Quadrilha
4 Que não amava ninguém.
A irmã de Maria havia se mudado para uma cidade no outro lado do estado, após o episódio ocorrido com Joaquim. Desde então, as irmãs se comunicavam apenas por cartas. Foi assim que descobriu que Lili havia arranjado casamento com um tal de J. Pinto Fernandes. Depois de consultar alguns conhecidos, descobriu que se tratava de um importante coronel de sua região.
‘Mas Lili foi arrumar um coronel, será possível?’ Pensava Maria, consigo mesma. Ria internamente. ‘Ter uma irmã socialite, mereço…’
Joaquim, logicamente, não recebeu a notícia da melhor forma. Ficou o primeiro mês, quase sem vê-lo direito. Nos outros, viu-o muito mal.
Isto se aliou ao emprego, que não estava indo bem — e a outras questões familiares dele. Estava bebendo mais, e perdendo muito peso. Maria indicava um psicólogo cada vez que eles se encontravam. Servia de seu ombro amigo sempre que precisava.
A aparente depressão foi se arrastando por meses. Anos. No que parecia completar cinco anos, encontraram o corpo de Joaquim em sua própria cama, após uma overdose.
João voltou dos Estados Unidos correndo para comparecer ao velório. Joaquim havia sido um excelente pai, apesar de, talvez, não o melhor amante do mundo. O sentimento de luto se misturava a algo parecido com gratidão, para Maria. Sem Joaquim, o homem que tanto amara, não teria recebido as maiores bênçãos de sua vida: seus filhos.
“Fique com Deus, Joaquim.” Desejou, por fim. “Eu estou bem.”
—
Dois anos após a morte de Joaquim, Lili apareceu na cidade. Maria a recebeu de braços abertos.
Sua irmã havia mudado muito. Estava com maquiagem, perfume, roupas e apliques muito melhores. Uma verdadeira senhora de casa grande, diria.
Mas guardaria o sarcasmo para si mesma. Desde que Lili estivesse feliz, nada diria.
Lili trazia consigo seu filho de sete anos, para finalmente conhecer sua tia.
Maria serviu chá, e as duas conversaram muito. Riram bastante, mataram a curiosidade sobre os eventos da vida de cada uma.
A irmã hospedada acabou, depois de muita conversa, revelando o verdadeiro motivo da visita: pedir um favor.
Não que Maria esperasse algo diferente.
Lili e o tal J. Pinto Fernandes estavam planejando viajar por alguns meses, queriam saber se o menino poderia viver com a tia enquanto isso.
Claro que Maria não recusou. Estava aliviada que Lili tivera o bom-senso de deixar o sobrinho com ela, e não pagar qualquer desconhecido para fazê-lo.
E sabia muito bem o quanto esses meses fora podiam demorar. Sempre demoravam.
O menino de Lili chamava-se Henrique. Maria estava disposta a deixá-lo correr, brincar na terra e rolar no chão como sabia que nunca mais teria a oportunidade.
O garoto, logicamente, apegou-se à tia imediatamente. Ao longo dos dias, foi fazendo amizade com os outros meninos. Observar as crianças brincando fazia Maria se lembrar de João, e a saudade apertava…
Havia chegado a época de festa junina — sua festa preferida do ano inteiro. A comida, a música, a alegria… Oh, a dança… A troca incessante de casais na hora da quadrilha! Que sensação mais familiar…
As luzes coloridas… Tão belas, tão nostálgicas. Estava entrando em um quase estado de nirvana, como quem olha pra trás e vê uma bela história concluída — uma vida que valeu a pena ser vivida.
Mas é claro, o momento de Maria foi interrompido por diversas mães vindo reclamar com ela — Henrique havia pagado para prender metade da festa na cadeia. As celas de plástico já não estavam aguentando mais.
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