Quadra Z - Uma batalha de deuses
1 Capítulo 1 - O triundo de Zaid
Notas iniciais
1* O triunfo de Zaid
Enquanto caia para a morte, Zaid Rashid não conseguia pensar em outra coisa que não fosse: Perdi uma luta para um velhote.
Depois de aventurar-se com seus amigos em busca das sete chaves do purgatório que impediria o fim do mundo, o jovem mago Zaid nunca imaginou que sua vida terminaria daquela forma. Ele fora arremessado de um templo de monges no pico de uma montanha a mais de cinquenta mil pés de altura pelo próprio Eremita, o monge mais forte do mundo. O jovem Zaid não passava de seus dezenove anos. Por um ultimo instante abraçou seu sapo mágico Hadamantes e seu livro de magias, ou melhor, seu Grimorio. E agora de olhos fechados esperava o inevitável.
A queda parecia infinita, era como se quase estivesse parado, espera um pouco... Parado? Zaid abriu os olhos e a sua volta existia uma escuridão interminável. — “Espera ai, então assim que é morrer?” – Ele olhou o corpo intacto – “Eu nem senti dor” – Depois de um leve beliscar no próprio braço sentiu que era como se estivesse vivo. Curioso, estava realmente morto? E se estivesse, onde ele estava? Procurou o Grimorio e seu fiel sapo Hadamantes, mas não os encontrou, que confuso. Talvez aquilo realmente fosse morrer. Isso era o que chamavam de escuridão eterna. Ele apenas aceitou aquilo e sentou-se imaginando que sua solidão se estenderia por toda uma eternidade.
O tempo passava e não havia sede, fome ou sono. Imaginou que era ainda mais cruel o destino que aguardava o homem depois da vida. Como todos costumava dizer: Você apenas deixa de existir. Mas Zaid ainda existia em uma escuridão sem fim. Apertando os olhos como uma prece, lembrou-se de seus amigos; Zia a barbara, Gerard o mercenário, Law o ladrão, Lurus o guerreiro, Call o minotauro, e ate mesmo de quem ele menos gostava: Enagono o curandeiro. No fundo mesmo com sua natureza arrogante, Zaid pediu para que todos estivessem todos bem e concluindo a missão.
Zaid estava entediado, sempre avia sido um mago muito hiperativo, ficar parado não era seu forte, muito menos calado, ergueu a cabeça e gritou:
- Já chega. Seja lá quem estiver por traz disso quero uma explicação já!
Para sua surpresa ele foi respondido.
“Zaid! Você não morreu”.
Ótimo – Pensou ele.
“A missão que lhe aguarda é ainda maior e mais perigosa que reunir as sete chaves do purgatório”.
Mas que droga – Pensou de novo.
“Irei lhe poupando desta vez, prepare-se Zaid Hashid”.
Espera, será que não dava tempo pedir à voz que o matasse logo de vez e esquecesse essa historia de missão perigosa? Coragem nunca havia sido seu forte. Muito menos quando se tratava de missões perigosas. Porem antes que ele pudesse pensar ou gritar algo mais uma vez, foi sugado daquele lugar.
Quando recobrou sua consciência estava sentado em um trono confortável, vestido em trajes finos e elegantes do tipo reais. Em sua cabeça pesava algo de quase 1 kg e meio. Ao se dar conta, estava diante de inúmeros sapos eretos e humanoide em meio a um espaço aberto mais parecido com uma praça publica. Então ouviu um grito de um velho vindo de traz:
- Todos saúdem Zaid Rashid, o deus dos sapos.
Então de repente todos aqueles sapos se curvaram em sua direção.
Zaid olhou para traz. Ali estavam os gigantescos sapos anciões de trinta metros de altura, protetores da ordem e da cultura do mundo dos sapos, eles estavam a poucos metros. Seu fiel companheiro Hadamantes estava em pé ao seu lado, Zaid não pode conter o sorriso. Essa não era a primeira vez que Zaid visitava o mundo dos sapos. Há não muito tempo atrás ele e seus amigos estiveram lutando contra uma ditadura de sapos malvados que pretendiam extinguir o laço que existia entre Magos e seus companheiros animais. A missão foi um sucesso é claro. Graças a isso todos os Magos do mundo poderiam contar com seus bichinhos mágicos.
Tudo era tão nostálgico, tudo ainda era tão vivo; todas aquelas folhas gigantes que pendiam no céu sem nunca cair, os diversos lagos espalhados entre as imensas arvores, os prédios em formato de cogumelos multicoloridos e o coaxar dos sapos que pareciam diversas conversas entre vários humanos. E agora Zaid estava sendo nomeado deus dos sapos. “Deus dos sapos! Espera um pouco, como assim?”. Sentiu um tremendo alivio ao perceber que ainda tinha sua forma humana, seus dedos soltos, sua língua em tamanho comum e nenhuma vontade de sair caçando insetos por ai. Sim ainda era o mesmo Zaid Rashid de sempre, só que agora era uma divindade entre aqueles anfíbios.
Zaid foi levado ao banquete em seu castelo que ficava afastado por arvores um pouco mais distante da cidade central. O cair da noite logo na entrada do castelo revelou milhares de vagalumes gigantes que iluminavam a cidade a noite como vários postes para velas. Zaid percebeu que as luzes emitidas daqueles bichos eram facilmente refletidas em lagos e poças de água gigantescas na rua formando uma paisagem de cores e brilhos. Ele havia se esquecido de como a cidade era cativante à noite.
Hora do banquete! Sentados a mesa estavam sapos vestido de forma elegante e forma. Estavam todos incrustados de joias e amuletos de ouro. “O alto escalão” – pensou ele. Então as portas do salão se abriram e sapos cozinheiros entravam com os queixos estupidamente levantados e como se não bastasse isso todos eles tinham bigodinhos bem penteados que formava um conjunto ridículo com suas perucas Chanel. Todos eles estavam trazendo em suas mãos bandejas. Zaid sentiu a boca encher de água enquanto os cozinheiros iam e viam sempre trazendo mais e mais comida. Pena que sua fome foi embora quando tiraram as tampas das bandejas. O que era aquilo? Mosca defumada? Assado de Mosquito? Sopa de larvas? Tudo aquilo era tão cheiroso, mas ao mesmo tempo tão nojento! Uma vez ele comeu aquela comida, contudo não estava louco para relembrar o sabor. Todos se serviam usando os talheres de forma tão fina e elegante que pareciam esquecer que o jantar da noite eram insetos.
Zaid não queria comer, mas também não queria morrer de fome, talvez não tivesse tanta sorte em escapar da morte pela segunda vez. Do outro lado na outra ponta da mesa, Hadamantes observava Zaid e aquilo estava começando a incomodar o Mago. Foi então que Hadamantes levantou uma taça, piscou o olho para ele e bebeu. Zaid então percebeu que o suco era de frutas naturais, nada de insetos ou larvas. Então sua melhor opção era beber o suco ate que o banquete terminasse e ele pudesse matar o cozinheiro chefe.
Enquanto a barulheira parecia interminável e os insetos ainda estavam enfeitando a mesa como vários perus de natal, Zaid pensava em sua queda da montanha, em como fora parar ali e como de uma hora para outra foi nomeado deus dos sapos. Será que era tudo parte do plano daquela voz maluca que o salvou? E que missão era essa que poderia acabar se tornando mais perigosa do que recolher as sete chaves do purgatório? Tudo aquilo fez o apetite de Zaid desaparecer de vez, então não seria mais necessário nem mesmo o suco de frutas. Um sapo meio enrugado metido a velhote curvou-se um pouco para Zaid.
- Sem fome meu senhor?
- Hã... Não, não. Eu estou bem.
O sapo sorriu. Espera um pouco, aquele sorriso era conhecido. Zaid curvou o corpo para mais perto do velho sapo.
- Grande ancião?
- Sim.
Respondeu ele com um sorriso.
— Como você consegui passar de um Grande ancião de trinta metros de altura para... Para um pequeno ancião de dois metros e meio?
O grande ancião piscou.
— Truque de sapo.
— E onde esta...?
Zaid procurou entre os convidados um sapo tão enrugado quanto seu colega de mesa.
— A grande anciã?
O sapo apontou para o outro canto da mesa. Perto de Hadamantes na cadeira ao lado estava uma senhora (uma sapa) de dois metros. Era incrível ver como aqueles sapos podiam dominar a metamorfose a tal ponto enquanto no Grimorio de Zaid suas magias apenas lhe davam pouco mais de um metro. Instantaneamente ficou curioso.
— Eu... Eu posso fazer isso?
Perguntou ele.
— Você é um deus, pode fazer o que quiser!
Respondeu o grande ancião.
— Serio?
O grande (pequeno) ancião riu. Bom, parece que Zaid havia divertido o velhinho. Ele se lembrou da primeira vez no mundo dos sapos, quando conheceu os grandes anciões, eles usavam apenas capas feita de varias folhas costuradas com cipó e fumavam um cachimbo de origem duvidosa, como se não bastasse tanta esquisitice, cada um deles tinha quase trinta metros. O templo que os abrigava era de um tamanho absurdo, então imagina só o tamanho dos seus tronos. Desde que sairá daquele mundo, os grandes anciões eram quase os símbolos religiosos da cultura daquele povo. Então quem seria o deus Zaid Rashid? E a partir de hoje quem seriam os grandes anciões?
Zaid voltou outra vez para mais perto do velho sapo.
- Psiu. – O grande ancião curvou. – Como isso aconteceu?
Zaid apontou para a coroa pendurada em sua cabeça.
- Como o que aconteceu?
Quis saber o sapo.
- Essa historia de...
Zaid pensou bem antes de continuar, mesmo que estivesse afundando em suas duvidas, pedir por explicações na hora do jantar podia chamar atenção de outros sapos, principalmente quando se tratava daquele assunto “deus dos sapos”.
- Nada grande ancião, não é nada!
- Então tudo bem meu senhor, mas lembre-se que a partir de hoje passamos de grandes anciões para grandes conselheiros do deus dos sapos!
-Serio?
Zaid teve uma explosão de sentimentos internos, seria uma maravilha ter consigo aqueles grandes sábios como seus conselheiros oficiais. O grande-ancião-conselheiro sorriu.
- Você vai comer esse purê de baratas?
Zaid fez careta.
- Não. Pode pegar.
Apesar de tudo o banquete seguiu de forma agradável, quem diria que aqueles sapos esnobes sabiam contar uma boa piada, mesmo que fosse sobre moscas. O jantar se encerrou para o alivio de Zaid. Como tudo aquilo havia sido tão fora do normal, ele achou que merecia um descanso. E como previu as instalações do seu quarto eram maravilhosas, mesmo assim ele preferiu não apreciar nenhum detalhe e seguiu para a varanda. A vista era incrível! Dali ele podia ver todo o reino dos sapos. Zaid percebeu o quanto aquele reino era grande. Ele nunca havia imaginado como os costumes daquele povo (fora a comida claro) poderiam ser tão parecidos como o estilo de vida dos humanos.
Ao longe Zaid avistou um sapo de mais ou menos dois metros e quarenta de altura treinando em meio à praça, ele era musculoso e tinha um jeito bárbaro de manejar seu machado. Instantaneamente sentiu saudades do casal de bárbaros Gerard e Zia. Eles dois eram espantosos, fora que cada um dominava uma das três espadas lendárias; Zia dominava a espada Vulcanos “A espada Barbara”, e Gerard dominava Excalibur “A espada das negações”. Lembrou-se de todos eles em combate lutando por suas vidas, era tão comum isso no dia a dia deles que era difícil acreditar que ele mesmo agora estava descansando no mundo dos sapos. De repente, de onde a vista de Zaid podia alcançar, o sapo desapareceu. Ele olhou o pátio da praça por alguns instantes ate perceber que ele havia se tornado em uma estatueta de sapo de pedra com poucos cinco centímetros. Então se lembrou de que os magos tinham o costume de invocar sapos para serem seu fieis companheiros animais na magia. E como os caminhos ate o mundo material (o mundo humano) através da invocação eram muito turbulentos, os sapos sofriam uma espécie metamorfose fazendo com que perdessem um terço de suas habilidades no meio do caminho, assim como seu tamanho real e na maioria das vezes perdiam ate mesmo a habilidade se comunicar no idioma humano. Zaid Hashide era um dos poucos magos (talvez o único) que conseguia invoca companheiros animais sem que eles sofressem essas terríveis metamorfoses. Mas isso foi uma experiência nada agradável, aquilo lhe custara riquezas e castelos. Em pouco tempo Zaid passaria de um mago rico e esnobe para um mago pobre e amargurado.
Zaid fechou os olhos e parou um segundo para pensar em seus fracassos suas, vergonhas e seu ódio. E isso levou o jovem mago diretamente ao seu primeiro companheiro animal; um tigre ereto chamado Ransk. Zaid invocava o tigre depois de anos de estudo e pesquisa intensiva, a magia funcionava muito bem, todos os componentes mágicos haviam sido cuidadosamente postos em seu lugar, e a riqueza que havia sido pedida como oferenda estava no centro da magia. Então tudo deu errado, em uma forte explosão o castelo foi sugado. Zaid foi arremessado e ficou inconsciente. Quando acordou, havia se dado conta de tudo o que perdera, mas em troca, ali estava seu premio: Um tigre humanoide de cor azul com dois metros de altura estava na sua frente. Zaid riu em uma gargalhada diabólica como se fosse um grande mago do mau. Ele levantou do chão ignorando a dor sufocante em suas costelas e correu em volta do tigre admirando sua beleza estonteante. O tigre parecia igualmente surpreso, ele olhava suas garras e seu corpo diversas vezes, ele parecia não acreditar. Zaid conteve-se.
- Amigo você acaba de fazer uma viagem dimensional para o mundo humano sem sofrer nenhuma metamorfose. – Disse Zaid.
O tigre sorriu.
Zaid pensou que tudo iria melhorar depois daquilo. Ele tinha outro castelo e foi para lá que levou seu novo amigo pra ensinar-lhe tudo o que sabia. Zaid era jovem, porem ingênuo. Confiar de imediato em alguém que se mal conhecia foi a chave de sua ruína. Zaid percebeu que o tigre Ransk era ambicioso e possuía um forte sentimento de ganância, todavia Zaid sempre o perdoava em sua mente. Mesmo às vezes quando o tigre era impulsivo e destruidor, o jovem mago não conseguia repreende-lo. Ele o havia invocado com tanto amor e isso havia lhe custado tanto que Zaid já o tinha como um filho.
No dia em que foi traído por Ransk o jovem mago completava dezessete anos e estava no chão derrotado depois de uma batalha mágica. Ele olhava nos olhos daquele que um dia chamara de amigo. Ransk foi embora levando todas as poções e pergaminhos mágicos de Zaid. Depois de tanta lamentação e amargura o Jovem Zaid prometeu vingança. Então elentão sacrificou seu ultimo castelo e suas ultimas riquezas para invocar o sapo Hadamantes em sua forma completa. Então os dois saíram mundo a fora à procura de vingança.
Claro que depois disso ele foi convocado pra a missão de encontrar as sete chaves do purgatório para derrotar um ser extraplanar que viria ao mundo material para causar destruição. E foi ai que ele pereceu. Foi quando desafiou o monge mais forte do mundo no momento em que quebrou as regras de seu monastério sagrado matando uma criatura indefesa (uma coruja que seu amigo curandeiro havia invocado para irritar Zaid). Mas ali estava ele tornado-se deus dos sapos, sem duvidas a vida de Zaid era cheia de altos e baixos.
Zaid foi ate a cama, alias deuses também descansavam. Quando se deitou percebeu que o seu grimorio havia sido colocado debaixo do travesseiro, o que lhe foi um grande alívio. Zaid foliou todas as paginas revendo os antigos feitiços ate chegar às paginas em branco do livro. O jovem mago pensou nas magias que a muito quisera aprender, mas nunca teve tempo para estuda-las. Foi então que se lembrou das palavras do grande-ancião-conselheiro no jantar: “Você é um deus, pode fazer o que quiser!”.
-Fazer o que eu quiser!
Repetiu ele. Zaid fechou os olhos e concentrou-se em todas as magias que queria ter dominado e como as queria escritas naquele livro. O livro começou a brilhar e esquentar em suas mãos, ele largou o livro na cama. Quando as luzes enfraqueceram, todas as magias haviam sido escritas, desde os modos de preparo aos componentes mágicos. Zaid gargalhou.
- Isso é maravilhoso.
Será que ele podia ir alem? Zaid pensou em todas as magias proibidas, em todas as magias que eram criadas todos os dias e desejou que elas se escrevessem no grimorio. Então como antes o livro brilhou e esquentou, mas o que havia sido escrito lá não agradou o jovem mago.
Você é o deus dos sapos e não o deus da magia.
Assinado: Wee Jas, a deusa da magia (inclusive das proibidas).
Ótimo! Em um segundo Zaid venerava Wee Jas como sua patrona, no outro ela tirava sarro da cara dele. Zaid por um lado estava feliz sendo reconhecido como um deus por outro deus. Talvez ele pudesse conviver eternamente com aquilo. Falando nisso, onde será que estava seu trono? Ele devia ter um. Zaid Rashid deus dos sapos sem trono? Não, não. Ele precisava conversar com o grande-ancião-conselheiro sobre aquilo. Como num passe de mágica; toc toc. Alguém batia à porta. Era o grande-ancião-conselheiro.
- Como vai meu senhor? – Perguntou ele.
- Melhor impossível.
Zaid se levantou e seguiu o ancião que ia em direção a sua varanda.
- È uma bela vista, não? – O grande-ancião-conselheiro olhava a cidade inteira. – Puxa vida aquele sapo na praça foi invocado, tenho que pedir que tirem a estatueta dali logo.
- Se não tirarem a estatueta do meio da praça, o que pode acontecer se por acaso alguém a danificar?
Quis saber Zaid.
- Ele morre! A estatueta é o único vinculo que o sapo ainda tem com seu mundo original, é a força vital que garante a viagem segura ate o mundo humano. Por isso que as estatuetas são tão pequenas, elas representam a forma como os sapos chegam ao mundo humano. Os sapos acabam se tornando tão frágeis lá assim como é seu único fio de força vital aqui.
- Então Hadamantes deve ter se tornado uma estatua de dois metros e dez.
Os dois riram.
- Você não imagina o trabalho que deu leva-lo ao arsenal dos sapos invocados.
Os dois suspiraram. Zaid não se lembrava de ser tão amigo assim do ancião da ultima vez que o vira, mas estava gostando de ter essa amizade agora.
- Zaid. Você esta pronto para assumir todas as responsabilidades como o deus desse mundo?
Zaid engoliu seco.
- Queria falar com você sobre isso. Bom... Eu acho que como todo o deus eu deveria ter um trono.
O grande-ancião-conselheiro riu. Será que Zaid foi longe demais?
- Claro que você vai ter um trono. – O grande-ancião-conselheiro apontou para o seu templo que era facilmente visto em seus cem metros de altura do outro lado da cidade. – Ele o aguarda no templo dos anciões.
- Puxa vida!
Disse Zaid notavelmente surpreso.
- Mas você ainda é um deus imaturo jovem Zaid, ainda deve ser instruído por nos anciões ate que possa se tornar poderoso o suficiente para tomar o seu trono de vez.
- E isso vai levar quanto tempo?
- No mínimo seis meses.
Zaid engoliu seco. Ele queria estar pronto, mas não tinha certeza disso, ainda queria saber como fora parar ali e como tinha tomado um cargo de tamanho prestigio. Zaid sentiu suas entranhas divinas remexendo.
- Grande-ancião-conselheiro, algo me incomoda, preciso de seu sconselhos.
- Para isso estou aqui meu senhor.
Zaid ficou com um pé atrás na hora de contar a historia, contudo resolveu dar um voto de confiança para o grande-ancião-conselheiro. Ele contou-lhe desde a queda ao momento da coroação. Depois que Zaid terminou seu sapo conselheiro ficou em silencio por um breve tempo, parecia tão pensativo quanto incerto.
- Então a voz salvou você!
- Sim! Você sabe o que tudo isso significa?
Outro momento de silencio. Zaid não conseguia tirar os olhos do grande-ancião-conselheiro, ele esperava que o ancião tivesse explicação para tudo aquilo. E foi exatamente o que aconteceu.
- Escute Zaid. Tudo o que você precisa saber por hora, é que muitos sapos escutaram essa mesma voz antes da sua chegada. Até mesmo eu e a grande-ancião-conselheira escutávamos ela o tempo inteiro, ela contava sobre sua nova chegada, sobre a ascensão do novo deus dos sapos!
Que bom que Zaid não estava louco, quer dizer, não sozinho. Ele e vários outros sapos estavam à beira de um colapso de sanidade. Pensou ele. Por outro lado Zaid estava mais que aliviado, no entanto ainda lhe restava uma duvida.
- De quem era aquela voz? Quem era esse alguém que falou com todos nos?
- Por favor, tome o que eu lhe disse como o suficiente por esta noite. Creio que manhã todas suas respostas serão respondidas na reunião do alto conselho. – Zaid assentiu. – Agora preciso me retirar.
- Tudo bem! À vontade!
Zaid deu espaço para o grande-ancião-conselheiro passar, mas ao invés disso o sapo pulou da varanda e caiu em pé lá em baixo, então voltou a olhar para cima e acenou para Zaid que retribuiu com um largo sorrindo admirado.
Então havia uma explicação para tudo o que estava havendo, pensou Zaid no momento em que deitou na sua cama para descansar. Ele olhou outra vez para o grimorio e sorriu quando percebeu que tinha o autografo de Wee Jas.
Quando Zaid caiu no sono enquanto lia o livro de magias, teve um sonho com seus amigos. Ele corria de algo que fazia um barulho metálico e ao seu lado esquerdo estavam Zia e um Gerard menos musculoso (O que era totalmente esquisito), do lado direito corria um roedor gigante vestido em maltrapilhos. Será que sonhos podiam ser mais estranhos? Parece que o universo tinha uma resposta pronta para aquela pergunta; de repente Zaid estava parando de correr e começava a pular como um sapo, mas ele não havia se tornado um sapo, apenas pulava como um. Todos pararam de correr e começaram a rir. Zaid então percebeu que o som metálico que os perseguiam estava começando a se aproximar, ele tentou gritar para todos voltarem a correr, mas ele só conseguia coaxar o que fez com que as gargalhadas se agravassem.
Zaid acordou e quase deu um salto da cama, estava suando frio. Que raio de sonho era aquele? Segundos depois nosso jovem mago percebeu que algo estava errado. Ele dirigiu-se ate a varanda, ainda era noite, foi então que ele percebeu que todos os vagalumes gigantes haviam parado de piscar, a única luz disponível era a da lua que não ajudava lá muita coisa. Os bichinhos voavam tristes, pareciam exausto, de repente todos eles começaram a despencar do céu, e não foi apenas isso, as folhas gigantes que pediam no ar foram caindo uma a uma destruindo todas as casas-cogumelos lá em baixo. O pânico se espalhou. Hadamantes, o amigo fiel de Zaid entrou correndo no quarto.
- Senhor! Temos que ir embora daqui já!
Hadamantes segurou a mão de seu mestre e juntos se jogaram da varanda. Zaid fechou os olhos, mas para sua surpresa havia caído em pé igual como seu sapo companheiro.
- Vamos, siga-me.
Zaid correu junto a Hadamante entre as ruas escuras desviando de vagalumes e folhas gigantes que caiam como uma chuva de meteoros.
[Nota: Chuva de meteoros é a magia predileta de Zaid].
- Hadamantes o que esta acontecendo?
Perguntou Zaid ofegante. O sapo levou-lhe ao um beco escuro onde aparentavam se esconder.
- Tenho que tirar você daqui antes, depois eu explico o que esta acontecendo.
Zaid estava confuso (como se tudo naquele mundo quisesse isso), ele parou e estudou um barulho familiar. Foi então que ouviu passos metálicos a distancia. Não podia ser, era exatamente como no sonho. Algo perigoso estava a caminho. Zaid segurou no braço de Hadamantes e disse:
- Você vai me contar o que esta acontecendo imediatamente, isso é uma ordem.
Hadamantes olhou com firmeza nos olhos de seu mestre, ele soltou seu braço e puxou Zaid para outra corrida.
- Você não está ouvindo sapo? Seu deus ordena!
Zaid estava tão irritado quanto aflito, será que Hadamante se fingia de surdo? Foi ai que o jovem mago percebeu que o amigo chorava. Decidiu então ficar em silencio prometendo a si mesmo que nunca trataria nenhum sapo daquela forma!
Hadamantes parou em uma fabrica que ficava no fim da cidade já quase no templo dos anciões.
- Esse lugar é a padaria.
Comentou Zaid.
- Sim! A padaria do mundo dos sapos oferece acesso a qualquer mundo de qualquer dimensão.
Relembrou Hadamantes. Os dois entraram.
A verdade é que a padaria não era um lugar para criação de pães ou bolos, não naquele mundo. O lugar todo era feito de esteiras que subiam e desciam com inúmeras placas de madeira de cinco centímetros e cada uma delas dava acesso a um mundo diferente. Naquele momento todos os sapos operários estavam correndo para lá e para cá jogando as placas em uma fogueira gigante criada no meio da fabrica. Hadamantes parecia desesperado procurando algo ou alguém no meio daquele caos. Do lado de fora Zaid ouvia explosões e o barulho metálico parecia cada vez mais perto.
- Hadamantes...
Gritou Zaid. Hadamantes então disparou sua língua contra as chamas e de lá tirou uma das placas de madeira.
- Na mosca!
Disse Hadamantes. O que ia parecer engraçado já que ele era um sapo, mas aquela piada não vinha ao caso.
Os dois correram ate a porta dos fundos da fábrica. Zaid já sabia no que aquilo ia dar. Foi quando encontraram o poço no quintal da fabrica que Zaid teve certeza que iria embora do mundo dos sapos.
Hadamantes entregou a placa para Zaid.
- Vá!
- Você não vem?
Hadamantes balançou a cabeça.
- Sinto muito! Meu mundo precisa de mim!
- Eu não posso ajuda-los?
Hadamantes tirou seu bordão das costas e deixou que uma enxurrada de lagrimas caísse de seus olhos.
- Por hora a melhor forma de nos ajudar é indo embora.
Zaid baixou a cabeça e se permitiu chorar.
- Onde... Onde está o grande-ancião-conselheiro?
Perguntou Zaid tropeçando nas próprias palavras.
- Ele esta se preparando para o combate.
Uma parte da cidade explodiu em chamas. Os dois se assustaram.
- Zaid meu mestre, você precisa ir já. Quando chegar ao mundo humano preciso que feche a entrada para o mundo dos sapos.
Zaid não precisava mais de nenhuma explicação. Enxugou suas lagrimas e atirou a placa no poço. Depois de encarar o seu amigo mágico ele pulou no poço deixando para traz o mundo que governaria como um deus.
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