Qualquer Gato Vira-Lata
1 Capítulo único - Amor Sem Pedigree
Notas iniciais
Flu-Flu não sabia escolher marido. Disso Shun sabia muito bem.
A beldade de pelos brancos — uma poodle que desfilava pela calçada rebolando o traseiro com a confiança de quem tinha acabado de descobrir que era bonita — usava um laço no pescoço e outros dois, perfeitamente combinando, nas orelhas. Estava perfumada. E não era qualquer perfume: era Tutti-Frutti.
Segurando a coleira da patricinha de quatro patas estava seu dono, Shun
Menino de condomínio, celular praticamente colado na mão, passava mais tempo olhando para a tela do que para onde estava pisando. Quando não estava testando algum filtro novo do Instagram, procurava as dancinhas que estavam bombando na internet para descobrir qual seria a próxima no repertório do seu perfil no TikTok.
Seu irmão mais velho vivia perguntando se Shun pretendia dominar a internet ou simplesmente quebrar a cara tentando. A preocupação não era totalmente sem fundamento.
Ikki jamais esqueceria o dia em que encontrou Shun na garagem de casa tentando reproduzir a tal do “desenrola, bate, joga de ladinho”. O garoto tava tão duro que parecia um boneco de Olinda tentando dançar frevo.
— Você pretende virar influencer ou virar paciente? — Ikki tinha perguntado na época.
Shun, obviamente, não respondeu. Estava ocupado tentando descobrir onde tinha ido parar a própria pantufa de pelúcia.
Mas, naquele momento, o problema não era a falta de talento dele para virar uma Paquita da Xuxa, embora já tivesse passado vergonha suficiente na frente do espelho tentando reproduzir coreografias da internet.
O problema era Flu-Flu.
A cachorrinha estava precisando urgentemente de uma sessão de coaching amoroso.
Porque, pelo amor de Deus, quando o assunto era macho, a cadela não tinha um dedo podre — tinha a pata inteira gangrenada. Ela ostentava um gosto para homens que não combinava em nada com o próprio pedigree.
Flu-Flu não queria saber de Shih-tzu. Não queria saber de Poodle. Muito menos de um Lulu da Pomerânia, por mais fofíssimo que fosse.
Ela queria era cachorro vira-lata. E não qualquer vira-lata: gostava dos maloqueiros. Dos que tinham cara de quem conhecia todos os becos da favela e cada caçamba de entulho do bairro.
A Beldade não gostava daqueles cachorros cheirosinhos que iam ao pet shop toda semana, tinham o pelo aparado com mais frequência que cabelo de gente, usavam pasta de dente de mirtilo, hidratante nas patinhas e sapatinho de silicone para não queimar as patinhas na calçada. Muito menos daqueles que tinham motorista particular para levá-los ao banho e tosa.
Ração importada de salmão? Ela bocejava.
Petisco gourmet de patê de cordeiro? Desprezo.
Caminha ortopédica com espuma? Ela preferia dormir num capacho velho ou em cima de uma caixa de papelão rasgada.
O coração de Flu-Flu batia mesmo era pelos perigosos. O típico vira-lata caramelo. Os pretinhos cor de Coca-Cola que apareciam do nada nas esquinas. Aqueles com o pelo arrepiado, parecendo manga chupada, que já tinham enfrentado tantas aventuras na rua que nem a vigilância sanitária saberia dizer de qual estado vinha cada pulga do coitado, de tanto que o bicho andava.
Cachorro que rasgava saco de lixo. Que corria atrás de motoqueiro. Que perseguia carteiro. Que desaparecia por dias e voltava para casa orgulhoso, carregando um frango inteiro descongelando que ele tinha acabado de pescar de dentro da pia da vizinha.
Esses, sim, faziam os olhinhos de Flu-Flu brilharem.
Ela não queria um príncipe encantado. Queria era um problema. De preferência, um problema de quatro patas, pelo arrepiado e com zero certificado de pureza — mas com cem por cento de malandragem no sangue.
Shun estava seguindo exatamente o mesmo exemplo da cachorrinha. Porque, toda vez que passava por aquele bairro, cérebro dele simplesmente entravan no modo "gosto de passar perrengue".
E olha que aquela rua nem fazia parte da rota de passeio de Flu-Flu.
Ficava uns quatro quarteirões de onde moravam, escondida logo depois de uma viela colorida por grafites, onde o asfalto dava lugar ao paralelepípedo e o morro começava a subir, fios trançados em emaranhados infinitos nos postes, casas com tijolo à vista e portas escancaradas para o vento entrar.
Tinha gente varrendo a calçada, criança correndo, cachorro deitado na sombra e uma senhora regando os vasos enquanto fofocava com a vizinha pela janela. Para completar o charme do lugar, num muro descascado, ainda tinha a pintura desbotada do Fuleco — o mascote da Copa de 2014 —, firme e forte ali, mesmo que o mundo já estivesse em pleno 2026.
Nos fins de semana, então, Shun tinha certeza de que o bairro virava uma filial do Projac, só que sem orçamento e com muito mais tempero.
Era churrasco na calçada, cadeira de plástico amarela da Skol espalhada na rua e caixa de som JBL no volume necessário para obrigar mais uns dois bairros vizinhos a participarem do pagode. Sempre rolava um Zeca Pagodinho ou Thiaguinho no repeat. Tinha gente dançando de chinelo, vizinho jogando conversa fora no portão e alguém gritando do fundo da casa:
— Quem foi o abençoado que sumiu com a farofa?!
Honestamente, aquilo era muito mais interessante do que ouvir Beethoven ou passar duas horas travado numa aula de violino, tentando entender por que uma única nota desafinada custava uma fortuna.
Só que, no fundo, ele não estava ali por causa do churrasco. Nem do pagode ou do samba. Nem das cadeiras de plástico. Nem sequer da possibilidade de conseguir um prato de farofa grátis.
Ele estava ali por causa dele.
Do homem. Ou melhor: domandrake. O metido a malandro com a moto barulhenta.
O sujeito usava boné da Oakley virado para trás, camiseta largadona no joelho, bermuda tactel, Kenner no pé. Andava de moto como se tivesse sido contratado pelo Motoqueiro Fantasma para cobrir as férias do cara.
O escapamento estava sem miolo e cortava giro com orgulho pela rua.
PÁ! PÁ! PÁ!
A moto cantava pneu, a fumaça subia e o chão quase tremia.
O rapaz fazia barulho suficiente para acordar um cemitério inteiro, mas lá estava Shun, batendo cartão naquela rua toda vez que tinha uma oportunidade. Nem que saísse dali precisando de um aparelho auditivo.
E tudo começou — essa versão tupiniquim de A Dama e o Vagabundo, ou melhor, de O Playboy e o Malandro — exatamente há alguns meses.
O primeiro encontro dos dois não teve nada de romântico.
Não foi como nos doramas que Shun assistia de madrugada, em que a mocinha tropeça, o galã a segura pela cintura e devolve o sapatinho de cristal. Nada disso. Shun perdeu sua papete cara e, por uma fração de segundo, quase entregou a alma para Deus junto.
Ele estava caminhando com a cara enfiada no celular, tentando entender uma dancinha nova que tinha acabado de viralizar, enquanto Flu-Flu desfilava ao seu lado.
Até que:
PÁ! PÁ-PÁ-PÁ!
O escapamento de uma moto estourou bem atrás deles, soando como um tiro de bazuca. Shun deu um pulo de meio metro e o coração foi parar na boca.
O primeiro pensamento dele foi que estava no meio de um arrastão. O segundo foi que os cangaceiros do século XXI tinham trocado os cavalos por motos de quinhentas cilindradas e estavam chegando para cobrar imposto de proteção no bairro. Considerou até a possibilidade de ter começado uma guerra civil e ninguém ter tido a decência de avisá-lo no grupo da família.
— Oh my God! — ele soltou em inglês.
Puxou a coleira da poodle para perto do corpo. Tarde demais. A cachorrinha já tinha travado as quatro patinhas no chão. Não porque estivesse assustada com o tiroteio motorizado, mas por que o radar dela tinha apitado: ela tinha acabado de avistar o seu tipo.
Do outro lado da rua, encostado num muro, tinha um cachorro vira-lata de pelagem caramelo encardida, uma orelha levantada e a outra caída, com a língua pendurada para fora. O pelo era tão ralo e arrepiado que o bicho parecia literalmente uma manga chupada.
Os olhos de Flu-Flu brilharam. O rabo começou a balançar. Ela começou a arrastar Shun pela calçada.
— Flu-Flu, não! — a cachorrinha deu mais um passo. — Flu-Flu, volta aqui!
Mais outro passo.
— Eu estou falando sério, a gente acabou de sair do banho e tosa!
Ela deu uma puxada na coleira com tanta sede de amor que Shun quase beijou o asfalto. Era humilhante: um marmanjo sendo arrastado e quase nocauteado por uma poodle de quatro quilos com laço cor-de-rosa.
A cadela, obviamente, cagou para o sermão. Tinha encontrado seu maloqueiro.
E Shun... Shun estava prestes a encontrar o dele. Só que o dele vinha montado em cima de duas rodas e cortando giro.
O ronco da moto se aproximava. Shun ficou paralisado no meio da rua, dividindo o olhar entre o veículo e o horizonte.
Ele realmente não sabia se era uma moto descontrolada vindo em sua direção ou se Deus tinha mandado um anjo sem carteira de habilitação, para buscar a alma dele e levá-lo direto para o céu.
Em vez de correr para a calçada como qualquer ser humano normal, Shun decidiu testar uma teoria inédita para a ciência: será que o corpo humano é transparente o suficiente para uma moto passar por dentro dele sem machucar?
Ficou encarando o farol da moto brilhando contra o seu rosto como se estivesse testemunhando um OVNI pousar no meio do bairro. A boca abriu. Os olhos arregalaram. O cérebro saiu para tomar uma água e nunca mais voltou.
No susto, os dedos de Shun afrouxaram. Ele soltou a guia.
Flu-Flu, aproveitando a oportunidade de ouro, deu dois passinhos rebolantes direto o cãozinho vira-lata
Shun continuou petrificado no mesmo lugar, esperando que Deus lhe estendesse a mão ou mandasse um helicóptero de resgate.
— PEEEEEEEE!
A buzina estridente devolveu Shun ao planeta Terra. Ele deu um pulo para trás. O pé esquerdo escorregou, o calçado voou para longe e Shun caiu sentado direto na calçada dura, produzindo um som abafado ao impactar o bumbum contra o cimento.
A moto passou raspando por ele. O motoqueiro virou o pescoço, tentando entender se tinha acabado de quase atropelar um ser humano ou um poste incrivelmente bem-vestido.
Shun continuou jogado no chão, piscando devagar contra a luz do sol. O rapaz parou o veículo alguns metros à frente, tirou o capacete, chacoalhando os fios loiros.
— Pirou na batatinha, menor?
Ele desceu da moto. Estava convencido de que tinha acabado de decorar a calçada com o corpo de algum paspalho distraído e já vinha preparando o discurso de rua: ia perguntar se o garoto não tinha olhos na cara, se estava querendo cavar um atestado na UPA ou se tinha acordado com vontade de testar a suspensão da sua 160.
Mas, conforme cortava a distância entre eles, a postura de Hyoga mudou.
— Ei. Tá inteiro aí? — o peito inflado deu lugar a um franzir de testa curioso. O garoto no chão parecia um filhote de papagaio que tinha acabado de cair do ninho.
— Eu... eu quase morri... — ele começou a tatear os próprios braços, descendo as mãos freneticamente pelo peito e pelas coxas, numa verificação apavorada para ver se ainda tinha todos os membros anexados ao corpo
— Quase morreu? — Hyoga ergueu uma sobrancelha, cruzou os braços fortes.
— Sim! — Shun apontou o indicador trêmulo para o veículo prateado parado logo atrás. — Se você tivesse passado por cima de mim, eu provavelmente ia ter que ser velado de caixão fechado!
Hyoga segurou o riso no canto da boca, enquanto deixava o olhar deslizar devagar de cima a baixo pelo garoto. Ele reparou em tudo: o conjunto de linho bege impecável, o relógio de maçã reluzindo no pulso, a pele macia sem uma única cicatriz de ralação e aquele perfume caro de loja de shopping que impregnava o ar ao redor do esverdeado.
— Caixão fechado? — riu o loiro, franzindo o nariz.
— Pelo estado que o meu rosto ia ficar, nem a minha família ia querer ver!
Aquilo fez Hyoga gargalhar de verdade. .
— Tu é surtado assim sempre ou é só estresse pós-traumático? — ele colocou as mãos na cintura, tombando a cabeça levemente para o lado para encarar a dramaticidade do garoto
— Eu não estou sendo surtado! Eu quase virei pasta de asfalto!
Hyoga deu um passo mais perto, curvando-se levemente para inspecionar as roupas do garoto com o olhar.
— A moto encostou em você?
Shun parou o movimento das mãos. Pressionou os lábios, passou os dedos pela perna do calção bege, analisando a integridade do próprio tecido.
— Provavelmente não...
— Então pronto — Hyoga deu de ombros.
— Eu não estaria aqui mantendo um diálogo com você se tivesse encostado! — Shun bufou, tentando empurrar o corpo para cima com os cotovelos.
— Chega de kô, menor — o piloto cortou, estendendo a mão grande para ajudar, mas sem fazer questão de esconder o tom debochado.
— Não é kô!
Shun aceitou a mão, sendo puxado para cima. Ele ajeitou a camisa de linho, bateu as palmas das mãos no bumbum para tirar a poeira da calçada.
Um pé usava uma sandália papete de grife em tom pastel. O outro pé estava descalço.
— Minha... minha papete de couro italiano....
— O quê? — o loiro franziu a testa, achando por um segundo que o garoto tinha começado a falar em japonês de tão esquisita que soou a entonação.
— Minha papete. Meu calçado sumiu!
— E daí? — o garoto tinha quase ido visitar o criador e estava surtando por causa de um pedaço de couro.
— E daí que eu não sei onde ele foi parar! — Shun rebateu, olhando em volta. — Eu vou ter que voltar para casa descalço?
— Vem cá, Cinderela. Eu te ajudo a caçar. — Hyoga deu um estalo com a língua e girou sobre os calcanhares, correndo o olho pelada calçada, varrendo a sarjeta e olhando até debaixo dos carros estacionados.
As bochechas de Shun esquentaram, ficando tão quentes quanto o asfalto sob o sol do meio-dia.
— Não me chama de Cinderela. — ele virou o rosto para o lado, emburrado.
— Tá bom. — Hyoga parou, encarando o garoto. Correu os olhos pela pele alva dele, quase transparente, e pelos lábios naturalmente vermelhos como duas maçãs. Lembrou do conto que a mãe contava. — Branca de Neve.
— Também não! — Shun bufou. Ele não queria ninguém insinuando que seu coração corria perigo só por ser considerado o mais belo do reino.
— Rapunzel? — Hyoga já estava se imaginando gritando "Rapunzel, joga tuas tranças!" para o mauricinho que tinha acabado de quase mandar para o espaço.
— Eu tenho cabelo curto! — Shun bateu o pé calçado no chão.
— Bela? — O loiro tentou mais uma, abrindo um sorriso sacana.
— Só se você for a Fera! — Shun rebateu de imediato, cruzando os braços e tentando manter a postura brava, mas seu rosto entregava a vergonha.
— Ei, calúnia! Eu nem tenho pelo para isso... No máximo uma barba para fazer — passou a mão no queixo, tombando a cabeça para o lado enquanto deslizava o óculos Juliet até a ponta do nariz. — Tá bom, vamos tentar de novo: Ariel?
Shun cruzou os braços, franzindo o nariz.
— Eu não sou uma sereia.
O olhar de Hyoga desceu, demorando-se nas curvas do garoto. Se aquele mauricinho ficasse sentado na beira do rio cantarolando igual à Iara, Hyoga tinha certeza de que já teria se afogado feliz da vida, caindo de cabeça no canto da sereia.
— Bom, o sapato tu já perdeu.... — Hyoga disparou, passando o polegar pelo lábio inferior com um sorriso malandro. — Agora só falta perder a voz.
Shun encarou o desconhecido, em choque. O sujeito tinha acabado de quase transformá-lo em estampa de pneu e, agora, estava passando pela lista completa de princesas da Disney para escolher um apelido?
Talvez tivesse sido melhor mesmo ter sido atropelado...
Mas, contra todas as suas regras de etiqueta, um risinho escapou pelos lábios de Shun. O garoto acabou se rendendo à palhaçada, lembrando de qual princesa ele sempre secretamente sonhou em ser quando era criança.
— Se é para escolher... — Shun ergueu o queixo. — eu sempre preferi a Bela Adormecida. Ela pelo menos dormia cem anos em paz sem ninguém acelerando moto no ouvido dela.
— Péssima escolha, menor — Hyoga deu uma piscadela, abaixando-se perto de um poste. — Porque a Aurora precisou de um príncipe para acordar. E do jeito que tu tá estressado, se eu te desse um beijo agora, tu me dava era um tapa na cara.
Antes que Shun pudesse protestar contra o absurdo daquela cantada de quinta categoria, ele sentiu falta de algo. O garoto fechou os dedos no vácuo, apertando o ar, onde uma guia deveria estar, mas não estava.
— Flu-Flu? — ele disse, procurando o fantasma da doguinha com o olhar. Era como se tivesse apagado da sua mente o momento exato em que a cadela deu no pé, bem na hora em que ele quase foi de arrasta pra cima no asfalto. — Flu-Flu?!
Bastou um segundo de distração para a dondoca de quatro patas dar no pé. Nem a coleira de couro rosa, nem a Poodle recém-saída do pet shop estavam mais ao seu alcance.
— FLU-FLU! — gritou de novo.
Enquanto isso, Hyoga já tinha encontrado a papete alguns metros adiante, entalada na quina da calçada.
— Aqui, Cinderela! Achei seu sapatinho de cristal! — levantou o calçado do chão, vitorioso, e o chacoalhou no ar:
— Eu perdi a Flu-Flu! — Shun nem olhou. Estava ocupado demais surtando em busca da Poodle.
— Quem em nome de Deus é Flu-Flu? O que tu perdeu agora? — Hyoga abaixou o calçado bem devagar, as sobrancelhas subindo até o limite da testa.
— A minha cachorra! — Shun gritou, indignado, como se o motoqueiro recém-conhecido tivesse a obrigação moral de saber quem era sua cadela.
— Menor, tu é um perigo pra sociedade. Em cinco minutos tu quase perdeu a vida, perdeu o sapato e agora perdeu a cachorra? O que falta tu perder agora, hein?
— Como comediante, você é um excelente motoqueiro — retrucou o garoto, revirando os olhos.
— E você, como dono, tá a um passo de tomar uma busca e apreensão do Luiza Mell!.
Shun nem deu bola para a piada. Saiu manquetando com um pé só calçado — parecendo um Saci —, enquanto o loiro prendia o "sapatinho de cristal" no guidão da moto e se juntava às buscas.
— Flu-Flu! — chamava Shun, desesperado.
— Flu-Flu! Vem, Flu-Flu! — gritava Hyoga, debochado.
Os dois começaram a varrer a vizinhança. Hyoga espiou dentro de uma caçamba de entulho, enquanto Shun levantava a tampa de um tambor de lixo reciclável. Hyoga chegou a olhar dentro do escapamento de uma Kombi estacionada, e Shun ajoelhou no asfalto para checar debaixo do capô de um Fusca caindo aos pedaços. Nada.
Até que Hyoga parou do nada, cruzando os braços e encostando o quadril na moto.
— Achei a meliante...
— Onde?! — Shun correu na direção dele, tropeçando no próprio pé calçado e quase indo ao chão de novo.
Hyoga apontou para o outro lado da rua, perto de um amontoado de tijolos e um pneu velho. Shun acompanhou o movimento do dedo dele.
Onde Flu-Flu estava... Bem... Digamos que a cadelinha se encontrava numa situação deveras comprometedora. Ela estava lá, encostada no entulho, trocando beijos e carinhos apaixonados com o vira-lata mais sem-vergonha do bairro. O caramelo lambia a bochecha dela, enquanto a Poodle balançava o rabo.
Shun ficou de boca tão aberta que, se ficasse mais alguns segundos daquele jeito, o queixo provavelmente tocaria o asfalto e cavaria um túnel direto até a China.
— FLU-FLU! — o garoto deu um passo pronto para intervir.
Antes que ele desse o segundo passo, Hyoga se meteu na frente e segurou Shun pelo braço.
— Ei, pega leve! Não seja empata-foda. Digo... Não atrapalha o clima dos dois! Olha lá, tão no móóóde amor ali, a química tá exalando!
— Aquele cachorro tá corrompendo a minha cachorra! — Shun apontou com o indicador tremendo, escandalizado ao testemunhar aquele romance clandestino e de mau gosto em plena via pública. — Ele tá destruindo o pedigree dela!
— A tua dondoca tá adorando o vida louca. Aceita que ela trocou a ração de salmão pelo puro amor de rua! — Hyoga soltou o braço dele, rindo de chorar e limpando uma lágrima do olho.
— A minha Flu-Flu é uma dama! É uma Poodle de linhagem! — Shun cruzou os braços com ar de superioridade, empinando o nariz.
— Tô vendo a dama... — Hyoga apontou, segurando o riso. — A dama tá quase levando o marginal pra morar no seu condomínio.
— Ei!
— Ah, não fica brava, princesinha... Dá uma olhada, a gente dois podia tá na mesma situação.
Shun virou o rosto tão rápido que o pescoço quase estalou, enquanto olhava do loiro para os cachorros, que faziam da calçada um verdadeiro motel a céu aberto.
— O QUÊ?!
Hyoga gargalhou, dobrando o corpo para a frente
— Calma, surtado! Tô falando da nossa situação de dono, não de ir pro meio da rua namorar! — ele apontou pro vira-lata caramelo. — Esse marginal aí é meu.
Shun olhou para o cachorro arrepiado. Depois para Hyoga. Depois novamente para o cachorro.
— Seu?! — Shun soltou um arfada. Lógico que só podia ser! Um cachorro maloqueiro e sem vergonha igualzinho ao dono!
— O nome dele é Cerveja. E pelo visto o Cerveja tá amarradão na tua Poodle — Hyoga contemplava a cena do casal com um orgulho quase paterno.
— Pois então manda o seu projeto de delinquente parar agora! — exclamou Shun.
— Parar? De namorar? Deixa os garoto brincar, riquinho! O amor é cego e não olha pedigree.
— O amor pode até ser cego, mas a minha cachorra não é!
— Eu entendo sua reação... Se eu tivesse uma filha, provavelmente ia surtar vendo ela com um sujeito desses — fez uma pausa, coçando o queixo com deboche. — Mas ainda bem que eu tenho é um filho.
Apontou orgulhoso para Cerveja, que dava uma lambida na orelha de Flu-Flu.
— E esse aí é meu garanhão.
— Você é um imbecil! — Shun deu um grito, fuzilando o loiro com o olhar.
Hyoga soltou uma gargalhada alta, que ecoou pela rua toda:
— Pode ir preparando o enxoval, Cinderela... Porque você acabou de virar avô de vira-lata!
Shun bufou, passando a mão pelo rosto.
— Eu sabia que não devia ter saído de casa hoje. Meu mapa astral já devia estar avisando! O alinhamento dos planetas estava suspeito, minha linha astral provavelmente estava toda torta e o universo devia ter mandado um sinal! — olhou para o céu, quase chorando. — Eu devia ter ficado na minha cama!
— Isso se chama destino — Hyoga riu, encostando o braço no guidão e se divertindo com o desespero do mauricinho.
— Isso se chama azar. — o garoto corrigiu, bufando.
— A propósito, meu nome é Hyoga. E o seu, princesinha?
Shun lançou-lhe um olhar atravessado
— Não te interessa.
Apesar de ser educado até com as plantas do jardim, naquele momento Shun estava irritado demais para trocar gentilezas. Sua cabeça estava ocupada com coisas muito mais importantes. Como, por exemplo, a possibilidade terrível de Flu-Flu voltando para a mansão de barriga cheia e dando à luz uma legião de "Caramelinhos" em cima do tapete persa da sala. O irmão dele ia surtar. O síndico ia infartar.
— Eu não quero ver. Não, não quero ver!
Cobriu os olhos com as duas mãos. Ou pelo menos tentou. Os dedos estavam suficientemente afastados para que ele continuasse espiando a cena por entre as frestas.
— Seu cachorro é um pervertido! — Shun deu um tapa no braço de Hyoga, como se o motoqueiro fosse o responsável direto pelo fogo do bicho. Cerveja tinha acabado de apoiar as patinhas dianteiras nas costas de Flu-Flu, ensaiando aquela famosa montada de canil com a língua de fora e o rabo abanando em ritmo de festa.
— Oras... Pelo jeito, ela está gostando bastante — Hyoga deu de ombros, divertindo-se com a cena.
— Não está! — Shun virou de costas num tranco.
— Quer que eu traduza para você o que está acontecendo ali?
— Não! Não, não quero! Só cala a boca!
Hyoga sorriu de canto e deu um passo para o lado, ficando de frente para o garoto. O esverdeado continuava emburrado, mas ainda mantinha a mão no rosto, dando uma espiadinha descarada por entre as frestas dos dedos por cima do ombro.
O loiro deu uma risadinha, soltando a frase como quem acabara de ter uma ideia genial:
— Sabe... Eu não pensei que fosse assim que eu conheceria o avô dos meus netos.
Shun baixou as mãos imediatamente sem entender.
— Como assim?!
Hyoga apontou com o polegar por cima do ombro, indicando o casalzinho de quatro patas que continuava em clima de romance no meio da rua.
— Quando esses dois tiverem filhotes, eu já sei exatamente a história que vou contar para eles no futuro — Hyoga explicou.
Shun piscou, tentando processar a matemática familiar daquela maluquice.
— "Foi assim que eu quase passei por cima do avô de vocês com uma moto sem miolo!"
Shun ficou vermelho na mesma hora, quando a ficha finalmente caiu.
— Q-que história é essa?!
— Ué, faz as contas, mauricinho! Você é o pai da Flu-Flu. Eu sou o pai do Cerveja — Hyoga deu de ombros, se divertindo horrores. — Se esses dois resolverem aumentar a família, a Flu-Flu é a mãe e o Cerveja é o pai. Ou seja: pela lógica da paternidade pet, nós dois vamos ser os avôs dos filhotes! Eu o avô paterno, e você o avô materno!
Shun abriu a boca, mas não encontrou resposta. Por algum motivo absurdamente irritante, a ideia de Hyoga dizendo aquilo parecia muito mais constrangedora e íntima do que deveria ser.
— E cá entre nós — Hyoga continuou —, nada mais romântico do que eu quase mandar o meu novo consogro pro hospital no nosso primeiro encontro, né?
— Nós não somos consogros, aquele seu vira-lata delinquente não é meu genro, e se você falar mais uma besteira eu vou usar a minha outra papete pra rachar o seu capacete ao meio! — Shun soltou a patada de queixo erguido, fazendo o possível para parecer ameaçador, embora estivesse parado ali em um pé só.
Hyoga deu uma gargalhada gostosa, totalmente imune à ameaça. Pra ele, o surto daquele mauricinho bravo tinha a mesma força e o mesmo perigo do ataque de um Pinscher de meio quilo tremendo de raiva: fofo, mas zero ameaçador.
— Falando nisso... A sua cachorra sabe que o namorado dela mora num quintal com cinco galinhas estressadas e uma casinha de madeira compensada?
Shun olhou para Flu-Flu. Depois para Cerveja. Depois novamente para Hyoga.
— Eu apresentei o Thor para ela! Um Golden Retriever nobre, educado, com laço de cetim e até conta verificada no Instagram! — Shun desabafou, indignado com as escolhas da sua pet. — Mas não, a mademoiselle ignorou todos os partidões de raça pura que eu arrumei porque só quer saber dos errados! É impressionante, ela prefere o vagabundo da rua que não vale um saco de ração barata do que os certinhos da alta sociedade!
Aquilo só podia ser uma pegadinha do Faustão. Levou a mão à testa, já imaginando o drama: Flu-Flu virando mãe solteira na favela, apaixonada por um marginal de quatro patas chamado Cerveja.
Por que você não se apaixonou por um Lulu da Pomerânia, Flu-Flu? Era pedir demais? Um com laçinho e pedigree?
— Pelo menos tua cachorra sabe reconhecer o charme da periferia — Hyoga disparou, rindo da cara de tacho de Shun. — E o dono dela, tem nome ou eu vou ter que continuar te chamando de princesinha?
— É Shun — o garoto respondeu num tom seco. — E não me chama de princesinha.
— Shun... Nome chique — Hyoga tombou a cabeça para o lado, empurrando o óculos Juliet para cima até pousar na testa.
Shun ignorou a provocação com um bufo, mas o loiro riu, dando uma cotovelada fraca nele e apontando para o chão.
— Ih, ó lá... O Cerveja tá caidinho.
Shun virou o rosto para onde ele apontava, pronto para ver mais alguma pouca vergonha, mas piscou surpreso. O vira-lata maloqueiro tinha acabado de se deitar de costas na calçada, dobrando as patinhas no ar e expondo a barriga. Cerveja até soltou um ganido baixo e manhoso, agindo como um verdadeiro cavaleiro apaixonado só para ganhar a atenção da Poodle.
— E olha que esse cachorro é um vagabundo de primeira, tá? — Hyoga comentou. — Já pegou mais cadela que o carro da Zoonoses em dia de mutirão. Mas a tua Poodle aí conseguiu amarrar o garoto no primeiro olhar.
— Você está dizendo que o seu cachorro se apaixonou pela minha cachorra? — Shun perguntou, desacreditado.
— Pelo visto, sim... e a sua cachorra também se apaixonou pelo meu.
Flu-Flu abanou o rabo freneticamente, toda derretida. Cerveja, alheio a toda aquela novela, bocejou e deu uma lambida carinhosa no focinho da Poodle, que retribuiu encostando o nariz no dele num dengo nojento de tão fofo.
Hyoga sorriu, aquele sorriso torto e provocador que fez o peito de Shun dar um tranco esquisito e inesperado.
— Eu acredito. E acho que vocês dois têm mais em comum do que imaginavam — Hyoga apontou primeiro para a cadelinha no chão e depois na direção do peito de Shun.
— Como assim?
— Os dois têm um péssimo gosto para escolher pretendente... — Hyoga soltou a frase, sabendo perfeitamente que mauricinho já estava caidinho por ele.
Shun não aguentou e acabou dando outro tapa no braço de Hyoga enquanto sentia o rosto queimar de vez.
— Você é muito convencido!
E foi daquele jeito que Shun se apaixonou pelo maloqueiro.
O Mandrake da moto barulhenta.
O sujeito do sorriso bonito e malandro, que usava um óculos Juliet ridículo na cara e, com aquele formato, mais parecia um besouro que tinha decidido largar a natureza para entrar no crime organizado.
Shun, obviamente, jamais admitiria aquilo. Mesmo que passasse o restante dos seus dias arquitetando passeios por aquela mesma viela — não para correr o risco de ser atropelado de novo, mas só para ver se encontrava, "sem querer", o motoqueiro que quase o mandou pro além.
Depois de uma longa discussão sobre pensão alimentícia — porque, segundo Shun, se Flu-Flu aparecesse grávida dentro de algumas semanas, ele iria querer saber quem pagaria a ração super premium, as vacinas e a creche particular dos filhotes —, Hyoga deu o bote:
— Então vamos trocar número.
Shun estreitou os olhos, cruzando os braços para bancar o difícil.
— Para quê?
— Para resolver a questão da pensão, ué.
Os dois sabiam perfeitamente que Hyoga não ligaria para discutir ração, veterinário ou qualquer outra coisa relacionada aos cachorros. A única coisa que Hyoga queria monitorar era a agenda do próprio Shun. Mas, ainda assim, Shun fingiu que acreditou naquilo. Enfiou a mão no bolso e puxou uma caneta de gel.
— Me dá sua mão.
Hyoga estendeu a palma grossa, cheia de graxa de corrente de moto.
— A minha?
— Não. A do cachorro. — Shun revirou os olhos, mas segurou o pulso dele e escreveu o número diretamente na pele do loiro. Hyoga observou de perto, acompanhando cada algarismo, sentindo o arrepio do toque fino de Shun. Sorriu vitorioso.
Antes que Shun pudesse guardar a caneta, Hyoga se abaixou e pegou a papete de couro que estava pendurada no guidão da moto.
— Vem cá, Cinderela... — chamou, ajoelhando-se no asfalto quente.
— Eu já falei para não me chamar assim — Shun bufou, tentando dar um passo para trás.
— Sossega o facho aí e me dá esse pé, menor — Hyoga pediu, firme, mas sem um pingo de grosseria.
Ele segurou o tornozelo de Shun, colocou o calçado no pé descalço e ajeitou a tira, prendendo a fivela como quem estava devolvendo à princesa o famoso sapatinho perdido.
Aquilo era... Estranhamente gentil.
O que era péssimo para Shun. Porque tornava infinitamente mais difícil continuar achando aquele motoqueiro folgado um completo idiota.
— Pronto — Hyoga deu um tapinha leve no tornozelo dele e se levantou, limpando o joelho da calça.
Shun encarou o próprio pé, sentindo a orelha queimar de calor
— Obrigado... — agradeceu num murmúrio, desviando o olhar para qualquer lugar da rua que não fosse o rosto de Hyoga.
— De nada, Princesa — o loiro sorriu, coçando a nuca, ficando um pouco sem jeito — E aí, o que tu acha de eu te levar agora de volta pro teu castelo?
Shun ergueu uma sobrancelha, encarando a moto barulhenta e depois o capacete arranhado.
— No seu veículo de destruição em massa? Nem pensar!
— Relaxa, menor! — Hyoga gargalhou. — Tô te oferecendo uma carona na moral. Fica tranquilo que sequestrar magrelo não é o meu forte, dá muito trabalho pra manter alimentado.
Shun bufou, olhando para a moto. A ideia parecia péssima. Pelo jeito como aquele homem pilotava, Shun tinha certeza de que, se aceitasse, seu corpo chegaria ao condomínio três minutos antes do veículo.
Mas o sol do meio-dia estava estalando, o pé ainda ardia do tombo e carregar Flu-Flu pelo caminho inteiro seria outra batalha para a qual ele não tinha forças.
— Tá... Mas sem palhaçada.
— É pra já, majestade! — Hyoga assobiou alto. — Vem, Cerveja! Bora trampar de motorista de aplicativo!
O vira-lata veio abanando o rabo na hora, enquanto Shun resgatava a Poodle. Hyoga acomodou Cerveja na parte dianteira do tanque, como um verdadeiro copiloto. Shun subiu na garupa, acomodando Flu-Flu entre sua barriga e as costas do loiro para mantê-la segura.
Shun respirou fundo e encarou a nuca de Hyoga, sentindo o cheiro de perfume barato misturado com o vento.
— Só não me mata. — pediu, agarrando a cintura de Hyoga com uma das mãos enquanto a outra sustentava a cachorra contra o peito.
O rapaz puxou os óculos Juliet para os olhos, encarando o retrovisor com um sorriso sacana.
— Relaxa. Eu já quase te mandei pro espaço hoje, uma vez por dia é meu limite.
— Se você passar de cinquenta quilômetros por hora, eu grito tanto que os vizinhos vão achar que você tá me sequestrando!
Hyoga apenas riu, deu partida e acelerou, fazendo a moto roncar bem alto.
E foi assim que Shun — com a papete recuperada no pé, uma Poodle apaixonada no colo, acabou na garupa do homem que acabará de conhecer.
Shun sofreu a cada lombada e quase viu a vida passar diante dos olhos toda vez que Hyoga empinava levemente o pneu para subir no meio-fio. O mauricinho morria de medo de sair voando ou de ralar o bumbum no chão, agarrando a cintura do loiro com tanta força que ele quase ficou sem ar. Para piorar, morria de vergonha das pessoas na rua olharem e acharem que eram dois assaltantes numa moto 160 — um de camisa de linho e o outro de Juliet espelhada.
Mas, apesar do pavor de ir parar na cadeia ou no pronto-socorro, no fundo... ele adorou. Sentir as costas largas de Hyoga, o calor do corpo dele e aquele perfume de malandro que parecia grudar na pele.
No final das contas, o "gato vira-lata" da história nunca foi um felino de verdade. O gato era o próprio Hyoga — bonito de um jeito absurdo, meio folgado, mas com aquele charme perigoso que hipnotizava qualquer um. E o vira-lata era o seu estilo de vida: a moto barulhenta, o vocabulário de rua, a bermuda larga e o coração gigante escondido atrás da postura de debochado.
Depois daquele dia, os dois não se largaram mais. Shun continuou visitando o bairro com a desculpa de "passear com a cachorra", e Hyoga fez questão de cortar giro direto na porta do condomínio de luxo do riquinho, virando a atração principal dos porteiros e o pesadelo absoluto de Ikki. O loiro ainda levou Shun para vários "rolês" pela cidade na garupa — com direito a guaraná em copo plástico e pastel de feira.
A Flu-Flu? Bom, ela não ficou grávida. O alarme tinha sido falso, para a glória e paz de espírito de Shun. Mas ela e Cerveja continuaram sendo o casal mais sem vergonha da vizinhança.
E Shun descobriu que, às vezes, tudo o que a gente precisa para sair da rotina é cruzar o caminho de um bom e velho gato vira-lata.
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