Qual A Sua Fraqueza?
1 Fraqueza Número Um
Notas iniciais
Era incrível o calor que emanava daquele aconchego da sala de descanso,contrastava de uma forma gentil com o lado de fora onde só conseguia enxergar as gotículas se espirrando contra o vidro da janela que impedia a tempestade de molhar a casa inteira. Aqueles olhos acompanhavam cada gesto que Reita fazia, cada sorriso que ele estava dando, o que fazia com que ficasse surdo para o resto do mundo.
Ele não escutava o Aoi gritando enquanto Uruha abraçava Ruki e Reita, não escutava as risadas que estavam ecoando e aumentando o calor do ambiente, não escutava Ruki dizer para todos pararem de fazer ceninha.
Kai nem sequer poderia dizer qual era a expressão que estaria fazendo naquele momento, provavelmente era a expressão mais retraída possível. Acompanhava Reita com o olhar, acompanhava cada segundo de sua respiração, Kai sequer esta piscando por saber que se o fizesse agora com toda certeza as lágrimas viriam.
Estavam todos felizes com aquela notícia, estavam todos comemorando animadamente como nunca estiveram, todos estavam felizes ali. Todos com exceção de Kai. Ninguém estava percebendo a reação nada animada que Kai estava emanando, e pela primeira vez, ele não sabia como reagir diante da cena. Reita estava com uma expressão que ninguém a não ser Kai repararia, mesmo por trás daqueles sorrisos e comemoração –Uruha havia sacudido uma garrafa de Sakê e a aberto agora- Reita estava com uma expressão... Misteriosa, como se aquilo não fosse de total agrado.
Aquiles tem os calcanhares como seu ponto fraco. Superman tem kryptonita como seu ponto fraco. Kai tem Reita. Sempre soube lidar com o fato de amar Reita desde a faculdade, porém esse amor foi guardado durante anos pelo fato de Reita não saber correspondê-lo, durante esses anos todos Kai pôde fingir que nada acontecia dentro de seu peito.
Ele sempre conseguiu disfarçar o amor que sente por Reita sem nunca falar frases de duplo sentido ou lançar alguma indireta para o cara de nariz enfaixado. Kai nunca desejou que Ruki e Reita se afastassem pelo simples fato de saber que Reita era feliz assim. Nunca havia dado brecha sobre seus sentimentos, até aquele momento.
Kai ainda não escutava nada que não fosse ecos ou algum zumbido estranho. As palavras de Ruki ainda martelavam contra seu peito, fazendo uma agonia subir e invadir cada parte de seu corpo. Ao escutar Ruki pedindo Reita em casamento Kai teve vontade de correr e se trancar no quarto para poder chorar feito uma criança. Contudo, não o fez. Apenas ficou parado observando as cenas se passarem.
—Kai? – Aoi olhou na direção dele com um sorriso no rosto, provavelmente pelo fato de Uruha estar falando dos preparativos do casamento sem saber que Reita provavelmente teria que sair do país para se casar legalmente.
—Hn?- Olhou distraído.
Aoi abriu a boca para questionar Kai quando a eletricidade acabou, um clarão invadiu a janela sendo prontamente seguida do trovão.
—Porra, Ruki!! –Uruha riu enquanto fingia estar irritado pelo fato do menor ter o alisado achando que fosse Reita.
Isso fez com que Aoi se esquecesse completamente o que perguntaria para Kai, aproveitando a oportunidade pra ir agarrar Uruha. Kai nunca havia se importado de ser o “sozinho” do grupo, mesmo que na maioria das vezes os amigos não se importassem com a opinião dele.
Alguns minutos se passaram e a luz insistia em não voltar, deixando a sala do apartamento com algumas velas espalhadas. Reita e Uruha estavam se acabando na bebida enquanto Aoi fumava em um canto com Ruki. Kai estava sentado olhando a chama de uma das velas dançar com a leve brisa que passou ali. Não demorou muito para que Ruki chamasse Reita para ir embora, Uruha se levantou dizendo que ia aproveitar para descerem juntos.
Já estavam todos na porta quando a luz resolveu voltar e isso não os impediu de irem embora. Kai encostou a porta e se recostou na mesma, encarando o ambiente agora silencioso.
—Casamento... –Repetiu em voz baixa dando um sorrindo de canto — Espero... Que ele consiga ser feliz. Porque eu não vou ser.
Passou a mão no rosto assim que sentiu o líquido escorrer por ele, secando com a manga do casaco. Com certeza tentaria administrara situação da melhor forma possível, tentaria ao máximo esquecer essa paixão como sempre tentou, apoiaria o casamento deles como sabia que Reita e os demais esperavam dele.
Kai andou lentamente até uma daquelas velas espalhadas e se perdeu nos minutos enquanto encarava uma daquelas chamas. Achou-se incrivelmente besta quando fechou os olhos enquanto fazia um pedido.
“Só queria ser feliz...”, pensou.
O próprio Kai não poderia dizer os motivos de ter desejado isso, entretanto não ficaria se questionando e sem perceber, soprou aquela vela que havia feito o pedido. Assustou-se quando as luzes começaram a piscar no exato momento em que outro clarão cortou os céus e o barulho da chuva se intensificou, antes que a luz pudesse cair novamente Kai sentiu até o coração acelerar pelo barulho que veio depois do clarão.
— Que ótimo, agora vou ter que passar a noite toda no escuro.
Sem ter muito que fazer, Kai decidiu que dormir estava sendo a opção mais viável. Foi na direção do quarto enquanto colocava uma das músicas tocar no celular, o que seria o único meio de luz no momento. Por hora ele deixaria as velas acesas, não teria que ter preocupação em colocar fogo na casa já que havia apoiado as velas em píres.
~Flashback on~
—Reita...? –Kai sentou na beirada da cama do outro, estava praticamente sussurrando. – Está acordado?
—Hm... – Reita se mexeu e chegou pro canto de um jeito que Kai pudesse se deitar também.
Reita e Kai se conheceram naquela mesma faculdade e desde que entrara, há dois anos, dividiam o mesmo quarto. Nenhum deles nunca teve problemas em se relacionar com o outro, o assunto sempre fluía sem nenhum problema, se davam bem até demais. Com o passar do tempo viraram melhores amigos, até o amigo de Reita, Kouyou (que Reita amava chamar por Uruha) ser transferido para a mesma faculdade juntamente com Ruki.
Entretanto Reita nunca deixou de ser atencioso com Kai. O carinho que um tinha pelo outro era uma coisa surreal.
—Posso te falar uma coisa? –Kai se ajeitou na cama, deitando sobre o peito de Reita, encarava o rosto sonolento do outro. Isso vez Kai dar um sorriso. –Está acordado?
—Ahn, estou. – Abriu um olho e depois o outro com dificuldade de ficar acordado.
—Acho... –Kai sentiu o coração disparar- Que eu...
—Hum?
—Eu...
Kai não conseguia falar. Seu coração estava disparado demais e sua garganta estava ficando seca. Tudo que pôde fazer foi olhar para os lábios de Reita antes de depositar um beijo leve ali. Kai não se afastou e nem tentou aprofundar aquele toque. Apenas manteve seus lábios colados com os de Reita, que agora estava com os olhos abertos pelo susto.
Aos poucos Kai se deu conta do que estava fazendo e se afastou, notando que Reita não esboçava qualquer reação – que naquele momento era muito mais angustiante que se Reita estivesse apenas gritando ou o afastando.
—... Te amo. –Kai abaixou a cabeça por não conseguiu encarar Reita ao falar tais palavras.
~Flashback off~
Kai levou a mão até os lábios e fechou os olhos com força. Arrependeu-se todos os dias desde a faculdade por ter feito aquilo. Não por ele, mas pela reação que Reita teve. Não que ele tivesse xingado Kai ou o humilhado, Reita não faria isso.
Kai teve os pensamentos cortados por leves batidas na porta, o pqueno susto fez ter que se levantar e caminhar descalço pelo corredor para abrir a porta da sala. Foi passando a mão na parede até achar o porta-chaves que ficava pendurado e se xingou mentalmente quando tentou acender o interruptor. Encaixou a chave na porta e a destrancou.
Por reflexo acabou arregalando os olhos ao ver Reita recostado na parede, ele estava completamente ensopado e mantinha a cabeça abaixada, estava cambaleante por causa da bebida. Levantou o rosto lentamente enquanto algumas gotículas escapavam das pontas da franja e pingavam na faixa que tampava o nariz, e naquele momento, os olhos de Kai cruzaram com os Reita, fazendo com que Kai prendesse até mesmo a respiração.
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