Notas iniciais
Eu sei que faz mais ou menos três anos que não posto nada. Entretanto, é como dizem, quem é vivo sempre aparece. Então aqui está mais um capítulo. Foi feito um pouco nas pressas, mas espero que gostem.

O quarto estava escuro devido as janelas fechadas e cortinas puxadas até que nenhuma fresta de luz passasse. Quase não se via o chão, mas não devido a pouca luminosidade e sim por causa das inúmeras peças de roupas que estavam jogadas ao chão, meias em cima da cadeira da escrivaninha, toalha em cima da cama, servindo de lençol para o moreno que chegara em casa na noite anterior esgotado e simplesmente se jogara na cama e dormiu. O despertador havia tocado seis da manhã, anunciando que deveria levantar para ir à escola, porém lembrava-se muito bem que fora suspenso, jogando o pequeno objeto estridente na parede com a força reduzida devido ao estado ainda meio inconsciente, mas foi forte o suficiente para que parece de tocar.

Sora passara o resto do dia anterior vagando pelas ruas da cidade, olhando comércios, restaurantes, lanchonetes, praças e parquinhos, como se algum desses lugares trouxessem a resposta que precisava para o problema com Roxas. Entretanto nada lhe ocorria. Não sabia de nadado loiro, seus gostos, o que o faz feliz, o que o deixa triste. Nada. Leon o entregara apenas uma pasta com um número que agora só tinha um primeiro nome adicionada, nada mais. Teria que desdobrar-se para se aproximar do loiro, fazer amizade. E nunca fora bom nisso. O moreno sempre foi daqueles meninos mais reservados, conversava com quem falasse com ele e geralmente era muito alegre, mas não era popular ou carismático ao ponto de fazer muitos amigos com tanta facilidade. Sentou-se em um balanço um tanto enferrujado do parquinho infantil e passou a se balançar lentamente, pois o brinquedo estava comido pela ferrugem e podia quebrar facilmente com seu peso. Agora simplesmente enrolava para ir para casa, não gostava de ficar mais do que o inevitável lá, já que depois do incidente com sua mãe passou a morar sozinho em um pequeno apartamento. Decidira que não queria incomodar Leon, mesmo este insistido para que fosse morar consigo. No fim, acabou sozinho e sem um pingo de criatividade.

Acordou com dificuldade, escutando e irritante barulho do telefone, mas com muita preguiça de se levantar e ir até a sala para atender, deixando que caísse na secretária eletrônica:

–- Hey, Sora! Sou eu, Leon. — a voz parecia animada — Estava ocupado ontem, por isso não pude respondê-lo de imediato, mas vi sua mensagem.

–- Vai vir tomar banho ou não? — pode-se ouvir uma voz ao fundo feminina, fazendo Sora sentar-se na cama e encarara porta de seu quarto, como se tentasse ver a sala e localizar o telefone através da porta.

–- Shiu! Estou deixando uma mensagem de voz para o Sora!- disse Leon, agora com a voz um pouco mais distante do fone do telefone. Era estranho ver o introvertido Leon se relacionando com os demais. Sabia que este falava normalmente com o pessoal do hospital, mas era porque seu pai adotivo era o dono, mas a forma que ele agia junto a essa menina era uma versão nova e até bizarra para Sora.

–- Mensagem de voz? Sora ainda está dormindo é? Pois vamos já lá acordá-lo! Ele não tem escola não? — a voz feminina agora estava indignada.

–- Ele foi suspenso. Agora me deixe terminar aqui a mensagem. — disse, e era perceptível a alegria em sua voz, o moreno sabia muito bem que o amigo estava sorrindo enquanto falava. — Enfim, carinha, Roxas é legal, só anda emburrado. Ninguém gosta de ficar dias no hospital tendo que fazer exames e mais exames. Mas se quer saber mais sobre ele, te aconselho a falar com o paisagista do hospital. Ele geralmente fica por lá durante todo o horário de visita. Ele certamente poderá te dizer muito mais sobre o loirinho do que eu.- Sora ainda pensou em levantar-se e atender o telefone, perguntar onde encontrá-lo e como reconhecê-lo, mas a preguiça matinal falara mais alto e quando colocou o pé no chão conseguiu ouvir o "Bip", anunciando que a mensagem acabara. Suspirou e espreguiçou-se, erguendo-se e abrindo as cortinas e a janela, deixando a forte luz do sol das 10 da manhã clarear seu bagunçado quarto. Droga! Quando foi que fiquei tão bagunceiro?

Arrumou o quarto da melhor forma que pode, que foi simplesmente empurrando as roupas que estavam no chão para os cantos do quarto, para que não acabasse tropeçando em alguma e caindo de cara no chão, depois seguiu para a pequena cozinha que dividia espaço com sua pequena sala de estar. Fez um rápido café da manhã que se resumia em um pão com manteiga e um copo de Nescau. Comeu tudo com calma e foi tomar um banho, até então fizera tudo no automático, mas a água fria o ajudou a acordar por completo, assim como o fizera lembrar, por um motivo que não compreendia, o homem de cabelos prateados que conhecera no hospital e que lhe deixava com a incomoda sensação de que não era a primeira vez que o via.

Deixou que a água levasse embora seu cansaço, ficando longos minutos embaixo desta sem se mover, apenas apreciando a sensação confortável que as gostas gélidas lhe traziam quando se chocavam que sua pele desnuda. De onde será que o conheço? Juro que já o vi, por que diabos não consigo lembrar? Questionava-se já levemente irritado. Escutou o telefone tocar de novo, tirando-o de seu transe, desligou o chuveiro e passou a toalha pela cintura, correndo para atendera ligação e quase escorregando devido ao corpo ainda estar encharcado, molhando o chão que já era liso e perigoso sem a ajuda da água.

–- Alô? — disse, ofegando um pouco pela corrida repentina, estava ficando fora de forma.

–- Decidiu acordar! Bom menino — disse a voz feminina e extremamente animada do outro lado da linha, a mesma que ouvira na mensagem de voz de Leon. Sora não lembrava de conhecê-la até hoje, mas o timbre calmo e animado já o agradara.

–- Er, acho que não te conheço. — disse sem jeito ao perceber que de fato não fazia nem ideia de quem era a menina, Leon nunca fora muito de apresentar seus amigos, apenas alguns do hospital e um tal de Seifer que vivia de rixa com o moreno mais velho.

–- Abra a porta e poderemos nos conhecer! — disse, tentando audivelmente esconder o sorriso.

–- Desculpa, Sora, eu tentei impedi-la. — agora era a voz de Leon que vinha de trás.

–- Squall Leonhart! — a menina acabou por falar o nome completo do moreno como em forma de censurá-lo. Sora tentava não rir, até perceber que eles o esperavam do lado de fora e estava apenas com a toalha cobrindo o corpo molhado.

–- Pera? Estão aqui? — questionou só para ter certeza, encarando a porta e correndo para esta, olhando pelo olho mágico bem na hora que outra pessoa também olhava, fazendo com que o moreninho só pudesse ver aquela orbe castanha escura. — Espera. Já abro! — gritou para a porta e saiu correndo. Ótimo, essa com certeza é a melhor hora para eu conhecer a namorada de Leon!

Correu para o quarto, pegando a primeira cueca que achara — que provavelmente estava usada — e uma bermuda jeans. Abriu o guarda-roupa apenas para perceber que não tinha roupa lá que pudesse usar, fazendo-o olhar com pesar para o amontoado de roupa no canto do quarto. Isso vai dar trabalho... Suspirou, pegando um casaco no guarda-roupa mesmo — uma das ultimas peças que sobrevivera à sujeira e desorganização do menor — e vestindo sem nenhuma blusa por baixo, apenas para que escondesse o peito que até segundos atrás estava nu.

Devidamente vestido, voltou para a sala e abriu a porta, sendo recebido por um forte abraço da parte da menina que estava com o seu melhor amigo. Não sabia se retribuía ou não, mas acabou o fazendo. A menina o soltou depois de alguns segundos, adentrando seu pequeno apartamento e o examinando. Leon entrou logo em seguida, fechando a porta atrás de si.

–- Quando ela coloca algo na cabeça é extremamente difícil fazê-la mudar de ideia. — disse em um pedido de desculpas disfarçado de explicação.

–- Tudo bem. — Sora apenas sorriu, virando-se para a menina, que sorriu para o menor e lhe estendeu a mão.

–- Meu nome é Rinoa, prazer. — disse sorrindo. Tinha cabelos castanhos quase pretos relativamente grande, chegando até um pouco antes da metade de suas costas, sua pele era clara e delicada. E sua expressão era angelical, cativando Sora desde o início.

–- Prazer! Meu nome é So... Ah! Você já sabe. — disse se enrolando, fazendo a menina sorrir e Leon balançar a cabeça lentamente tentando conter o riso.

–- Estou com o carro aqui Sora, posso te dar uma carona para o hospital. — Leon falou dando a entender que não focariam muito tempo.

–- Acabamos de chegar, Leon. — protestou Rinoa, cruzando os braços — E está mais do que óbvio que o pobre do Sora não esperava nossa visita e saiu correndo do banho para atender ao telefone. — disse, apontando para o chão ainda molhado. Fazendo o moreno quase ficar totalmente vermelho de vergonha. — Posso secar aqui para você enquanto troca de roupa. Imagino que também se vestiu na correria. — completou sorrindo. Nossa! Não sabia que Leon se envolvia com detetives também! Pensou, mas não dispensou a ajuda, seguindo para seu quarto e caçando roupas melhores com mais calma.

Saíram da casa de Sora uma hora depois rumo ao hospital, onde apenas o moreno mais novo desceu, os outros dois seguiram viagem. Lembrando-se do que o amigo lhe dissera, fora direto para o jardim dos fundos – qual até então não sabia da existência -, atrás do paisagista. Só não conseguia entender porque alguém que trabalhava apenas em uma parte do hospital – ainda mais uma parte terceirizada — entendia melhor do loiro que Leon que era o filho do dono e no primeiro dia parecia já ter uma velha amizade com o seu "amigo sonhador".

Quando chegou aos fundos do hospital percebeu que chama-lo de jardim era sem bonzinho demais com o que tinha de fato ali. Não passa de terra remexida... Pensou, procurando o tal paisagista em meio a terra. O que não foi nada complicado, já que o homem tinha o cabelo de uma cor vermelho vivo. Passou pelas faixas amarelas e pretas que proibiam a passagem para a terra barrenta e caminhou até onde o outro estava chegando perto para ver o que ele fazia e conseguir conversar melhor.

O paisagista remexia na terra, deixando-a fofa e compacta, estava mais do que óbvio que começara a trabalhar a pouco tempo. Então como diabos ele conhece melhor o Roxas que o Leon?! O moreno tocou seus ombros, fazendo o homem vira-se assustado e confuso.

–- Opa! Ei! – disse se recuperando do susto, o paisagista – Não era para ter ninguém aqui! Não viu a faixa amarela e preta que geralmente os policiais colocam para impedir a passagem de uma cena de crime?

–- De-desculpa. – disse o moreno, se assustando com o susto do ruivo e depois ficando sem jeito por ter sido recriminado.

–- Nossa! – disse o ruivo, levantando-se de uma vez, agora com expressão surpresa – Você é idêntico ao loirinho! Tirando o fato que é moreno, óbvio. – dizia, sem dar a chance de Sora se explicar, aproximando-se mais dele e medindo seu tamanho com a mão, passando esta da cabeça do menor até um pouco abaixo de seu ombro – Caraca! É igual até no tamanho! Que é isso? Já criaram androides? Onde eu estava que não notei isso? E cadê o que se parece comigo? Talvez assim eu termine esse trabalho mais rápido.

–- Er... – ficou sem jeito e confuso, os pensamentos do outro eram tão eletrizantes e extravagantes quanto o seu cabelo, mas Sora não pode deixar de sentir uma leve simpatia pelo paisagista. – Me chamo Sora... eu participo da ONG “Realizando um Sonho” e meu primeiro “amigo sonhador” é um garoto chamado Roxas. – conforme ia falando ia conseguindo mais confiança, assim como a atenção do outro, que redobrara ao ouvir o nome do loiro – Leon pediu para eu vir falar com você sobre o Roxas, já que não consegui me dar muito bem com ele...

Antes que pudesse terminar Axel já estava rindo do que ouvira. De fato sabia que desde que precisara ser internado, Roxas ficou com um péssimo humor, assim como sabia exatamente o motivo. Entretanto, algo que o outro dissera o deixou muito preocupado, já que conhecia bem a ONG e como funcionava.

–- Espera! Roxas tem apenas um tumor no cérebro. Causa dores de cabeça fortes, mas não pode matá-lo e já foi informado que várias cirurgias como essas já foram feitas com êxito! – dizia, gesticulando com as mãos – Por que ele é alvo da ONG?

–- Ah! Calma! Ele não vai morrer – disse desesperado e embaraçado por ter feito uma confusão na cabeça do outro – É que sou novato e Leon achou melhor eu pegar algo mais leve de início.

–- Aaah! Você é o novato que se perdeu no hospital! – disse, lembrando-se do que escutara mais cedo quando fora tomar o café da manhã na lanchonete junto com seus amigos, começando a rir.

–- Enfim. – disse sério e levemente irritado, por mais que suas bochechas coradas demonstrasse vergonha. – Poderia me ajudar?

–- Não – disse, cruzando os braços – Isso seria trapaça, meu caro. Se quer saber quem Roxas é, entre naquele quarto e converse com o loirinho. – disse, sorrindo de canto como se estivesse se divertindo com a situação do moreno.

–- Mas ele não quer nem conversar comigo! – disse quase que implorando por ajuda.

–- Bom, então terá que mudar seus métodos de conversação. – disse, voltando a mexer na terra indicando que não falaria mais sobre o assunto. E lá se foi toda a simpatia. Sora suspirou. Pelo visto teria que se virar sozinho mesmo.

Voltou pelo caminho que chegara lá, entrando no hospital e indo para a ala de alimentação onde tinha um pequeno restaurante que já estava era fechando devido à hora adiantada e uma lanchonete que passava o dia inteiro aberta. Correu para o restaurante, torcendo para que ainda tivesse comida. Era self-service então mesmo sem olhar direito sabia que sobrara os restos: dos três tipos de arroz só tinha agora o integral, dos quatro tipos de carnes só tinha a carne moída misturada com legumes e um macarrão ao óleo. Melhor que nada! Pensou, enquanto se servia e pesava.

–- Opa, se não é o desorientado! – disse uma voz conhecida, fazendo o menor vira-se e ver um loiro alto atrás de si.

–- Demyx...? – disse conhecia o loiro, mas era a primeira vez que o via vestido todo de branco, com luvas e uma máscara de pano branca.

–- Não é só porque a pessoa muda de roupa que vai mudar o nome, tampinha. Sou eu mesmo! – disse, rindo da expressão que Sora fizera.

–- Que é isso, cosplay? – perguntou, examinando-o melhor e dando uma volta no loiro.

–- Se manque, Sora! Sou enfermeiro do hospital! – disse, segurando o menor para que parasse de rodiá-lo.

–- Você não tocava em uma banda? – questionou intrigado com a informação que acabar de receber. Pegou seu prato com a comida e sentou-se em uma mesa depois de pagar, seguido por Demyx.

–- Isso era apenas um hobbie. Ainda toco, mas tenho que ganhar dinheiro também. – disse desanimado, como se a realidade fosse dura demais. – Mas e aí, como estão as coisas com o Roxas? – perguntou curioso.

–- Simplesmente não estão. Ele não parece interessado em me conhecer ou me contar o seu sonho. – suspirou, comendo devagar.

–- Essas coisas levam tempo mesmo. Tem “realizadores de sonhos” que demoram meses para descobrir qual o maior sonho de seu “amigo sonhador”. Assim como tem aqueles que não descobrem, porque a pessoa morre antes. Sei que é complicado, mas você deve conseguir. Acredite, são bem mais parecidos do que imagina. – disse sorrindo e depois se levantando quando um som agudo e um tanto incomodo soou e seu nome foi chamado pelo alto falante. – Tenho que ir, nos falamos mais depois. – despediu-se e saiu apressado.

Sora voltou a se concentrar na comida, estava fria, mas boa. Quando terminou devolveu o prato e foi a passos lentos para o quarto de Sora. Faria como Axel havia sugerido, ia mudar seus métodos. Não podia desistir por causa da falta de vontade do loiro e não iria desistir. Ainda não o vi hoje... Pegou-se pensando em Riku enquanto estava no elevador, indo para o andar de Roxas. Balançou a cabeça para afastar os pensamentos e parou em frente da porta que entrara no dia anterior, respirou duas vezes lentamente e depois abriu-a sem nem bater. Hoje você não me escapa!

Notas finais
Queria pedir desculpas pela demora e agradecer por serem pacientes. Espero que tenham gostado do capítulo, até o próximo o/
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.