Quadros e Pincéis
5 Capítulo Cinco - "O anel que tu me deste era vidro e se quebrou..."
Notas iniciais
“O anel que tu me deste
era vidro e se quebrou,
o amor que tu me tinhas
era pouco e se acabou”
O antigo sucesso mundial voltou da forma mais inusitada possível
O criador de uma série de quadros famosa, que havia sumido do foco de todos por vários anos, agora está de volta com nova exposição em Tóquio
Iwaizumi Hajime, o “Iwa-chan”, grande pintor e criador de “As Chamas de Cecília”, um sucesso da crítica mundial, volta à atenção da mídia no domingo (10) com seu último anúncio. Uma nova exposição com série de quadros inédita, o artista promete… LER MAIS
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Quem é Hajime Iwaizumi e por que todos estão falando sobre ele?
Leia e saiba mais sobre o famoso artista, criador de “As Chamas de Cecília”.
Nascido na prefeitura de Miyagi em 10 de junho de 1993, filho de Naomi e Hiroshi Iwaizumi, Hajime, antigo jogador de vôlei de um dos times mais famosos do Japão, sempre manteve seu hobbie em segredo, até os dezessete anos, quando decidiu cursar artes plásticas na faculdade de Tóquio. Conhecido pela série de quadros…LER MAIS
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“Ele dizia que a arte é sobre loucura, porque todos nós somos loucos” — diz Koutarou Bokuto sobre “Iwa-chan”…LER MAIS
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Estalou a língua no céu da boca, enquanto o dedo batia pausadamente na mesa de madeira. O notebook estava em seu colo, as pernas cruzadas em cima do sofá e os olhos não desviavam de jeito nenhum do quadro preso na parede. Era uma obra em tons de azul, os contornos não eram evidentes e as feições da personagem inserida ali não poderiam ser vistas com clareza. Um estilo muito condizente com seus gostos, ele sempre acertava, era verdade. Lambeu os lábios e deixou a cabeça cair para o lado, havia ganhado aquele quadro do próprio artista. E aquela era uma das vantagens de conhecer o autores das obras no início da carreira, ter uma obra daquelas era um privilégio exclusivamente seu, aquele objeto em sua parede devia valer uma fortuna agora. Mas Oikawa nunca teve interesse em vendê-lo.
Levou o copo d’água até a boca e bebeu goles rápidos. Gostava de imaginar que, se não tivesse aceitado, aquele quadro estaria em uma sala de uma casa rica; seria comprada por um daqueles CEOs engravatados que viviam de whisky e conhaque. Riu só de pensar que seu colega de classe na adolescência, agora, estava nos títulos das matérias de revistas famosas pelo mundo, as mesmas para as quais ele já havia escrito diversas vezes. Não acreditava que ele estava ali, à porta, novamente. Não aceitava que, depois de tanto tempo sumido, ele voltasse e fizesse o que mais sabia fazer: conquistar a todos, de novo.
Estranhou o fato de logo Kenma tê-lo chamado para uma exposição, não Kuroo, não Suga, nem mesmo Tobio ― seria menos impressionante se fosse seu irmão, que era literalmente o ser humano mais leigo sobre arte que conhecia. Fora Kenma a fazê-lo, Kenma, o namorado do seu ex, o mesmo que não o via fazia, o que, seis meses? Riu novamente, dessa vez, porque percebeu que era um idiota. Kuroo foi quem havia ido visitá-lo, deuses, aquele cara era a personificação da imbecilidade, só podia. Pena que não aceitou o convite, pena, mas não voltaria atrás naquele momento. De que adiantaria ver aquela exposição? Relembrar o passado de amizade e fraternidade? Era isso? Ah, deuses, foda-se.
Engoliu em seco e deixou a tampa do computador ser fechada pelo peso da sua mão. Tirou os óculos com rapidez e jogou-os sobre a mesa de centro. E também não esperou muito antes de deslizar e deitar a cabeça na almofada rosa feia que estava no sofá. Difícil, tudo estava se provando difícil demais até para ele. Oikawa não tinha tanta paciência guardada para lidar com tanto ao mesmo tempo. Sugawara na sua cola, Kuroo insistindo para adentrar a sua vida, de novo, Tendou ligando para si três vezes por dia ― apesar de estar ignorando todas as chamadas ―, aquele esquisito voltando. E para completar, Tobio, a mesma pessoa com quem havia brigado um mês e pouco atrás, agora estava mandando mensagem para Tooru, como se nada houvesse acontecido.
Não havia respondido, não ainda. Ele não queria conversar, não queria acertar nada, mal queria ter que sair! Oikawa sabia que estava sendo injusto. Mas, qual é? A vida era injusta com todos, por que ele não podia ser um pouquinho também?
De qualquer modo, não sabia quanto tempo poderia enrolar seu irmão. Era Kageyama afinal, ele era teimoso e nunca deixaria Tooru quebrar seu orgulho. Hinata já havia feito aquilo tantas vezes e ele tinha certeza que o irmão não tinha a mínima vontade de ver seu ego sendo quebrado, pelo menos, não mais uma vez. Não sabia quanta paciência ainda tinha. Não sabia quanto tempo ainda lhe restava até que ele arrombasse a sua porta e o obrigasse a olhá-lo na cara.
Tooru era covarde, sabia que era, sempre foi assim. Foi assim durante todo o primário e secundário. Foi assim na faculdade. Estava sendo assim no momento. Porém, poucos sabiam que aquela era mais uma das suas artimanhas para se manter seguro, em sua zona de conforto. Nunca entendeu quem criticava pessoas que viviam em suas bolhas. Por que alguém escolheria sair da zona de conforto? Por que alguém escolheria se machucar? Por que alguém escolheria viver a vida como ela realmente era, se tudo na porcaria da vida era feito para fazer todos se foderem mais e mais? Era até estranho de pensar naquela possibilidade. Não, não, viveu muito bem daquele jeito até ali. Estava bem melhor do que estaria caso não fosse um covarde, com olhos roxos ou até ossos quebrados. Enfrentar os problemas era coisa de louco, Oikawa preferia pensar que ele não era daquele jeito.
Para que enfrentar seus monstros se sempre perderia no final? Para que enfrentar problemas se eles podiam despedaçar, arrasar e destruir todas as barreiras que havia construído até ali? Não, não faria isso. Tobio podia esperar, Suga poderia esperar, Kuroo… ele nem sabia o que Kuroo estava fazendo ali. E Tendou que se fodesse!
Respirou fundo ao escutar o alarme do celular. Era hora de sair, era hora de enfrentar um dos seus monstros. E Tooru não gostava nada daquilo.
oOo
― Eu tô morto ― Suga reclamou ao se jogar desajeitado sobre o sofá de Hinata. Aquela cena não era exatamente incomum, na verdade, vê-lo ali era estranhamente normal no ponto de vista dos donos da casa. Koushi, com toda a esperança que guardava em seu coração, pedia a todos os deuses que não fosse muito incômodo para os doidos pelos quais nutria tanto apreço. Aqueles dois eram as únicas pessoas para quem poderia recorrer nos momentos difíceis, pelo menos, ali naquela cidade, longe de todos que conhecia. Oikawa ocuparia aquele espaço em seu coração se ele o deixasse entrar em sua vida, não era o caso.
― O que você acha de saquê por hoje? ― Shouyou perguntou, com uma animação estranha em meio a voz cansada, e Suga assentiu ao vê-lo sentar no chão a sua frente. ― Nem parece que é o último dia da semana, argh! Como é que aqueles mini-demoniozinhos conseguem dar tanto trabalho?
― São crianças, Hinata. O que você esperava?
― Sei lá, coisinhas fofas e quietas que nos fazem querer morder suas bochechas de tanto amor? É uma boa opção. Mas aqueles pestinhas estão longe disso.
― Você tá sonhando, só pode. ― Tomou um pouco do líquido transparente, fazendo uma careta e lembrando do porquê não bebia saquê. ― Crianças são trabalhosas por natureza, você sabe, só tá projetando suas frustrações de futuro papai nas nossas queridas criancinhas.
Hinata sorriu, envergonhado.
― Gosto do som dessa palavra. ― Suga devolveu o sorriso, em compreensão.
― É o que você vai ser, não é? Um paizão.
― Eu espero.
― Você sabe que talvez seu filho não seja uma anjinho fofo, não sabe? ― Ele riu ao ver o amigo semicerrar os olhos.
― Todas as crianças são fofas, mesmo que não sejam, hm, quietas. É o que você diz, não é? Eu tenho que concordar.
Ele bebeu um pouco mais do líquido, dessa vez, sendo acompanhado pelo companheiro de copo. Era verdade, o que ele falava era verdade. Sugawara não sabia em que ponto havia optado por seguir aquele caminho, talvez fosse o desejo de cuidar e participar do desenvolvimento daqueles serezinhos e vê-los partir e crescer, como as flores de cerejeira na primavera, voando com o vento, indo embora. Koushi devia parte daquele desejo ao seu amigo, sim, devia, mesmo que nunca fosse realmente agradecer a Tooru por aquilo.
Mudou de posição no sofá e passou a olhar para o teto. Não queria pensar em Oikawa, não queria se preocupar com ele naquele momento. Bebeu o saquê que restava no copo, mexendo o corpo em desconforto. O gosto da bebida ficaria em sua boca até que comesse algo, sabia. Sugawara estava entediado, zonzo, de cabeça cheia, ele só queria relaxar! Qual é? Havia trabalhado a semana toda para chegar em uma sexta e ficar todo melancólico? Não, não faria isso consigo mesmo. Procurou em sua mente alguma coisa minimamente fofa ou engraçada, lembrar de suas crianças era bom e pensar naquilo fez um memória aleatória aparecer:
― Tenho uma aluna estrangeira ― falou, de repente.
― Como?
― Sim, uma garota estrangeira tá na minha sala. ― Sorriu. ― Ela é uma graça, você devia ver, toda quietinha e bonitinha no cantinho dela.
― Ela não interagiu com ninguém, não é? Pela sua cara de besta, deve ser uma daquelas acuadas, você sempre se aproxima de gente assim.
― Ei, isso não é verdade. E, sim, ela era um pouco tímida, uma fofa, sério. Os cachinhos arrumadinhos na cabeça, ah, deu vontade de apertar aquelas bochechas de tanta fofura. As outras crianças nem se aproximaram, fiquei meio triste por ela.
― Suga… ― Hinata começou, balançando a cabeça negativamente.
― Suga nada, eu só achei a menina fofa, não posso?
― Poder até pode, só não se apegue, tudo bem? Nós sabemos como você é, vai ficar de coração partido quando ela for embora.
― Deuses, Hinata, como você é pessimista!
― Realista, eu estou sendo o realista. Crianças são o seu ponto fraco e você sabe disso.
― Ele tá certo. ― Uma terceira voz se fez presente, fazendo Sugawara dar um sobressalto em cima do sofá.
― Falando em crianças… a sua chegou ― brincou Koushi, com um sorrisinho de canto ao se referir a Tobio e Shouyou riu ao ver a expressão emburrada do marido, levantando para dar-lhe um beijo de boas-vindas.
― Por favor, me diga que você fez o jantar ― pediu Kageyama, beijando-o na testa. ― Preciso urgentemente de comida.
― Ih, tenho uma má notícia para te contar, então. ― Hinata girou os calcanhares para recostar-se contra o seu peito. ― Eu esqueci completamente do jantar.
― Você não acabou de sair de uma cafeteria? ― Koushi perguntou, entediado, ficando sem resposta, já que Tobio estava cansado demais para responder suas provocações naquele dia.
― Você começa a preparar alguma coisa enquanto eu tomo banho?
― Claro, amor, depois eu tomo um banho também. ― Kageyama assentiu, colocando o nariz em meio àquele emaranhado de fios ruivos, tinha o cheiro de Shouyou, era bom. Beijou-lhe a bochecha e o soltou, precisava mesmo de um banho.
― Estou sendo ignorado, é isso mesmo? ― Koushi falou com falsa indignação, o sorriso singelo no rosto mostrava que ele estava se divertindo com a ceninha. Tobio suspirou, rindo baixo.
― Boa noite, Suga. Vai ficar para o jantar?
― Não mesmo, hoje é o meu dia de farra.
― Desde quando você tem um “dia de farra”? ― Hinata perguntou, enquanto observava Tobio se mover pela sala.
― Desde que decidi que ficar em casa não é uma opção viável, meu vizinho faz muito barulho.
― Tem um encontro? ― Dessa vez, a pergunta partiu de Kageyama.
― Uhum.
― Com quem?
― Meu vizinho. ― Hinata riu, Koushi era maluco.
― Por que ainda me impressiono?
― Me pergunto a mesma coisa.
― Eu vou tomar meu banho. Bom encontro pra você, Suga ― Tobio falou ao ver Koushi pegar sua pasta, preparando-se para sair.
― Bom jantar para vocês ― ele disse ao sair.
Quando bateu a porta, Sugawara suspirou com um sorriso no rosto. Hinata de Kageyama faziam uma boa dupla. Sentia um pouco de inveja, tinha que admitir. Sentia inveja pela forma como eles combinavam, como Kageyama parecia ficar menos rabugento ao ver Hinata entrar e a forma como Shouyou ficava entusiasmado ao falar do marido. E agora, bem, agora, eles estavam prontos para dar um passo a mais e Koushi invejava isso também, invejava porque nunca teria algo assim na sua vida, invejava porque sabia que coisas como aquela não aconteciam com pessoas como ele.
Saiu do condomínio menos entusiasmado do que chegou, até o porteiro notou aquilo. Sugawara devia estar deplorável, deuses, ele era um miserável! Mal aguentava o som dos próprios passos no chão, queria chutar algo para desestressar. E aquele pensamento, que ele tanto odiava, ainda vagava em sua mente, tirando sua concentração, fazendo seu coração palpitar, machucado. Nem todos na vida tinha sorte, era fato. Nem todos na vida tinham alguém. E aquilo o fez pensar cada vez mais em um cenário recorrente na vida de Koushi:
Ele sempre, sempre, estaria só.
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