-se do outro lado, esticando as pernas e abrindo a embalagem vermelha sem muita cortesia.

Ou ele não percebera, ou não estava ligando.

É. Tinha graça.

Olhei pelo canto dos olhos para o lado esquerdo. Recolhia os brinquedos discretamente, escondendo-os na manga da camisa. Seus olhos não saíam da grama, mas notei que seu rosto estava um pouco escondido atrás do joelho e do ombro.

Do lado direito, os detalhes eram mais espalhafatosos. Dentes atacavam a barra de chocolate com violência, um maxilar bruto e um olhar duro. Os dedos enfiavam-se na grama. Talvez sem perceber? Logo estariam cheios de terra, enquanto bufava vez ou outra.

E sim, ele olhava. Não era mais ousado, só cedia a suas próprias vontades com mais facilidade.

Eu quis saber o que aconteceria se, por algum motivo, seus olhos se descobrissem.

Se?

Quando.

E eu estava ali.

Eu iria ver.

Como o céu e os pássaros, só que a sensação era invertida.

Talvez fosse uma boa combinação.

Soltei a fumaça do cigarro para cima uma última vez, até o desastre.

Ou, talvez, quem sabe...

Não, não.

Sempre era um desastre.

Notas finais
Apenas cheguei à conclusão de que já estava mais do que na hora de escrever algo para a rainha de Meronia. Porque, concordemos, ela merece esse título, hn.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!